Até encontrar um não-babaca

Conheci muita gente nos últimos seis, sete meses e, quando a gente conhece gente nova, é meio que certo que duas coisas acontecem. Primeiro que sempre querem saber quem somos e de onde viemos. Segundo que nós mesmos queremos saber o que as pessoas pensam que somos e o que acharam quando contamos de onde viemos. É assim mesmo. A gente quer se enxergar, ser “aquela pessoa bacana que faz tal coisa”. Eu faço isso sempre que conheço alguém: de uma forma bem genérica, enfio esse alguém num saco. “Menino-meio-nerd-bacaninha-curte-anime”, “menina-patricinha-bolsa-da-gucci”, “senhora-mãe-de-3-faz-crossfit”. Hoje é arriscado falar tudo isso sem parecer um babaca alguma-coisa-fóbico, mas a gente sabe lá no fundinho da alma que é verdade. E não tem problema também porque é meio mútuo e completamente inofensivo, assim não machuca ninguém. Ultimamente eu vi que eu sou a “menina-de-óculos-com-namorado-não-babaca”. Eu conheço muito bem essa laia, eu costumava desejar a morte a essas meninas, quer elas usassem óculos ou não, e principalmente se não usassem – porque além de tudo enxerga bem, essa vaca! E, olha só a vida, hoje sou eu.

Apesar do que minha mãe falava quando eu era pré adolescente, eu sou, sim, todo mundo, e todo mundo julga os outros e é malvado e acha que todo mundo é uma garrafa fechada de qualquer refrigerante com um rótulo. Ainda por cima, todo mundo acha que todo mundo nasceu assim, vai morrer assim. Aquele lance da “primeira impressão é a que fica” e essas coisas. Devem achar que eu sempre falei bom dia com voz de bebê e sempre liguei pra avisar que cheguei em casa. Que eu sempre fui a linda bem resolvida que tem um abraço quentinho pra ficar enrolada numa sexta a noite. Eu achava isso. Eu achava que a menina que tinha encontrado um cara maneiro sempre tinha tido um cara maneiro e tinha mais é que ficar quieta e me deixar afogar no rio da solidão em paz. E ir a merda depois, é claro.

Me ocorreu que o mínimo que pode ter ocorrido a essas pessoas que conheci nos últimos seis, sete meses é que eu sempre tive um cara maneiro e que eu podia ir à merda também. Tudo bem, mea culpa, errei. Eu julguei tanta gente e algumas dessas meninas também foram meio infelizes e mal amadas, assim como eu fui, antes de poderem admitir pra sociedade que estavam em um relacionamento sério com um não-babaca. Então pra ninguém me odiar, pra ninguém vomitar quando eu estiver trocando denguinhos com o meu namorado não-babaca, eu vou mostrar agora que eu também já tomei muito no cu.

Uma vez um cara, com quem eu estava ficando há uns 3 meses, se despediu de mim e sem querer ficou com a chave da minha casa e eu tive que dormir na rua enquanto ele ia pra uma festa até as 5 da manhã, festa para a qual ele não tinha me convidado.

Eu sou 8 ou 80. Ou santa ou puta, não tem meio termo. Eu fui virgem até os 20, o que implica em dizer que minha vida amorosa sempre beirou o inexistente. Ter 20 anos e ser virgem é sinal de que nenhum cara maneiro sequer chegou perto de desbravar os inimagináveis horizontes da minha vagina. Mas não era só isso. Não tinha a ver com minha vagina. Era um sinal de que eu não levava jeito nem pra um sexo sem compromisso, quanto mais para um amorzinho, assim, de leve. Até os 20 não tinha amor, nem sexo, era a idade das trevas, era o eterno testemunho da felicidade alheia. E depois que a barrerinha foi rompida, num aniversário muito do bêbado, muitas águas rolaram e nenhum amorzinho, nenhum cara maneiro deu as caras. Aí é fácil ter raiva da menina que namora um príncipe bem nas suas fuças.

Uma vez eu saí correndo da casa de um cara no meio de um sexo muito do pervertido porque ele pediu pra cheirar cocaína na minha barriga.

Ter vivido tão sem clichês românticos por um lado foi divertido. Por outro foi desesperador. Tinha nuances de empolgação – conhecer um cara tomando sorvete, ficar de conversinha por horas; e humilhação – o gatinho lindo que eu quero conhecer está entrando no elevador e adivinha quem acabou de peidar? É difícil ser solteira com vinte e poucos, sua família não entende! Depois que um carinha meio engraçadinho resolveu transar comigo no dia do meu aniversário de vinte anos enquanto eu estava meio bêbada, tudo deslanchou só que de forma ruim. Foi um babaquinha atrás do outro. Entre eles passaram uns caras até que bacanas por quem eu fiz o favor de não me apaixonar, mas no geral, babacas! Meu primeiro namorado sério era duvidoso demais pra ser levado a sério. Primeiro que ele morava na Ásia. Pra falar onde ele morava eu tinha que citar o continente, isso é no mínimo hilário. “É tipo entre a China e a Austrália, mãe!”. Eu queria lançar um manual pra explicar pra todos que me perguntavam como foi que eu arrumei um namorado que não só era estrangeiro como era um completo babaca. Terminamos porque descobri – depois de muito insistir, no dia seguinte de uma festa, que a gente tinha transado de um jeito do qual ele sabia que eu não gostava. Eu tinha bebido ao ponto de ficar inconsciente e cu de bêbado não tem dono, né, querida (estou sendo irônica). Depois de um ano de namoro eu não achei que deveria me preocupar com isso, mas a dor no dia seguinte era bem verdadeira e isso me mostrou que era chegada a hora de descer da nuvem. Depois quis lançar um manual pra explicar porque terminamos. Teria sido mais fácil.

Uma vez estava transando com um cara num carro e quando já estava pelada, um táxi bateu na gente e uma multidão ficou aglomerada em volta do carro. Ele jogou minhas roupas na minha cara e pediu pra eu sair.

Olha, eu te desafio a terminar um namoro tão tragico e tão tragicamente e não virar uma puta alucinada que acha que o amor é uma morte lenta. Eu me mudei dois anos depois pra morar num mini kitnet com um amigo. Quando percebi estava chorando pela solidão de dia e falando que meu nome era Thaís a noite. Podia ser porque eu não queria, mas amor nenhum bateu na minha porta, nem mesmo quando eu tentava ser meiga e ia ler na Livraria Cultura domingo a tarde. Na primeira semana no emprego novo já saí com um dos mensageiros, bebemos muitas cervejas e ele acabou se despedindo de mim só na manhã seguinte. Ficamos amigos depois, tudo bem. Eu que me auto-depreciava achando que era ruim dar pra muitos caras. Não era. O ruim era ter que fingir que tava tudo bem se eu não achar ninguém, se ninguém quiser ficar comigo por mais do que 24 horas, se todos os caras por quem eu já tive uma lasquinha de interesse tivessem, de algum jeito, me sacaneado. Aí, amiga(o), a auto estima não sobe de jeito nenhum, não adianta. Ainda mais pra mim que sou uma romântica escrota que acredita em se apaixonar pra vida. Agora eu sei que dá, pela primeira vez estou mais segura disso, mas antes era tudo intangível, era coisa pros outros.

Uma vez saí com um pessoal do trabalho, fiquei superchapada e fui pra um motel com um colega que, no dia seguinte, pediu pra eu fingir que nada aconteceu.

Então agora eu me dou ao luxo de chamar meu namorado de baby lindo, de postar foto beijandinho e de mandar uma piscadela pra ele toda noite. Eu me dou ao luxo de ser uma romântica escrota, de escrever poeminhas, de multiplicar tudo por dois porque quando tudo era pra um eu reclamava, eu tinha inveja da “menina-com-namorado-não-babaca”. E agora eu fico feliz por ela e desejo muito mais que ela de sorvete na boca dele na lanchonete ali da esquina. Porque ninguém é feito de presente, todo mundo tomou muito no cu pra chegar a usar o moletom do boy. E vomitem o quanto quiserem, vou mandar beijos pro meu gatinho lindo e morder a orelha dele em público sim.
E se reclamar, vai ter “namolado”.

Maionese ou Outra Coisa

Confeccionada a partir da emulsão de óleo e ovos e enriquecida com o sabor de vários temperos, a maionese tem origens datadas de meados do século XVIII, na Europa meridional. Excelente acompanhamento para diversas classes de comidas (do pão de batata ao frango assado), encontra seu ápice do sabor quando misturada ao molho de mostarda e sutilmente derramada em cima da batata palha.A Espanha diz deter o pioneirismo maionesístico, no entanto, há relatos de que os franceses foram os primeiros a utilizar o molho. Não podemos saber ao certo o que ocorreu na época, porque há de se falar fluentemente o francastalão (francês + castelhano + catalão) para conseguir traduzir fielmente todos os mais de 250 mil documentos acerca da Maionese encontrados entre o Toulouse e Barcelona nos últimos dois séculos. Sabe-se que Portugal foi proibido, durante a Assembleia de Condimentos de Origem Europeia em 1839, de se pronunciar sobre o assunto, mesmo com todos os deliciosos pratos que são capazes de preparar utilizando a Maionese como base, pois, segundo transcrição feita através do tradutor Google de línguas mortas, “não pode haver roubo de protagonismo”.

Ontem comemos cheeseburgers do Joakins, depois de uma ótima festa entre nossos chegados e, ao recebermos uma pequena quantidade de maionese em um potinho, iniciamos uma interessante reflexão. Felipe clama que, sim, os Portugueses devem ter o total direito de dar pitacos a respeito da invenção da maionese pois, como nação pertencente ao continente europeu, e ao mundo, e portadora de opiniões próprias e bocas, deveriam ser capazes de engordar a discussão e, de repente, poderiam até ser o pivô de uma reconciliação entre as duas partes. Num mundo perfeito, a maionese é consumida em larga escala, por países dos 6 continentes (até mesmo pelos esquimós, eu presumo) e não há disputa sobre quem é o protagonista do pioneirismo da descoberta do “puro suco do ovo”, para citar o próprio Felipe. Se temos papilas gustativas, não há nada que possa impedir o livre consumo da maionese sem a preocupação de quem a detém como principal invento e qualquer discussão que ultrapasse essa linha de pensamento faz-se irracional e deve ser tratada como uma afronta à diplomacia e aos bons costumes. Concordo, como batata smile sendo engolida por umas 100 gramas do assunto da noite, e bocejo. Felipe é sábio. Sabe reconhecer a ignorância de quem briga por pouca coisa e deslegitima uma causa nobre e digna de consideração, feito o caso da maionese, visto o quanto ela lutou para ser reconhecida, depois da invenção do catchup.

Felipe está certo. Não importa quem inventou a maionese mas sim todos os benefícios que ela pode nos trazer: Diminui a ingestão calórica das refeições, dá a sensação de maior saciedade (os lipídios têm digestão mais lenta), evita excessos nos próximos alimentos e é gostosa pra caralho.(Fonte: Revista Corpo a Corpo da Editora Escala).
Não, espera.
Tenho a impressão de que não era sobre maionese que gente tava falando.

Os bebês e as lascas de unha 

– Amor, vou encostar a porta do banheiro porque vou cortar as unhas do pé.

Ok, eu penso. E continuo deitada de barriga pra cima sendo surpreendida pela sensação de perceber pela primeira vez que tem duas lâmpadas em lugares diferentes no teto. Depois fiquei ouvindo o cleque cleque das unhas sendo aparadas e imaginando em que posição terrível ele deve estar lá dentro do banheiro apertado, tentando alcançar o dedão do pé sentado na privada, ao invés de aqui fora, na cama, sem dor nas costas e sem arrancar um bife.

Ao mesmo tempo ouço crianças brincando no parquinho do condomínio. Digamos que o prédio dele tem a pior acústica em se tratando de brincadeira de crianças e, assim, podemos saber de todos os detalhes do pega pega, ou qual criança ralou o joelho e está chorando em si sustenido. Penso “quero ter filhos?” e quase sem perceber, substituo o ponto de interrogação por reticencias, que num momento de cleque absoluto, se transformam em um gordo ponto de exclamação.

– Amor, você quer ter filhos?
Me imagino falando, no café da manhã de um dia, do alto dos meus 25 anos de idade e do meu útero fisiologicamente maduro para procriar. A minha versão de três anos atrás jamais pensaria nisso. Sei bem porque a sensação é totalmente inédita e não sei dizer bem se é meu corpo, minha mente ou meu coração que a deu gênese. Talvez uma combinação dos três. Ou talvez seja uma fase, uma época do mês ou só o relógio biológico badalando meia noite.

Logo depois penso em intimidade. Meu amor está cortando as unhas, posso quase imaginar a cena do lado de lá da porta do banheiro. Um dia tirei um alface do meio dos dentes dele com meu próprio dedo indicador.

– Amor, quer casar, morar junto, ter bebês e cachorros um dia, assim sem compromisso?

Se eu já posso cuidar da higiene bucal dele, acho que já da pra fazer planos a longo prazo. As crianças brincando no playground mal sabem a influência que têm sobre os adultos do sétimo andar. Eu aqui, casualmente, deitada de calcinha e sutiã de bichinhos, de meia, pensando em ter bebês. Pensando que quero ele como pai dos meus bebês. Tudo porque ele tem a decência de fechar a porta e me poupar de vê-lo cortar as unhas mesmo com toda a intimidade que a gente já tem (what a gentleman!).
Meu amor sai do banheiro, unhas rentes, de cueca e visivelmente irritado.

– Mas que gritaria é essa?

Talvez seja melhor esperar mais um pouco.

Falemos um pouco sobre as filas

Introdução

Sei bem de todo o esforço que se aplica a discussões de hoje em dia sobre qualquer questão remotamente polêmica que venha a surgir ou que já seja estabelecida como desmancha amizades tais como política, religião, a fome na África, e o chamado feminismo no enem. Sei bem que, de fato, as questões supraditas representam uma intensa relevância na vivência humana e demandam importantes debates embasados em vocabulário esdrúxulo feito esse parágrafo que vai ser logo interrompido devido ao seu conteúdo frívolo e extremamente desdenhoso. No entanto, percebo o imenso apreço que me toma toda vez que me permito falar bobagens e usar linguagem do cotidiano pra dar meus dois centavos sobre assuntos banais e sem importância, como as filas, por exemplo.

Filas

As filas, inevitavelmente, são parte de nossas vidas e nos levam a muitos lugares diariamente ou simplesmente servem para ficarmos sabendo de alguma notícia que nos tenha fugido, que talvez não fizesse tanta diferença saber ou não mas que de alguma forma remota nos promove de alienado pedestre à posição de cidadão informado (se você for enxerido na conversa alheia feito moi). Deixando de lado toda a reflexão acerca da necessidade de se formar filas – que na maioria das vezes inexiste, sejamos honestos ao ponto de admitirmos que há conhecimentos que podem ser adquiridos através da espera em pé e em ordem, também conhecida como fila indiana. Aprende-se sobre origami, atos ilícitos envolvendo vale alimentação, valor do prêmio atual da mega sena, resultado do jogo de ontem e quem está sendo sacaneado pelo encarregado da firma. Há de se reconhecer que as dicas de culinária adquiridas nas filas de banco, em geral, são de grande utilidade no preparo do feijão, do macarrão de gravatinha e do ensopado de frango. Na minha ultima transferência bancária, por exemplo, aprendi a fazer empadão. Infelizmente, eu não passei da fase inicial da vontade de cozinhar, porque para mim ela dura aproximadamente até o final do assunto, no máximo até a minha triunfal entrada na cozinha de casa onde costumo ceder para a comida congelada, toda vez. Fico feliz de ver que é possível preparar uma refeição não agridoce ou com toque de óleo de dendê da Amazonia. Me aquece o coração saber que nem tudo é gourmet.

Gourmet

Esnobes cozinheiros ou chefs de cozinha emergentes que usam ingredientes improváveis e de difícil acesso ou simplesmente acabaram de descobrir o alho poró e insistem em chamar mandioquinha de batata baroa. Por que as pessoas não podem ser como a tia Vânia?

Tia Vânia

Tia Vânia é um sorriso ambulante, chiquérrima (cozinha de salto 15) que adivinha sempre o que eu quero comer. Quinta feira (às vezes quarta) é dia de jantar com ela – espero todo dia essa noite chegar! Semana passada, em mais um encontro lá na Vila Madalena, Tia Vânia, que não é, tecnicamente, minha tia, fez couve flor e carbonara. Sim, com bacon fritinho em cima. Tia Vânia é a mulher dos sonhos de toda menina. Aquela que as meninas querem ser no dia em que crescerem. Tia Vânia é uma daquelas pessoas que fazem a gente voltar a gostar do ser humano. É quem sabe ser espalhafatosa e sofisticada ao mesmo tempo e que contagia qualquer ranzinza com uma risada extremamente única e saborosa. Tia Vânia é apreciadora de gente feliz comendo seu pudim de leite moça e se desculpa muito tristemente por ter deixado a calda virar caramelo. É ela que nunca olha sua forma mas tudo que preenche sua silhueta no que tange o seu ser e não o seu ter. Não se prende ao vestuário.

Vestuário

Uma tristeza imensa me invade assim que me dou conta de que aquela menina está me mostrando a foto de outra menina de saia curta e se referindo a ela como “vagabunda mesmo com essa roupa”. Senti-me péssima quando notei que eu tinha o mesmo modelo de saia e que talvez alguém em outro lugar ou dimensão estivesse fazendo o mesmo comentário em relação a mim por conta dessa saia. E me pergunto, quase que instantaneamente, que tem a saia a ver com isso? Há diversos protocolos sociais envolvendo nossas vestimentas que me deixam um tanto quanto incomodada como ser humano. Eu entendo a razão funcional das roupas mas, sinceramente, não me entra na cabeça a sua função enquanto definidora de caráter.

Caráter

Vou montar o clube das pessoas que não furam filas e, principalmente, daquelas que não acham que é o fim do mundo quando alguém fura a fila delas. Isso define caráter (nem que seja só no caixa do mercado).

Já vem com créditos

De todos os caminhos entre a Av. Ipiranga e o Largo do Arouche, o que eu mais gosto é o do meio da Praça da República. Toda vez que passo em volta daquele ex-lago limpo, e em meio aos sermões de seitas ou cultos formidáveis, desacelero o passo, dou uma olhada de canto, contemplo o barulho do emaranhado de vozes pra tentar entender o que é São Paulo.

A São Paulo que eu conheço é essa: A calçada craquelada, com meia dúzia de mendigos dividindo o resto do restaurante por quilo da 24 de maio, um peruano, flautas, uma travesti de peitos redondos, três cartazes de ciganas e jogo de búzios no poste, pombas, pombas, pombas, um dread perto da Galeria do Rock, a boa qualidade do ar cinza e denso no display abaixo da propaganda de condomínio (revitalização do centro), pichação em grafite, grafite, cocô e xixi no cantinho da esquina com a banca de jornal, uma pausa para o Edifício Italia comendo bauruzinho, coxa creme, pedaços de bacon colossais na vitrine das padarias, passa uma manifestação com fome, um spray de pimenta, mas só vê latinhas, latinhas, latinhas. E ainda assim passo pelo meio da praça e imagino que tantas vidas permeiam os outros caminhos por dentro da mesma praça e que labirinto alucinado é aquele. Quando eu saio do prédio que suporta aquele monte de ar condicionado pra fora, lá da 7 de abril, e cruzo a maior faixa de pedestres que já vi (certamente a mais larga), não me imagino virando nem direita nem esquerda. Tenho que ver qualé que é a do prédião iluminado de rosa. “Chip da Tim, já vem com créditos cinco reais” (!).

Pra falar a verdade, tudo que eu queria era um dia chegar lá e comprar aquele lustra-chão-do-calçadão que deixa o paralelepípedo da Barão de Itapetininga brilhando. Ou chegar um dia e dizer “quanto é que custa esse boubou preto e amarelo, lindíssimo?” Mas aí perde a graça. Eu sou expectadora de toda essa massa de gente psicodélica que caminha desnorteada. Não vou dizer que não morro de medo. Toda vez que ouço ambulância, algazarra de cracudo, carro de polícia me gela as entranhas, me apaga qualquer coisa que seja que eu vinha pensando, e só me passa na cabeça que talvez eu não chegue do outro lado. Mas, simultaneamente, no meio da voz da minha mãe que grita entre as minhas orelhas pra eu tomar cuidado por onde ando, meus olhinhos brilham e pedem pra ver mais daquele cara comendo a marmita prateada no sol. Talvez eu veja um corpo esfaqueado, ou talvez um mendigo sujo e mal cheiroso venha me falar sobre Jorge Amado e poemas do Vinícius de Moraes.

Gosto desse caminho porque piso em ovos, mas sempre tenho o que contar pra próxima pessoa que eu ver (ou no meu futuro livro, ou só pra gravar na memória). Entre os puteiros da Rua Aurora e o moço que toca o tema de Réquiem For A Dream em um violino desafinado, na entrada do metrô, está São Paulo. E eu passeio por lá, como quem só quer atravessar a praça de uma ponta a outra, como quem só quer transitar, chegar logo na Consolação. E que, da mesma forma, é abraçada pela imundice da cidade e não quer largar mais de jeito nenhum.

Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.

E dessa vez o que?

Contava os dias da semana como uma roleta russa. Sábado saia, sabia: domingo arrependia. Domingo não saia da cama 2 por 97. Colecionava camisetas e correntinhas. No lixo, camisinhas. Jogava o saco fora enquanto era silêncio e segunda feira. Que dia a bala sai do gatilho, pensava.

Não tinha cães ou mãe ou sono. Tinha palavras chorosas, sarcásticas, risonhas e tristes. Ao mesmo tempo. Tinha muita vida, e quase vida nenhuma. Tinha livros na estante. Amargos e gentis. E músicas na playlist. Amargas. Porque gostava das problemáticas, dos problemáticos, dos problemas em geral. Nunca se deixou passar do bom dia.

E cortava as unhas da mão, pintava as do pé de azul marinho. Passava blush cor de pêssego e muito rímel. Não sabia pra onde ia, se voltava, se precisava voltar (não precisava, quem se importa!). Não tinha porta copos, nem hora pra dormir. Pode-se dizer que tinha amigos coloridos, azuis, verdes, amarelos. Mas vivia sépia depois de gozar. Fumava cigarros, fumava canetinhas, fumava um baseado na praça da República e ia pra cama com o primo de terceiro grau da ex amiga do colegial.

Não queria ser mais que uma sexta a noite pra ninguém. Vivia de olás e tudo bens e saudades, bom te ver. E sorria os dentes sem escovar com aroma de vodka. Abraçava o barman, dava em cima do barman, ia pra cama com o barman. No fundo queria se jogar de costas em braços aconchegantes e colocar mais água no café.

Às vezes tenta sair. Às vezes consegue. Depois recai.

Porque será que recai?

Se desfaz em cacos. Sábado a noite saia, sabia: que é que emenda dessa vez? Cola, prego, amor? Liga o rádio, se enrola na camisola de algodão. E tira a maquiagem, pega a correntinha do chão. E dessa vez? Cola, amor?

Dessa vez mais amor, por favor! Passava pela parede de um cemitério desejando praticar o que lia. Mais, por favor? Justo lá que nem amor quase tinha. Tinha só cores e um monte de purpurina, jaquetas e anestésicos. Nem amor quase tinha.

E não sabe o que fazer quando não pensa mais no dia da semana. Não sabe onde enfiar o vale drink da festa na Augusta. Porque nunca se permite porque tem medo de ficar estável porque quer continuar a ser a voz dos mal amados porque se sente confortável no incômodo.

Pois dessa vez o que? Cola?

Não. Dessa vez amor, por favor!

Ode Ao ser Normal

Quando a gente da de cara com aquele monte de azulejo branco a gente entende. Quando da de cara com os cortes na pele da menina com a mãe naquela sala. Eu e ele fomos parar numa roda comandada por uma moça de jaleco que pedia que a gente compartilhasse, dizendo, primeiro, nosso nome. Todos diziam oi logo em seguida.

Eu não tinha porque estar ali, nem ele.

Saia da sala pra fumar escondido (mãe, eu fumava às vezes, não fica brava), era sempre umas 9 horas. Não sei, sinceramente, se caia mais chuva ou lágrima. Não conseguia manter o cigarro aceso, por isso desistia. Pensava, de uma forma contínua, achando que isso me ajudaria a entender, “como chegamos aqui?” e ele continuava lá dentro, sozinho.

Voltava e um cara com marca de corda no pescoço falava, sem expressão muito gritante, sobre como derrubou o banquinho posto abaixo dos seus pés. Outra, com cabelo bagunçado igual sua feição contava os comprimidos pra doutora, chorosa, querendo dizer que não estavam adiantando, “me dá mais!”.

Quando saíamos, via que a sobrancelha dele ganhava alguma expressão, depois de tanto tempo.

– Quero ir embora, Grace. Aqui só tem louco.

Claro, chama-se reabilitação, ou terapia em grupo. Ou o que você quiser. Tinha peso psicológico e a gente precisou ir parar lá pra ele aprender.

Perguntava por que ele se sabotava tanto.
Essa pergunta servia pra qualquer um de nós. Desde que me entendo por gente vejo auto sabotagem. Mamãe, papai, irmão. Todos tomam pílulas. Todos veem médicos, tiram licença. Que mal é esse que abraça minha família?

Fumando na chuva, entendia.

Veja só quanta média, classe média! Dinheiro? Tem. Carro tem, empregada tem. Tem jardim, jardineiro. Tem os brinquedos da Estrela empilhados no quarto, por cima do Play Station. Tem sucrilhos no prato.

Ele me falava:
– Porque quero um pouco de drama Grace, esse vazio me sufoca.

Justificando a nota de dinheiro enrolada e os pais presentes. Só eu não tinha percebido. Depressão dá mais em quem não tem por que. Não tem por que chorar, não tem por que reclamar. Depressão te dá o porquê.

A vida é perfeita pra nós, irmão. Ela é, tem casa, cachorro, quintal. Que mais cê qué? Percebi que o que tava entalado nas nossas gargantas chamava-se tudo-no-seu-devido-lugar.

E ele tentou fazer isso várias vezes. Quando demorava demais dentro do quarto eu já sabia: ia rolar um pouco de hospital e choro do lado de maca. Uma tentativa constante de se sentir vivo era tentar morrer. Agora compreendo. É que a gente fez isso diferente.

Eu fugi. Eu fui dar uma volta pelo Atlântico, fui tirar umas fotos na popa do mundo. Ele foi ver a proa da tarja preta. De jeitos distintos a gente tava buscando fazer a mesma coisa. A gente tava buscando sair da classe média da mente.

Porque a gente cresceu na casa que tinha tudo na mão, mas rodeados de gente que passava necessidade e usava isso de muleta pra não andar direito nunca. E, irmão, menosprezam a gente por isso.

A vida inteira ouvi: Cê tem sorte, menina. Olha só quanta gente queria estar no seu lugar! E apanhava na rua “vaza, patricinha!”

Nada que fazíamos tem o mesmo valor, ou a mesma luta. Porque meu pai resolveu trabalhar duro antes d’eu nascer e me pagar mesada. Já levei uns tabefes por causa disso, também, na saída da escola pública que me matricularam, mesmo podendo pagar ensino de qualidade porque “não somos melhores que ninguém”, diziam, certíssimos. Mas esqueceram que é uma jaula de leões se você não for selvagem também. E por isso a gente queria mexer a nossa vida com colher de pau. Um cheirava e a outra sumia, e ainda some.

Meu irmão, te entendo agora, anos depois.

Me dizem, pra desmerecer o lugar onde me encontro.
– Mas você que nasceu com o cu virado pra lua. Vem tudo sempre de mão beijada.

E talvez venha mesmo, irmão.
Mas desde quando a vida boa que nossos pais conseguiram nos dar tira nossos méritos? Nós passamos a vida, a infância, pedindo desculpas pela vida que a gente levava. Tentando ter mais histórias de superação pra contar.

“Sobrevivi a rehab“, dizia contente e sorridente, como se fosse uma coisa pra se orgulhar. Eu sei que ele queria provar pra todo mundo que a gente também tinha problemas. Que apesar da família perfeita também éramos gente com lágrimas. Nossa paz não era indestrutível. E que bosta que qualquer um possa nos invejar, porque aqui se gasta horrores com divã exatamente por isso.

Irmão, você não faz mais isso, mas sei que foi importante você ter arrombado aquele cadeado naquela vez. Me fez ver que não tem nada de errado em ser normal. E você não precisa mais se trancar no quarto pra gente perceber isso. Alias, não faça mais isso! Me destruiu, um pouquinho. Mas me abriu os olhos e me fez perceber que tanta angústia cerca a nossa existência.

Irmão, sei que veremos muitos médicos ainda.
Só quero que deixem a gente em paz. Nenhuma vida é tão perfeita assim. E agora eu sei que a gente não precisa cortar os próprios pulsos pra entender isso.

Nossa vida não tem que ser documentário do Fantástico, com órfãos, fome, divórcio pra gente sentir que vale alguma coisa. Ninguém precisa chorar lendo a nossa biografia. Pode ser só normal. Quem define se nossas conquistas foram fáceis ou difíceis somos nós.

O Ciclo 

Acompanhe o ciclo: conhece, escolhe, duvida, gela a barriga, gosta, desgosta, chora, esquece, recai, esquece de novo e pra sempre. E assim caminha a humanidade. Só que cada vez que esse ciclo se repete suas energias estão um pouco mais gastas. Você tem mais dúvida, sua barriga gela e não é de uma forma gostosa como costumava ser. Agora gela de medo de ter que passar por tudo de novo, gastar mais dinheiro com macumba, gastar rímel… Esse texto é pra te lembrar que isso tudo não é nenhum motivo pra hesitar. Vou me usar de exemplo pra não expor nenhum desgraçado desiludido.

Pronto, estou escrevendo cartinhas de amor de novo, mas que merda! Mas é porque é tão delicioso deixar-se molhar pela tempestade do romance que, mesmo que saibamos que hora ou outra aquela pessoa vai nos enfincar o pé nas nádegas, deixamo-nos envolver e adoçamos um pouco a amargura do coração partido.

E, ainda por cima, escrevi poemas. Essa pessoa fatigada das dezenas de relacionamentos errados escreveu poemas de amor. Dos mais bregas, que embrulham estômagos e fazem uma bagunça danada. Nem publiquei, estavam ridículos. Eu estava ridícula, vulnerável e tola. Como nos ensinam a não ser. Mulher do século XXI é independente, não espera o príncipe, critica a Cinderela e todas as princesas. Mas isso é outra pauta, deixa as feministas mais engajadas escreverem. No que diz respeito a esta jovem coberta de calos amorosos, tudo sempre acaba em pizza. Pizza meia euforia, meia dor de cabeça.

Os romances da gente são, no geral, uma grande dor de cabeça intercalada por momentos de êxtase e orgasmos fenomenais. Nem sempre são completos, ou são inteligentes, ou têm línguas performáticas. Dificilmente colecionarão qualidades. Mas, no final do dia, da balada, o que importa é encaixar.

De alguma forma você se prende. Se prende ao senso de humor afiado, igual ao seu. Se prende ao maravilhoso mundo do tanquinho dele. Se prende aos livros que vocês têm em comum. E, quando se da conta, está escrevendo poemas. O problema começa quando uma das partes se perde. Porque, sim, uma das partes sempre se perde. É um fenômeno da juventude, eu li em algum lugar isso, ou não, só quero embasar o que disse. Mas coloque na cabeça: a não ser que você seja escolhido pra adentrar a nova arca de Noé, uma das partes vai sempre se perder.

Digo isso porque a sintonia que existe entre os casais dificilmente é contínua e, de alguma forma, um sempre vai estar mais envolvido que o outro. E vai parecer um déjà vu, você já vai ter visto esse filme. Você desama, ou ele o faz. Pode demorar mais ou menos, mas vai acontecer, e é aí que entra a minha teoria do ciclo.

Estou ficando muito científica. Vamos poetizar!

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”

Deixando de lado toda a crítica que, não necessariamente envolve amor como um sentimento, podemos desejar empacotar só pra poder dar um chamego no Drummondzinho porque ele traduziu o que é ser jovem e tentar amar, assim como fez aquele que é sábio no superlativo, o Xico Sá, com a sua linda crônica sobre “o pinga pinga do amor líquido”.

Quando ainda não dói amor nenhum é que começa a preocupação. Ah, que abismo me espera, cadê o número do meu terapeuta e o que será que vai acontecer de errado dessa vez? Porque é um clichê soltar balões de coração e ao mesmo tempo esperar pelo pior – ou somos extremamente pessimistas. Mas, veja bem, vamos esperar a decepção aparecer pra depois a gente pensar em se decepcionar com ela. Ok?

Vamos pensar que de galho em galho escrevemos nossas biografias amorosas e de galho em galho aprendemos, cada vez mais, a tirar um bom suco dos limões. Fazer uma torta, quem sabe. Fazer bom proveito de todas as cagadas. O primeiro amor foi traumático, sempre é, mas o segundo, o terceiro, o décimo, esses são, no mínimo, boas recordações, bons textos, bom sexo, boas conversas, boas risadas. A lição que fica é que não importa o quão quebrado ficou seu coraçãozinho da última vez. Você sempre cola ele de volta no lugar e o que sobra são cicatrizes que formam quem você é hoje. E elas não são, de forma alguma, ruins. São suas, ame-as!

Agora, com licença, vou ali quebrar a cara de novo. Já volto!

Faça uma loucurinha

Amigo, faça uma loucurinha!

Loucurinha sabe? Que a gente precisa tanto, às vezes.
Saia para dançar, conheça um estranho, chame-o pra tomar um chá. De repente, dê uns beijos nele, sim, encha-o de beijos, de carinhos, tenha a melhor noite da sua vida. Acorde no dia seguinte, pague o táxi dele. Não diga seu telefone (mas use camisinha).

Eu te vi tão certo toda a vida, tão barba feita, tão sapatos lustrados, camisa passada. Continue assim, mas hoje faça uma loucurinha. Ligue para aquele cara que você sempre quis ligar e diga que só quis dizer um oi. Diga à sua terapeuta que ela é adorável. Use a touca de bichinhos que você ganhou da sua mãe no último natal.

Seja uma pouco livre, só um pouquinho!

Pense bem, você deve isso a si mesmo. Você merece um break, você merece um copo de catuaba Selvagem e uma ressaquinha gostosa no dia seguinte. Você merece poder surtar, perder a cabeça por algumas horas. Você trabalha tanto, não faça isso com si mesmo. Faça uma loucurinha. Grite em praça pública.

Sim, pode usar meu carro, tome as chaves. Pode usar meu ombro se quiser chorar. Amigo, pode chorar!
Pode fazer um barraco no boteco, quebrar uma garrafa de cerveja de propósito sem querer. Não seja expulso do bar, mas faça os garçons se lembrarem de você. Coma manga e tome leite. Hoje pode.

Saia e caminhe por uma vizinhança que você nunca foi. Longe de casa, pegue um ônibus qualquer. Fale com estranhos sobre o tempo, coloque funk pra tocar sem fones de ouvido. Seja chato! Só por hoje! Pode extravasar esse monte de cabelo penteado que você carrega todos os dias. Não faça luzes, mas pode inventar um moicano, ou simplesmente não fazer nada com ele.

Use chinelos. Use camiseta regata. Só não use Crocs, mas pode usar bermuda de Tactel. Faça essa loucurinha, diga que ama quem você ama e lembre-se de esquecer o relógio. Abrace seu porteiro. Faça uma tatuagem.

Satisfaça minhas vontades: quero ver seu sorriso bem largo debaixo do seu nariz. Te ouvir gargalhar.
Faça uma loucurinha, por mim.

Só não mate ninguém.
Não roube.
Não seja preso ou prejudique alguém!

Mas liberte-se!
Amigo, faça uma loucurinha.

*Dedicado a um amigo