Dos Amores, O Platônico 

Aconteceu!
Finalmente eu fui atropelada por uma bicicleta.

Fico surpresa que tenha demorado tanto tempo, porque eu sempre cruzo as partes vermelhas da rua como se não houvesse amanhã. E eu sempre defendi o Haddad, eu sempre falei que era bom ter ciclofaixa. Pra chegar um dia, eu atravessar sem olhar e ser surpreendida por um ciclista.

Ele estava bem devagar (era subida). E praticamente estava andando com a bicicleta, mas aconteceu que nenhum de nós viu o outro. Minha bolsa caiu no chão, rolou pelo chão um desodorante, meio saco de Gummy Bears e uns trinta grampos que eu insisto em deixar soltos dentro da bolsa. Além disso, um shampoo anti caspa que eu tinha acado de comprar. Nada demais.

Mas o ciclista tinha um sorriso torto e assimétrico que me ganhou depois de alguns segundos, o quinto amor platônico da semana. Eu gosto de sorriso torto e assimétrico. Eu gosto de assimetria, não é novidade pra ninguém. Assimetria e mãos. E bigode. Essas coisas. Acabei de descrever o ciclista.

Fiquei triste que ele já sabia que eu tinha caspa.

Aí ele me ajudou a levantar, a recolher meus pertences do chão. “Machucou?! Não?” Não machucou nada, ele estava muito devagar mesmo, foi quase um esbarrão cotidiano só que com duas rodas e um cesto (a bicicleta dele tinha um cesto com um caderno de desenhos, que adorável!). Então ele sorriu com aquele um milhão de dentes errados, tirou um graveto que, de alguma forma macabra, se prendeu no meu cabelo caspento e partiu sorridente pedalando, desaparecendo da minha visão na estrada rubra dos transportes limpos.

Ah, as bicicletas! Quantas surpresas nos fazem!

Segui pra casa com um arranhão no braço direito. E cinco pensamentos:
– Pra onde ia o ciclista?
– Será que o leite que está há duas semanas na minha geladeira já venceu?
– Porque eu estava com caspa?
– Será que ele foi embora pensando em mim?
– Quando encontrarei o amor da minha vida, um cartunista, ciclista que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos e me diz todo dia que vai ficar tudo bem?

Tudo que se passa pela minha cabeça diariamente, exceto a parte do caminho do ciclista, porque não é todo dia que isso acontece. Ele foi em direção a zona oeste, tinha uma mochila nas costas. Será que estava voltando do trabalho? Eram quatro da tarde de uma terça feira azul com nuvens, uns quarenta porcento de chance de chover, vinte graus. Eu tinha tido uma crise de pânico dentro do ônibus, daquelas que sempre tenho em transportes públicos e estar sozinha me deixou ainda mais aterrorizada.

Senti vontade de saltar do ônibus umas três vezes em pontos aleatórios que ficavam em lugares extremamente distantes da minha casa, mas o pensamento de me perder ao tentar voltar a pé me dava mais medo, então sosseguei meu facho até chegar.

Não te dá medo pensar que você pode morrer na rua sozinho e que ninguém ficaria sabendo por muitas horas ou dias?

Acho que é por isso que eu vivo enfiando os estranhos que eu encontro por aí dentro das minhas possibilidades. Por questões práticas: às vezes preciso que segurem minha mão e digam que eu não estou louca, que nada é apenas parte da minha imaginação, que eu vou chegar em casa bem.

Cheguei em casa, lavei os cabelos. Senti ainda mais solidão quando preparei jantar só pra um.
Dos amores, esse é o tipo que eu mais gosto. O que some na ciclofaixa e não se dá ao luxo de decepcionar.

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Um Texto Honesto Sobre a Utilidade do Tinder

Estou, há três meses, em uma relação de amor e ódio com os aplicativos. Pra ser mais exata, com essa beleza chamada Tinder.

Uma noite, saí com uns amigos, bebi umas 17 cervejas e, como era de se esperar, quando soaram 4 badaladas de um relógio imaginário, encontrei-me aos prantos lamentando sobre o recém final de um relacionamento. Não que não tivesse chorado sóbria, mas entorpecentes aumentam a potência do sentimento de perda e, conseqüentemente, o volume de lágrimas.

Estava sentada, já sem os sapatos, em frente ao meu carro, meus óculos no chão, assim como minha cara, minha voz 5 oitavas acima do normal. Meu amigo me consolava com o discurso de sempre:

– Você é linda, maravilhosa, popozuda, glamurosa, rainha do funk. Se estalar os dedos aparecem 50 Zés te querendo.

Por algum motivo as pessoas pensam que ouvir isso é ótimo para a auto estima de uma pessoa que teve seu coração partido, quando é o exato oposto. No mesmo momento me veio uma música do Smiths na cabeça que diz, resumidamente, que se você é tão fodona, querida, ta fazendo o que sozinha aí?

Obviamente, disse isso a ele, gritado, e chorei mais 6 litros.

Ele pegou meu telefone e, magicamente, digitou minha senha – preciso repensá-la, aliás. “Espere e lhe provarei tudo que disse!”, claramente de saco cheio de todo o drama, porque, segundo ele “amores vem e vão, são aves de verão, o inverno vai passar e apaga a cicatriz”.

Instalou um certo Tinder, sincronizou meu facebook, deu unfollow no meu ex e fez upload de uma foto sensual que tirei de brincadeira. Certamente, se me conhece, você sabe que não sei o significado de metade desses termos internéticos e que sempre os uso de maneira inadequada. Mas pra direita curte, pra esquerda descarta. Aprendi!

No dia seguinte, além da dor de amor, a dor de cabeça. Nada que eu não saiba lidar. Todos sabem que sou praticamente uma PhD em ressaca e sou grandinha, sei me virar. Mas meu celular, que sempre soube claramente suas funções (ligar, despertar e me mostrar as horas) começou a apitar freneticamente enquanto eu preparava uma vitamina. Demorei alguns minutos para relembrar tudo o que houve na noite anterior, com um pouco de vergonha, e alívio (não liguei pra ele, apesar da vontade – meu amigo me parabenizou depois por isso). Um caso raro de mixed feelings.

Que diabos é esse foguinho vermelho com 36 notificações?

Tempo passa, aprendi a mexer naquilo, claro, cometendo erros. Primeiro os mais leves como não filtrar a distância e achar o amor da minha vida lá em Osasco. Depois, colocar uma foto pseudo artística e descobrir, da pior maneira, que estava pagando peitinho. Irrelevante perto dos benefícios de se entupir o cérebro com elogios e confetes quando se quer tirar da mente uma decepção. Ou seja, achei divertidíssimo.

Além disso, sou a melhor pessoa em se tratado de primeiras impressões. Sou engraçada, sexy, interessante, criativa, inteligente. Claro que, num segundo contato,  isso se perde mas quem precisa de segundo contato com tanta gente me dando “like” (uma coisa que eu odeio dizer mas é como a juventude chama gostar da sua cara em uma foto e apertar o coraçãozinho).

No primeiro mês deletei o aplicativo 3 vezes por semana, o que deixa implícito que ele também foi reinstalado logo em seguida em todas as vezes. É difícil estar em negação de uma tristeza sem nenhum entretenimento. Não tenho televisão, nem cachorro, meu amigo nunca está em casa. Também passo muito tempo sozinha com meus pensamentos. Esquecer alguém é um terror pra mim, porque eu tenho tendência a analisar o inanalisável (talvez essa palavra não exista, mas ela se fez necessária).

Ao mesmo tempo que ficar brincando de escolher o príncipe com um simples deslizar de dedos parece patético, é completamente compreensível o porque do imenso sucesso da brincadeira. Passa o tempo, infla o ego. E vou além: mostra o quanto o mundo é grande, quanta gente tem só nos 50 quilômetros ao seu redor e, devemos admitir, falar merda com estranhos até que é divertido. Mas os dias são uma montanha russa, pelo menos pra mim, e assim não pude evitar de viver em eterno conflito.

Inevitável é achar alguém. Alguém, qualquer alguém que pareça um pouco adequado, será que é essa a palavra? Bom para o momento, ou o que tem pra hoje? Sei lá! Digo, meio encabulada que, considerando meu estado mental do momento, eu não era das mais seletivas, e acabei cometendo um erro um pouco mais grave no segundo mês.

Tive uma crush um pouco mais elaborada por um menino que, a princípio, era a maior belezinha do mundo. Sua maior qualidade, além de me despistar da depressão, era ser engraçado. Também compartilhava dos mesmos interesses que eu, isso é, cinema, música (quando viu meu nome lembrou-se de Grace do Jeff Buckley e não de Grace Kelly, como a maioria dos seres humanos, o que fez meu coração acelerar ligeiramente). E tudo mais, tudo mais.

Ficamos. Conversa, risada, apaguei o Tinder por um tempo mais longo, porque YES! Já achei!

Pra não florear mais uma história que não merece, digo que, quando dei meio passo pra trás, o que quer dizer no meu mundo, não quis ser tão rápida no que diz respeito a sexo, levei um chute na bunda de leve, causando uma sensação de ISSO ESTÁ MESMO ACONTECENDO, BRASIL?

Muito embora eu consiga perfeitamente separar sexo casual de um potencial relacionamento, acreditei, dentro da minha ingenuidade, que eu estava caminhando pra frente quando esse menino não. Não sei em que momento nos desencontramos, porque, acredito que eu deixaria claro se só quisesse sexo com ele. Havia uma sintonia, eu dava bom dia de manhã por mais idiota que eu ache que isso é porque eu estava tentando ser uma pessoa normal (pra ver se assim paro de me foder na vida). Se eu quisesse só transar com alguém eu, com toda a certeza, ligaria pra algum dos caras da minha agenda com quem eu já tinha saído pra não correr riscos. Por que cargas d’agua eu ia ter todo esse trabalho pra ter a possibilidade de ele ter o pau pequeno, ou ser broxa, sei lá (mulheres são escrotas assim, deal with that!).

Depois me ocorreu: qual é mesmo a utilidade do Tinder? É achar sexo mais fácil, ou podemos perfeitamente fazer amigos, encontrar o amor da vida naquela porcariazinha?

Fiquei com essa dúvida, porque no começo era um passa tempo, mas depois me perdi. Em algum momento do vai e vem de caras disponíveis achei que ia ser fácil, assim, superar uma desilusão com outro amor genérico. Que amadorismo! Eu devia saber que eu não sou uma mulher de tecnologias desde que não consegui baixar o Snapchat ou quando deletei o Pinterest por nunca ter aprendido a usar.

Quando deletei definitivamente essa coisa do meu telefone e ele voltou a só despertar e a mostrar as horas, percebi que já tinham se passado 90 dias e eu só tinha aprendido a camuflar esse incômodo (vulgo solidão, ou carência), e assim que o ícone foi parar na minha lixeira, todas as lágrimas voltaram e veio à tona uma enxurrada de sentimentos que eu estava escondendo de mim mesma por todo esse tempo. Caminhei, caminhei e estava no mesmo ponto, só que agora com mais uma decepção na bagagem e infinitos megas de internet desperdiçados.

Não sei até que ponto poderia ser eu a mulher do casal com tatuagem do logo do Tinder, mas só agora posso dizer com propriedade que percebi pra que isso serve: nada!

Claro que talvez eu baixe de novo essa merda semana que vem porque, todos sabem, eu sou retardada (todo mundo é). Mas por hoje, adeus foguinho vermelho, nos vemos no inferno!

Amigo Amante Amante Amigo

Ele não é nenhum estranho pra mim. Acho que só uma parte dele passou a ser, depois da primeira vez. Já estamos na quinta e tudo que mudou foi que agora transamos e talvez, que somos um segredo.

Um segredo mal guardado. Não fazemos muita questão de mantê-lo. Afinal, não parece ser uma grande coisa pra nenhum de nós. Saímos, bebemos e acabamos na minha cama. Uma combinação que vem dando certo por um tempo surpreendente, até que eu, burra, coloquei os óculos 3D. Ou o dividi em dois: amigo e amante. Por algum motivo nunca pensamos em unir os dois.

Me irrita o tipo de pensamento que separa o amigo do amante. O mesmo pensamento que, talvez, tenha inventado a friendzone e toda essa baboseira. Também me irrita que precisemos ficar sempre calados e que eu não faça ideia do que se passa dentro da cabeça dele, e vice versa.

Todas as vezes foram exatamente iguais: Festa estranha, amigos em comum, shots de tequila, se Deus ajudasse dividiríamos um cupido ou, se Deus ajudasse mais ainda, encontraríamos alguma coisa vermelha do Canadá. Não dava pra saber exatamente se as luzes agiam, se os comprimidos faziam nossa cabeça. Não dava pra saber se teríamos a mesma ideia sóbrios num cinema, vendo algum filme de super herói. Afinal, nunca tivemos ideia nenhuma antes.

Ao mesmo tempo tudo isso não faz sentido. Se já o conhecia há pelo menos uma década, como não sabia dizer nada sobre ele, de uma hora para outra? Como ele virou esse ponto de interrogação e como ele vira meu estômago de cabeça pra baixo agora, toda vez que o vejo?

Encontrei-me pensando no túnel mágico que passamos entre o BFF e o gelo na barriga, enquanto comia, casualmente, um prato de batata palha com maionese Heinz. A cada mastigada crocante, um olhar dele me vinha na cabeça. O olhar de quando nos conhecemos, o olhar de quando viramos amigos e o olhar de quando acordamos de ressaca lado a lado. Eram coisas distintas, de alguma forma, mesmo que os olhos fossem os mesmos.

Demorei pra me dar conta de que ele não era a primeira coisa que eu pensava ao acordar antes de tudo, e que ele não tinha covinhas quando sorria (coisa mais adorável!). No sexto dia seguido que me peguei pensando nisso, não pude evitar de ter uma discussão séria comigo mesma dentro da minha cabeça: Você, por um acaso, está desenvolvendo algum tipo de sentimento não carnal pelo Fulano, hein menina?

– Defina sentimento!

Foi essa a resposta, a óbvia resposta.

Vivemos numa era em que é perfeitamente aceitável sexo sem amor, sem compromisso, sem nenhum contrato implícito. Eu mesma sou a mais adepta desse modelo moderno de amor pra vida toda que dura um dia (ou uma noite). Mas será que existe tanta diferença assim entre o lindo do Tinder e o amigo de longa data? Porque é tão mais fácil desenhar o limite quando se trata de um estranho? Essa dinâmica não faz muito sentido quando analiso da seguinte forma: O estranho one night stand pode vir a ser um relacionamento não casual se a fadinha do amor flechar nossos corações. O amigo é amigo, é um decreto que, mesmo tendo oportunidades prévias, a primeira opção foi a amizade pura e sem benefícios e porque haveria de mudar por conta de uma noite de sexo, se o sexo não implica em amor instantâneo?

Pensei em dizer isso a ele. Mesmo sem ter conseguido entender, mesmo sem ter certeza de nada. Mas me contive. Não quero estragar nossa amizade. Não quero estragar nossa amizade? Como definir se o que temos é amizade? E como definir amizade se tudo parece tão misturado e desregrado agora? Talvez ele esteja pensando o mesmo que eu.

Ou não.

Ou eu divago sozinha sobre o que é só sexo e sobre o que eu penso ao acordar. Talvez eu esteja sozinha como estou na maioria das vezes nesse rio. Eu remo só. E se eu estiver remando só? Tudo que a gente já viveu vai se perder, tudo que temos agora talvez (e provavelmente) se perca. E tudo pode ser só confusão, só carência.

Só fico intrigada: Porque nada mais tem graça se não é com ele?

Minha razão diz que não. Que é melhor não arriscar. E que talvez seja melhor continuar a virar a tequila e a tomar os comprimidos e depois acordar enrolada no mesmo edredom que ele, e pensando: talvez eu te ame, mas é arriscado, então deixa estar…

Mas tudo que eu realmente queria dizer, já disseram e nada tem a ver com isso.

Será preciso ficar só pra se viver?

Vinícius ou Como Comecei a Fumar

Quando acendia o fogo só deixava mornar. Nenhuma leiteira derramou leite e nada nunca queimou, ardeu, fez-me espalhar creme dental na pele. Até que em 2011, ou ano passado conheci o Vinícius.

E ele foi fulminante.

Não me lembro direito que background figurou naquela noite. Lembro só que era noite. Porque ele não deixava espaço pra cenários, eu não conseguia focar. Lembro-me que havia fumaça e quanta fumaça. Vinícius fumava três cigarros toda noite no mesmo banco de madeira do deck 3. Nunca o encontrei em nenhum dos outros 14 decks.

Eu, com bagagem mínima da vida, 18 anos, semi desvirginada, olhava pra ele como quem assiste um pornô escondido dos pais. Todos os meus romances tinham sido só da pele pra fora. Ninguém aligeirava coração nenhum aqui dentro antes dele. Ninguém dava suadouro, tremedeira, gagueira. Ninguém me deixava tonta. E eu, possivelmente, nem sabia que podia sentir tudo isso e que seria intoxicantemente bom, antes de ficar ruim.

Uma noite subi as escadas que davam na parte de trás do banco onde ele costumava se achegar pra tragar seus 3 cigarros e, arrumando o decote, sentei-me ao seu lado e pedi um. Eu sabia exatamente a aparência de ninfeta que me adornava e tudo que isso podia me proporcionar. Não porque eu tivesse uma intenção pré existente, mas porque ele me despertava toda a sexualidade do universo.

Eu nunca havia colocado um cigarro na boca. Alias, uma educação rígida e religiosa me impedia disso.

Vinícius não tinha nada de incomum, e por conseguinte, nada de sexy por assim dizer. 27 anos, calos nas mãos. Apertava os olhos pra tragar, segurava com o indicador e o dedão uma bituca amarela. Atmosfera despreocupada e despretensiosa, como quem pouco se importa com tudo que parece importar. Enquanto ali estava, olhava o tempo passando, o mundo acontecendo e eu sabia que jamais poderia compreender o que flanava por dentro da sua cabeça. E esse conjunto era excitante como a primeira vez de qualquer coisa controversa: Sexo, drogas e Rock n Roll.

Na noite do meu primeiro cigarro, que foi também a noite de várias outras primeiras coisas, eu não era nenhuma ignorante sobre ele. Eu já o havia visto lá, fitava seus movimentos por detrás, tinha uns bons sonhos semi-eróticos (que são eróticos, mas românticos, se é que essas duas coisas podem coexistir nos dias de hoje, apesar de deverem). E nessa noite não pude mais me conter. Eu queria, no mínimo, ouvir sua voz pigarrenta – como ela era nos meus sonhos. E finalmente quebrar essa timidez que durante a vida toda me fez sombra.

Quando traguei o primeiro ele riu.

– Você nunca pôs um cigarro nessa sua boca, não é menina?

Me chamava de menina, por muito tempo, mas a única vez em que senti um beliscão foi nessa primeira vez. Um beliscão em todo canto. E então ele fez-me observá-lo para aprender. Por três tentativas, falhei. Quando finalmente consegui, tudo se perdera: virei fumante e apaixonada. Veja tudo que me fez esse homem.

Fumamos mais dois e seguimos pra sua casa.
Durante esse tempo, falamos sobre tudo e nada. Não me recordo de ter mencionado nenhum passado. Nem eu e nem ele. Não me recordo de ter perguntado seu nome. Não me lembro de nada além do banal. E quando chegamos, para minha surpresa, eu já estava madura o suficiente pra não precisar esperar nenhuma atitude.

– Posso dizer só mais uma coisa?

Antes que ele pudesse replicar, eu já apoiava as mãos unidas em sua nuca e jogava meu peso todo pra cima dele. E ficou claro que eu não queria lhe dizer coisa alguma e que palavras eram totalmente desnecessárias, como sempre são. Na minha cabeça e no carro, o Jimi Hendrix cantava “Are You Experienced” e eu respondia que sim. Agora sim. Porque qualquer droga não me daria tanto barato quanto aquilo.

Era a primeira vez em que eu estava totalmente no controle de alguma situação, nem que isso fosse uma sensação existente só dentro do meu cérebro. Mas, veja, não havia nenhum outro que pudesse dizer de boca cheia “Ela procurou por mim”. Eu era a medrosa das relações amorosas, e tudo que veio antes do Vinícius foi passivo, sem graça, e mundano.

Apesar disso, foi com ele o maior número de caquinhos em que se partiu meu coração, 15 meses depois. Tudo porque eu ainda não tinha os poderes mágicos de hoje que apitam quando eu sinto que vou ser sacaneada por alguém e era só uma adolescente com muita libido. No entanto, nunca me recordo dele sem molhar a calcinha, nunca me recordo dele como um dos babacas que me machucaram.

Ele é simplesmente Vinícius, o cara que me ensinou a fumar.
Que me ensinou a usar o fogo alto e desconstruiu a ideia do tanto-faz.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

Não amo!

Mas eu não amo ele
nem ele outro.
nem ninguém.
Não sei se amei, se sofri, se sofro, se choro ou se engulo o choro.
se sinto muito, se pouco, se existiu tampouco amor lá pra começar.
ou se em qualquer lugar
que já estive, pus o dedo, que encostei mesmo com medo
de doer (nunca doeu)
Só sei que não amo ele nem o amo, pra falar correto.Não sei se afeto (substantivo ou verbo) já me pertenceu ou se pertenci

a alguém.
Mas parabéns!
por parecer encher um espaço
que nem existia, de qualquer maneira.
e me empurrar pra qualquer beira que pareci cruzar (e não cruzei).
Mas eu não amei ele.
ou não o amei.
E nem vou futurizar qualquer feeling
porque não estou willing
a fazer isso, anyway

Uma agulha (fora do palheiro)
costuro ou furo pra ver vermelho.
Ou se fui feita de pano (por engano)
Pois não amo ele.
ou não o amo.

Júlio ou Como Deixei de Ser Vegetariana

Só tinha uma nuvem contínua no céu, um borrão suspenso de água condensada. E um sol tímido por trás criando o contexto num alaranjado borrado espalhado, querendo esvair de uma vez e pretejar logo a casa das estrelas.

Ou não, também. Você acha que eu estava olhando pro céu? Só quis romantizar pra falar do Júlio. Ah o Júlio!
Essa história aconteceu em 2010, ou não aconteceu nunca, ou mês passado. Você Decide remasterizado, falecido da TV Globo.

Realmente a nuvem estava solitária, que nem eu. Comprida, desgastando-se pouco a pouco com cada sopapo do vento, da vida ou à medida que o sol ia baixando. Mas ela não importa. Fui pegar uma salada na mesa. Rúcula, tomate seco e essas coisas. No mês passado, ou em 2010 eu era vegetariana, e ainda assim, estava em um churrasco muito do juvenil num lugar chamado Sítio Novo, que devia ser a área rural de uma cidade onde eu nunca morei, ou morei há cinco anos.

O sol que criava o meu contexto era o mesmo de sempre: arroxeado ou azul, não quente ou forte o bastante para um pôr do sol descente e insistia em me pintar de vulnerável. Em outras palavras: estava fodida. Fodida de um ex-amor, cantarolando Smiths e amaldiçoando quem se atrevesse a andar de mãos dadas. Era um churrasco de casamento, um clichê dos infernos, um pesadelo pra gente da minha laia. E eu pronta pra transferir todo o agrião da tigela pra minha boca e mandar pra dentro o drink azul que o bar tender preparava com todo aquele esmero (era seu debut na mixologia, com certeza!)

Quando dei de tocar naquela tesoura de salada, junto veio a mão mais bem feita por Deus, ou pela mãe e o pai desse menino loiro de olhos verdes. E rodou um filme da Katherine Heigl: Previsível, mas totalmente desejável situação romântica em câmera lenta mental. Nossas mãos se tocaram e ele disse “Primeiro as damas!” e recebeu em troca o meu olhar de canto que se traduziu em “Obrigada!” ou em “Você vem sempre aqui?” ou algo dessa natureza. Quem é fluente em Flertês que diga.

Fui sentar na cadeira de plástico mais distante do tio da noiva. Aquele que faz piada com as solteironas. Há quem diga que eu estava me escondendo. Se foi isso, agradeço ao meu instinto. Quando já estava lá nas azeitonas, sentou-se o Júlio na cadeira ao lado e puxou papo no ponto certo, como quem me estudou antes de se aventurar na arte da conversinha.

– Odeio casamento!

Será que fica mais perfeita essa criatura?

Sacou um charuto e começou a fumar, como se fosse normal fumar charutos em churrascos decadentes de casamento. Eu olhava, abismada, com um pedaço de alface no dente, dizendo que realmente casamentos são “uó!” – maldito mundo LGBT tão presente no meu vocabulário. A verdade é que eu olhava pra nuvem e contemplava sobre onde ela começa ou acaba ou se nada para a luz que refletimos de volta pro universo, isso significa que somos imortais? e sobre quando esse cara ia me chamar pra dar logo o fora daquela merda.

E sabe essa coisa típica de casamento onde a dama de honra vai trepar no banheiro com o primo de terceiro grau do noivo? Essa não é, exatamente, a história que eu estou tentando contar. É só a beleza e inocência da história de amor que começa sem saber que vai ter fim.

Júlio desabotoou a camisa branca por dentro da calça e mostrou a camiseta do Lynyrd Skynyrd que vestira por baixo (pra usar quando já fosse permitido tirar as sandálias e as gravatas), como se estivesse me contando um segredo. Pra ser justa, desabafei que estava louca pra comer um bife sangrando.

Pronto. O que mais a gente precisa saber um do outro nessa vida? Que teste é esse que a gente vai fazer no programa do Rodrigo Faro? Porra nenhuma! Almas gêmeas. Ele cortou um pedaço da picanha da mesa na nossa frente – torci para que fosse dele, – e deu na minha boca. Enquanto fazia o trajeto com o garfo de plástico, explicou porque eu deveria parar de ser idiota e jogar fora, de uma vez, todos os meus cartazes pintados com “Meat Is Murder”. E também porque eu deveria parar de procurar o pôr do sol perfeito e, ao invés disso, começar a apreciar um bom charuto.

Saímos. Escondeu-me sob seu blazer pra me proteger da chuva que veio dissipar a nuvem. Beijou-me impaciente. Tragou seu charuto. Foi como o conheci.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

Um Peixe Troxa

“Não há nada mais possível que isso!” Disse, enquanto devorava um imenso hot dog. Derrubava todo o molho, vermelhíssimo, no vestido jeans dos anos 80. Era 2015 recém começado e eu de jardineira jeans e keds. Não importava. Falávamos sobre os vinte e poucos e sobre quantas vezes o único papel que a gente interpreta na peça da vida é o de troxa. Eu e o Toby Imaginário.

Mas, sabe, eu derrubei todo aquele molho foi de espanto. Fiquei pasma! Quando concebi essa incrível conclusão fiquei ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre porque despencou, finalmente, a ficha e triste porque isso demorou pra acontecer. Não importa quanto aviso tive. Quantas tias queriam pregar minhas pálpebras pra trás com fita crepe como na perturbadora cena de Tom & Jerry em algum episódio que não me lembro mais. Não importavam os filmes, os livros, as histórias que ouvia ao pé do ouvido toda hora todo dia. Por algum motivo, sempre me achei diferente, ou que o ser-troxa-de-alguém não me atigia.

Primeiro porque a vida inteira tive o pensamento de princesa da Disney de que “se você quer muito alguma coisa e seu coração é puro, coisas maravilhosas acontecem!”. Ou porque sou mimada mesmo e nunca tive que lidar com muitas perdas, a não ser perda de peso quando quis ser anoréxica, ou perda de memória quando quis ser alcoólatra. Eu sempre vivi dentro dessa bolha onde todo mundo é gentil e usa as palavras mágicas. Quando percebi o tamanho da minha ignorância, o mínimo que poderia acontecer era mesmo perder aquela charmosa jardineira para o molho de tomate. O mínimo que eu poderia fazer era sentar na calçada em frente a barraca de cachorro quente e chorar.

O mundo é cruel, dizia. O homem é mau! A humanidade está perdida, a perversidade tomou conta de nós! Era tudo que proferia. Podia ter sido culpa das cervejas que eu tinha tomado, mas também podia não ser. Álcool me deixa mais dramática, mas por outro lado, nada daquilo era hipérbole. É um absurdo ter boas intenções e no final ser uma troxa. Pelo menos era o que eu pensava.

Aí fiquei puta!
Meu amigo, fiquei emputecida! Joguei o ultimo pedaço de salsicha na calçada, caiu molho no chão. Enxuguei a correnteza saindo dos olhos (desejei estar na cantareira pra fazer a diferença na sociedade). Disse “Foda-se!”. O maior foda-se daquele quarteirão – muita gente diz foda-se. E fiz promessas pra mim: não acredito mais, não ouço mais, não me dou mais, não mais. Nada mais! E pedi pros anjinhos pra eu ser mais fria daquele momento em diante. Os anjinhos que eu inventei no meu conto de fadas. Depois disse “Fodam-se os anjinhos também!”. Hardcore!

Hardcore! Nenhum coração bateu de amor depois do molho de tomate. Até eu ver que a gente faz os outros de troxa sem querer. Ou que sentir-se troxa era uma coisa pessoal e instransferível. E que não havia nada mais possível do que isso. E quem se sente troxa, nem sempre foi feito de troxa de propósito. É simplesmente muito possível e aceitável ser troxa.

E também, afinal, quem lê o troxômetro? Quem diz, quem julga? A comissão julgadora de troxas e troxisses? Qual a linha que separa o apaixonado do troxa? Mas devo ser troxa mesmo. Ou otimista, ou honesta, ou a princesinha da disney! E devo ter a memória de um peixe. Um peixe troxa.

Porque te juro!
Derrumo molho na roupa a cada 6 meses!

* Trouxa e troxa são coisas distintas.

Onde estará meu guarda chuva nessa SP?

Uma meia dúzia de atores ali, outros fumando um beck na esquina de mesas no canto do salão. Óculos redondos e quadrados derretendo nas linguas de algum triângulo amoroso. Lotado, mas, cacete, me sinto tão só!

Meu amigo sai pra pegar uma cerveja dando as mãos pro cara com quem ele está ficando. São fofos, se beijam a cada 3 palavras. Vai e vem de gente, dão dois passos e já os perco de vista. Olho praquele monte de guarda chuva no teto de um lugar charmoso na Praça Roosevelt. Quanto tempo não consigo manter um bendito de um guarda chuva! Vivo ensopada! Só esse ano já foram uns 37 sem contar os que quebraram por conta de má administração.

– Será que chove hoje, por falar nisso?

Deixo escapar em voz alta esse pensamento sarcástico. Como se eu não tivesse mais nada pra pensar, fosse tudo small talk aqui dentro.
E esse cara me fala por cima dos ombros.

– Espero que não.

Penso “Oh, não! Não quero companhia essa noite!”

Contradição pura! Esse coraçãozinho, murcho, não sabia direito o que dizia, se queria estar sozinho ou rodeado. Se era problemático, se se sentia uma caixinha de música: sem dar corda ele para de tocar. Diz que venho aqui beber ao invés de ver teatro só porque não quero ficar em casa pensando nele. E em quanta coisa eu não sei sobre ele e nem vou saber.

Me perco definitivamente do casal meu amigo naquela noite, e com tanto malabarismo e tanta ciranda cirandinha, acabo por engatar uma conversa com esse cara sobre o tempo. Gosto mais de frio, ele de calor. E depois sobre drinks. Eu mojito, ele gin tônica.

Comento sobre meu batom vermelho: Está borrado? Sobre minhas pupilas: Estão enormes? Falo da banda tocando, do baixista canhoto, o Paul McCartney! Mostro minha tatuagem nova. Falo que curto o Michel Gondry. Desconverso quando o vejo revirando os olhos. Eu falo demais quando estou deprimida. E eu sempre estou deprimida, esperando chover. Ah, a vida, que amargura eterna é viver! Quer um chopp?

Como pode eu não conseguir nem fazer meu pedido pro bar tender de tanta gente nessa merda e me sentir tão sozinha? Como pode eu sair com esse monte de caras e continuar mais solitária que um paulistano, um canastrão sem pano? Suspiro. Pego, finalmente, dois copos e me mando dali, já atacava a claustrofobia. Volto pra perto daquele monte de skate voando na parte de fora e entrego um dos copos na mão dele.

Pago bebida pra estranhos, ainda por cima.

– Sabe qual o meu problema? Eu causo uma ótima primeira impressão e não consigo manter o nível. Daqui a cinco minutos você vai enjoar de mim.

Ele ri como quem espera ver aonde eu quero chegar com aquele papo mesmo que eu, claramente, não fosse chegar a lugar nenhum. Amigo, sei que não esperava que eu fosse tão falante, mas com esse meu peito (e cara) quebrados, sinto muito, você terá que varrer os caquinhos espalhados nesse chão, já que veio puxar papo. (Castigo quem me importuna com palavras chorosas, meu jeito)

E conto, roteirizando, como eu detestei minha epifania de ir andar sozinha na Augusta em meados de agosto. Mas não detestei por completo. Não detestei em nada, pra falar a verdade e esse era o problema. Ah, Mr. Charlie Kaufman, escreve esse roteiro pra mim. Pra colocar cada coisa no seu devido lugar: esquecer ele, lembrar do guarda chuva. Viajo. Quer mais um chopp… Qual seu nome?

Luis é um cara interessante. Me ouve por mais tempo do que eu pensei. Eu sendo essa chata repetitiva. Sobre indecisão, carreira, blog, escovas de dente, irmão, cinema, chefe, doce de leite. Sobre meu triunfante 2014, costumo fazer reflexões profundas nas ultimas semanas de dezembro. Já faz quase um ano que moro aqui, sabia, Luis? Já sou gente grande! Me pergunta 10 coisas que eu aprendi?! Enumero banalidades, contando nos dedos, que nem criança.

1) A não parar na esquerda;
2) A não falar no celular em frente ao Mercado das Flores às 23h;
3) A não virar a direita saindo da estação do Brás;
4) A colocar pregador nas roupas;
5) A deixar uma cópia da chave com o meu porteiro;
6) A não roubar bananas no Anhangabaú depois do expediente;
7) A fechar a janela quando chove;
8) A não passar a noite em Santo André;
9) A não abusar de jelloshot com LSD no Largo do Paissandu;
10) A não falar com estranhos perto da Dona Antonia a noite. Não mais.

E me bate a sobriedade do final da madrugada. Vejo meus amigos segurando as mãos por entre outros braços entrelaçados naquele mar de gente feliz. Não posso evitar de me sentir ainda mais só. Olho em volta e tem gente afagando cabelo de gente, tem coraçãozinho saindo em cartoon de cada cabeça ali. Gente beijando esquisito. Luis, você me desculpa mas eu preciso ir embora.

– Te levo.

Ele é um estranho e a Dona Antonia é logo ali. Não deveria nem estar falando com ele pra mostrar que aprendi com as lições que a vida ensina. Além do mais, com a minha sorte, eu e ele estaremos separados em menos de 5 meses graças a minha interessantíssima loucura, ou mais provavelmente graças a qualquer outro motivo. E eu estarei pagando bebidas pra outro estranho.

– Desculpa, vou de taxi.

Meus amigos me dizem pra “fazer a Angélica” toda vez que eu sentir que devo. Nunca mais vi o Luis, apesar de tê-lo achado divertido e interessante. No final, choveu, mas eu não me molhei. Dessa vez não, e nem encontrei o bendito do guarda chuva.

Perseguidores de Coisas-Bonitas

O Kerouac é mestre em me definir. Quem leu as intermináveis 10 primeiras páginas da sua obra prima (porque não dá pra ler esse livro por completo não estando mais nos anos 50) sabe. Sair por aí que nem uma lunática procurando coisas-bonitas pra perseguir é certamente meu talento.

Mas não é só meu, fiquem vocês sabendo e, coisas-bonitas bem pode ser a justaposição mais relativa desse planeta do qual vos falo, porque não são necessariamente bonitas na mais simplória das definições estéticas. Apenas “brilham como foguetes amarelos explodindo como uma aranha por entre as estrelas, e no centro vemos aquele azulado piscando e todo mundo faz Awww”. Ok, da uma lida naquela porcaria e volta aqui.

Sem dúvidas, é “olhando os retardados dançando lindamente pelas ruas” (e indo atras) que as chances da gente tomar no charlie urbano são imensamente fortalecidas.

Digo isso porque me vi refletindo sobre os pés na bunda alheios (e meus próprios) por um surpreendente acumulado de minutos (talvez horas ou dias, sou obsessiva). O que me inspirou foi um fenômeno ocorrido no meu trabalho onde a beirada do cem por cento dos meus colegas, de uma hora pra outra e sem grandes explicações, foi dignificado com um chute no trazeiro.

O primeiro da lista foi meu companheiro de balcão. O pobre namorava há pouco mais de um ano, e, deus do céu, como era apaixonado por aquela menina! Óbvio que a testosterona grita e toda vez que passava uma bonitinha de sainha e frufruzinho éramos companheiros de comentários da espécie e gênero de “Gostosa! Dá pra fazer!”. Não considero isso um desmancha amores, só um olhar com o olho e lamber com a testa cotidiano. Enfim.

Um dia ouvi uma conversa suspeita dele ao telefone.

– Mas assim do nada, Juliana? Não faz sentido.

Pensei “Poxa vida, vem um chute por aí!” Na lata!
No dia seguinte me chega com os olhos quase precipitando as águas da vulnerabilidade e contando a grande novidade.

– Terminamos!

Nessa hora, baixou-me a Kübler-Ross. Fiz questão de observar todos os estágios do infeliz – para estudos posteriores – e como virei o ombro molhado da vez, comecei a cuspir meus conselhos igualmente divididos em tristes etapas de luto, todavia pensando no faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço e afins.

1- Você não tem certeza se vocês terminaram, ela foi inconclusiva.
2- Mas puta que pariu, que louca!
3- Talvez se vocês trocarem uma meia dúzia de palavras tudo se resolva.
4- Verdade, o que vocês tinham era lindíssimo, fico triste pra caralho. (lágrima)
5- Quer saber? Vamos sair pra beber e presentear essa sua cabeça com a doce amnésia da ressaca.

Num monologo embebido de tristeza e indignação, tomei conhecimento de toda a história do casal.
A tal da Juliana foi o amor platônico do nosso ilustríssimo por mais de uma década. Era a coisa-bonita que ele perseguia. Depois que eles (a muito custo) ficaram juntos, as engrenagens até que fizeram esforço pra trabalharem em sincronia, mas chegou uma hora que o resultado da produção estava dando defeito demais, tamanha era a carência de encaixamento das peças. Peguei no ar, e quando estava prestes a lhe dar a mais sensata das conclusões, engoli seco e continuei a ouvir, pra não escancarar de vez aquela ferida aberta.

Mas a verdade é que: Você, infeliz, gosta muito mais dela do que ela de ti. E aí, fodeu!

Pessoas como nós que não parecem preocupadas com um mero detalhe chamado “reciprocidade” tendem a ter um número mais elevado de decepções. No entanto, também se eleva a possibilidade de sentimentos memoráveis e sensação de não-foi-por-falta-de-tentar. Peca menos quem peca pelo excesso, e não pela falta, na minha concepção.

Não vem ao caso contar todas as outras histórias, nem a minha própria (ou deve isso ser plural?). Me pego lendo a coluna do Xico Sá toda vez que estou descrente da minha personalidade Kerouacquiana e vejo que não sou a única desgraçada que coloca o carro na frente dos bois.

E além do mais, o meu queridíssimo John Mayer pode até ter concebido a canção mais triste da história do cada um pro seu lado, mas foi bem certeiro ao dizer que:

Todas as luzes da cidade dizem “Deixa pra lá!”
As linhas do Canyon dizem “Deixa pra lá!”
O sol se pondo diz “Isso acontece o tempo todo, deixe pra lá!”.

Mas como o meu colega não conhece o John, me contentei em cantar um pequeno trecho da genial “Samba Juliana” acompanhada da dancinha regada de anos 90. Risos e segue essa vida, amigo!

Esse Conceito Ultrapassado

Eu juro que não quero ser precipitada, mas vamos combinar que eu sou, na verdade, uma garotinha de 12 anos. Ora, não há outra explicação pra tanto gelo na barriga, tanto tempo matutando essas ideias de menina. E só me falta desenhar coraçõezinhos no caderno pra concluir que, realmente, essa cabeça sofre certo retardo.

Esse turu turu turu aqui dentro já deixou de ser questão de Sandy e Junior. Virou essa coisa mais encorpada, como se eu escrevesse só em negrito, por esses tempos. Eu tô em negrito, se você for pensar.

E é bochecha vermelha pra cá, sorrizinho e bom dia pra lá. Um belo avanço pra essa pessoa fria e calculista que todos pensam que eu sou. Não me admira o espanto dos meus conhecidos.

Talvez, mas só talvez, isso tenha a ver com sexo bom. Satisfeitos, nós fazemos tudo na vida com mais amor. Acordamos com amor, lavamos louça com amor. Até cozinhar a gente faz com amor. Sim, foi um péssimo exemplo, mas quem compartilha de pífios dotes culinários, como eu, deve ter entendido a intenção do comentário.

Certamente, e só certamente, isso tem a ver com cérebro. Tem a ver com piadas idiotas, com palavras, frases e discursos que a gente quer ouvir, e palavras, frases e discursos que a gente nem sabe que quer ouvir, mas quer. Sim, faz a diferença, acreditem. Rir da coisas próximas de orgasmos. Rir, genuinamente rir, é a coisa mais deliciosa.

E, pensa Grace, que tempão que você não mostrava esses dentes levemente tortos e amarelos com essa disposição? É bem verdade que, entre amigos e cervejas, esses dentes ficam a mostra toda hora, mas me fala uma coisa: que menino te fez isso (sem cerveja) nos largos meses que se passaram nesse insano 2014? Pois é, pois é.

E quanto tempo você não vê paixonite que é simplesmente paixonite? Sem drama, violino, The Smiths no radio. Sem chororô, sem joguinho. Delicia né!

É tipo paixonite de adulto, mas é de criança. Quando criança era assim. Era o menino da rua, que gostava de mim, e eu gostava dele. E nós nos gostávamos, e o céu era azul, e os pássaros cantavam. Ninguém sumia, ninguém chifrava, ninguém falava merda. Ninguém falava “quem é essa vaca olhando pra você?”.

Lá na largada da vida amorosa da gente, nos 11, 12 anos, era mais emocionante. Deve ter saído de alguém com essa idade a expressão “borboletas no estomago”, só pode! Quem, no auge dos 20 e poucos, sente as bichinhas lá dentro, hoje em dia? E meus entrevistados (eu finjo que sou repórter, me deixem!) não sabem responder minha pergunta.

– Porque você gosta dela?

O silêncio mais demorado. E quando surge a resposta, é vaga, é lenta, é desprovida de sal.
– Porque sim.

Quando tinha 12 anos aposto que dizia: porque ela lê Herry Potter, porque ela joga futebol, porque ela tem a voz bonita, porque ela me ensina a desenhar.

Querido diário: Acho que gosto do Matheus. Ele tem as mãos bonitas, ele sabe jogar baralho, ele é bom em matemática.
Querido diário: Acho que gosto do Pedro. Ele tem os olhos cor de mel, ele joga Crash depois da escola, a letra dele é bonita.

Era assim na minha época.

Que saudade de admirar alguém pelas habilidades do dia a dia! Que saudade de querer aprender com alguém! De fazer trabalho de biologia junto, fazer borda do cartaz de purpurina. Hoje é só o que se tem, hoje é só o que se oferece de bens. Hoje é “eu fico com ela porque ela é gostosa!” E pega o romantismo e caga nele todo. Usa o outro de passa tempo, nem conhece quem se beija, quem se dorme junto.

Ou… Eu que tenho esse conceito ultrapassado de romance. Ou eu que nasci errado.

No que me diz respeito, eu vou continuar tendo 12 anos, as borboletas vão viver pra sempre, que viva Sandy e Junior e que me editem pra negrito toda vez que eu precisar!