Parte II

Tinha chegado há 3 dias e as malas ainda estavam na entrada do quarto, chamava isso de “meu novo armário”. Minha colega de quarto – a chamava assim, agora, ao invés de amiga – fazia yoga na sala todos os dias e isso me fazia querer ficar ainda mais dentro do meu quarto. Minha mãe me emprestou dinheiro, se eu só almoçar consigo viver com isso por uns 2 meses. Não que eu tenha me dado ao trabalho de fazer as contas. Confio na minha intuição.

Confio? Eu devia ter previsto. O conheço há 15 anos, talvez alguma pista tivesse escapado nos 10 anos que vivemos sob o mesmo teto. Por outro lado, como é que eu ia imaginar que meu meio irmão ia ser o protagonista da cena mais sexy da qual participei em meses? E digo sexy com certa repulsa, admito, pois quem é que quer dizer ao mundo que beijou seu próprio irmão mesmo que tenha sido por 3 segundos e tomando Coca Cola?

Minha vida está ótima agora que brigamos. Literalmente só meu pai me aguenta. Ele me ligou ontem, preocupado, querendo saber o que foi dessa vez. Antecipei minha partida em 30 dias mas não havia sinal de dano em parte alguma da minha família, a não ser o que já havia deixado em outros carnavais. É no mínimo intrigante. Não tinha sinal de emprego, de namorado, de amigo. Fiquei de ver depois o que foi que aconteceu quando desliguei o telefone sem mais nem menos na cara do meu pai. Uma desculpa ia surgir, deixei pra depois como já era de praxe. Era véspera de ano novo e a última coisa que eu queria era explicar o paradeiro das mãos e da língua do seu enteado naquela tarde. E então, a partir daí, nem meu pai me aguenta.

O bar para o qual concordei em ir com esse cara era comprido e estreito adornado com uns 300 espelhinhos 15 por 15 na parede do nosso lado. E ele era um sujeito que me permiti conhecer de dentro do meu quarto pelo telefone. Eu não creio em amor moderno. Eu acho que não creio em amor nenhum, pra falar a verdade, e tudo que eu queria era não precisar sair de casa pra conseguir alguma atividade sexual que incluísse outra pessoa sem dar margem pra um possível incesto, mas dessa vez não deu. Paciência! Quando transbordei das escadas rolantes, então, para encontrá-lo, coisa que não aconteceu de imediato mas rápido o suficiente pra não precisarmos nos telefonar, aprovei de cara sua aparência e, na verdade, àquela altura pouco deveria me importar se nos daríamos bem ou se eu o veria em outra ocasião. Nos sentamos e logo quis saber sobre a minha tatuagem mais visível. Clássico. Ótimo. Direto ao ponto, à superfície. Quem é que quer saber detalhes da vida da mais nova desempregada com temperamento levemente agressivo? Fomos pra casa dele, transamos. Transamos como dois estranhos que éramos, não me lembro como é mesmo que se faz amor. De manhã me despedi, beijei sua bochecha, saí. Agora que penso nisso não sei se seu nome é Vítor ou Flávio.

Quando eu tinha uns 9 anos minha mãe costumava costurar no quarto depois das 10. Eu aprendi alguns pontos, fazia bordado às vezes, pra passar o tempo. Às vezes era quase 10 e ela não vinha. Eu pegava as peças atrasadas e dava andamento, mesmo com o risco de “matá-las”, como ela mesma diria. Um dia ela disse o nome da minha madrasta numa discussão com o meu pai do outro lado da casa enquanto eu caprichava no ponto cruz. Não foi até muitos anos depois que eu percebi que minha madrasta já estava destinada a entrar na minha vida muito antes de a minha mãe deixar a gente em 1998. Quando vi não existia mais eu, ela e meu pai.

Não que antes eu fosse muito sensível, mas aí me dei conta de que ser fria era uma característica minha. Também não sei se a culpa é da minha mãe, do meu pai, da minha madrasta. Não sei como foi que o amor deles começou e morreu, não sei como isso se dá no geral, de qualquer maneira. Acho que nunca amei e desamei pra saber.

Um dia ela chegou e disse que não o amava mais. Na minha cabeça foi assim que ela fez, ela decidiu que não amava mais o meu pai e quando viu já estava embarcando pra Manchester sem passagem de volta. Não sei se ela foi sozinha, se a princípio pretendia voltar. Sem todos esses detalhes resta a minha imaginação e ela me diz que nunca teve amor lá pra começar. Eles dizem que se conheceram acidentalmente, meu pai a confundiu com uma prima distante no aeroporto e desde então saíram, casaram, tiveram uma filha temperamental e com comportamento um pouco psicótico.

E então ela parou com a costura. Eu vendi aquela máquina quando fiz 18 anos, não tinha porque guarda-la já que nessa época eu ainda a odiava com certo emprenho. Talvez eu me arrependa no meu leito de morte de não ter procurado o motivo do desamor dos meus pais. O resultado eu sabia: um irmão postiço, muitas brigas e alguns momentos embaraçosos e uma outra mãe pra me ignorar.

Minha madrasta provavelmente não sabe nada sobre mim apesar de termos um relacionamento razoável e nos tratarmos por “mãe e filha”. Não posso dizer que ela não tenha feito o seu papel que era ir a reunião de pais e me dar dinheiro aos finais de semana. Mas de alguma forma a figura mais materna que eu tive na infância – e tenho até hoje -foi  meu pai. Também não sei como o amor deles começou e como é que ele sobrevive através do tempo. Como é que alguns amores sobrevivem e outros não. Com a minha idade meus pais já estavam na metade do caminho para separação. Eu, tudo que tenho é uma meia dúzia de ex namorados que não duraram o suficiente pra serem vagamente lembrados, aliás todos foram, de certa forma, descartáveis. Não dava pra saber se o “te amo” que dizíamos foi real até muitos anos depois e posso garantir que os nossos não foram. Sei porque eles foram facilmente substituídos por baseados e por masturbação.

Há um jeito de perceber que alguém nos está perdendo? Há um alarme, um sinal? Dificilmente percebemos, quando muito desconfiamos e mesmo assim é tarde demais pra nos darmos ao trabalho evitar. Como é que um amor morre, como é que ele sobrevive? Meu pai disse, quando perguntei, que o amor desmorona quando os dois lados não seguram mais com a mesma força. Quando minha mãe descobriu seu caso secreto com a minha madrasta, meu pai já não estava segurando do mesmo jeito que ela há tempos e na verdade os dois já haviam deixado o amor rolar ladeira abaixo, de qualquer maneira. Segundo ele era difícil demais lembrar do porque estavam juntos e, embora eu fosse um belo motivo para que eles tentassem, uma nova oportunidade bateu na porta dele e ele deixou entrar. Eu não tive culpa, eu nem sabia ou sequer me importava na época. Essas dúvidas todas, essa curiosidade, surgiram anos mais tarde e não por eles, mas por mim que já estava na idade madura e queria entender como é que tudo isso funcionava. Não sem antes ficar extremamente confusa com o meu relacionamento com todas as pessoas ao meu redor que, como de súbito, havia mudado radicalmente.

Porque é que minha impressão do meu irmão mais velho havia se transformado nessa coisa pegajosa que não tem e pé nem cabeça e me faz querer voltar no tempo, onde o amor começa, termina, sobrevive – se der – pra ver se isso tudo faz algum sentido. Não tivesse morrido o amor entre meus pais não teríamos sido apresentados, não estaríamos bebendo Coca Cola em pijamas e ele jamais teria cheirado o meu cabelo em ocasião nenhuma.

Na manhã seguinte o cara da semana passada me ligou e eu concordei em vê-lo de novo desde que pudéssemos nos encontrar direto na casa de um dos dois porque eu estava sem dinheiro. Nós sabíamos que iria acabar dessa maneira, não tem porque romantizar um encontro que só valoriza o sexo sem compromisso. Ou seria assim o início do amor entre a gente? Eu sinceramente não sei mais o que pensar agora que revisitei a ascensão e a queda do amor dos meus progenitores tendo chegado a lugar nenhum, mais uma vez. Quantas vezes o amor nasce e morre, quantos amores existem? São todos eles apenas uma face de um amor maior? Nos encontramos na casa dele, não queria dar meu endereço ainda, não tinha certeza. Quase não trocamos palavras principalmente porque eu desconversei de toda investida que ele ousou dar. Que coragem!

Me gritou, fora de contexto: você nunca vai começar um amor com ninguém desse jeito! Tudo bem, não foi totalmente fora de contexto. Conversávamos sobre meus pais, sobre os pais dele, finalmente conversávamos, já no terceiro encontro. Tudo que eu quis dizer foi que ele não precisava inventar firulas porque eu não tinha esperanças de que nada ia de fato acontecer entre nós, em resposta à pergunta “você quer ir comigo ao teatro?”. E então fui de metrô pra casa deletando, ao mesmo tempo, o seu número do meu celular. Ninguém tem que me dizer como viver minha vida não é mesmo? Fazia tempo que eu não chorava. Chorei baixinho, sentada na privada e minha colega de quarto nem percebeu enquanto fazia yoga, nua, na sala.

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Depois dos 25 é downhill

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma menina encontrou-se em sua cama, metamorfoseando num adulto monstruoso. Havia contas de luz pagas por todos os lados, um anti inflamatório que eu precisava tomar, um post-it “pegar roupas na lavanderia quarta feira”. Uma dor nas pernas, porque fiz alguns exercícios há dois dias. Meu namorado encontrou um cabelo branco na minha cabeça. Da noite pro dia celulite, 3 graus em óculos de armação discreta, dificuldade pra pintar as unhas do pé. Chegou minha hora.

Me disse outro dia que depois dos 25 é downhill. Ladeira abaixo!

Semana passada, uma crise imensa envolvendo alucinações e fobias durante todo o meu expediente. Por algum motivo eu dei de pensar que tenho todas as doenças que ouço falar. Sempre penso que estou prestes a sofrer um derrame. Preciso marcar otorrino, neuro, ginecologista, gastro, psiquiatra, ortopedista… Esqueço minhas senhas, meus pertences, vivo cheia de lembretes no celular. Talvez eu tenha mesmo alguma doença. Ou talvez meu corpo esteja me avisando que eu já sou grande.

Nunca pensei que fosse ter esse conflito interno de personalidade, de amizades, de carreira, de sanidade mental. Quando eu era adolescente, no meu quarto, eu não sabia que a vida acontecia fora daquele quadrado. Não pensava em nada, pra falar a verdade, nem queria crescer, nem era tão rebelde assim. De repente é difícil de uma forma totalmente nova. Não é mais a solidão. Não é a incerteza, nem os desamores. É a própria existência, que ultimamente tem pesado uma tonelada em cima dos meus ombrinhos magros. E não digo que estou infeliz. Alias, nunca estive melhor ou mais realizada.

É só a dificuldade de permanecer estável por um grande período de tempo quando estou sozinha com meus próprios pensamentos. No final, às vezes eu entendo porque estamos aqui. Olho pra cara de anjinho que ele tem dormindo – narizinho – não consigo não abrir um sorriso largo. Lembro da minha aula de literatura e de como eu gosto de ouvir aquele senhor falar. Lembro dos cachorros que quero ter. Penso: Como quero envelhecer? Sei que não quero. Por outro lado talvez, quando eu for mais velha, eu não seja mais essa alma ansiosa que precisa de uma explicação pra tudo, que se sente um monte de matéria orgânica ocupando espaço e tem dúvidas sobre a veracidade do seu próprio ser. É com a idade que vem a sabedoria, eu suponho. E talvez eu entenda e possa, assim, parar de gastar tempo me preocupando com esse tipo de coisa.

Quero dizer que a gente se transforma, uma hora ou outra, pro bem ou pro mal.

Um dia você acorda de sonhos intranquilos e vê que virou essa coisa. Essa coisa que é outra coisa, mas não é você. É um adulto, um ser qualquer que pega ônibus e reclama do trânsito de manhã, que não sabe como chegou ali e que não deveria, mas não faz a menor ideia de como seguir, do que fazer, do que ser e do que pensar. É só uma bagunça, e com medidas maiores, uma bunda imensa e audição duvidosa.

Talvez eu esteja sendo sortuda. Há um outro adulto ao meu lado aguentando todas as crises supraditas, todas elas! Às vezes penso que me encolho e esqueço tudo que sou pra poder ser dele em paz. Pra poder deixar a sua mão magnânima pegar na minha e me guiar pra luz. Depois tenho saudades de mim: Coloco minhas músicas, vejo meus filmes, gravo uns vídeos cantando que nunca sobem pra internet. Mas, agora, na maioria do tempo eu sou essa pessoa. Metamorfoseei de uns tempos pra cá de um forma brusca demais, acabo de perceber, mas acho que é do jeito que deve ser. Bom, quanto às contas, à casa, ao trabalho, às dores do corpo, isso acho que não faço questão. Mas todo o resto, a dificuldade de ser (de ser, só isso, ser), isso acho que me agrada e me empurra pra quando eu olhar por cima do ombro querendo achar que não valho nada. Vou saber que valho sim, valho muita coisa.

Mas quer saber, nem é tão difícil assim! Papai deposita 3 dígitos quanto eu preciso, as vezes 4. Limpo a casa a cada 10 dias, jogo o lixo fora. Quando acaba a comida, vou ao mercado. Cumpro minhas tarefas, ganho um salário razoável todo dia 30. Espero a dor passar: na maioria das vezes sei que é minha cabeça pregando peças, então eu espero. O que da trabalho é o próprio viver, o quanto tempo perdemos pensando “será que estou bem?”.

Dizer essas coisas em voz alta é assustador. Me sinto uma louca varrida, uma lunática. Da mesma forma, sei que não sou a única. É normal questionar aos 25, ou ter problemas pra subir escadas. Suponho que todo mundo tenha medo de remédios ou de chuva. Suponho que todos larguem o que conhecem até então pra ser outro, pra virar essa metamorfose. E talvez alguém de 30 anos venha me dizer que eu ainda não vi nada e pra eu parar de fogo no cu. Que seja.

Tenho essas crises – e sei que todos têm. Esperneio, penso “Deus, ou Deuses, porque estou aqui?!” Mas no final do dia sei que gosto de morder a orelha daquele menino, de maquiar minha mãe, ver meu pai caindo de sono no sofá da sala e meu melhor amigo fumando no escuro sempre que chego em casa. E, por enquanto, é isso que me mantém firme essa amante da vida.  Certamente melhor do que virar um inseto.

Os bebês e as lascas de unha 

– Amor, vou encostar a porta do banheiro porque vou cortar as unhas do pé.

Ok, eu penso. E continuo deitada de barriga pra cima sendo surpreendida pela sensação de perceber pela primeira vez que tem duas lâmpadas em lugares diferentes no teto. Depois fiquei ouvindo o cleque cleque das unhas sendo aparadas e imaginando em que posição terrível ele deve estar lá dentro do banheiro apertado, tentando alcançar o dedão do pé sentado na privada, ao invés de aqui fora, na cama, sem dor nas costas e sem arrancar um bife.

Ao mesmo tempo ouço crianças brincando no parquinho do condomínio. Digamos que o prédio dele tem a pior acústica em se tratando de brincadeira de crianças e, assim, podemos saber de todos os detalhes do pega pega, ou qual criança ralou o joelho e está chorando em si sustenido. Penso “quero ter filhos?” e quase sem perceber, substituo o ponto de interrogação por reticencias, que num momento de cleque absoluto, se transformam em um gordo ponto de exclamação.

– Amor, você quer ter filhos?
Me imagino falando, no café da manhã de um dia, do alto dos meus 25 anos de idade e do meu útero fisiologicamente maduro para procriar. A minha versão de três anos atrás jamais pensaria nisso. Sei bem porque a sensação é totalmente inédita e não sei dizer bem se é meu corpo, minha mente ou meu coração que a deu gênese. Talvez uma combinação dos três. Ou talvez seja uma fase, uma época do mês ou só o relógio biológico badalando meia noite.

Logo depois penso em intimidade. Meu amor está cortando as unhas, posso quase imaginar a cena do lado de lá da porta do banheiro. Um dia tirei um alface do meio dos dentes dele com meu próprio dedo indicador.

– Amor, quer casar, morar junto, ter bebês e cachorros um dia, assim sem compromisso?

Se eu já posso cuidar da higiene bucal dele, acho que já da pra fazer planos a longo prazo. As crianças brincando no playground mal sabem a influência que têm sobre os adultos do sétimo andar. Eu aqui, casualmente, deitada de calcinha e sutiã de bichinhos, de meia, pensando em ter bebês. Pensando que quero ele como pai dos meus bebês. Tudo porque ele tem a decência de fechar a porta e me poupar de vê-lo cortar as unhas mesmo com toda a intimidade que a gente já tem (what a gentleman!).
Meu amor sai do banheiro, unhas rentes, de cueca e visivelmente irritado.

– Mas que gritaria é essa?

Talvez seja melhor esperar mais um pouco.

Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.

E dessa vez o que?

Contava os dias da semana como uma roleta russa. Sábado saia, sabia: domingo arrependia. Domingo não saia da cama 2 por 97. Colecionava camisetas e correntinhas. No lixo, camisinhas. Jogava o saco fora enquanto era silêncio e segunda feira. Que dia a bala sai do gatilho, pensava.

Não tinha cães ou mãe ou sono. Tinha palavras chorosas, sarcásticas, risonhas e tristes. Ao mesmo tempo. Tinha muita vida, e quase vida nenhuma. Tinha livros na estante. Amargos e gentis. E músicas na playlist. Amargas. Porque gostava das problemáticas, dos problemáticos, dos problemas em geral. Nunca se deixou passar do bom dia.

E cortava as unhas da mão, pintava as do pé de azul marinho. Passava blush cor de pêssego e muito rímel. Não sabia pra onde ia, se voltava, se precisava voltar (não precisava, quem se importa!). Não tinha porta copos, nem hora pra dormir. Pode-se dizer que tinha amigos coloridos, azuis, verdes, amarelos. Mas vivia sépia depois de gozar. Fumava cigarros, fumava canetinhas, fumava um baseado na praça da República e ia pra cama com o primo de terceiro grau da ex amiga do colegial.

Não queria ser mais que uma sexta a noite pra ninguém. Vivia de olás e tudo bens e saudades, bom te ver. E sorria os dentes sem escovar com aroma de vodka. Abraçava o barman, dava em cima do barman, ia pra cama com o barman. No fundo queria se jogar de costas em braços aconchegantes e colocar mais água no café.

Às vezes tenta sair. Às vezes consegue. Depois recai.

Porque será que recai?

Se desfaz em cacos. Sábado a noite saia, sabia: que é que emenda dessa vez? Cola, prego, amor? Liga o rádio, se enrola na camisola de algodão. E tira a maquiagem, pega a correntinha do chão. E dessa vez? Cola, amor?

Dessa vez mais amor, por favor! Passava pela parede de um cemitério desejando praticar o que lia. Mais, por favor? Justo lá que nem amor quase tinha. Tinha só cores e um monte de purpurina, jaquetas e anestésicos. Nem amor quase tinha.

E não sabe o que fazer quando não pensa mais no dia da semana. Não sabe onde enfiar o vale drink da festa na Augusta. Porque nunca se permite porque tem medo de ficar estável porque quer continuar a ser a voz dos mal amados porque se sente confortável no incômodo.

Pois dessa vez o que? Cola?

Não. Dessa vez amor, por favor!

O Ciclo 

Acompanhe o ciclo: conhece, escolhe, duvida, gela a barriga, gosta, desgosta, chora, esquece, recai, esquece de novo e pra sempre. E assim caminha a humanidade. Só que cada vez que esse ciclo se repete suas energias estão um pouco mais gastas. Você tem mais dúvida, sua barriga gela e não é de uma forma gostosa como costumava ser. Agora gela de medo de ter que passar por tudo de novo, gastar mais dinheiro com macumba, gastar rímel… Esse texto é pra te lembrar que isso tudo não é nenhum motivo pra hesitar. Vou me usar de exemplo pra não expor nenhum desgraçado desiludido.

Pronto, estou escrevendo cartinhas de amor de novo, mas que merda! Mas é porque é tão delicioso deixar-se molhar pela tempestade do romance que, mesmo que saibamos que hora ou outra aquela pessoa vai nos enfincar o pé nas nádegas, deixamo-nos envolver e adoçamos um pouco a amargura do coração partido.

E, ainda por cima, escrevi poemas. Essa pessoa fatigada das dezenas de relacionamentos errados escreveu poemas de amor. Dos mais bregas, que embrulham estômagos e fazem uma bagunça danada. Nem publiquei, estavam ridículos. Eu estava ridícula, vulnerável e tola. Como nos ensinam a não ser. Mulher do século XXI é independente, não espera o príncipe, critica a Cinderela e todas as princesas. Mas isso é outra pauta, deixa as feministas mais engajadas escreverem. No que diz respeito a esta jovem coberta de calos amorosos, tudo sempre acaba em pizza. Pizza meia euforia, meia dor de cabeça.

Os romances da gente são, no geral, uma grande dor de cabeça intercalada por momentos de êxtase e orgasmos fenomenais. Nem sempre são completos, ou são inteligentes, ou têm línguas performáticas. Dificilmente colecionarão qualidades. Mas, no final do dia, da balada, o que importa é encaixar.

De alguma forma você se prende. Se prende ao senso de humor afiado, igual ao seu. Se prende ao maravilhoso mundo do tanquinho dele. Se prende aos livros que vocês têm em comum. E, quando se da conta, está escrevendo poemas. O problema começa quando uma das partes se perde. Porque, sim, uma das partes sempre se perde. É um fenômeno da juventude, eu li em algum lugar isso, ou não, só quero embasar o que disse. Mas coloque na cabeça: a não ser que você seja escolhido pra adentrar a nova arca de Noé, uma das partes vai sempre se perder.

Digo isso porque a sintonia que existe entre os casais dificilmente é contínua e, de alguma forma, um sempre vai estar mais envolvido que o outro. E vai parecer um déjà vu, você já vai ter visto esse filme. Você desama, ou ele o faz. Pode demorar mais ou menos, mas vai acontecer, e é aí que entra a minha teoria do ciclo.

Estou ficando muito científica. Vamos poetizar!

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”

Deixando de lado toda a crítica que, não necessariamente envolve amor como um sentimento, podemos desejar empacotar só pra poder dar um chamego no Drummondzinho porque ele traduziu o que é ser jovem e tentar amar, assim como fez aquele que é sábio no superlativo, o Xico Sá, com a sua linda crônica sobre “o pinga pinga do amor líquido”.

Quando ainda não dói amor nenhum é que começa a preocupação. Ah, que abismo me espera, cadê o número do meu terapeuta e o que será que vai acontecer de errado dessa vez? Porque é um clichê soltar balões de coração e ao mesmo tempo esperar pelo pior – ou somos extremamente pessimistas. Mas, veja bem, vamos esperar a decepção aparecer pra depois a gente pensar em se decepcionar com ela. Ok?

Vamos pensar que de galho em galho escrevemos nossas biografias amorosas e de galho em galho aprendemos, cada vez mais, a tirar um bom suco dos limões. Fazer uma torta, quem sabe. Fazer bom proveito de todas as cagadas. O primeiro amor foi traumático, sempre é, mas o segundo, o terceiro, o décimo, esses são, no mínimo, boas recordações, bons textos, bom sexo, boas conversas, boas risadas. A lição que fica é que não importa o quão quebrado ficou seu coraçãozinho da última vez. Você sempre cola ele de volta no lugar e o que sobra são cicatrizes que formam quem você é hoje. E elas não são, de forma alguma, ruins. São suas, ame-as!

Agora, com licença, vou ali quebrar a cara de novo. Já volto!

Faça uma loucurinha

Amigo, faça uma loucurinha!

Loucurinha sabe? Que a gente precisa tanto, às vezes.
Saia para dançar, conheça um estranho, chame-o pra tomar um chá. De repente, dê uns beijos nele, sim, encha-o de beijos, de carinhos, tenha a melhor noite da sua vida. Acorde no dia seguinte, pague o táxi dele. Não diga seu telefone (mas use camisinha).

Eu te vi tão certo toda a vida, tão barba feita, tão sapatos lustrados, camisa passada. Continue assim, mas hoje faça uma loucurinha. Ligue para aquele cara que você sempre quis ligar e diga que só quis dizer um oi. Diga à sua terapeuta que ela é adorável. Use a touca de bichinhos que você ganhou da sua mãe no último natal.

Seja uma pouco livre, só um pouquinho!

Pense bem, você deve isso a si mesmo. Você merece um break, você merece um copo de catuaba Selvagem e uma ressaquinha gostosa no dia seguinte. Você merece poder surtar, perder a cabeça por algumas horas. Você trabalha tanto, não faça isso com si mesmo. Faça uma loucurinha. Grite em praça pública.

Sim, pode usar meu carro, tome as chaves. Pode usar meu ombro se quiser chorar. Amigo, pode chorar!
Pode fazer um barraco no boteco, quebrar uma garrafa de cerveja de propósito sem querer. Não seja expulso do bar, mas faça os garçons se lembrarem de você. Coma manga e tome leite. Hoje pode.

Saia e caminhe por uma vizinhança que você nunca foi. Longe de casa, pegue um ônibus qualquer. Fale com estranhos sobre o tempo, coloque funk pra tocar sem fones de ouvido. Seja chato! Só por hoje! Pode extravasar esse monte de cabelo penteado que você carrega todos os dias. Não faça luzes, mas pode inventar um moicano, ou simplesmente não fazer nada com ele.

Use chinelos. Use camiseta regata. Só não use Crocs, mas pode usar bermuda de Tactel. Faça essa loucurinha, diga que ama quem você ama e lembre-se de esquecer o relógio. Abrace seu porteiro. Faça uma tatuagem.

Satisfaça minhas vontades: quero ver seu sorriso bem largo debaixo do seu nariz. Te ouvir gargalhar.
Faça uma loucurinha, por mim.

Só não mate ninguém.
Não roube.
Não seja preso ou prejudique alguém!

Mas liberte-se!
Amigo, faça uma loucurinha.

*Dedicado a um amigo

Travesseiro 

não me atrai nada que não revela os seus dentes,
monte de quadradinhos menos que beges
desbotados
numa arcada estreita como se seu formato revelasse a timidez
mas quando saltam da meia lua do seu rosto, espremem um pouco seus dois olhos
querendo me fixar na cabeça
ou só sorrir um pouco
e não tentar ser nada que não pode ser
ou tentar (deve tentar!)

pode ser,
meus dentinhos sorridentes,
meu melhor passatempo de passar um tempo feliz
e ser feliz por um tempo
na dimensão de todos os segundos que conto sem te ver
(são os mais longos)

de nada importa o que não te emociona! seu coração saltitante,
quando estou jogada sobre você,
é meu lugar favorito.

Quando a luz faz curvas?

Mesmo com todas as curvas que essas luzes percorrem no meu corpo, no seu corpo, nesses lençóis, qual o ponto que liga a minha mente com a dele se não é só nossos poros?
Mesmo com todo o egocentrismo que emano e que me é intrínseco, pra reparar nas luzes que percorrem as minhas curvas, e o quão amarelas parecem quando minha mente está vazia.
Um metro e sessenta e três percorreu seu lábio inferior com pouca saliva, muito emprenho e um alguns sons da tv. E, imóvel, congelada, segui, aguardando que ele fosse me derreter.
Tão segura quanto um cofre, guardou todos os dois olhos fixos nas minhas feições. Os meus, trancados, enxergam e apreciam. Por que não perco a consciência? Por que é relevante que um dos meus pés encosta o chão, que uma das minhas mãos está dormente e que eu me sinto tão confortável embaixo do peso dele? E ao mesmo tempo esquivo mentalmente de me permitir voltar, e volto.
Mesmo com todas as cobertas e todo o vento mudo lá fora e todos os corações envolvidos, qual o ponto que fiz com essa agulha hoje? Sei que não o conheço, tampouco a mim.
Não quero pensar em lençóis, em vento, em nada.
Quero desligar a cabeça por dois segundos e não detalhar se a língua dele deve ir pra direita ou pra esquerda. Quero sentir-me exatamente assim: segura, calma.

Calma!
He’ll catch on.

Pra onde vai o amor?

Acordei, enrolada num cobertor. Desci pra buscar o jornal na parte de fora. Brinquei com um cachorro de olhos verde água que estava preso pela corrente no portão. Que diferença tenho dele?

Do passado estampado no meu desktop quase não ficou nada. Algumas cicatrizes – principalmente as do joelho. E nem me lembro qual parte da manhã eu gostava mais (lembro e era a parte que eu bagunçava o cabelo dele). Peguei o jornal enrolado num plástico, e assim ficou, só que jogado ao lado da minha cafeteira.

Ao invés de ver quais notícias sangrentas ou desconfortantes iriam saltar daquelas páginas, resolvi fazer uma faxina. Que vida não precisa de faxina, às vezes? Tinha muita tralha espalhada, mal dava pra andar no meu quarto. Tirei muitas gavetas, pó, teia de aranha. E só moro aqui há um ano e pouco. Não sei como cheguei a esse ponto.

De uma caixa de sapato saiu um bilhetinho, de quem eu bagunçava o cabelo de manhã. Li, reli, três vezes. Lembrei-me que aperto me deu quando li a primeira vez e percebi o vazio sentia lendo agora. Um bilhete dobrado em quatro, mas que ainda tinha as marcas das dobras em forma de coração. Juro, não senti nada.

Pra onde vai o amor que não mais se sente?

Eu sei que sentia, num tempo que parece tão distante quanto as fotos no meu desktop. Eu sentia paixão, eu sentia tesão. Eu não tinha escrúpulos, nem limites – quem ama não tem nada disso. Eu, eu mesma que hoje durmo com cobertor, mas antes dormia só com ele por cima de mim, e tecia desculpas pra encontrá-lo no banheiro escondido do décimo andar. Eu mesma que chorei tantos litros ao deixá-lo. Que sorri largamente ao revê-lo. Que senti um coração estremecendo com a ideia de nunca mais poder bagunçar aquele cabelo.

E agora era nada.

E agora era só um bilhete dobrado em quatro, com promessas que já foram quebradas há muito tempo e que não fazem mais nenhum sentido. Era ainda menos relevante que o jornal, que o café, o cachorro. Era só um pedaço de papel.

Alguns dizem que se transforma.

O amor se transforma. Vira rancor, vira um incômodo. Vira uma caixa de sapato com os pertences dele, todos amassados, jogados por cima de memórias que você não quer mais ter. Amarrotados como ele te deixava quando te apertava, quando tinha amor. Amarrotado como seu ego ficou. O amor se transforma em receio, em arrependimento, em amargo, em um monte de lugares que você passa a evitar.

Ou o amor se guarda na mesma caixa de sapato. Intacto, dizem outros.

Mas você não quer mexer na caixa de sapato, nunca. Do mesmo jeito que jurou nunca esquecer o beijo no seu nariz que ele gostava de te dar ao acordar – e mesmo assim esqueceu. Esqueceu de comprar beterraba que você odiava, mas era pra ele. Esqueceu de colocar duas canecas na mesa pra tomar aquele café.

Pra mim o amor se perde.

Vira um quadro que você pendura na parede, assinado por um pintor que já foi o seu preferido quando você tinha 22 anos, com uma moldura que hoje você acha brega e empoeirada, e que você nem repara mais ao entrar. Vira um bilhete, uma esquina, uma música que hoje são só um bilhete, uma esquina e uma música que um dia você conheceu. E nada mais.

E você sabe que existiu, mas você guarda de volta na caixa de sapato, termina sua faxina, vive a sua vida. Com a mesma apatia com a qual você se desenrola do cobertor e desce pra buscar o jornal.