O Bar

Eu tinha duas opções: ou guardava as chaves do meu carro no sutiã (garotas dos peitos PP, como eu, sabem que essa tarefa beira o impossível, porque qualquer Nicki Minaj que toca já extravia qualquer pertence) ou deixava as chaves com ele. Eu estava de saia, nenhum bolso. Tinha tomado 3 shots de cachaça. Eu tomava cachaça naquela época.

Mas pra começar, a gente foi parar lá porque era véspera de feriado de Corpus Christi, também acabávamos de sair de uma festa estranha de algum curso de humanas da Unicamp, aquelas que cheiram hot dog com maconha, e também porque as garotas só querem se divertir. Eu era a única garota entre nós, mas fez sentido essa justificativa.

Chegamos, tomei um troço chamado caravela, que basicamente era um monte de álcool pegando fogo dentro de um copinho – tem que sugar a fumaça e chacoalhar a cabeça depois. Era um bar estilo inferninho, um pulo mal calculado resultava em galo na cabeça no dia seguinte.

No caminho da festa da Unicamp até o bar, ficamos perdidos. É perfeitamente normal ficar perdido em Campinas. Aquela cidade é maluca, as placas te levam a lugares em outras dimensões, ou somem quando você menos espera.

Além do mais, tinha uma pessoa a mais no carro. E o carro estava em péssimas condições. Meus carros nunca estão totalmente bons pra dirigir, porque, sempre que consertava alguma coisa, dava um jeito de quebrar outra. No meio do caminho, o velocímetro estourou e isso fazia tanto barulho que era impossível manter uma conversa sensata lá dentro.

– Você viu que a Kate Middleton teve bebê?
– Vi, falaram que foi porque choveu muito naquela semana.

Vimos uma placa que dizia “centro”. Pegamos a direita e, 37 minutos depois, começamos a estacionar na porta do bar. Um amigo de longa data, campineiro, aparece plantando bananeira na frente do carro e, quando se recompõe, faz questão de se jogar pra dentro da janela do motorista, em cima de mim. Quando faz isso, derruba toda a gelatina em copinhos de café que viemos comendo pelo caminho. É uma pequena tradição da turma fazer gelatinas, as vermelhas contém o maior teor alcoólico, por praxe.

Dois de nós estavam comendo coxinha, daquelas bem gordurentas – o papel de pão estava transparente. Não era eu, apesar de que desconfio que eu tenha dado duas ou três mordidas porque, no dia seguinte, minha blusinha tinha uma enorme circunferência de óleo e eu tive que jogá-la fora.

Comentavam sobre a Lídia Brondi, no carro, ao mesmo tempo que falavam sobre a Primavera Árabe. Lídia Brondi é como meus amigos  chamam a minha vagina, só pra constar, e eles adoram fazer comentários personificando a pobre: hoje a Lídia ta animada! Às vezes isso me constrange (sempre me constrange), mas eu lembro logo depois que ninguém mais sabe o que aquilo quer dizer.

Quando chegamos ao bar, por algum motivo estavam mixando Black Sabbath com Carly Jae Repsen ou Carly Rae Jepsen e la fora dizia que era uma festa com “o melhor do eletrônico”. Pareceu genial!

Vamos ao banheiro, estampado de Daft Punk, onde fui bruscamente engolida pela porta de dobradiças perigosamente frouxas, e tiramos fotos enquanto simulamos urinar num mictório coletivo, que parecia a pia de lavar as mãos da minha escola do ensino médio.

Ao sair, vejo o Ashton Kutcher, que mais tarde percebi que, na verdade se parecia com o Luciano Huck, e sensualmente ao som de Nina Hagen com Daniela Mercury, ou Freddie Mercury ou, ainda, alguém que estava nos hotéis Mercure, achego meu magro corpinho vestindo uma saia rodada e uma blusa vermelha de bolinhas brancas (que amanheceu misteriosamente do avesso) e começamos uma espécie de competição de dança.

Enquanto isso um dos meus amigos, provavelmente o que comia coxinha no carro, tentava enfiar o maior número possível de canudos dentro da boca. E o amigo que derrubou nossas gelatinas já estava sem camisa no palco de um metro quadrado, dublando uma música que, aparentemente, não tinha letra nenhuma. Outros dois beijavam a três com um cara que se chamava John Lennon. E parecia ser o suficiente para aquela noite.

Mas não era.

Eu e o loiro alto (ou fui traída pelas luzes duvidosas que passeavam pelo bar) saímos para a área de fumantes que era bem maior do que o restante do espaço e, sem duvidas, estava bem mais lotada – nunca vou entender esse bar. Ele sugava minha orelha como quem tenta tomar um milk shake muito concentrado, ao mesmo tempo que tentava bater um papo com a Lídia e eu não deixava. Usava um shortinho por baixo, como um cinto de castidade, e quase batíamos nossas palmas no ritmo da música que agora estava indecisa entre AC/DC e Furacão 2000.

Alguém reclama que perdeu uma das meias.

Pedi a ele que guardasse minhas chaves, afinal, eu certamente iria perdê-las. Por algum motivo, achei que o menino estava ligeiramente mais sóbrio do que eu ou qualquer um dos meus amigos. Guardando-as em seu bolso, empurrou-me em direção a uma das paredes, enquanto roubávamos o lugar de uma gordinha de meia arrastão, que queimou minha coxa com o cigarro. Chorei por uns dez minutos por isso. A competição dos canudos estava cada vez mais perigosa e um dos meus amigos estava tentando achar uma barraca de coxinha – claro, o mais gordo.

Ashton vai embora. John Lennon era afro. No final das contas, meu amigo estava desmaiado o tempo todo e a competição era entre o bar tender e o fotógrafo do bar para ver quem conseguia colocar mais canudos dentro da boca desacordada dele. Vídeos revelam que a música dublada por meu amigo que planta bananeiras era da Iggy Azalea – achei que era um barulho, mas era Bounce.

Ashton vai embora.

E vai-se o Ashton. E Ashton vira Huck. E Huck leva embora minhas chaves.

Depois de ser entregue de volta aos meus amigos por uma garota que me encontrou abraçada a um poste do outro lado da rua, caiu-me a ficha.

Ashton era Huck. Huck foi embora.

PUTA QUE PARIU MINHAS CHAVES!

Desespero-me, acordo como quem acabou de ligar a TV numa aula de zumba. Paro na porta do bar e interrogo a todos que saem por lá. Já deviam ser umas 4 da manhã. Ainda.

– Você conhece um moço loiro, alto, a cara do Ashton Kutcher?

Fiz essa pergunta exatas 27 vezes até que uma menina de alargadores de raio igual ao de uma latinha de cerveja apanha o celular e me pede pra anotar seu número. Lembro, então, que meu celular estava dentro do meu carro, trancado, junto com o velocímetro pendurado no painel. O segurança tenta, aos pontapés, abrir a porta, sem sucesso, e trinca bem de leve o vidro do lado do passageiro. Gelatinas por toda parte.

Outro dos meus amigos passa pela porta, expulso por tirar a caixa de som da parede e “dançar com ela”, segundo as palavras do outro segurança mau. John Lennon e um outro amigo passam de taxi na nossa frente, aos beijos. Nada do Ashton, ou do Huck ou quem quer que seja esse menino.

Volto pra festa, meu amigo está aparentemente vomitando canudos e ao invés de ajudá-lo, seguro sua cabeça para a foto que estão tirando ficar melhor focada. Alguém está no banheiro do Daft Punk emitindo sons estranhos, quando começo a chorar e a gritar pelas minhas chaves. Tomo outra caravela e volto a rebolar ao som de Shakira Shakira.

Passam-se, provavelmente, 30 horas.
Alguém pintou bigodes na minha cara.

O Ashton deve ter voltado porque amanheci na minha cama. O fotógrafo ganhou com 36 canudos. Alguém sangrou no banco de trás. Acharam a meia e penso que nunca mais volto àquele bar. Nem a nenhuma festa de humanas, nem saio sem bolsos. Ainda mais depois das fotos mostrando os peitos da minha pessoa, divulgadas num site – talvez explique a blusa do avesso.

E três anos passaram-se sem que ficássemos um mísero final de semana sem o bar.

Ah, o bar!

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Balada

O bar estava lotado, muito cheio mesmo. Uns 15 por metro quadrado, estou chutando baixo. Meu cabelo, aquele dreadlock espontâneo emaranha-se cada vez mais, e cada pingo de suor contabiliza umas 4 casas decimais. Ainda assim, ainda ofegante, bato cabelo como uma drag queen possuída pelo ritmo ragatanga ou pelo exu caveirinha.

Um se aproxima, com bafo que chega com 30 segundos de vantagem sobre ele e diz “qual seu nome, morena?” se minha técnica de leitura labial estava apurada. Mesmo sem entender direito, jogo um “Thais!” pra não ter que fazer ele abrir a boca pra repetir.

– Querida, seu nome não é Thais. Ok, se for, coloque um H, pelo amor de deus, sem H é esteticamente ridículo.

E pulo movendo-me em círculos tentando despistar ou cansar o sujeito que insistia em atrapalhar meu passinho do robô, patético de propósito, pra não chegar mais nenhum Zé com bafo. Infelizmente a tentativa foi frustrada: “Quantos anos você tem?”.
– Finjo que não escutei? Finjo? Não! O guaxinim morto, o guaxinim! Cacete, vou fingir que tropecei.

Me pegou nos braços, o filha da puta e soltou um cafona “Te salvei, hein, morena!”
Ó céus, pare de me chamar de morena!
Não vi nenhuma obra aqui por perto pra você ser tão baixo.

Como é difícil sair pra dançar sem ser importunada! Devo, então, fingir que estou numa viagem louca. De ácido ou de lança? Sim de ácido, pega essas luzes no ar, querida, da umas piscadas bruscas, mexe esse pescoço direita-esquerda-repete. Abraça essa caixa de som. Ok, esse vazou. LIBERDADE!

Danço com os braços abertos, como a noviça rebelde. The hills are alive with the sound of music! Veja quanto espaç-Cacete, vodka na minha camiseta do Velvet Underground não! Vaca! Andy Warhol amaldiçoe o resto da sua noite! Continuo dançando.

Banheiro e retoco o ruby woo que eu só comprei porque vi uma resenha na internet, num blog de maquiagem. Ah, mas é lindo! Passo tempo demais na frente do espelho analisando as olheiras cuidadosamente desenhadas por deus abaixo dos meus olhos vermelhos. Foda-se! Tô linda! Volto pra pista, tem gente vomitando no meu canto, então ando sem olhar pros lados em direção ao bar. Opa, bar tender gatinho, arruma esse decote.
Nem me olha, lazarento. Ok, a vida é injusta, tem bafo.

O que eu bebo?
Vodka? Amnésia demais.
Whisky? Velho demais.
Água de côco? Piadista demais, minha filha! Escolhe.
Pego uma cerveja e encosto no balcão. Olho a bonita descer de ponta cabeça no pole dance, com desdenho e inveja ao mesmo tempo. Maldito adutor e sua turminha do barulho. Devia ter ido treinar musculação ao invés de ficar lendo Carlos Drummond de Andrade em casa. Assim quem sabe me enturmaria, podia desfilar meu tanquinho por aí. Muita flor, muita náusea pra ti, Grace, muita!

Mas volto pro canto, dessa vez pro lado não recém vomitado e continuo meus passinhos ao som da Anaconda querendo pegar essa sample e enfiar na goela da Nicki Minaj. Começo, assim, a amaldiçoar todas as vezes que transformaram minhas músicas dos anos 90 em remixes horrendos. Ah, que seja, sou brasileira, tenho a malemolência. Danço.

Vou fumar.
Fumódromos sempre tem gente descolada e tá me subindo uma vontadezinha de encher meu pulmão com a formosa fumaça. Eu tinha parado, mas só hoje, só hoje, então cala a boca! Vejo a rodinha no canto falando sobre boquete e afins.
– Me da um cigarro?

Encosto, trago. Chega um bebadinho bem com os olhos caídos e preguiçosos. Já devia estar bebendo há horas, mas faz piada com a banana da minha camiseta, então o deixo falar. Meu sorriso é lindo, sou misteriosa e meiga ao mesmo tempo. Oh, que atributos singulares (só que não!). E trocamos mais meia dúzia de palavras non-sense porém de fazer rir. Pediu meu telefone. Passei. Acho que estava certo. Pergunta pras minhas cervejas.
– Não tenho onde anotar.

Ah, menino, mas se você realmente quiser você vai se lembrar amanhã.

Vou pra casa. Durmo, acordo.
Isso tocando é meu telefone?

(continua…)