Um Texto Honesto Sobre a Utilidade do Tinder

Estou, há três meses, em uma relação de amor e ódio com os aplicativos. Pra ser mais exata, com essa beleza chamada Tinder.

Uma noite, saí com uns amigos, bebi umas 17 cervejas e, como era de se esperar, quando soaram 4 badaladas de um relógio imaginário, encontrei-me aos prantos lamentando sobre o recém final de um relacionamento. Não que não tivesse chorado sóbria, mas entorpecentes aumentam a potência do sentimento de perda e, conseqüentemente, o volume de lágrimas.

Estava sentada, já sem os sapatos, em frente ao meu carro, meus óculos no chão, assim como minha cara, minha voz 5 oitavas acima do normal. Meu amigo me consolava com o discurso de sempre:

– Você é linda, maravilhosa, popozuda, glamurosa, rainha do funk. Se estalar os dedos aparecem 50 Zés te querendo.

Por algum motivo as pessoas pensam que ouvir isso é ótimo para a auto estima de uma pessoa que teve seu coração partido, quando é o exato oposto. No mesmo momento me veio uma música do Smiths na cabeça que diz, resumidamente, que se você é tão fodona, querida, ta fazendo o que sozinha aí?

Obviamente, disse isso a ele, gritado, e chorei mais 6 litros.

Ele pegou meu telefone e, magicamente, digitou minha senha – preciso repensá-la, aliás. “Espere e lhe provarei tudo que disse!”, claramente de saco cheio de todo o drama, porque, segundo ele “amores vem e vão, são aves de verão, o inverno vai passar e apaga a cicatriz”.

Instalou um certo Tinder, sincronizou meu facebook, deu unfollow no meu ex e fez upload de uma foto sensual que tirei de brincadeira. Certamente, se me conhece, você sabe que não sei o significado de metade desses termos internéticos e que sempre os uso de maneira inadequada. Mas pra direita curte, pra esquerda descarta. Aprendi!

No dia seguinte, além da dor de amor, a dor de cabeça. Nada que eu não saiba lidar. Todos sabem que sou praticamente uma PhD em ressaca e sou grandinha, sei me virar. Mas meu celular, que sempre soube claramente suas funções (ligar, despertar e me mostrar as horas) começou a apitar freneticamente enquanto eu preparava uma vitamina. Demorei alguns minutos para relembrar tudo o que houve na noite anterior, com um pouco de vergonha, e alívio (não liguei pra ele, apesar da vontade – meu amigo me parabenizou depois por isso). Um caso raro de mixed feelings.

Que diabos é esse foguinho vermelho com 36 notificações?

Tempo passa, aprendi a mexer naquilo, claro, cometendo erros. Primeiro os mais leves como não filtrar a distância e achar o amor da minha vida lá em Osasco. Depois, colocar uma foto pseudo artística e descobrir, da pior maneira, que estava pagando peitinho. Irrelevante perto dos benefícios de se entupir o cérebro com elogios e confetes quando se quer tirar da mente uma decepção. Ou seja, achei divertidíssimo.

Além disso, sou a melhor pessoa em se tratado de primeiras impressões. Sou engraçada, sexy, interessante, criativa, inteligente. Claro que, num segundo contato,  isso se perde mas quem precisa de segundo contato com tanta gente me dando “like” (uma coisa que eu odeio dizer mas é como a juventude chama gostar da sua cara em uma foto e apertar o coraçãozinho).

No primeiro mês deletei o aplicativo 3 vezes por semana, o que deixa implícito que ele também foi reinstalado logo em seguida em todas as vezes. É difícil estar em negação de uma tristeza sem nenhum entretenimento. Não tenho televisão, nem cachorro, meu amigo nunca está em casa. Também passo muito tempo sozinha com meus pensamentos. Esquecer alguém é um terror pra mim, porque eu tenho tendência a analisar o inanalisável (talvez essa palavra não exista, mas ela se fez necessária).

Ao mesmo tempo que ficar brincando de escolher o príncipe com um simples deslizar de dedos parece patético, é completamente compreensível o porque do imenso sucesso da brincadeira. Passa o tempo, infla o ego. E vou além: mostra o quanto o mundo é grande, quanta gente tem só nos 50 quilômetros ao seu redor e, devemos admitir, falar merda com estranhos até que é divertido. Mas os dias são uma montanha russa, pelo menos pra mim, e assim não pude evitar de viver em eterno conflito.

Inevitável é achar alguém. Alguém, qualquer alguém que pareça um pouco adequado, será que é essa a palavra? Bom para o momento, ou o que tem pra hoje? Sei lá! Digo, meio encabulada que, considerando meu estado mental do momento, eu não era das mais seletivas, e acabei cometendo um erro um pouco mais grave no segundo mês.

Tive uma crush um pouco mais elaborada por um menino que, a princípio, era a maior belezinha do mundo. Sua maior qualidade, além de me despistar da depressão, era ser engraçado. Também compartilhava dos mesmos interesses que eu, isso é, cinema, música (quando viu meu nome lembrou-se de Grace do Jeff Buckley e não de Grace Kelly, como a maioria dos seres humanos, o que fez meu coração acelerar ligeiramente). E tudo mais, tudo mais.

Ficamos. Conversa, risada, apaguei o Tinder por um tempo mais longo, porque YES! Já achei!

Pra não florear mais uma história que não merece, digo que, quando dei meio passo pra trás, o que quer dizer no meu mundo, não quis ser tão rápida no que diz respeito a sexo, levei um chute na bunda de leve, causando uma sensação de ISSO ESTÁ MESMO ACONTECENDO, BRASIL?

Muito embora eu consiga perfeitamente separar sexo casual de um potencial relacionamento, acreditei, dentro da minha ingenuidade, que eu estava caminhando pra frente quando esse menino não. Não sei em que momento nos desencontramos, porque, acredito que eu deixaria claro se só quisesse sexo com ele. Havia uma sintonia, eu dava bom dia de manhã por mais idiota que eu ache que isso é porque eu estava tentando ser uma pessoa normal (pra ver se assim paro de me foder na vida). Se eu quisesse só transar com alguém eu, com toda a certeza, ligaria pra algum dos caras da minha agenda com quem eu já tinha saído pra não correr riscos. Por que cargas d’agua eu ia ter todo esse trabalho pra ter a possibilidade de ele ter o pau pequeno, ou ser broxa, sei lá (mulheres são escrotas assim, deal with that!).

Depois me ocorreu: qual é mesmo a utilidade do Tinder? É achar sexo mais fácil, ou podemos perfeitamente fazer amigos, encontrar o amor da vida naquela porcariazinha?

Fiquei com essa dúvida, porque no começo era um passa tempo, mas depois me perdi. Em algum momento do vai e vem de caras disponíveis achei que ia ser fácil, assim, superar uma desilusão com outro amor genérico. Que amadorismo! Eu devia saber que eu não sou uma mulher de tecnologias desde que não consegui baixar o Snapchat ou quando deletei o Pinterest por nunca ter aprendido a usar.

Quando deletei definitivamente essa coisa do meu telefone e ele voltou a só despertar e a mostrar as horas, percebi que já tinham se passado 90 dias e eu só tinha aprendido a camuflar esse incômodo (vulgo solidão, ou carência), e assim que o ícone foi parar na minha lixeira, todas as lágrimas voltaram e veio à tona uma enxurrada de sentimentos que eu estava escondendo de mim mesma por todo esse tempo. Caminhei, caminhei e estava no mesmo ponto, só que agora com mais uma decepção na bagagem e infinitos megas de internet desperdiçados.

Não sei até que ponto poderia ser eu a mulher do casal com tatuagem do logo do Tinder, mas só agora posso dizer com propriedade que percebi pra que isso serve: nada!

Claro que talvez eu baixe de novo essa merda semana que vem porque, todos sabem, eu sou retardada (todo mundo é). Mas por hoje, adeus foguinho vermelho, nos vemos no inferno!

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Júlio ou Como Deixei de Ser Vegetariana

Só tinha uma nuvem contínua no céu, um borrão suspenso de água condensada. E um sol tímido por trás criando o contexto num alaranjado borrado espalhado, querendo esvair de uma vez e pretejar logo a casa das estrelas.

Ou não, também. Você acha que eu estava olhando pro céu? Só quis romantizar pra falar do Júlio. Ah o Júlio!
Essa história aconteceu em 2010, ou não aconteceu nunca, ou mês passado. Você Decide remasterizado, falecido da TV Globo.

Realmente a nuvem estava solitária, que nem eu. Comprida, desgastando-se pouco a pouco com cada sopapo do vento, da vida ou à medida que o sol ia baixando. Mas ela não importa. Fui pegar uma salada na mesa. Rúcula, tomate seco e essas coisas. No mês passado, ou em 2010 eu era vegetariana, e ainda assim, estava em um churrasco muito do juvenil num lugar chamado Sítio Novo, que devia ser a área rural de uma cidade onde eu nunca morei, ou morei há cinco anos.

O sol que criava o meu contexto era o mesmo de sempre: arroxeado ou azul, não quente ou forte o bastante para um pôr do sol descente e insistia em me pintar de vulnerável. Em outras palavras: estava fodida. Fodida de um ex-amor, cantarolando Smiths e amaldiçoando quem se atrevesse a andar de mãos dadas. Era um churrasco de casamento, um clichê dos infernos, um pesadelo pra gente da minha laia. E eu pronta pra transferir todo o agrião da tigela pra minha boca e mandar pra dentro o drink azul que o bar tender preparava com todo aquele esmero (era seu debut na mixologia, com certeza!)

Quando dei de tocar naquela tesoura de salada, junto veio a mão mais bem feita por Deus, ou pela mãe e o pai desse menino loiro de olhos verdes. E rodou um filme da Katherine Heigl: Previsível, mas totalmente desejável situação romântica em câmera lenta mental. Nossas mãos se tocaram e ele disse “Primeiro as damas!” e recebeu em troca o meu olhar de canto que se traduziu em “Obrigada!” ou em “Você vem sempre aqui?” ou algo dessa natureza. Quem é fluente em Flertês que diga.

Fui sentar na cadeira de plástico mais distante do tio da noiva. Aquele que faz piada com as solteironas. Há quem diga que eu estava me escondendo. Se foi isso, agradeço ao meu instinto. Quando já estava lá nas azeitonas, sentou-se o Júlio na cadeira ao lado e puxou papo no ponto certo, como quem me estudou antes de se aventurar na arte da conversinha.

– Odeio casamento!

Será que fica mais perfeita essa criatura?

Sacou um charuto e começou a fumar, como se fosse normal fumar charutos em churrascos decadentes de casamento. Eu olhava, abismada, com um pedaço de alface no dente, dizendo que realmente casamentos são “uó!” – maldito mundo LGBT tão presente no meu vocabulário. A verdade é que eu olhava pra nuvem e contemplava sobre onde ela começa ou acaba ou se nada para a luz que refletimos de volta pro universo, isso significa que somos imortais? e sobre quando esse cara ia me chamar pra dar logo o fora daquela merda.

E sabe essa coisa típica de casamento onde a dama de honra vai trepar no banheiro com o primo de terceiro grau do noivo? Essa não é, exatamente, a história que eu estou tentando contar. É só a beleza e inocência da história de amor que começa sem saber que vai ter fim.

Júlio desabotoou a camisa branca por dentro da calça e mostrou a camiseta do Lynyrd Skynyrd que vestira por baixo (pra usar quando já fosse permitido tirar as sandálias e as gravatas), como se estivesse me contando um segredo. Pra ser justa, desabafei que estava louca pra comer um bife sangrando.

Pronto. O que mais a gente precisa saber um do outro nessa vida? Que teste é esse que a gente vai fazer no programa do Rodrigo Faro? Porra nenhuma! Almas gêmeas. Ele cortou um pedaço da picanha da mesa na nossa frente – torci para que fosse dele, – e deu na minha boca. Enquanto fazia o trajeto com o garfo de plástico, explicou porque eu deveria parar de ser idiota e jogar fora, de uma vez, todos os meus cartazes pintados com “Meat Is Murder”. E também porque eu deveria parar de procurar o pôr do sol perfeito e, ao invés disso, começar a apreciar um bom charuto.

Saímos. Escondeu-me sob seu blazer pra me proteger da chuva que veio dissipar a nuvem. Beijou-me impaciente. Tragou seu charuto. Foi como o conheci.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

A Minha Fase Atual

Estou numa fase excepcional! Não sei dizer se é no bom sentido, ou mesmo, se há um bom sentido para esse adjetivo que eu adoro usar. Acredito que haja, pois o leio em manchetes vagamente positivas nos jornais quando vou arrancar a página das palavras cruzadas e dos quadrinhos. Também, me admira (e agrada) que preciso dividir tudo em fases. Ou que o ser humano faça tanto isso. Que divida até a lua em fases, que não permita que as coisas sejam contínuas.

Posso enumerar cerca de 35 fases pelas quais passei durante os meus (quase) 25 anos de existência.
A fase em que fui emo. A fase em que fui atriz. A fase em que tive uma banda. A fase em que ia toda semana a mesma festa em Campinas. A fase em que ficava bêbada toda semana na mesma festa em Campinas. A fase em que achei que o universo era maravilhoso ouvindo Jamiroquai. A fase em que parei de comer ouvindo Silverchair. Etc. Etc. Etc.

Minha fase atual inclui elogiar uma senhora na rua pelo excelente trabalho que fez em seu coque milimetricamente arranjado (até duvidei da não-existência de Deus, pois estava, realmente, muito perfeito), mas também inclui um alter ego extremamente presente nas minhas interações sociais, o que me deixa cada dia mais perto do diagnóstico “dupla personalidade”.

Sempre começo minhas histórias mencionando as noites de sexta feira. Pois bem, essa é mais uma delas. As sextas feiras me transformam de uma maneira ambígua. No sábado, o dia depois da noite fatídica, desejo jamais ter posto o pé para fora do meu apartamento. Mas o domingo chega logo depois e nada mais parece tão grave assim. E depois da segunda, da terça, da quarta e da quinta feira, meu inconsciente se encarrega de fazer uma pequena lavagem cerebral para que, no dia seguinte, eu esteja mentalmente pronta para a próxima aventura.

Sete da noite é cedo demais para se tomar decisões sábias. Ou pelo menos era isso que eu pensava. Ainda mais nessa minha fase atual que inclui mandar um e-mail para o meu escritor favorito, mas também inclui trocar de roupa com a janela aberta sabendo do meu vizinho pervertido do prédio da frente. Na sexta feira passada, as sete da noite, depois de organizar meus pincéis de maquiagem por ordem de tamanho pela sétima vez na semana (sim, estou com TOC), resolvi testar meu novo batom cor de ameixa. Eu havia ganhado ele dessa menina-mulher que trabalha no setor de limpeza do meu trabalho. Preciso apenas dizer que ela é muito sexual e, às vezes, tenho a impressão de que eu não deveria saber que ela gosta de ser levemente sufocada na cama. Ok. Já que passei o batom, não me custa nada esconder as olheiras com corretivo, também recém adquirido, e passar um pó. O delineador é antigo, mas vou passar porque, sem ele, meus olhos ficam murchos demais e, já que fiz essa maquiagem de gatinho, vou usar um blush coral pra disfarçar minha palidez – ando com cara de doente. Quando vi já eram quase 9 horas e eu estava maquiadíssima, e de pijama.

Pijama é modo de dizer. Eu estava usando uma camiseta GG do Pink Floyd e meias pretas com bolinhas brancas. Meu cabelo estava preso em um nó dele mesmo e eu parecia ter realmente aderido ao estilo anos 1970 em se tratando de depilação. Tudo isso porque estava tentando declarar greve às sextas feiras, remotamente pensando que isso ajudaria em alguma coisa. Assim, antes da minha fase atual que inclui tentar dormir cedo todas as noites, mas também inclui uma dose preocupante de masturbação, achei que o problema era a sexta feira e não o que eu acabava pescando, coincidentemente, nesse dia.

E meu método mais eficiente para não querer sair à noite era não estar apresentável o suficiente. Porque, vejamos se você entende meu comportamento digno de psicanálise. Minha aparência é o que me motiva a sair de casa para uma noitada ou não, pois, mesmo que, em algumas ocasiões, eu pareça ter a mais baixa das autoestimas, a realidade é que eu tenho uma inexplicável e doentia fixação pela minha própria imagem. A lógica é: estou bonita saio, estou feia fico em casa. Simples assim.

Então, eu me mal cuidava de propósito pra ser obrigada a fazer pipoca e assistir a um filme do Scorsese ou qualquer outro que não tenha nenhuma grande reflexão sobre a vida. Mas já que estava maquiada e cheirosa – ganhei um perfume de um cliente, soltei meu cabelo só pra ver como ele estava. Meu cabelo estava parecendo ter saído de um comercial de shampoo. Era oficial: eu estava bonita! Fui obrigada a procurar o que fazer.

Troquei de roupa 13 vezes. Tirei 56 fotos com o meu celular no espelho. Fiz meu laquê de microfone quando começou a tocar “Babe, I’m Gonna Leave You” porque não tem como não fazer isso. Onze horas. Taxi. Festa pseudo folk na Augusta. Entrei rapidinho pra não correr o risco de perder o foco na rua por causa da minha fase atual que inclui ser amável com todos, mas também inclui dizer que me chamo Thais. Cheguei tímida, sentada com pernas de índio na beirada do palco enquanto tocava Mallu Magalhães. Encarava o centésimo barbado daquele lugar encostado no balcão do bar do outro lado do salão. Entre nós dois havia uma nuvem de pessoas com coroas de flores e tatuagens de cadeias de carbono, dançando euforicamente ao som de Mumford & Sons.

Nessa minha fase atual, que inclui resolver três exercícios de química, física ou matemática por dia, mas também inclui um estranho vício em laxantes, estava me sentindo muito bem. Depois que eu parei de procurar pelo em ovo, tudo começou a fluir. Eu achei que estava apaixonada nos últimos cinco ou seis meses e eu devia mesmo estar. Foi tudo adorável no começo, um pouco conturbado e irritante no final, mas foi. Não posso mais tentar preencher o espaço vazio que ficou na minha mente somente com as memórias ruins de nós dois. Já filtrei, já removi as impurezas e agora estou leve. Ele foi importante pra mim por um tempo, mas já deixou de ser e isso é um alívio. Clichê, mas foi bom enquanto durou e o resto tanto faz, agora.

Apesar de estar mais maluca do que nunca nessa minha fase atual, que inclui uma conversa séria sobre minha carreira com o meu chefe, mas também inclui aversão a usar calcinha, não pude deixar de aparentar uma inédita sensatez. Bebia minha cerveja, muito calmamente, cozinhando o objetivo da noite que era sair de lá, de repente, com algum cara que pensava estar saindo com a Thais, 25 anos, revisora de textos, e com um telefone verdadeiro gravado no celular.

E, como uma profecia, foi isso que aconteceu. O barbado do bar atravessou o salão, 12 cervejas depois, quando eu já estava falando sozinha e arrancando o rótulo da garrafa com a unha. Ele tinha o tipo de barba de Jesus Cristo – sexy, se é que posso achar a imagem de Cristo sexy, de alguma forma, sem virar uma pecadora. Tinha mãos bonitas. Aliás, tudo que me lembro com exatidão são seus dedos e um anel em seu mindinho. O jeito como ele me pediu pra não tirar os óculos foi esquisito e agradável ao mesmo tempo. E o mais importante: ele disse a que veio. Não me fez nenhuma propaganda enganosa, não prometeu nada que não podia entregar. Não me deu flores, não tentou achar nada em comum entre nós. Achei isso muito genial, e sexy. Era exatamente o que eu precisava nessa minha fase atual, que inclui não me apegar a ninguém, mas também inclui muito exercício físico (do latim, hardcore sexus).

No sábado, ao invés de arrependida, estava satisfeita. No domingo, mais do que nunca, aliviada. Concluí que não preciso mais boicotar sexta feira nenhuma. Se essa minha fase atual se chama promiscuidade ou liberdade, não sabemos. Sabemos que inclui ser mentirosa e desequilibrada, mas também inclui estar em paz.

Sexo, universo e azulejo

Eu parecia uma junkie jogada de barriga pra cima naquele futon verde oliva enquanto ele me percorria. A Joss Stone cantava pra nós no rádio e a iluminação era fraca (ou inexistia). Só vinha do poste na rua. Sexy, mas…

Tinha um espelho na minha frente. Sentia-me o Christian Bale no ménage de American Psycho, mas sem a terceira pessoa, obvio. A três não funciono! Difícil focar só em uma pessoa, imagina em duas.

Tanto, mas tanto que ele estava lá embaixo (fazendo um ótimo trabalho, aliás), e, mesmo assim, eu continuava escrevendo um livro mental, pensando que precisava passar no mercado depois que acordasse no dia seguinte, lá pras 11. Pensando que eu nunca ia conseguir organizar meus livros por ordem alfabética. Pensando que eu estava com pavor que esse menino me beijasse e isso me transformava numa prostituta em potencial.

Quando ele acabou, eu virei logo uns 180 graus na horizontal e fiquei encarando o gordinho que passeava com um lindo Golden Retriever lá embaixo na rua. Não, não! Retira o que eu disse. Não posso ser o Christian Bale! Ele tinha só espelhos, eu também tenho público. Eu encostava o colchão em quatro extremos porque esse ângulo funciona melhor pro meu ego e pra máquina de escrever instalada no meu cérebro. (E eu estava obcecada com a minha própria imagem!) Sei que ele tentou borrifar romance por todo o quarto de adolescente dele com aqueles elementos – música, luz, beijinhos carinhosos dos pés a cabeça, mas não posso evitar de ser fria nessa minha fase.

Ele puxava meu cabelo, lambia minha orelha. Nunca curti saliva na orelha, sabe? Porque é que as pessoas tem essa obsessão com orelhas? Minha orelha estava ensopada e eu não estava ficando mais excitada por conta disso! Enfim, meu livro dizia: não é contraditório que minha saúde mental funciona tão melhor quando estou sozinha, mas mesmo assim eu vivo querendo achar minha tampa? Não, sexo não tem nada a ver com isso! Ele já podia deixar minha orelha em paz e ir salivar em outras bandas, né!

Eu sou péssima! Eu faço esses pequenos experimentos depois de ficar sóbria de uma embriaguez de amor. É exatamente nesse momento que eu me torno a mais filha da puta das pessoas, porque eu tento esquivar da solidão saindo com o primeiro idiota que aparece – talvez Freud explique esse fenômeno. Ele, dessa vez deitado do meu lado, se aproximava como quem ia me fazer conchinha. Ninja, escorreguei por debaixo dos seus braços. “Onde é o banheiro?”, e saí, na ponta dos pés vestindo uma camisa xadrez (dele) completamente abotoada fora de sincronia.

Sentei. Olhei o azulejo por uns dez segundos até perceber que era o mesmo da minha casa no interior antes da reforma. Até os meus sete anos o banheiro da minha casa foi revestido com um azulejo idêntico. Toda vez que eu ia tomar banho, ou quando tinha, sei lá, prisão de ventre, eu ficava olhando atentamente pro azulejo, porque, se você prestasse a atenção, você conseguia decifrar pequenos rostos no meio dos desenhos. E quando eu conseguia achar um, isso me deixava imensamente feliz.

Por causa de um azulejo, tudo veio à tona.
Quando eu tinha sete anos, eu gostava de ver rostos em figuras que não foram feitas para serem rostos e, 17 anos depois, nada de muito drástico tinha mudado. Toda vez que eu gostava que um cara me beijasse na boca, ou que não pensava em tarefas de casa enquanto transava, ou, pra resumir, quando eu estava realmente envolvida e apaixonada, eu ficava que nem louca procurando rostos no azulejo. Procurando coisas que não existiam. E isso me tirava a sanidade, resultando num desastre atrás do outro.

E aí, toda vez, no entreamores eu virava essa piranha! Era um ciclo: louca, piranha, louca, piranha.

E pra completar, se você parar pra pensar, eu bem que podia ter estado no lugar desse pobre fã de soul music em todos os meus relacionamentos falhos. Quem há de dizer que eu não estava cheia dos clichês de amor enquanto algum babaca estava mais interessado em se admirar no meu espelho? E, aliás, não está toda a humanidade presa nesse carrossel de bad timing, onde um se envolve o outro não? Não é culpa de ninguém, é só o universo unindo as pessoas erradas, na hora errada.

Viu: Sanidade! Acontece lá pela terceira semana.

Mas, caralho, quando é que esse desencontro vai acabar, hein? Preciso deixar esses meninos românticos em paz, e preciso parar de ficar enlouquecendo por aí.

Depois do banheiro, deitei de costas pra ele, ainda torcendo pra ele não me abraçar. Mas tudo fazia sentido agora. A Joss Stone continuava maravilhosa, a luz da rua romantissíssima e eu esse bloco de gelo, derretendo num futon. Pensando: 1) eu preciso parar de enlouquecer quando estou gostando de alguém e parar de procurar rostos no azulejo. 2) O universo precisa parar de zoar a nossa cara. 3) Preciso, realmente, parar de deixar a janela aberta.

Acordei, a perna dele estava, assustadoramente, em cima de mim, a luz do sol estava me tostando e todo o romantismo da noite passada tinha desaparecido (ainda bem!). Botei meus adornos de volta, devolvi a camisa xadrez.

Tchau, Thaís.

Puta que pariu, 4) Preciso parar de usar meu nome falso.

Balada

O bar estava lotado, muito cheio mesmo. Uns 15 por metro quadrado, estou chutando baixo. Meu cabelo, aquele dreadlock espontâneo emaranha-se cada vez mais, e cada pingo de suor contabiliza umas 4 casas decimais. Ainda assim, ainda ofegante, bato cabelo como uma drag queen possuída pelo ritmo ragatanga ou pelo exu caveirinha.

Um se aproxima, com bafo que chega com 30 segundos de vantagem sobre ele e diz “qual seu nome, morena?” se minha técnica de leitura labial estava apurada. Mesmo sem entender direito, jogo um “Thais!” pra não ter que fazer ele abrir a boca pra repetir.

– Querida, seu nome não é Thais. Ok, se for, coloque um H, pelo amor de deus, sem H é esteticamente ridículo.

E pulo movendo-me em círculos tentando despistar ou cansar o sujeito que insistia em atrapalhar meu passinho do robô, patético de propósito, pra não chegar mais nenhum Zé com bafo. Infelizmente a tentativa foi frustrada: “Quantos anos você tem?”.
– Finjo que não escutei? Finjo? Não! O guaxinim morto, o guaxinim! Cacete, vou fingir que tropecei.

Me pegou nos braços, o filha da puta e soltou um cafona “Te salvei, hein, morena!”
Ó céus, pare de me chamar de morena!
Não vi nenhuma obra aqui por perto pra você ser tão baixo.

Como é difícil sair pra dançar sem ser importunada! Devo, então, fingir que estou numa viagem louca. De ácido ou de lança? Sim de ácido, pega essas luzes no ar, querida, da umas piscadas bruscas, mexe esse pescoço direita-esquerda-repete. Abraça essa caixa de som. Ok, esse vazou. LIBERDADE!

Danço com os braços abertos, como a noviça rebelde. The hills are alive with the sound of music! Veja quanto espaç-Cacete, vodka na minha camiseta do Velvet Underground não! Vaca! Andy Warhol amaldiçoe o resto da sua noite! Continuo dançando.

Banheiro e retoco o ruby woo que eu só comprei porque vi uma resenha na internet, num blog de maquiagem. Ah, mas é lindo! Passo tempo demais na frente do espelho analisando as olheiras cuidadosamente desenhadas por deus abaixo dos meus olhos vermelhos. Foda-se! Tô linda! Volto pra pista, tem gente vomitando no meu canto, então ando sem olhar pros lados em direção ao bar. Opa, bar tender gatinho, arruma esse decote.
Nem me olha, lazarento. Ok, a vida é injusta, tem bafo.

O que eu bebo?
Vodka? Amnésia demais.
Whisky? Velho demais.
Água de côco? Piadista demais, minha filha! Escolhe.
Pego uma cerveja e encosto no balcão. Olho a bonita descer de ponta cabeça no pole dance, com desdenho e inveja ao mesmo tempo. Maldito adutor e sua turminha do barulho. Devia ter ido treinar musculação ao invés de ficar lendo Carlos Drummond de Andrade em casa. Assim quem sabe me enturmaria, podia desfilar meu tanquinho por aí. Muita flor, muita náusea pra ti, Grace, muita!

Mas volto pro canto, dessa vez pro lado não recém vomitado e continuo meus passinhos ao som da Anaconda querendo pegar essa sample e enfiar na goela da Nicki Minaj. Começo, assim, a amaldiçoar todas as vezes que transformaram minhas músicas dos anos 90 em remixes horrendos. Ah, que seja, sou brasileira, tenho a malemolência. Danço.

Vou fumar.
Fumódromos sempre tem gente descolada e tá me subindo uma vontadezinha de encher meu pulmão com a formosa fumaça. Eu tinha parado, mas só hoje, só hoje, então cala a boca! Vejo a rodinha no canto falando sobre boquete e afins.
– Me da um cigarro?

Encosto, trago. Chega um bebadinho bem com os olhos caídos e preguiçosos. Já devia estar bebendo há horas, mas faz piada com a banana da minha camiseta, então o deixo falar. Meu sorriso é lindo, sou misteriosa e meiga ao mesmo tempo. Oh, que atributos singulares (só que não!). E trocamos mais meia dúzia de palavras non-sense porém de fazer rir. Pediu meu telefone. Passei. Acho que estava certo. Pergunta pras minhas cervejas.
– Não tenho onde anotar.

Ah, menino, mas se você realmente quiser você vai se lembrar amanhã.

Vou pra casa. Durmo, acordo.
Isso tocando é meu telefone?

(continua…)

Os confins do sexo casual

Não é por coincidência que meu celular recebe tanta atenção de sexta feira. Andei sendo casual demais. Ops!

Aí penso: Como se faz pra não ser casual depois de sê-lo e tanto? Tem receita?

Recebo um plin com um vamos-sair-hoje? Recebo um plin com tem-festa-hoje. Recebo mil plins com mil festas com mil vamos? E o que faço? Desligo, volto a dormir, a fazer palavras cruzadas. Meus dias de one-night-stand me cansaram, nunca pensei que isso chegaria.

Sextas feiras à noite, apesar das reclamações, me divertiam.
Porque no sábado, não importa o tamanho da cagada, tudo ficava bem de novo. Talvez uma ressaca, de leve, mas quem não vira expert nisso aos 24 anos? No mesmo contexto, definimos aqui que eu sou sacana e que eu gosto de ser esse sabão que escorrega na mão dos outros. Sempre fui assim, sempre fui escorregadia. Quem conseguiu me segurar, não foi forte o bastante. Não estaria aqui testemunhando, fosse isso falso, caros amigos.

E, desse jeito, um milhão de sextas feiras passaram e, infelizmente, pra completar o telefone que eu passava estava sempre certo.
Sei que deveria ter distribuído um numero falso e evitado o transtorno.

Ontem me peguei numa discussão besta.
Não sei se estava com sono, ou se era o oposto: estava lucida demais. O menino, um daqueles pendurados no varal da minha lista de contatos, me chamou pela quinquagésima vez pra “dar um rolê” – Detesto gírias, detesto gírias, detesto gírias! E, cansada das desculpas mirabolantes, disse, sem rodeios, que estava “em outra”. Também disse que, se saíssemos, todos sabiam (deus sabia, deus ta vendo): não seria pra bater papo e, se dessa vez fosse, nesse (e somente nesse) caso, tudo bem.

– Mas o que aconteceu com você?

Foi uma mensagem, mas pude sentir a indignação.

Pensei por uns segundos: O que aconteceu comigo? E o que o fez indagar essa questão? Pode ter sido um reflexo de conversação, quando se fala coisas só para manter ou (às vezes) para encerrar um diálogo. Mas ao mesmo tempo, e se não foi? Demorei pra responder, fechei os olhos, rolei de um lado pro outro da cama, tirei o som do celular, sentei, deitei de novo. Fiquei, certamente, inquieta.

Quanta casualidade é muita casualidade?
Na casa dos 20 a quantidade pode ser larga, mas penso se chegarei na casa dos 30 com a mesma disposição. Meu motorzinho já tá perdendo o arranque, percebi isso nas semanas passadas, nas sextas feiras passadas. Acho que ta na hora de estacionar.

Porque… Haja combustível, haja saco pra aguentar perguntas como essa: O que aconteceu comigo? O que aconteceu comigo foi que hoje é sexta feira e amanhã é sábado. E sábado é um dia solitário e eu quero usar minha boca pra conversar de vez enquando. Além do mais, não quero mais me perder nos confins do sexo casual. Não por enquanto. Tô empenhada procurando a saída desse labirinto.

Mãe, fica orgulhosa de mim, acho que tô deixando de ser volúvel.
Já pode parar de me puxar a orelha.

Sabemos das minhas opiniões bumerangue. Sabemos da minha cabeça de vento. Sabemos que, hora ou outra, vou cair de volta no pula pula da casualidade. Sempre o faço. Mas por agora, me deixa ser firme, ser frequente. E, aliás, o que você quer dizer com o que aconteceu comigo? Respondi, afinal, furiosa.

– Nada, achei que a gente tinha isso.

Sim, ele estava certo, a gente tinha isso na meia dúzia de vezes que “demos um rolê”. E nunca quis adubar, sair do esporádico. Não com ele de qualquer forma que é uma versão minha só que com um pênis (longe de mim, sou péssima pessoa). E falamos sobre isso, como a gente cai nesse pensamento que tanto criticamos. Solteiros convictos tem dois inimigos: os namorados e os românticos. E parece pra sempre toda essa convicção. Quando é que colocamos na cabeça que o amor da vida é mais gostoso?

Diga que está discordando, pode dizer. De acordo com esse mesmíssimo blog, sou a fã mor de romance.
Sou mesmo, admito. Mas segundo a minha biografia autorizada fictícia escrita pelo meu alter ego featuring o Toby (meu, já citado, amigo imaginário), 2013-14 tem sido o ano do não-me-ligue-amanhã e segundo essa mesma biografia, eu fiz as contas e o resultado foi zero apesar do cálculo ter me somado uns bons momentos. E romance foi só romancinho, assim no diminutivo, que é delicioso mas enjoativo, igual a nutella.

Não, eu não quero casar e virar mãe de família.
Quero descansar meus coturnos, só isso. Amarrar o burro, sossegar o facho.

Fases são fases, procuro respeitar.
O contato continua lá na minha lista. Nos despedimos com um risonho “você é louco!” e ele “você também!”. Voltamos a dormir, a fazer palavras cruzadas.

E no dia que a fome de casualidade voltar, se voltar, estaremos à postos pra pôr a mesa, tenho certeza. Só fico encucada: será que volta, essa bichinha?

É de se duvidar.

A Iogurteira e As Tampinhas

– Não, mas presta atenção. Porque eu iria querer comprar uma iogurteira Top Therm? Quantos anos faz que isso tá a venda? E não é basicamente uma bolsa termica, aquela porcaria? Ok, na verdade isso é um pouco de preconceito meu com a voz daquela mulher, sabe? Meio trêmula… Alias alguém compra aquilo, vende ainda aquilo? (…) Como será que se faz iogurte, coloca aí no youtube pra gente ver. Quer saber? Acho que vou comprar, só pra ver…
– Quantas cervejas você bebeu?
– Sei la, 17, 19… Algum número ímpar – E fui entrando.
– 13 – ele contou – pelo número de tampinhas que você ta segurando. Porque você ta segurando tampinhas?
– Porque não quero ser enganada por aquele garçom. Outro dia tomei 9 cervejas e ele me cobrou 10.
– Você e os números ímpares…
– Quer dizer, quem precisa de tanta fermentação bacteriana, de qualquer forma? Por deus?! Não faz sentido nada disso!
– Acho que foram 19 mesmo, mas você deve ter perdido o resto das tampinhas.

Pelo menos nisso eu tava criando vergonha na cara: só vou pagar as cervejas que eu beber. E também, ta virando uma bela coleção de tampinhas.

– Me conta então qualé que é a das tampinhas.
– Porque eu bebi tantas cervejas?
– Sim, mas antes, toma cuidado com esse isqueiro, por favor.
– Ok.

Depois que apagamos o fogo no meu cabelo, finalmente, resolvi contar.

– Eu saí com o João. Lembra o João, que tem aquelas canelas finas?
– O João Garça? Sei…
– A gente saiu.
– Sim, cê já disse.
– Então, a gente saiu depois de sair da aula, na saída.
– Entendi, vocês saíram.

Foi difícil começar a falar porque minha cabeça rodopiava que nem um pião.

– Pra começar: O nome dele não é garça (seu idiota!), segura minhas tampinhas.

E joguei no tapete da sala aquele monte de tampinhas coloridas, realmente só tinha 13.

– Eu sou nova naquela cidade, Gus, você sabe melhor do que ninguém. E eu sou fácil. Deus sabe que eu sou mais fácil que a música do Jota Quest.
– Certo.
– E quando eu começo a juntar tampinhas então… Quem me segura? Não tem quem segure! Começamos a falar de livros. Ele quis falar que gostava de livros porque eu uso esses óculos de aro grosso – disse tirando a espessa armação de cima do nariz – Dá a impressão que eu sou essa intelectual que lê livros, aí ele puxou esse papo de livros.
– Que livro?
– Ah, ele me deu um livro sobre linguagem corporal. Porque eu ia querer saber sobre linguagens? Tem que excluir a linguagem, tem que parar de falatório, Gus.
– Ok, pare de morder essa tampinha, sua boca já está sangrando.
– E ele me emprestou esse livro – que eu não li. E hoje a gente saiu na saída, e ele perguntou se eu li aquela porcaria de livro.
– E você não leu, ok, ok, grande motivo pra beber 17 cervejas.
– Eu mentindo sobre um livro de linguagem corporal. Puta que pariu!

E saí em direção da geladeira.

– Tem mostarda?
– Deve ter.

Gus já revirava os olhos, provavelmente pensava que queria me por pra dormir de uma vez. Mas eu estava impossível.

– Eu já falei pra você colocar no youtube “como se faz iogurte” e você ainda não colocou – Disse, enfiando o vidro de mostarda direto na boca.
– Porque você quer saber isso?
– Porque eu acabei de juntar 19 tampinhas de cerveja, me deixa!
– Desculpa te falar, mas acho que você perdeu 6.

Aí ficamos cerca de 15 minutos procurando embaixo dos móveis as benditas tampinhas. Não sei como o Gus me aguentou.

– Aí, Gus, depois que ele viu que era mentira sobre a linguagem corporal, ele pediu o livro de volta.
– E o que que tem?
– Ah, sei lá… Ele deve ter ficado extremamente chateado que eu desdenhei do livro dele. Pensando bem, eu devo ser mesmo essa pessoa que desdenha das coisas. O Fábio, por exemplo, lembra que eu desdenhava dos desenhos dele? Eram medonhos, mas eu não precisava desdenhar, também… Eu desdenho muito dos desenhos dele, Gus, muito! Como chama quem desdenha de desenho, desdenho, desenho, desdenho… Essa palavra nem faz sentido mais. Des-de-nho. É desenho ou desdenho?

– Mas e o João?
– Ah, o João me chamou pra sair na saída da aula.

(…)

– Você não quer sentar aqui comigo e ficar quieta no lugar?
– Eu estou quieta no lugar – disse, empilhando as tampinhas – João é um idiota. Você acredita que depois que a gente falou de livros ele falou de… Do que ele falou? Espera, eu vou lembrar. Ele falou de uma coisa que me deixou emputecida. (…) Lagartos, não, gatos. Que ele tinha um gato.

Eu estava puta, já gritando.

– Sinceramente… Gato?!?
– O que que tem de mal em ter gato?
– Gus, por favor, gato?! Gatos são malignos, eles comem os roedores, as lagartixas, os pássaros (os pássaros!). Você acha que Piu piu e Frajola é ficção?
– Tenho certeza que não é – e prendeu meu cabelo, mais uma vez enconstando no fogo.
– Então, você se lembra perfeitamente do Marcel, que tinha seis gatos, ou três gatos, e que eles me odiavam. Acho até hoje que a culpa da gente ter terminado foi desses felinos do inferno. O Marcel era maravilhoso, Gus, ele era maravilhoso na cama – rolei um pouco no chão de olhos fechados – Mas teve um dia que o Frederico (o gato) se emaranhou por trás da gente e acabamos caindo por cima dele, que quebrou a pata esquerda da frente, ficou manco (o coitado), porque era um enxerido. Detesto esses gatos… Detesto, mais que Top Therm!

E eu falava sem parar, que nem uma matraca desgovernada, e nada de achar as 6 tampinhas.

– Você sabe o que me deixa mais chateada? Além de linguagem corporal, claro.
– O que?
– Que eu pensava que o João era diferente.

Fiquei um pouco sóbria.
Realmente, João era o número que apostei as fichas que tinha, naquela vez.

– E, do nada, ele me fala pra comprar uma Top Therm. Eu preciso de iogurte, Gus? Tô gorda por um acaso? Vai catar coquinho!
– Ok, eu acho que entendi, ele te chamou de gorda, quis te ensinar linguagens, gosta de gatos.
– Isso.
– Ainda não vi o GRANDE problema. Você poderia, pelo menos, parar de comer mostarda.
– O GRANDE problema, Gus, foi que eu precisei juntar 19 tampinhas (perder 6, droga!) pra fingir que estava curtindo tudo aquilo. Até quando?

Gus percebeu: todas as maluquisses até que tinham nexo. Eu era só mais uma bêbada procurando alguem pra emendar aquele coração partido em mil.

– Eu tô cansada, exausta – disse lambendo o dedo de mostarda – Exausta de ler livros que eu não quero ler, de fingir que estou lendo, de qualquer forma. Cansada de ser tudo igual, de sair pensando que o dia vai ser diferente e não sentir nada. De ficar presa nesses detalhes idiotas que são só desculpas pra eu não me mover nem um pouquinho pra frente, depois de tudo que me aconteceu. Chega! Tô exausta, Gus, e você não quer nem me fazer iogurte, pra ver se eu perco essa pança.

Gus me abraçou, chorei. Sete minutos, ou 13. Algum número impar.

– Ta, agora me conta o que mais, e porque você tá sem sutiã.
– Ah, é, não te contei. Eu e o João… A gente saiu depois de ter saído.

Tomei um peteleco e desmaiei.

Uma sexta feira típica

É sempre nesse momento, quando meu corpo está se sentindo exausto, que me ocorrem os pensamentos mais angustiantes, que nunca me deixam descansar. Minha mente faz essas coisas, às vezes.

Depois de um dia após o outro, uma sexta feira típica, como tantas outras onde eu fico tendo segundas opiniões sobre tudo, não tem mesmo como dormir. É simplesmente assim que funciona.

E me peguei pensando: Se eu acho que todos, até hoje, foram nada além de grandes babacas (e depois da lista mais triste do universo, chamada “And I Wake Up Alone List”, pra citar Amy Winehouse, em tradução livre “Lista Do Eu Acordo Sozinha”), poderia eu também ter sido uma completa idiota com alguém, ou até mesmo com os coitados pertencentes a essa lista?

Porque, de todos os caras que já estiveram sobre ou embaixo de mim, posso contar com dois quintos dos meus dedos os que realmente foram candidatos a Lista dos Lindos. Isso é apenas um quarto deles, muito obrigada, matemática, por ilustrar.

Tentei fazer mais listas e multiplicações, mas quem se importa. É só um número crescente, sem querer ser puta.
Substituindo amor por sexo, quando deveria ser o exato contrário.
E sendo easy come easy go, little high little low… Sigo.

Sexta passada acordei com dois pés a mais na minha frágil cama box de solteiro (meio barulhenta, devo dizer). E eu sabia exatamente porque isso acontecera. Chama-se carência múltipla dos órgãos, e tinha se iniciado há algumas semanas.

Essa belezura de ferramenta de confraternização das vidas aleatórias, chamada o livro das caras, me deixa cada dia mais descrente e cínica, vendo tantos mozão, mozin e mô, simplesmente, entre pessoas que, coincidentemente, aparecem em minha triste lista, e com dois dedos da santa vodka, vem o próximo idiota e se estabelece.

Vambora fazer o novo cálculo e atualizar.

E era sexta feira, por deus.
E era sexta feira treze, por deus.

Meus coturnos desgastados enfiaram-se novamente em meus pés, meu batom marrom quase que se passa sozinho, e a camisa preta já sabe até o caminho do clube mais próximo.

Dança, conversa com o Toby (meu amigo imaginário), dança, faz um charminho.
Pronto, vem o primeiro cabeludo dizer boa noite, linda donzela dos cabelos negros dançantes (fosse isso séculos antes). E outro, e outro e outro.

E nenhum é cafajeste o suficiente pra figurar minha ilustre lista. Procuremos mais.

Vejo uma escada misteriosa, pela qual eu, curiosamente, subi horas antes, e desci. Um Elvis me puxou pelos ouvidos, mexeu minhas perninhas de saracura, tão ritmadas e engraçadas, e minha vodkas que me perdoem, mas elas provavelmente me fizeram fazer papel de palhaça. Mas uma palhaça meiga, eu acho.

E esse menino de touca e, outra vez, cabelos, parecia outro menino de touca com cabelos que tinha se pintado na minha mente muito antes, e nem de longe se somava na minha lista, não por falta de oportunidade, mas pelo que eu prefiro chamar de bad timing, ou tempo ruim.

E aí meu cérebro fez todo o trabalho de casa:

1 bonitinho mas ordinário
+
11 vodkas caprichadas pelo bar tender me dando mole
+
5 anos luz de baixa auto estima (abaixo do nível do mar)
=
4 PÉS NA MINHA CAMA, MINHA FILHA.
E quinhentas perguntas no dia seguinte quando ele não me ligou (uau que surpresa!)

E voltemos a pergunta para não perder o fio da meada: Seria eu, a meiga palhaça que tem amigo imaginário, tão SACANA quanto estes meninos de cabelos?

“Sim senhora” disse aquela partezinha de trás da minha consciência que está em desacordo eterno com o meu ego. E pra falar a verdade, no final dos argumentos, eu (o eu juiz) até que concordei com ela, a parte de trás.

Quem dançou pra quem?
Quem se fez de linda pra quem?
Quem não ligou pra quem?

É, minha filha, admita!
Você é tão babaca quanto todos os babacas do universo, e só se sente pior porque é mulher e acha que mulher tem que se sentir pior. A história da humanidade ainda é pesada sobre a gente…

Ok, posso dormir agora.

Bilateral

Não importa se você entra ou
deixa entrar.
Eu te quero mesmo assim, com essa
ambiguidade, com os seus dois
lados.
Se você urra ou sussurra
Se escorrega ou fica firme
Se olha pra cima ou pra baixo
Se faz chover ou relampejar
Não tem a mínima diferença.
Eu te quero mesmo assim
Com seus balões ou seu cordão
Com seus cabelos grandes ou pequenos
Pode ser como eu, ou meu oposto, não importa.
Se usa chapéu ou guarda chuva
Se votou antes ou depois
Se senta ou fica em pé.
Eu te quero mesmo assim
Com essa bilateralidade, com
os dois lados da minha rua.
Pode usar minha faixa de pedestres.
Só não fecha esse farol
até eu terminar de passar.

Masoquismo

Lá pra agosto de 2013, eu estava gostando de pegar pesado.

– Eu sou fútil, infantil e superficial, embora pareça ser diferente dos outros rapazes. Eu nunca vou querer nada com você além dos seus gemidinhos no meu ouvido. Ah, acho seu estilo legal também, mas é só isso.

Me disse, o menino.
Não com essas palavras, mas não sei interpretar de outra forma porque foi isso que meu ouvido passou pro meu cérebro. E aquele sorrisinho sexy que eu estava dando ao olhar pra ele, no mesmo instante, desapareceu e franziu minhas sobrancelhas enquanto eu ficava infinitamente calada.

E disse ainda que gostava de “deixar a vida levar”.
Desculpa, mas eu prefiro levar a vida.

Escrevi “Você não serve mais para mim” numa mensagem que estava quase enviando pra ele no dia seguinte, quando acabou a bateria do meu celular e eu tomei isso como um sinal. Mas permanecia aquela dúvida: Até que ponto um bom rala e rola suprime nossa razão? Para mim foi até esse ponto. Na própria bíblia já dizia em Mateus 4:4 “Nem só de sexo vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do seu parceiro.”

Não com essas palavras, mas é como eu consigo interpretar.

E depois ainda tive que ficar mais uns 40 minutos ouvindo seus choramingos sobre como a vida não fazia sentido nenhum, e que ele não sabia de onde vinha e nem para onde ia. Antes disso, mudei de posição dentro daquele carro, primeiro porque estava me dando uma câimbra, segundo porque me recusava a continuar olhando praqueles olhos verde água, meio de peixe morto, enquanto sua boca se movia e se movia e não dizia nada com nada.

É claro que você não sabe de onde veio: Você é tão egocêntrico que não sabe olhar pro caminho enquanto passa por ele.
É claro que você não sabe para onde vai: Você é tão inconstante que não sabe nem escolher um caminho.

E além de tudo você não move uma palha pra fazer o que você quer e depois fica reclamando que “a vida é uma vadia!”
E que eu não te procurei mais. Que eu sumi.

Eu disse: “Eu sumi e você deixou. Estamos quites, meu chapa!”
E pensei VÁ A MERDA!

Porque o menino me passava uma mediocridade que não dava pra suportar. Ta bom, dava pra suportar pelos seu cabelo ruivo e sua barriga de tanquinho. Mas depois que percebi que cérebro tem peso 10 e magnetismo sexual tem peso 6 ou 7, no máximo, acabei por tirar a belezinha da minha lista de contatos.

Aí voltei pro “antes só do que mal acompanhada”.
Aí voltei pra um pouquinho de tédio.
Aí voltei pra um montão de tédio.

Acho que sou do tipo que gosta de sentir, nem que sejam sentimentos ruins.
Que estou sendo usada, mas deliciosamente usada. Que estou sendo enganada, mas deliciosamente enganada. Que estou sendo enrolada. Mas daquele jeito.

Acabei ligando praquele babaca de novo.