Parte II

Tinha chegado há 3 dias e as malas ainda estavam na entrada do quarto, chamava isso de “meu novo armário”. Minha colega de quarto – a chamava assim, agora, ao invés de amiga – fazia yoga na sala todos os dias e isso me fazia querer ficar ainda mais dentro do meu quarto. Minha mãe me emprestou dinheiro, se eu só almoçar consigo viver com isso por uns 2 meses. Não que eu tenha me dado ao trabalho de fazer as contas. Confio na minha intuição.

Confio? Eu devia ter previsto. O conheço há 15 anos, talvez alguma pista tivesse escapado nos 10 anos que vivemos sob o mesmo teto. Por outro lado, como é que eu ia imaginar que meu meio irmão ia ser o protagonista da cena mais sexy da qual participei em meses? E digo sexy com certa repulsa, admito, pois quem é que quer dizer ao mundo que beijou seu próprio irmão mesmo que tenha sido por 3 segundos e tomando Coca Cola?

Minha vida está ótima agora que brigamos. Literalmente só meu pai me aguenta. Ele me ligou ontem, preocupado, querendo saber o que foi dessa vez. Antecipei minha partida em 30 dias mas não havia sinal de dano em parte alguma da minha família, a não ser o que já havia deixado em outros carnavais. É no mínimo intrigante. Não tinha sinal de emprego, de namorado, de amigo. Fiquei de ver depois o que foi que aconteceu quando desliguei o telefone sem mais nem menos na cara do meu pai. Uma desculpa ia surgir, deixei pra depois como já era de praxe. Era véspera de ano novo e a última coisa que eu queria era explicar o paradeiro das mãos e da língua do seu enteado naquela tarde. E então, a partir daí, nem meu pai me aguenta.

O bar para o qual concordei em ir com esse cara era comprido e estreito adornado com uns 300 espelhinhos 15 por 15 na parede do nosso lado. E ele era um sujeito que me permiti conhecer de dentro do meu quarto pelo telefone. Eu não creio em amor moderno. Eu acho que não creio em amor nenhum, pra falar a verdade, e tudo que eu queria era não precisar sair de casa pra conseguir alguma atividade sexual que incluísse outra pessoa sem dar margem pra um possível incesto, mas dessa vez não deu. Paciência! Quando transbordei das escadas rolantes, então, para encontrá-lo, coisa que não aconteceu de imediato mas rápido o suficiente pra não precisarmos nos telefonar, aprovei de cara sua aparência e, na verdade, àquela altura pouco deveria me importar se nos daríamos bem ou se eu o veria em outra ocasião. Nos sentamos e logo quis saber sobre a minha tatuagem mais visível. Clássico. Ótimo. Direto ao ponto, à superfície. Quem é que quer saber detalhes da vida da mais nova desempregada com temperamento levemente agressivo? Fomos pra casa dele, transamos. Transamos como dois estranhos que éramos, não me lembro como é mesmo que se faz amor. De manhã me despedi, beijei sua bochecha, saí. Agora que penso nisso não sei se seu nome é Vítor ou Flávio.

Quando eu tinha uns 9 anos minha mãe costumava costurar no quarto depois das 10. Eu aprendi alguns pontos, fazia bordado às vezes, pra passar o tempo. Às vezes era quase 10 e ela não vinha. Eu pegava as peças atrasadas e dava andamento, mesmo com o risco de “matá-las”, como ela mesma diria. Um dia ela disse o nome da minha madrasta numa discussão com o meu pai do outro lado da casa enquanto eu caprichava no ponto cruz. Não foi até muitos anos depois que eu percebi que minha madrasta já estava destinada a entrar na minha vida muito antes de a minha mãe deixar a gente em 1998. Quando vi não existia mais eu, ela e meu pai.

Não que antes eu fosse muito sensível, mas aí me dei conta de que ser fria era uma característica minha. Também não sei se a culpa é da minha mãe, do meu pai, da minha madrasta. Não sei como foi que o amor deles começou e morreu, não sei como isso se dá no geral, de qualquer maneira. Acho que nunca amei e desamei pra saber.

Um dia ela chegou e disse que não o amava mais. Na minha cabeça foi assim que ela fez, ela decidiu que não amava mais o meu pai e quando viu já estava embarcando pra Manchester sem passagem de volta. Não sei se ela foi sozinha, se a princípio pretendia voltar. Sem todos esses detalhes resta a minha imaginação e ela me diz que nunca teve amor lá pra começar. Eles dizem que se conheceram acidentalmente, meu pai a confundiu com uma prima distante no aeroporto e desde então saíram, casaram, tiveram uma filha temperamental e com comportamento um pouco psicótico.

E então ela parou com a costura. Eu vendi aquela máquina quando fiz 18 anos, não tinha porque guarda-la já que nessa época eu ainda a odiava com certo emprenho. Talvez eu me arrependa no meu leito de morte de não ter procurado o motivo do desamor dos meus pais. O resultado eu sabia: um irmão postiço, muitas brigas e alguns momentos embaraçosos e uma outra mãe pra me ignorar.

Minha madrasta provavelmente não sabe nada sobre mim apesar de termos um relacionamento razoável e nos tratarmos por “mãe e filha”. Não posso dizer que ela não tenha feito o seu papel que era ir a reunião de pais e me dar dinheiro aos finais de semana. Mas de alguma forma a figura mais materna que eu tive na infância – e tenho até hoje -foi  meu pai. Também não sei como o amor deles começou e como é que ele sobrevive através do tempo. Como é que alguns amores sobrevivem e outros não. Com a minha idade meus pais já estavam na metade do caminho para separação. Eu, tudo que tenho é uma meia dúzia de ex namorados que não duraram o suficiente pra serem vagamente lembrados, aliás todos foram, de certa forma, descartáveis. Não dava pra saber se o “te amo” que dizíamos foi real até muitos anos depois e posso garantir que os nossos não foram. Sei porque eles foram facilmente substituídos por baseados e por masturbação.

Há um jeito de perceber que alguém nos está perdendo? Há um alarme, um sinal? Dificilmente percebemos, quando muito desconfiamos e mesmo assim é tarde demais pra nos darmos ao trabalho evitar. Como é que um amor morre, como é que ele sobrevive? Meu pai disse, quando perguntei, que o amor desmorona quando os dois lados não seguram mais com a mesma força. Quando minha mãe descobriu seu caso secreto com a minha madrasta, meu pai já não estava segurando do mesmo jeito que ela há tempos e na verdade os dois já haviam deixado o amor rolar ladeira abaixo, de qualquer maneira. Segundo ele era difícil demais lembrar do porque estavam juntos e, embora eu fosse um belo motivo para que eles tentassem, uma nova oportunidade bateu na porta dele e ele deixou entrar. Eu não tive culpa, eu nem sabia ou sequer me importava na época. Essas dúvidas todas, essa curiosidade, surgiram anos mais tarde e não por eles, mas por mim que já estava na idade madura e queria entender como é que tudo isso funcionava. Não sem antes ficar extremamente confusa com o meu relacionamento com todas as pessoas ao meu redor que, como de súbito, havia mudado radicalmente.

Porque é que minha impressão do meu irmão mais velho havia se transformado nessa coisa pegajosa que não tem e pé nem cabeça e me faz querer voltar no tempo, onde o amor começa, termina, sobrevive – se der – pra ver se isso tudo faz algum sentido. Não tivesse morrido o amor entre meus pais não teríamos sido apresentados, não estaríamos bebendo Coca Cola em pijamas e ele jamais teria cheirado o meu cabelo em ocasião nenhuma.

Na manhã seguinte o cara da semana passada me ligou e eu concordei em vê-lo de novo desde que pudéssemos nos encontrar direto na casa de um dos dois porque eu estava sem dinheiro. Nós sabíamos que iria acabar dessa maneira, não tem porque romantizar um encontro que só valoriza o sexo sem compromisso. Ou seria assim o início do amor entre a gente? Eu sinceramente não sei mais o que pensar agora que revisitei a ascensão e a queda do amor dos meus progenitores tendo chegado a lugar nenhum, mais uma vez. Quantas vezes o amor nasce e morre, quantos amores existem? São todos eles apenas uma face de um amor maior? Nos encontramos na casa dele, não queria dar meu endereço ainda, não tinha certeza. Quase não trocamos palavras principalmente porque eu desconversei de toda investida que ele ousou dar. Que coragem!

Me gritou, fora de contexto: você nunca vai começar um amor com ninguém desse jeito! Tudo bem, não foi totalmente fora de contexto. Conversávamos sobre meus pais, sobre os pais dele, finalmente conversávamos, já no terceiro encontro. Tudo que eu quis dizer foi que ele não precisava inventar firulas porque eu não tinha esperanças de que nada ia de fato acontecer entre nós, em resposta à pergunta “você quer ir comigo ao teatro?”. E então fui de metrô pra casa deletando, ao mesmo tempo, o seu número do meu celular. Ninguém tem que me dizer como viver minha vida não é mesmo? Fazia tempo que eu não chorava. Chorei baixinho, sentada na privada e minha colega de quarto nem percebeu enquanto fazia yoga, nua, na sala.

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Dia 541

Eu o amei aos poucos. Primeiro amei que ele queria muito muito me amar. Não sei se  a essa altura já amava, mas sentia que queria muito. Depois o amei por ele e por tudo que ele era independente e antes de mim. O amei, também, porque ele fez com que eu me amasse e me mostrou que isso era muito fácil – apesar de toda a minha resistência. E hoje o amo pela combinação de tudo isso (nosso amor entusiasmado, nosso amor emocionado, nosso amor inesperado, nosso amor crescente, nosso amor adolescente e finalmente nosso amor maduro, o de hoje).

Essa metamorfose que é nossa cabeça, nosso coração, nossa história juntos leva de cada fase um vestígio: Eu amei primeiro sua orelha porque era a mais redonda e labiríntica que já tinha visto. Eu amei seu ombro e as milhões de vezes que nele chorei só no primeiro mês. Eu amei seu francês, romântico, encantador, serais-tu ma petite amie?, e virei logo o petit bebe (apelido favorito). Eu amei que todo minuto eu sentia falta dele.

Eu amei todas as coisas minhas, dele, nossas que conquistamos: dedicação e ele é mestre, cumplicidade e tenho uma casa nova, paciência e volto a ser aluna. As noites desbravando sua biblioteca e as pintinhas que ele tem nas costas logo vieram, ficaram, se estenderam. As crises minhas – as inúmeras – todas elas foram lavadas, uma a uma, pra fora do meu sistema, com calma, carinho, amor.

Eu o amei quando ele primeiro me amou: passei a noite o amando em segredo, passei a noite imaginando quais três palavras o falaria, em qual momento, de que jeito. E, sábio que é, ele disse pra poder destravar minha língua. Nunca mais paramos. Não pararia, não deveria deixar de dizer, como se nunca bastasse. E criamos o nosso idioma, pra poder dizer ainda mais.

E hoje o amo, como companheiro, como amigo, como amante, como uma pessoa completa, por todas as partes dele, de mim, da gente de forma totalmente nova mas que de alguma forma conheço muito bem. Digo amei, mas não é pretérito, é o montante, são os 541 dias juntos e condensados – sim, eu fiz as contas! E não é novidade nem uma descoberta, muito menos um terço de tudo o que há. É que às vezes o tempo passa, a chuva leva, a nuvem esconde e é sempre bom lembrar.

Explique

Hoje eu resolvi ir de metrô pra casa porque estava meio enjoada do percurso de ônibus e também porque minha bicicleta ainda não chegou. Quer seja por uma coincidência quer seja por que eu sou uma garota bisbilhoteira, enxerguei por cima dos ombros de uma moça loira, de três dedos abaixo da raiz, uma mensagem em seu celular que se dava da seguinte maneira:

– Eu vou te fazer feliz!

Era Jorge. A foto parecia indecifrável (o pequeno ícone a direita só mostrava um boné verde) e a mensagem única, o que significa, talvez, que não houve conversa prévia. Passei minha estação porque deixar essa história sem final seria um pecado. A senhora loira – devia ter seus 40 – parecia não estar com pressa. Jorge fez uma promessa, uma bem séria e que demanda mesmo cautela na réplica. Será que são namorados, marido e mulher, conhecidos do último baile? Ela coça a cabeleira amarela, encara o cursor que pisca como quem apressa um retardatário. Eu estava com ele, o cursor. Queria ver que coisa bonita essa senhora falaria, que agrado diria ao Jorge, esse apaixonado que só quer colocar um sorriso entre as orelhas da Goldie Hawn paulistana (passei a chamá-la assim na minha cabeça, já que não consegui ver seu nome). E o que eu diria ao ouvir ou ver essas palavras? Que reação teria, ficaria animada ou lisonjeada, talvez, confusa? Iria eu imediatamente mandar um print da conversa para minha melhor amiga? Antes que eu pudesse pensar em respostas, eis que Goldie resolve escrever, com seu indicador direito e as unhas vermelhíssimas como garras:

– Explique

Assim sem pontuação e apagou o celular, o jogou pra dentro da bolsa, trancou com zíper, olhou pra frente como quem pouco se importa. Depois desceu e eu não vi desfecho – e vocês também não.

Ah, Goldie, me diz que coragem é essa de pedir explanação, de desligar na cara do felizes para sempre, de querer os pormenores da jornada alucinada pela qual Jorge passaria tentando fazê-la dar um sorrizinho. Achei falta de educação. Quem questiona o amor é grosseiro, é egoísta, é, até mesmo, meio auto flagelador. E pensa no quão complicado é ter gente por aí que quer seu bem e, não só isso, que quer ser a razão do seu bem. Não tá fácil de achar.

Desabafos a parte, esse episódio do metrô me deixou incomodada o resto do dia. Não sei se posso julgá-la também. Não faço ideia do contexto de Jorge, da senhora, da situação toda. E só posso dizer no que isso me afeta, no máximo. A questão é: quantas promessas ouvimos de olhos brilhando e de boca calada que nos derrubam das nuvens hora ou outra simplesmente porque não pedimos explicação? Fazer alguém feliz não é como fazer um sanduíche, demanda certas coisas que, depois de alguns tombos, ficamos aflitos pra entender como essa missão pode se dar.

Eu quero ser essa romântica que coloca a senhora do metrô no clube do sargento pimenta mas a felicidade é abstrata e ninguém garante que vai fazer o outro feliz, apesar da intenção ter sido das melhores.

Mas então, Jorge, explique-se, agora que me deixei esfriar da euforia de ver suas intenções com a Goldie.

O que é fazê-la feliz pra você? Você vai amá-la, vai respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza? Vai tratá-la com nada mais do que honestidade? Talvez essa formula funcione, quem vai dizer.

Mas eu olho pra dentro e vejo que nem toda a boa intenção do mundo previne um coraçãozinho de chorar de vez em quando. E toda promessa um dia deixa de fazer sentido. E toda felicidade tem duas faces. Que mal faz a Goldie em querer saber mais detalhes?

Não dá pra prever o futuro, Goldie, não dá pra saber se Jorge vai ou não cumprir tais juras e que caminhos há de trilhar pra fazê-lo. Talvez seja simples, talvez ele tente melhorar o seu dia com um pouco de carinho quando você chegar em casa depois do metrô lotado de hoje. Ou talvez suas palavras se percam com a atualização do software. Não sabemos.

Por via das dúvidas, Jorge, explique

Depois dos 25 é downhill

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma menina encontrou-se em sua cama, metamorfoseando num adulto monstruoso. Havia contas de luz pagas por todos os lados, um anti inflamatório que eu precisava tomar, um post-it “pegar roupas na lavanderia quarta feira”. Uma dor nas pernas, porque fiz alguns exercícios há dois dias. Meu namorado encontrou um cabelo branco na minha cabeça. Da noite pro dia celulite, 3 graus em óculos de armação discreta, dificuldade pra pintar as unhas do pé. Chegou minha hora.

Me disse outro dia que depois dos 25 é downhill. Ladeira abaixo!

Semana passada, uma crise imensa envolvendo alucinações e fobias durante todo o meu expediente. Por algum motivo eu dei de pensar que tenho todas as doenças que ouço falar. Sempre penso que estou prestes a sofrer um derrame. Preciso marcar otorrino, neuro, ginecologista, gastro, psiquiatra, ortopedista… Esqueço minhas senhas, meus pertences, vivo cheia de lembretes no celular. Talvez eu tenha mesmo alguma doença. Ou talvez meu corpo esteja me avisando que eu já sou grande.

Nunca pensei que fosse ter esse conflito interno de personalidade, de amizades, de carreira, de sanidade mental. Quando eu era adolescente, no meu quarto, eu não sabia que a vida acontecia fora daquele quadrado. Não pensava em nada, pra falar a verdade, nem queria crescer, nem era tão rebelde assim. De repente é difícil de uma forma totalmente nova. Não é mais a solidão. Não é a incerteza, nem os desamores. É a própria existência, que ultimamente tem pesado uma tonelada em cima dos meus ombrinhos magros. E não digo que estou infeliz. Alias, nunca estive melhor ou mais realizada.

É só a dificuldade de permanecer estável por um grande período de tempo quando estou sozinha com meus próprios pensamentos. No final, às vezes eu entendo porque estamos aqui. Olho pra cara de anjinho que ele tem dormindo – narizinho – não consigo não abrir um sorriso largo. Lembro da minha aula de literatura e de como eu gosto de ouvir aquele senhor falar. Lembro dos cachorros que quero ter. Penso: Como quero envelhecer? Sei que não quero. Por outro lado talvez, quando eu for mais velha, eu não seja mais essa alma ansiosa que precisa de uma explicação pra tudo, que se sente um monte de matéria orgânica ocupando espaço e tem dúvidas sobre a veracidade do seu próprio ser. É com a idade que vem a sabedoria, eu suponho. E talvez eu entenda e possa, assim, parar de gastar tempo me preocupando com esse tipo de coisa.

Quero dizer que a gente se transforma, uma hora ou outra, pro bem ou pro mal.

Um dia você acorda de sonhos intranquilos e vê que virou essa coisa. Essa coisa que é outra coisa, mas não é você. É um adulto, um ser qualquer que pega ônibus e reclama do trânsito de manhã, que não sabe como chegou ali e que não deveria, mas não faz a menor ideia de como seguir, do que fazer, do que ser e do que pensar. É só uma bagunça, e com medidas maiores, uma bunda imensa e audição duvidosa.

Talvez eu esteja sendo sortuda. Há um outro adulto ao meu lado aguentando todas as crises supraditas, todas elas! Às vezes penso que me encolho e esqueço tudo que sou pra poder ser dele em paz. Pra poder deixar a sua mão magnânima pegar na minha e me guiar pra luz. Depois tenho saudades de mim: Coloco minhas músicas, vejo meus filmes, gravo uns vídeos cantando que nunca sobem pra internet. Mas, agora, na maioria do tempo eu sou essa pessoa. Metamorfoseei de uns tempos pra cá de um forma brusca demais, acabo de perceber, mas acho que é do jeito que deve ser. Bom, quanto às contas, à casa, ao trabalho, às dores do corpo, isso acho que não faço questão. Mas todo o resto, a dificuldade de ser (de ser, só isso, ser), isso acho que me agrada e me empurra pra quando eu olhar por cima do ombro querendo achar que não valho nada. Vou saber que valho sim, valho muita coisa.

Mas quer saber, nem é tão difícil assim! Papai deposita 3 dígitos quanto eu preciso, as vezes 4. Limpo a casa a cada 10 dias, jogo o lixo fora. Quando acaba a comida, vou ao mercado. Cumpro minhas tarefas, ganho um salário razoável todo dia 30. Espero a dor passar: na maioria das vezes sei que é minha cabeça pregando peças, então eu espero. O que da trabalho é o próprio viver, o quanto tempo perdemos pensando “será que estou bem?”.

Dizer essas coisas em voz alta é assustador. Me sinto uma louca varrida, uma lunática. Da mesma forma, sei que não sou a única. É normal questionar aos 25, ou ter problemas pra subir escadas. Suponho que todo mundo tenha medo de remédios ou de chuva. Suponho que todos larguem o que conhecem até então pra ser outro, pra virar essa metamorfose. E talvez alguém de 30 anos venha me dizer que eu ainda não vi nada e pra eu parar de fogo no cu. Que seja.

Tenho essas crises – e sei que todos têm. Esperneio, penso “Deus, ou Deuses, porque estou aqui?!” Mas no final do dia sei que gosto de morder a orelha daquele menino, de maquiar minha mãe, ver meu pai caindo de sono no sofá da sala e meu melhor amigo fumando no escuro sempre que chego em casa. E, por enquanto, é isso que me mantém firme essa amante da vida.  Certamente melhor do que virar um inseto.

Parte I

Nesse natal, acho que nada vai acontecer de interessante, então não vou fazer suspense. Estou no interior, na casa dos meus pais, faz calor como em Recife e mesmo já estando aqui, não sei se estou preparada mentalmente para conviver de novo com a minha família. Passei em frente ao espelho que fica na sala de jantar e percebi que com aquela camiseta larga, sem maquiagem, e com o cabelo oleoso até a cintura, eu pareço mesmo com um roqueiro decadente, como ressaltou o meu irmão mais velho. Depois voltei a sentar no sofá velho na sala de estar. Todos aqueles móveis, os quadros da minha mãe, os enfeites de elefante já fizeram parte de um passado não tão distante assim, emoldurado na minha cabeça como se nunca tivesse existido de verdade. Voltar pra casa depois de quatro anos é ser um peixe e mergulhar pra fora d’água. Porque nada parece diferente e, ainda assim, tudo parece estranho.

Eu não sabia onde estavam as colheres, porque mudaram tudo de lugar. Mesmo assim, quanta coisa não mudou. Minha avó continua na casa dela. Meus primos estão casados, agora têm filhos de alguns meses. Mas o papo continua o mesmo: Como está a vida longe de casa? Já se adaptou? Fico pensando no que isso significa, e por que a obsessão com adaptação.  Sim, claro, já devo ser praticamente paulistana, tia! Mas na verdade eu não sei o que se adaptar significa. Se eu estou confortável lá? Se já sei onde fica o caixa eletrônico mais próximo? Quatro anos é bastante tempo, tia, mas não tem gente que passa a vida toda sem se adaptar a nada? E além do mais, quatro anos não é muito tempo coisa nenhuma! O que se pode aprender em quatro anos, de verdade? Se você for parar pra pensar, nada demais. Eu continuo empacando na esquerda, mandando mensagem de texto em frente ao Rinconcito. Depois de todo papo de adaptação, fiquei pensando no que realmente aconteceu nesses anos enquanto assistia desenho animado na mesma sala em que eu fazia isso aos 5 anos de idade. Não dava pra saber direito o que eu tinha feito de significativo pra minha própria vida. Concluí que não havia me adaptado, então, e entrei numa crise curta. De qualquer forma, era véspera de natal então suponho que seja assim mesmo. Tenho certeza de que vão me perguntar sobre minhas viagens de anos atrás, minha tatuagem nova, se eu resolver usar um modelito que mostre meus ombros. Acho melhor eu decorar meu texto, botar minha cara de blasé pra trabalhar.

E foi lá mesmo, no espelho da cozinha, que comecei a montagem. Aquele cabelo imenso tinha a serventia de cobrir minha cara de pouco interesse. A questão é: saí de casa, aluguei um apartamento há quatro anos, e agora? Toda vez que eu visitar meus pais vai ser assim? Ou até me acontecer algo mais interessante: um filho ou, sei lá, um câncer, quem é que vai saber? Não dá pra deixar de me sentir estranha perto da minha própria família com tanto interrogatório: mas esse alargador serve pra quê? Acho que desde adolescente me incomoda a curiosidade alheia sobre mim e ao mesmo tempo me agrada inconscientemente. Talvez eu alargue as orelhas pra ser questionada e depois finjo que acho isso um saco. A mesma coisa com o sapato amarelo de plástico que a minha prima tirou sarro em 1999. Eu dava um jeito de ser sempre a esquisitona da família com algum adereço inusitado pra depois protestar sobre minha liberdade de parecer tão estúpida quanto eu quisesse.

Então nesse ano eu, parecendo um homem, me olhava no espelho da minha antiga casa e me sentia como nunca uma desconhecida. Depois passei maquiagem, falei com a minha mãe, bem apática. Minha tia me lembrou de quando eu fui pra Nicarágua – faz 4 anos. Não tia, nós terminamos, já namorei 3 caras depois disso. Não. Eu estou solteira no momento. Aliás, estar solteira em família, em pleno natal, é algo que já está enraizado no terreno da minha existência. Aos 15 anos era completamente normal e até preferível, mas agora que tenho 28 as coisas mudaram. Minha avó faz cara de quem quer um bisneto antes de morrer. Minha prima, que teve trigêmeos semana retrasada, quer me dar uns conselhos.

Tudo bem, espero que todos tenham notado que a crise dos 28 anos estava pairando sobre a minha cabeça e era evidente que dessa vez as coisas estavam piores do que nunca. Todos os anos eu tinha uma crise correspondente ao número de anos que eu estava completando. A pior crise até então tinha sido a dos 24 em que eu fiz permanente nos cabelos depois que terminei com o Juan, o nicaraguense. Na época chorei por três quartos do ano, larguei a faculdade, virei bissexual por um tempo e fui morar em São Paulo, porque eu não aguentava mais gastronomia e achava a Maria Vânia bonita. Só isso. Depois passou, fiquei em paz comigo mesma, fui fazer jornalismo, namorei o Daniel, o Frederico e o João. Vou me formar ano que vem porque tomei bomba de um terço do curso e já terminei com o Daniel (bafo horrível), o Frederico (me traiu) e o João (foi traído por mim). Eis então que é natal, eu estou mal humorada até a extremidade dos meus pelos.

A crise desse ano começa com a enorme concentração de gordura nos meus culotes. Lembro vividamente de ter 18 anos e olhar para a barriga da minha mãe, absolutamente enrugada, e pensar que ela já tinha nascido assim. Não passou pela minha cabeça que ela era tão magra quanto eu com a minha idade na época e que eu não teria a barriga plana assim a vida toda. Hoje sento e são tantas dobras! Não sei a história de nenhuma delas, elas simplesmente estão aqui agora, como se sempre estivessem bem ali, assim como na minha mãe. Pela primeira vez na vida minhas roupas não me servem e eu temo a balança como o diabo teme a cruz. Além do mais, a Fiona Apple não faz mais tanto sentido assim. Não tenho mais nenhum ídolo que não seja um youtuber que faz cover do Abba com uma gaita. Às vezes eu quero focar no meu curso, ler mais, ser mais intelectual, e às vezes quero reproduzir tutoriais de maquiagem de blogueiras de 18 anos na minha própria cara e, como se espera, fico sempre muito frustrada.

Voltar é especialmente estranho porque não é mais a minha casa. Na verdade nenhuma casa tem sido completamente minha nos últimos anos, principalmente porque eu não deixo. Compro coisas descartáveis e depois reclamo que não finco logo as raízes, não entendo. Talvez eu devesse ver menos vídeos de decoração e efetivamente decorar o meu apartamento. Até parece que nem desfiz as malas em quatro anos. Nunca dá certo de organizar tudo que eu levei de casa e tudo que compro acaba sendo inútil e quebra logo. Pra completar, parece que tudo sempre volta num looping de acontecimentos. Já comprei cortina pra sala três vezes e também a minha tia sempre me pergunta as mesmas coisas, “e o francês, parou mesmo?”. Parei tia, parei o crossfit também depois de três aulas, parei de usar alpargatas porque é ridículo, parei de sair com aquele cara que tinha tesão pela minha panturrilha. Parei, simplesmente parei! Não tem gente que para de comer, de viver? Às vezes a gente só para, tia.

Eu pareço mal humorada e desgostosa quase sempre agora também, é meu novo preto. A vida inteira eu tentei ser no mínimo agradável e então agora que eu fiz 28 anos eu decidi que não precisava mais ser assim já que isso nunca me favoreceu em nada. Façamos as contas: estou em um nível temível de autodepreciação. Tanto que costumo acordar e rir de mim mesma até abrir os olhos, às vezes choro, de leve. Também estou descrente do amor, como noventa porcento das pessoas desse planeta e pra completar meus amigos estão absolutamente ausentes. Outro dia cheguei em casa e minha amiga, que não fuma, estava fumando. O som apático do seu oi pigarrento não sai da minha cabeça. Primeiro porque ainda não esqueci que ela quebrou meu pó de arroz de cento e sessenta reais enquanto estava chapada. Segundo porque eu nem lembro mais por que é que resolvemos morar juntas. Quatro anos parece tempo suficiente para se arrepender de algumas decisões e foi depois de perceber isso que olhar pra cara dela tem sido particularmente maçante nos últimos meses. Tentamos conversar às vezes e é como se nunca tivéssemos sido apresentadas. E não é só ela. Todo o meu grupo de amigos, os quais eram carregados com muito apreço do lado esquerdo do meu peito e com quem eu costumava dividir muitas vodkas, está insuportavelmente impossível de se conviver. Decidiram que gostam de frequentar o meu lugar menos favorito na face da terra e, se eu quiser desfrutar de suas amabilíssimas companhias, tenho que me sujeitar a  respirar o mesmo ar que provavelmente o Alexandre Frota. Por isso estou ficando em casa desde outubro e, agora que o natal chegou,  resolvi passar uns tempos grudada na minha família.

Acho que depois ficou claro pra mim o arrependimento. Não da pra saber se todo mundo me irrita porque todo mundo é, de fato, muito irritante, ou se eu estou numa fase em que é muito, muito fácil me irritar. Eu realmente sinto muito de ter enfiado o algodão doce do filho do meu primo de 5 anos no lixo quando ele veio me oferecer um pouco na ceia, ontem a noite. Não pude evitar. Minha amiga tinha me mandado uma mensagem perguntando se podia usar meu vestido jeans e na última vez em que isso aconteceu, ela estragou a minha camisa de seda com o ferro de passar. Mas agora não tem volta. Já falei pra minha mãe que vou ficar até o aniversário de São Paulo, já que fui demitida, não tenho saco pra ficar no meu apartamento e pretendo pedir ajuda para pagar o  aluguel desse mês.

Eu trabalhava numa empresa que faz assessoria de imprensa pra algumas subcelebridades. Foi um estágio que consegui no terceiro ano e eu tinha sido efetivada há quatro meses. Não tinha nada de muito interessante. Eu dava suporte para o assessor do Theo Becker e às vezes ele aparecia por lá e me cumprimentava com um beijo na bochecha. Teve uma época em que eu me gabava disso para os meus amigos, mas depois que ele saiu d’A Fazenda tudo despencou e cada dia parecia mais patético que a ida dele até o meu trabalho fosse o ponto alto da minha semana. Uma vez ele caiu de uma cadeira enquanto estávamos numa reunião sobre a ida dele para Moçambique. Ele fraturou o tornozelo, e quem chamou os bombeiros do prédio fui eu. Contei para os meus amigos no happy hour daquele dia e aquela foi a última vez em que eu mencionei o Theo Becker porque foi aí que eu percebi que o meu trabalho era mesmo tacanho. Vieram à tona todas as brincadeiras sobre como uma aspirante a jornalista poderia se sujeitar a encomendar almoços para o assessor de um participante de reality shows enquanto que a Folha de São Paulo estava abrindo vagas para treinees. Eu desconversava. Não dava pra trocar um salário certo e até que bom por uma nova jornada de 20 horas semanais por quase nenhum dinheiro. Um ano depois, o programa “Dança dos Famosos” da TV Moçambique foi cancelado e minha empresa resolveu que faria cortes. Não estavam relacionadas as duas coisas, mas tudo aconteceu na mesma semana, então tive a impressão de que o subsucesso de um ator/modelo/cantor controlava as rédeas da minha vida profissional e me senti, mais uma vez, patética.

Dessa vez então minha tia poderia se concentrar na minha carreira que agonizava no segundo plano do meio jornalístico, ao invés de relembrar os meus erros do passado durante o jantar. Minha avó poderia não me lembrar que eu não encontrei um homem bom para me dar filhos e meu irmão poderia não me dizer a todo momento que eu tinha um ar um pouco andrógeno demais, assim, sem peitos. Aliás, desde que nossos pais de casaram, meu irmão pega no meu pé por motivos risíveis. Ele não é meu irmão de verdade, mas convivemos e nos odiamos remotamente desde a pré adolescência realmente como dois irmãos de sangue, então nunca me dei ao trabalho de chamá-lo de filho-da-minha-madrasta, do mesmo jeito que eu não chamo minha madrasta de madrasta e sim de mãe. É simplesmente meu irmão mais velho, aquele cara babaca que coloca a culpa em mim quando faz alguma merda, que é mais bem sucedido e que dá mais orgulho para os meus pais do que eu. Claro que agora que estamos orbitando os 30 anos de idade as brigas ficaram mais amenas, mas ele continua não perdendo a chance de me mostrar como a minha vida – todas elas, profissional, amorosa, social – é um absoluto fracasso.

O filho do meu primo, de 5 anos, ficou chorando a noite inteira e meu primo me excluiu do facebook. Eu tinha prometido pra mim mesma que nesse ano não faria mais nenhuma inimizade, mas acho que foi um acidente porque ele apareceu na minha frente numa hora péssima. Eu e minha amiga discutíamos avidamente por mensagem de texto, uma de nós chamou a outra de vaca e eu juro que também foi um acidente porque ela quis conversar numa hora péssima em que o filho do meu primo estava encostando o algodão doce no meu vestido. Há três anos, minha avó quis conversar sobre o porquê de eu ter deixado o conforto do meu lar para dividir uma kitinete com “aquela minha amiga hippie”. Também não foi uma conversa muito amistosa e minha avó passou os dois finais de ano seguintes sem me dirigir a palavra. Sempre tem um pouco de drama nessas reuniões, acho que toda família deve passar por isso. Não posso dizer, no entanto, que seja coincidência o fato de que a maioria dos dramas familiares nas festas de final de ano sejam protagonizados por mim. Andei pensando e, realmente, talvez seja mesmo bem difícil se relacionar comigo. A família da minha mãe não tem culpa, eu entrei nela de gaiato. Acho que a culpa é, na verdade, do meu pai.

Meu pai talvez seja a única pessoa com a qual eu consigo conversar por mais de cinco minutos sem criar um grande alvoroço. Isso porque normalmente não conversamos sobre nada categórico, às vezes falamos despretensiosamente sobre a lastimável situação política do país, às vezes sobre sabonetes. Todo ano é ele quem alivia a minha barra inventando qualquer desculpa que justifique o meu comportamento. Pensando bem, não pode ser culpa dele também. Talvez eu devesse parar de caçar culpados e devesse assumir meus próprios erros. Meu irmão por exemplo. Ontem entrou no meu antigo quarto, onde eu ando dormindo num colchão velho e quis bater um papo sobre as minhas depês da faculdade. Achei muito insensível da parte dele comentar sobre isso justamente nesse momento em que a melhor coisa que anda acontecendo na minha vida são as minhas depês e isso nem sequer é uma coisa boa. Por outro lado, talvez aquilo tenha sido uma tentativa de se aproximar de mim. A última vez que o vi, numa visita à casa dos meus pais que durou apenas 10 horas, a cinco meses atrás, nós brigamos porque estava chovendo. Simplesmente porque chovia e o carro do meu amigo espirrou lama por toda a varanda. Então, quando ele entrou e me perguntou se eu tinha finalmente passado em Editoração em Jornalismo Impresso, tudo que eu ouvi foi “finalmente” e agora que penso nisso nem sei se ele de fato usou essa palavra.

Pra me redimir o chamei pra ver alguns vídeos de quando éramos adolescentes. Ele se mudou pra minha casa quando eu tinha 10 anos e nós demoramos um tempo até entendermos que éramos, a partir daquele momento, irmãos. Minha mãe biológica tinha ido pra Inglaterra, aliás não a vejo há dez anos. Não importa. Havia uma nova mãe e uma nova pessoa na minha família. Nossa primeira briga foi porque eu queria ver o show do Michael Jackson na tevê e ele não queria deixar. Agora, que ele sentava no chão da sala ao meu lado, animado por termos encontrado uma filmagem do seu aniversário de 16 anos, aquelas brigas todas pareciam tão mesquinhas. Ele fez um copo de refrigerante pra mim sem eu ter pedido e colocou a fita no video cassette empoeirado. Fiquei me sentindo meio estranha, mais ainda. Mas de uma forma um pouco mais agradável.

Fiz as pazes com a minha amiga, ela disse que parou de fumar. Conversamos então sobre um colega da minha aula de economia que tinha me oferecido carona num dia de chuva. Isso foi tudo que aconteceu e eu fiquei com a impressão de que tinha algo ali. Ele foi mais atencioso do que eu estou acostumada e me pareceu uma boa ideia que ele me chamasse para sair. Tenho ficado tão sozinha nos últimos meses e também eu faço questão de estragar toda mínima chance que tenho de interagir com um homem. Meus dias, antes da demissão, se resumiam a passar noventa porcento do meu expediente vendo gifs de cachorros, já fazia um tempo que eu não usava maquiagem. É difícil para uma mulher de quase trinta ficar seis meses sem qualquer perspectiva romântica enquanto a vida de todo mundo parece deslanchar para a felicidade plena.

Estamos numa piscina e meu irmão cheira o meu cabelo. Eu lhe dou um tapa no braço, fico emburrada pelo resto do vídeo. Ainda ficamos mais umas duas horas no chão da sala bebendo refrigerante e começo a ficar surpreendida com algumas das imagens. A verdade é que aquela foi a primeira vez em que não me senti um lixo durante toda a temporada de festas de final de ano. Por um instante não lembrei de toda a bagunça que eu teria que limpar uma vez de volta a São Paulo. Passa pela minha cabeça que devo ficar, dessa vez, por tempo indeterminado, mas logo me ocorre toda a burocracia pela qual passaria o meu relacionamento com a minha amiga já que ela não conseguiria pagar o aluguel de um apartamento como aquele sozinha. E nossa amizade estava abalada pelos últimos acontecimentos. Embora agora conversássemos por mensagem de texto sobre assuntos de amigas, não era mais a mesma coisa. Há quatro anos acho que fazia sentido, mas nós mudamos muito. Eu, pelo menos, mudei. Eu mudei de cidade por uma razão, mas permaneci lá por outra e agora desconheço todas elas. Esses vídeos todos não facilitam nada. Estou no foco da câmera, sentada na beira da piscina e meu irmão me olha estranho no fundo.

Recebi uma mensagem que começava com um pedido de desculpas. Minha amiga parecia realmente arrependida de ter saído com o meu amigo da aula de economia na semana seguinte da carona. Pareço não notar ou não me importar já que meu irmão agora se senta mais perto e me disse que quando uso maquiagem até que fico mais atraente. Devo procurar um novo emprego em jornalismo, cortar os cabelos, empurrá-lo enquanto ele tenta me beijar? São tantas as perguntas. Fico atordoada e quando vejo estou comprando uma nova passagem para São Paulo. Minhas malas pesam com o resto do peru, não aguentei até 25 de janeiro, como já havia imaginado. Fui embora e não me despedi das minhas tias, meu primo ainda não quer falar comigo. Não cabia mesmo o suspense porque ainda não sei dizer se algo aconteceu.

 

Até encontrar um não-babaca

Conheci muita gente nos últimos seis, sete meses e, quando a gente conhece gente nova, é meio que certo que duas coisas acontecem. Primeiro que sempre querem saber quem somos e de onde viemos. Segundo que nós mesmos queremos saber o que as pessoas pensam que somos e o que acharam quando contamos de onde viemos. É assim mesmo. A gente quer se enxergar, ser “aquela pessoa bacana que faz tal coisa”. Eu faço isso sempre que conheço alguém: de uma forma bem genérica, enfio esse alguém num saco. “Menino-meio-nerd-bacaninha-curte-anime”, “menina-patricinha-bolsa-da-gucci”, “senhora-mãe-de-3-faz-crossfit”. Hoje é arriscado falar tudo isso sem parecer um babaca alguma-coisa-fóbico, mas a gente sabe lá no fundinho da alma que é verdade. E não tem problema também porque é meio mútuo e completamente inofensivo, assim não machuca ninguém. Ultimamente eu vi que eu sou a “menina-de-óculos-com-namorado-não-babaca”. Eu conheço muito bem essa laia, eu costumava desejar a morte a essas meninas, quer elas usassem óculos ou não, e principalmente se não usassem – porque além de tudo enxerga bem, essa vaca! E, olha só a vida, hoje sou eu.

Apesar do que minha mãe falava quando eu era pré adolescente, eu sou, sim, todo mundo, e todo mundo julga os outros e é malvado e acha que todo mundo é uma garrafa fechada de qualquer refrigerante com um rótulo. Ainda por cima, todo mundo acha que todo mundo nasceu assim, vai morrer assim. Aquele lance da “primeira impressão é a que fica” e essas coisas. Devem achar que eu sempre falei bom dia com voz de bebê e sempre liguei pra avisar que cheguei em casa. Que eu sempre fui a linda bem resolvida que tem um abraço quentinho pra ficar enrolada numa sexta a noite. Eu achava isso. Eu achava que a menina que tinha encontrado um cara maneiro sempre tinha tido um cara maneiro e tinha mais é que ficar quieta e me deixar afogar no rio da solidão em paz. E ir a merda depois, é claro.

Me ocorreu que o mínimo que pode ter ocorrido a essas pessoas que conheci nos últimos seis, sete meses é que eu sempre tive um cara maneiro e que eu podia ir à merda também. Tudo bem, mea culpa, errei. Eu julguei tanta gente e algumas dessas meninas também foram meio infelizes e mal amadas, assim como eu fui, antes de poderem admitir pra sociedade que estavam em um relacionamento sério com um não-babaca. Então pra ninguém me odiar, pra ninguém vomitar quando eu estiver trocando denguinhos com o meu namorado não-babaca, eu vou mostrar agora que eu também já tomei muito no cu.

Uma vez um cara, com quem eu estava ficando há uns 3 meses, se despediu de mim e sem querer ficou com a chave da minha casa e eu tive que dormir na rua enquanto ele ia pra uma festa até as 5 da manhã, festa para a qual ele não tinha me convidado.

Eu sou 8 ou 80. Ou santa ou puta, não tem meio termo. Eu fui virgem até os 20, o que implica em dizer que minha vida amorosa sempre beirou o inexistente. Ter 20 anos e ser virgem é sinal de que nenhum cara maneiro sequer chegou perto de desbravar os inimagináveis horizontes da minha vagina. Mas não era só isso. Não tinha a ver com minha vagina. Era um sinal de que eu não levava jeito nem pra um sexo sem compromisso, quanto mais para um amorzinho, assim, de leve. Até os 20 não tinha amor, nem sexo, era a idade das trevas, era o eterno testemunho da felicidade alheia. E depois que a barrerinha foi rompida, num aniversário muito do bêbado, muitas águas rolaram e nenhum amorzinho, nenhum cara maneiro deu as caras. Aí é fácil ter raiva da menina que namora um príncipe bem nas suas fuças.

Uma vez eu saí correndo da casa de um cara no meio de um sexo muito do pervertido porque ele pediu pra cheirar cocaína na minha barriga.

Ter vivido tão sem clichês românticos por um lado foi divertido. Por outro foi desesperador. Tinha nuances de empolgação – conhecer um cara tomando sorvete, ficar de conversinha por horas; e humilhação – o gatinho lindo que eu quero conhecer está entrando no elevador e adivinha quem acabou de peidar? É difícil ser solteira com vinte e poucos, sua família não entende! Depois que um carinha meio engraçadinho resolveu transar comigo no dia do meu aniversário de vinte anos enquanto eu estava meio bêbada, tudo deslanchou só que de forma ruim. Foi um babaquinha atrás do outro. Entre eles passaram uns caras até que bacanas por quem eu fiz o favor de não me apaixonar, mas no geral, babacas! Meu primeiro namorado sério era duvidoso demais pra ser levado a sério. Primeiro que ele morava na Ásia. Pra falar onde ele morava eu tinha que citar o continente, isso é no mínimo hilário. “É tipo entre a China e a Austrália, mãe!”. Eu queria lançar um manual pra explicar pra todos que me perguntavam como foi que eu arrumei um namorado que não só era estrangeiro como era um completo babaca. Terminamos porque descobri – depois de muito insistir, no dia seguinte de uma festa, que a gente tinha transado de um jeito do qual ele sabia que eu não gostava. Eu tinha bebido ao ponto de ficar inconsciente e cu de bêbado não tem dono, né, querida (estou sendo irônica). Depois de um ano de namoro eu não achei que deveria me preocupar com isso, mas a dor no dia seguinte era bem verdadeira e isso me mostrou que era chegada a hora de descer da nuvem. Depois quis lançar um manual pra explicar porque terminamos. Teria sido mais fácil.

Uma vez estava transando com um cara num carro e quando já estava pelada, um táxi bateu na gente e uma multidão ficou aglomerada em volta do carro. Ele jogou minhas roupas na minha cara e pediu pra eu sair.

Olha, eu te desafio a terminar um namoro tão tragico e tão tragicamente e não virar uma puta alucinada que acha que o amor é uma morte lenta. Eu me mudei dois anos depois pra morar num mini kitnet com um amigo. Quando percebi estava chorando pela solidão de dia e falando que meu nome era Thaís a noite. Podia ser porque eu não queria, mas amor nenhum bateu na minha porta, nem mesmo quando eu tentava ser meiga e ia ler na Livraria Cultura domingo a tarde. Na primeira semana no emprego novo já saí com um dos mensageiros, bebemos muitas cervejas e ele acabou se despedindo de mim só na manhã seguinte. Ficamos amigos depois, tudo bem. Eu que me auto-depreciava achando que era ruim dar pra muitos caras. Não era. O ruim era ter que fingir que tava tudo bem se eu não achar ninguém, se ninguém quiser ficar comigo por mais do que 24 horas, se todos os caras por quem eu já tive uma lasquinha de interesse tivessem, de algum jeito, me sacaneado. Aí, amiga(o), a auto estima não sobe de jeito nenhum, não adianta. Ainda mais pra mim que sou uma romântica escrota que acredita em se apaixonar pra vida. Agora eu sei que dá, pela primeira vez estou mais segura disso, mas antes era tudo intangível, era coisa pros outros.

Uma vez saí com um pessoal do trabalho, fiquei superchapada e fui pra um motel com um colega que, no dia seguinte, pediu pra eu fingir que nada aconteceu.

Então agora eu me dou ao luxo de chamar meu namorado de baby lindo, de postar foto beijandinho e de mandar uma piscadela pra ele toda noite. Eu me dou ao luxo de ser uma romântica escrota, de escrever poeminhas, de multiplicar tudo por dois porque quando tudo era pra um eu reclamava, eu tinha inveja da “menina-com-namorado-não-babaca”. E agora eu fico feliz por ela e desejo muito mais que ela de sorvete na boca dele na lanchonete ali da esquina. Porque ninguém é feito de presente, todo mundo tomou muito no cu pra chegar a usar o moletom do boy. E vomitem o quanto quiserem, vou mandar beijos pro meu gatinho lindo e morder a orelha dele em público sim.
E se reclamar, vai ter “namolado”.

Maionese ou Outra Coisa

Confeccionada a partir da emulsão de óleo e ovos e enriquecida com o sabor de vários temperos, a maionese tem origens datadas de meados do século XVIII, na Europa meridional. Excelente acompanhamento para diversas classes de comidas (do pão de batata ao frango assado), encontra seu ápice do sabor quando misturada ao molho de mostarda e sutilmente derramada em cima da batata palha.A Espanha diz deter o pioneirismo maionesístico, no entanto, há relatos de que os franceses foram os primeiros a utilizar o molho. Não podemos saber ao certo o que ocorreu na época, porque há de se falar fluentemente o francastalão (francês + castelhano + catalão) para conseguir traduzir fielmente todos os mais de 250 mil documentos acerca da Maionese encontrados entre o Toulouse e Barcelona nos últimos dois séculos. Sabe-se que Portugal foi proibido, durante a Assembleia de Condimentos de Origem Europeia em 1839, de se pronunciar sobre o assunto, mesmo com todos os deliciosos pratos que são capazes de preparar utilizando a Maionese como base, pois, segundo transcrição feita através do tradutor Google de línguas mortas, “não pode haver roubo de protagonismo”.

Ontem comemos cheeseburgers do Joakins, depois de uma ótima festa entre nossos chegados e, ao recebermos uma pequena quantidade de maionese em um potinho, iniciamos uma interessante reflexão. Felipe clama que, sim, os Portugueses devem ter o total direito de dar pitacos a respeito da invenção da maionese pois, como nação pertencente ao continente europeu, e ao mundo, e portadora de opiniões próprias e bocas, deveriam ser capazes de engordar a discussão e, de repente, poderiam até ser o pivô de uma reconciliação entre as duas partes. Num mundo perfeito, a maionese é consumida em larga escala, por países dos 6 continentes (até mesmo pelos esquimós, eu presumo) e não há disputa sobre quem é o protagonista do pioneirismo da descoberta do “puro suco do ovo”, para citar o próprio Felipe. Se temos papilas gustativas, não há nada que possa impedir o livre consumo da maionese sem a preocupação de quem a detém como principal invento e qualquer discussão que ultrapasse essa linha de pensamento faz-se irracional e deve ser tratada como uma afronta à diplomacia e aos bons costumes. Concordo, como batata smile sendo engolida por umas 100 gramas do assunto da noite, e bocejo. Felipe é sábio. Sabe reconhecer a ignorância de quem briga por pouca coisa e deslegitima uma causa nobre e digna de consideração, feito o caso da maionese, visto o quanto ela lutou para ser reconhecida, depois da invenção do catchup.

Felipe está certo. Não importa quem inventou a maionese mas sim todos os benefícios que ela pode nos trazer: Diminui a ingestão calórica das refeições, dá a sensação de maior saciedade (os lipídios têm digestão mais lenta), evita excessos nos próximos alimentos e é gostosa pra caralho.(Fonte: Revista Corpo a Corpo da Editora Escala).
Não, espera.
Tenho a impressão de que não era sobre maionese que gente tava falando.

Os bebês e as lascas de unha 

– Amor, vou encostar a porta do banheiro porque vou cortar as unhas do pé.

Ok, eu penso. E continuo deitada de barriga pra cima sendo surpreendida pela sensação de perceber pela primeira vez que tem duas lâmpadas em lugares diferentes no teto. Depois fiquei ouvindo o cleque cleque das unhas sendo aparadas e imaginando em que posição terrível ele deve estar lá dentro do banheiro apertado, tentando alcançar o dedão do pé sentado na privada, ao invés de aqui fora, na cama, sem dor nas costas e sem arrancar um bife.

Ao mesmo tempo ouço crianças brincando no parquinho do condomínio. Digamos que o prédio dele tem a pior acústica em se tratando de brincadeira de crianças e, assim, podemos saber de todos os detalhes do pega pega, ou qual criança ralou o joelho e está chorando em si sustenido. Penso “quero ter filhos?” e quase sem perceber, substituo o ponto de interrogação por reticencias, que num momento de cleque absoluto, se transformam em um gordo ponto de exclamação.

– Amor, você quer ter filhos?
Me imagino falando, no café da manhã de um dia, do alto dos meus 25 anos de idade e do meu útero fisiologicamente maduro para procriar. A minha versão de três anos atrás jamais pensaria nisso. Sei bem porque a sensação é totalmente inédita e não sei dizer bem se é meu corpo, minha mente ou meu coração que a deu gênese. Talvez uma combinação dos três. Ou talvez seja uma fase, uma época do mês ou só o relógio biológico badalando meia noite.

Logo depois penso em intimidade. Meu amor está cortando as unhas, posso quase imaginar a cena do lado de lá da porta do banheiro. Um dia tirei um alface do meio dos dentes dele com meu próprio dedo indicador.

– Amor, quer casar, morar junto, ter bebês e cachorros um dia, assim sem compromisso?

Se eu já posso cuidar da higiene bucal dele, acho que já da pra fazer planos a longo prazo. As crianças brincando no playground mal sabem a influência que têm sobre os adultos do sétimo andar. Eu aqui, casualmente, deitada de calcinha e sutiã de bichinhos, de meia, pensando em ter bebês. Pensando que quero ele como pai dos meus bebês. Tudo porque ele tem a decência de fechar a porta e me poupar de vê-lo cortar as unhas mesmo com toda a intimidade que a gente já tem (what a gentleman!).
Meu amor sai do banheiro, unhas rentes, de cueca e visivelmente irritado.

– Mas que gritaria é essa?

Talvez seja melhor esperar mais um pouco.

Falemos um pouco sobre as filas

Introdução

Sei bem de todo o esforço que se aplica a discussões de hoje em dia sobre qualquer questão remotamente polêmica que venha a surgir ou que já seja estabelecida como desmancha amizades tais como política, religião, a fome na África, e o chamado feminismo no enem. Sei bem que, de fato, as questões supraditas representam uma intensa relevância na vivência humana e demandam importantes debates embasados em vocabulário esdrúxulo feito esse parágrafo que vai ser logo interrompido devido ao seu conteúdo frívolo e extremamente desdenhoso. No entanto, percebo o imenso apreço que me toma toda vez que me permito falar bobagens e usar linguagem do cotidiano pra dar meus dois centavos sobre assuntos banais e sem importância, como as filas, por exemplo.

Filas

As filas, inevitavelmente, são parte de nossas vidas e nos levam a muitos lugares diariamente ou simplesmente servem para ficarmos sabendo de alguma notícia que nos tenha fugido, que talvez não fizesse tanta diferença saber ou não mas que de alguma forma remota nos promove de alienado pedestre à posição de cidadão informado (se você for enxerido na conversa alheia feito moi). Deixando de lado toda a reflexão acerca da necessidade de se formar filas – que na maioria das vezes inexiste, sejamos honestos ao ponto de admitirmos que há conhecimentos que podem ser adquiridos através da espera em pé e em ordem, também conhecida como fila indiana. Aprende-se sobre origami, atos ilícitos envolvendo vale alimentação, valor do prêmio atual da mega sena, resultado do jogo de ontem e quem está sendo sacaneado pelo encarregado da firma. Há de se reconhecer que as dicas de culinária adquiridas nas filas de banco, em geral, são de grande utilidade no preparo do feijão, do macarrão de gravatinha e do ensopado de frango. Na minha ultima transferência bancária, por exemplo, aprendi a fazer empadão. Infelizmente, eu não passei da fase inicial da vontade de cozinhar, porque para mim ela dura aproximadamente até o final do assunto, no máximo até a minha triunfal entrada na cozinha de casa onde costumo ceder para a comida congelada, toda vez. Fico feliz de ver que é possível preparar uma refeição não agridoce ou com toque de óleo de dendê da Amazonia. Me aquece o coração saber que nem tudo é gourmet.

Gourmet

Esnobes cozinheiros ou chefs de cozinha emergentes que usam ingredientes improváveis e de difícil acesso ou simplesmente acabaram de descobrir o alho poró e insistem em chamar mandioquinha de batata baroa. Por que as pessoas não podem ser como a tia Vânia?

Tia Vânia

Tia Vânia é um sorriso ambulante, chiquérrima (cozinha de salto 15) que adivinha sempre o que eu quero comer. Quinta feira (às vezes quarta) é dia de jantar com ela – espero todo dia essa noite chegar! Semana passada, em mais um encontro lá na Vila Madalena, Tia Vânia, que não é, tecnicamente, minha tia, fez couve flor e carbonara. Sim, com bacon fritinho em cima. Tia Vânia é a mulher dos sonhos de toda menina. Aquela que as meninas querem ser no dia em que crescerem. Tia Vânia é uma daquelas pessoas que fazem a gente voltar a gostar do ser humano. É quem sabe ser espalhafatosa e sofisticada ao mesmo tempo e que contagia qualquer ranzinza com uma risada extremamente única e saborosa. Tia Vânia é apreciadora de gente feliz comendo seu pudim de leite moça e se desculpa muito tristemente por ter deixado a calda virar caramelo. É ela que nunca olha sua forma mas tudo que preenche sua silhueta no que tange o seu ser e não o seu ter. Não se prende ao vestuário.

Vestuário

Uma tristeza imensa me invade assim que me dou conta de que aquela menina está me mostrando a foto de outra menina de saia curta e se referindo a ela como “vagabunda mesmo com essa roupa”. Senti-me péssima quando notei que eu tinha o mesmo modelo de saia e que talvez alguém em outro lugar ou dimensão estivesse fazendo o mesmo comentário em relação a mim por conta dessa saia. E me pergunto, quase que instantaneamente, que tem a saia a ver com isso? Há diversos protocolos sociais envolvendo nossas vestimentas que me deixam um tanto quanto incomodada como ser humano. Eu entendo a razão funcional das roupas mas, sinceramente, não me entra na cabeça a sua função enquanto definidora de caráter.

Caráter

Vou montar o clube das pessoas que não furam filas e, principalmente, daquelas que não acham que é o fim do mundo quando alguém fura a fila delas. Isso define caráter (nem que seja só no caixa do mercado).

Já vem com créditos

De todos os caminhos entre a Av. Ipiranga e o Largo do Arouche, o que eu mais gosto é o do meio da Praça da República. Toda vez que passo em volta daquele ex-lago limpo, e em meio aos sermões de seitas ou cultos formidáveis, desacelero o passo, dou uma olhada de canto, contemplo o barulho do emaranhado de vozes pra tentar entender o que é São Paulo.

A São Paulo que eu conheço é essa: A calçada craquelada, com meia dúzia de mendigos dividindo o resto do restaurante por quilo da 24 de maio, um peruano, flautas, uma travesti de peitos redondos, três cartazes de ciganas e jogo de búzios no poste, pombas, pombas, pombas, um dread perto da Galeria do Rock, a boa qualidade do ar cinza e denso no display abaixo da propaganda de condomínio (revitalização do centro), pichação em grafite, grafite, cocô e xixi no cantinho da esquina com a banca de jornal, uma pausa para o Edifício Italia comendo bauruzinho, coxa creme, pedaços de bacon colossais na vitrine das padarias, passa uma manifestação com fome, um spray de pimenta, mas só vê latinhas, latinhas, latinhas. E ainda assim passo pelo meio da praça e imagino que tantas vidas permeiam os outros caminhos por dentro da mesma praça e que labirinto alucinado é aquele. Quando eu saio do prédio que suporta aquele monte de ar condicionado pra fora, lá da 7 de abril, e cruzo a maior faixa de pedestres que já vi (certamente a mais larga), não me imagino virando nem direita nem esquerda. Tenho que ver qualé que é a do prédião iluminado de rosa. “Chip da Tim, já vem com créditos cinco reais” (!).

Pra falar a verdade, tudo que eu queria era um dia chegar lá e comprar aquele lustra-chão-do-calçadão que deixa o paralelepípedo da Barão de Itapetininga brilhando. Ou chegar um dia e dizer “quanto é que custa esse boubou preto e amarelo, lindíssimo?” Mas aí perde a graça. Eu sou expectadora de toda essa massa de gente psicodélica que caminha desnorteada. Não vou dizer que não morro de medo. Toda vez que ouço ambulância, algazarra de cracudo, carro de polícia me gela as entranhas, me apaga qualquer coisa que seja que eu vinha pensando, e só me passa na cabeça que talvez eu não chegue do outro lado. Mas, simultaneamente, no meio da voz da minha mãe que grita entre as minhas orelhas pra eu tomar cuidado por onde ando, meus olhinhos brilham e pedem pra ver mais daquele cara comendo a marmita prateada no sol. Talvez eu veja um corpo esfaqueado, ou talvez um mendigo sujo e mal cheiroso venha me falar sobre Jorge Amado e poemas do Vinícius de Moraes.

Gosto desse caminho porque piso em ovos, mas sempre tenho o que contar pra próxima pessoa que eu ver (ou no meu futuro livro, ou só pra gravar na memória). Entre os puteiros da Rua Aurora e o moço que toca o tema de Réquiem For A Dream em um violino desafinado, na entrada do metrô, está São Paulo. E eu passeio por lá, como quem só quer atravessar a praça de uma ponta a outra, como quem só quer transitar, chegar logo na Consolação. E que, da mesma forma, é abraçada pela imundice da cidade e não quer largar mais de jeito nenhum.