Masoquismo

Lá pra agosto de 2013, eu estava gostando de pegar pesado.

– Eu sou fútil, infantil e superficial, embora pareça ser diferente dos outros rapazes. Eu nunca vou querer nada com você além dos seus gemidinhos no meu ouvido. Ah, acho seu estilo legal também, mas é só isso.

Me disse, o menino.
Não com essas palavras, mas não sei interpretar de outra forma porque foi isso que meu ouvido passou pro meu cérebro. E aquele sorrisinho sexy que eu estava dando ao olhar pra ele, no mesmo instante, desapareceu e franziu minhas sobrancelhas enquanto eu ficava infinitamente calada.

E disse ainda que gostava de “deixar a vida levar”.
Desculpa, mas eu prefiro levar a vida.

Escrevi “Você não serve mais para mim” numa mensagem que estava quase enviando pra ele no dia seguinte, quando acabou a bateria do meu celular e eu tomei isso como um sinal. Mas permanecia aquela dúvida: Até que ponto um bom rala e rola suprime nossa razão? Para mim foi até esse ponto. Na própria bíblia já dizia em Mateus 4:4 “Nem só de sexo vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do seu parceiro.”

Não com essas palavras, mas é como eu consigo interpretar.

E depois ainda tive que ficar mais uns 40 minutos ouvindo seus choramingos sobre como a vida não fazia sentido nenhum, e que ele não sabia de onde vinha e nem para onde ia. Antes disso, mudei de posição dentro daquele carro, primeiro porque estava me dando uma câimbra, segundo porque me recusava a continuar olhando praqueles olhos verde água, meio de peixe morto, enquanto sua boca se movia e se movia e não dizia nada com nada.

É claro que você não sabe de onde veio: Você é tão egocêntrico que não sabe olhar pro caminho enquanto passa por ele.
É claro que você não sabe para onde vai: Você é tão inconstante que não sabe nem escolher um caminho.

E além de tudo você não move uma palha pra fazer o que você quer e depois fica reclamando que “a vida é uma vadia!”
E que eu não te procurei mais. Que eu sumi.

Eu disse: “Eu sumi e você deixou. Estamos quites, meu chapa!”
E pensei VÁ A MERDA!

Porque o menino me passava uma mediocridade que não dava pra suportar. Ta bom, dava pra suportar pelos seu cabelo ruivo e sua barriga de tanquinho. Mas depois que percebi que cérebro tem peso 10 e magnetismo sexual tem peso 6 ou 7, no máximo, acabei por tirar a belezinha da minha lista de contatos.

Aí voltei pro “antes só do que mal acompanhada”.
Aí voltei pra um pouquinho de tédio.
Aí voltei pra um montão de tédio.

Acho que sou do tipo que gosta de sentir, nem que sejam sentimentos ruins.
Que estou sendo usada, mas deliciosamente usada. Que estou sendo enganada, mas deliciosamente enganada. Que estou sendo enrolada. Mas daquele jeito.

Acabei ligando praquele babaca de novo.

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Fiquei a manhã inteira olhando para a tela do meu celular pra ver se ele me ligava. Olhava a cada 14 segundos, pra ser exata. E nada. Acho que passei horas fazendo isso enquanto finalizava um questionário de clima de trabalho que meu chefe havia me passado pra estudar se nossa estratégia de equipe estava funcionando bem. E então, o telefone tocou.

– Não vou atender de imediato. Ele vai pensar que eu não faço nada além de ficar esperando ele ligar.

Vou esperar três toques, pra parecer que eu estava longe do telefone. Fazendo algo de importante. Talvez fazendo exercícios físicos. Ou cuidando do meu jardim.

O idiota desligou no segundo toque.

Aí, fiquei pensando que deveria ter atendido logo que vi, ou seja, no mesmo segundo em que o telefone tocou, porque o ele estava na minha mão.

Mas porque ele só deixou tocar duas vezes e desligou? Será que ele desistiu de me ligar? De qualquer forma, ele sabe que seu numero ficaria gravado e eu poderia retornar.

Mas se ele desistiu, devo retornar?

Mas se eu retornar, é porque vi a chamada perdida. Mas não deveria saber quantos toques ele deu antes de desligar. A menos que estivesse ao lado do telefone. E eu não posso o deixar saber que eu estava, senão ele vai achar que eu sou louca.

Mas se eu não retornar e ele não ligar de novo… Pode ser que isso aconteça. Ele pode ter se tocado que eu sou louca e…

Pronto, ele esta ligando de novo.

Será que atendo de primeira ou deixo esperando um pouco?

E isso aconteceu umas três vezes.
E nós não nos falamos.

Depois, quando me deitei para dormir, liguei minha tevê num episodio do Snoopy.

You’re in love, Charlie Brown.
You’re in love, Grace Brown!

E parecia eu e ele. O Charlie Brown e a minininha ruiva.
E fiquei pensando no quão idiota e infantil foi tudo aquilo. Porque eu não atendi o telefone? Porque a gente ficou se desencontrando?

E no dia seguinte, eu fui ao mercado comprar tic tac – meu estoque estava no final. Enquanto passava pelo corredor de condimentos, vi uma pessoa que se parecia muito com ele passando no corredor da padaria. Minha reação corporal imediata foi de virar de costas e fingir que estava andando no sentido oposto ao dele.
Peguei uma mostarda e fiquei olhando as informações nutricionais com cara de grande interesse. De repente, sinto me cutucarem no ombro.

– Você, por um acaso está fugindo de mim?

Ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus! É a voz dele.

Mas espera.

Como ele teve coragem de vir falar comigo, assim tão casualmente, no corredor de condimentos dos mercados Lilly? Eu estou aqui quase desidratando de tanto suor ou a beira de um colapso nervoso e ele veio e simplesmente disse isso “você esta fugindo de mim, hein menininha hein?”

Bom, acho que homens e mulheres são mesmo de planetas diferentes.

Mas espera de novo.
Responda antes, surte depois.
Isso não é telefone que você pode esperar três toques. É a vida real.

– Oi! Nossa que coincidência, nem tinha te visto!

Pare de ser mentirosa, Grace Brown.

– Te liguei ontem, mas não consegui te encontrar, acho que você estava no trabalho. Achei estranho que não me ligou de volta.

Ufa, ele não acha que eu sou louca.

Construa, toque

Não fazem sentido todas as coisas que dizem.
Que orgulho, que vergonha, que medo fazem parte.
E parece que estou numa ilha. Pensando tudo isso. Só eu.

Eu só.

Numa ilha. E tem água em forma de cerca. Que separa, que limita.
E não quero ter limites. Mas de nada adianta se só eu não tiver.

E tem cerca em forma de tempo. Tempo perdido.
E tempo perdido em forma de menino.

Não perca meu tempo. Ou me ajude a encontrar.
O tempo.

Não faça sentido.
Orgulho, vergonha e medo.
Não construa uma ilha. Ou uma cerca. Ou uma perda de tempo.

Construa portas abertas.
Construa mão dada com mão. Boca com boca. Construa toque.

Construa. Toque.