Parte I

Nesse natal, acho que nada vai acontecer de interessante, então não vou fazer suspense. Estou no interior, na casa dos meus pais, faz calor como em Recife e mesmo já estando aqui, não sei se estou preparada mentalmente para conviver de novo com a minha família. Passei em frente ao espelho que fica na sala de jantar e percebi que com aquela camiseta larga, sem maquiagem, e com o cabelo oleoso até a cintura, eu pareço mesmo com um roqueiro decadente, como ressaltou o meu irmão mais velho. Depois voltei a sentar no sofá velho na sala de estar. Todos aqueles móveis, os quadros da minha mãe, os enfeites de elefante já fizeram parte de um passado não tão distante assim, emoldurado na minha cabeça como se nunca tivesse existido de verdade. Voltar pra casa depois de quatro anos é ser um peixe e mergulhar pra fora d’água. Porque nada parece diferente e, ainda assim, tudo parece estranho.

Eu não sabia onde estavam as colheres, porque mudaram tudo de lugar. Mesmo assim, quanta coisa não mudou. Minha avó continua na casa dela. Meus primos estão casados, agora têm filhos de alguns meses. Mas o papo continua o mesmo: Como está a vida longe de casa? Já se adaptou? Fico pensando no que isso significa, e por que a obsessão com adaptação.  Sim, claro, já devo ser praticamente paulistana, tia! Mas na verdade eu não sei o que se adaptar significa. Se eu estou confortável lá? Se já sei onde fica o caixa eletrônico mais próximo? Quatro anos é bastante tempo, tia, mas não tem gente que passa a vida toda sem se adaptar a nada? E além do mais, quatro anos não é muito tempo coisa nenhuma! O que se pode aprender em quatro anos, de verdade? Se você for parar pra pensar, nada demais. Eu continuo empacando na esquerda, mandando mensagem de texto em frente ao Rinconcito. Depois de todo papo de adaptação, fiquei pensando no que realmente aconteceu nesses anos enquanto assistia desenho animado na mesma sala em que eu fazia isso aos 5 anos de idade. Não dava pra saber direito o que eu tinha feito de significativo pra minha própria vida. Concluí que não havia me adaptado, então, e entrei numa crise curta. De qualquer forma, era véspera de natal então suponho que seja assim mesmo. Tenho certeza de que vão me perguntar sobre minhas viagens de anos atrás, minha tatuagem nova, se eu resolver usar um modelito que mostre meus ombros. Acho melhor eu decorar meu texto, botar minha cara de blasé pra trabalhar.

E foi lá mesmo, no espelho da cozinha, que comecei a montagem. Aquele cabelo imenso tinha a serventia de cobrir minha cara de pouco interesse. A questão é: saí de casa, aluguei um apartamento há quatro anos, e agora? Toda vez que eu visitar meus pais vai ser assim? Ou até me acontecer algo mais interessante: um filho ou, sei lá, um câncer, quem é que vai saber? Não dá pra deixar de me sentir estranha perto da minha própria família com tanto interrogatório: mas esse alargador serve pra quê? Acho que desde adolescente me incomoda a curiosidade alheia sobre mim e ao mesmo tempo me agrada inconscientemente. Talvez eu alargue as orelhas pra ser questionada e depois finjo que acho isso um saco. A mesma coisa com o sapato amarelo de plástico que a minha prima tirou sarro em 1999. Eu dava um jeito de ser sempre a esquisitona da família com algum adereço inusitado pra depois protestar sobre minha liberdade de parecer tão estúpida quanto eu quisesse.

Então nesse ano eu, parecendo um homem, me olhava no espelho da minha antiga casa e me sentia como nunca uma desconhecida. Depois passei maquiagem, falei com a minha mãe, bem apática. Minha tia me lembrou de quando eu fui pra Nicarágua – faz 4 anos. Não tia, nós terminamos, já namorei 3 caras depois disso. Não. Eu estou solteira no momento. Aliás, estar solteira em família, em pleno natal, é algo que já está enraizado no terreno da minha existência. Aos 15 anos era completamente normal e até preferível, mas agora que tenho 28 as coisas mudaram. Minha avó faz cara de quem quer um bisneto antes de morrer. Minha prima, que teve trigêmeos semana retrasada, quer me dar uns conselhos.

Tudo bem, espero que todos tenham notado que a crise dos 28 anos estava pairando sobre a minha cabeça e era evidente que dessa vez as coisas estavam piores do que nunca. Todos os anos eu tinha uma crise correspondente ao número de anos que eu estava completando. A pior crise até então tinha sido a dos 24 em que eu fiz permanente nos cabelos depois que terminei com o Juan, o nicaraguense. Na época chorei por três quartos do ano, larguei a faculdade, virei bissexual por um tempo e fui morar em São Paulo, porque eu não aguentava mais gastronomia e achava a Maria Vânia bonita. Só isso. Depois passou, fiquei em paz comigo mesma, fui fazer jornalismo, namorei o Daniel, o Frederico e o João. Vou me formar ano que vem porque tomei bomba de um terço do curso e já terminei com o Daniel (bafo horrível), o Frederico (me traiu) e o João (foi traído por mim). Eis então que é natal, eu estou mal humorada até a extremidade dos meus pelos.

A crise desse ano começa com a enorme concentração de gordura nos meus culotes. Lembro vividamente de ter 18 anos e olhar para a barriga da minha mãe, absolutamente enrugada, e pensar que ela já tinha nascido assim. Não passou pela minha cabeça que ela era tão magra quanto eu com a minha idade na época e que eu não teria a barriga plana assim a vida toda. Hoje sento e são tantas dobras! Não sei a história de nenhuma delas, elas simplesmente estão aqui agora, como se sempre estivessem bem ali, assim como na minha mãe. Pela primeira vez na vida minhas roupas não me servem e eu temo a balança como o diabo teme a cruz. Além do mais, a Fiona Apple não faz mais tanto sentido assim. Não tenho mais nenhum ídolo que não seja um youtuber que faz cover do Abba com uma gaita. Às vezes eu quero focar no meu curso, ler mais, ser mais intelectual, e às vezes quero reproduzir tutoriais de maquiagem de blogueiras de 18 anos na minha própria cara e, como se espera, fico sempre muito frustrada.

Voltar é especialmente estranho porque não é mais a minha casa. Na verdade nenhuma casa tem sido completamente minha nos últimos anos, principalmente porque eu não deixo. Compro coisas descartáveis e depois reclamo que não finco logo as raízes, não entendo. Talvez eu devesse ver menos vídeos de decoração e efetivamente decorar o meu apartamento. Até parece que nem desfiz as malas em quatro anos. Nunca dá certo de organizar tudo que eu levei de casa e tudo que compro acaba sendo inútil e quebra logo. Pra completar, parece que tudo sempre volta num looping de acontecimentos. Já comprei cortina pra sala três vezes e também a minha tia sempre me pergunta as mesmas coisas, “e o francês, parou mesmo?”. Parei tia, parei o crossfit também depois de três aulas, parei de usar alpargatas porque é ridículo, parei de sair com aquele cara que tinha tesão pela minha panturrilha. Parei, simplesmente parei! Não tem gente que para de comer, de viver? Às vezes a gente só para, tia.

Eu pareço mal humorada e desgostosa quase sempre agora também, é meu novo preto. A vida inteira eu tentei ser no mínimo agradável e então agora que eu fiz 28 anos eu decidi que não precisava mais ser assim já que isso nunca me favoreceu em nada. Façamos as contas: estou em um nível temível de autodepreciação. Tanto que costumo acordar e rir de mim mesma até abrir os olhos, às vezes choro, de leve. Também estou descrente do amor, como noventa porcento das pessoas desse planeta e pra completar meus amigos estão absolutamente ausentes. Outro dia cheguei em casa e minha amiga, que não fuma, estava fumando. O som apático do seu oi pigarrento não sai da minha cabeça. Primeiro porque ainda não esqueci que ela quebrou meu pó de arroz de cento e sessenta reais enquanto estava chapada. Segundo porque eu nem lembro mais por que é que resolvemos morar juntas. Quatro anos parece tempo suficiente para se arrepender de algumas decisões e foi depois de perceber isso que olhar pra cara dela tem sido particularmente maçante nos últimos meses. Tentamos conversar às vezes e é como se nunca tivéssemos sido apresentadas. E não é só ela. Todo o meu grupo de amigos, os quais eram carregados com muito apreço do lado esquerdo do meu peito e com quem eu costumava dividir muitas vodkas, está insuportavelmente impossível de se conviver. Decidiram que gostam de frequentar o meu lugar menos favorito na face da terra e, se eu quiser desfrutar de suas amabilíssimas companhias, tenho que me sujeitar a  respirar o mesmo ar que provavelmente o Alexandre Frota. Por isso estou ficando em casa desde outubro e, agora que o natal chegou,  resolvi passar uns tempos grudada na minha família.

Acho que depois ficou claro pra mim o arrependimento. Não da pra saber se todo mundo me irrita porque todo mundo é, de fato, muito irritante, ou se eu estou numa fase em que é muito, muito fácil me irritar. Eu realmente sinto muito de ter enfiado o algodão doce do filho do meu primo de 5 anos no lixo quando ele veio me oferecer um pouco na ceia, ontem a noite. Não pude evitar. Minha amiga tinha me mandado uma mensagem perguntando se podia usar meu vestido jeans e na última vez em que isso aconteceu, ela estragou a minha camisa de seda com o ferro de passar. Mas agora não tem volta. Já falei pra minha mãe que vou ficar até o aniversário de São Paulo, já que fui demitida, não tenho saco pra ficar no meu apartamento e pretendo pedir ajuda para pagar o  aluguel desse mês.

Eu trabalhava numa empresa que faz assessoria de imprensa pra algumas subcelebridades. Foi um estágio que consegui no terceiro ano e eu tinha sido efetivada há quatro meses. Não tinha nada de muito interessante. Eu dava suporte para o assessor do Theo Becker e às vezes ele aparecia por lá e me cumprimentava com um beijo na bochecha. Teve uma época em que eu me gabava disso para os meus amigos, mas depois que ele saiu d’A Fazenda tudo despencou e cada dia parecia mais patético que a ida dele até o meu trabalho fosse o ponto alto da minha semana. Uma vez ele caiu de uma cadeira enquanto estávamos numa reunião sobre a ida dele para Moçambique. Ele fraturou o tornozelo, e quem chamou os bombeiros do prédio fui eu. Contei para os meus amigos no happy hour daquele dia e aquela foi a última vez em que eu mencionei o Theo Becker porque foi aí que eu percebi que o meu trabalho era mesmo tacanho. Vieram à tona todas as brincadeiras sobre como uma aspirante a jornalista poderia se sujeitar a encomendar almoços para o assessor de um participante de reality shows enquanto que a Folha de São Paulo estava abrindo vagas para treinees. Eu desconversava. Não dava pra trocar um salário certo e até que bom por uma nova jornada de 20 horas semanais por quase nenhum dinheiro. Um ano depois, o programa “Dança dos Famosos” da TV Moçambique foi cancelado e minha empresa resolveu que faria cortes. Não estavam relacionadas as duas coisas, mas tudo aconteceu na mesma semana, então tive a impressão de que o subsucesso de um ator/modelo/cantor controlava as rédeas da minha vida profissional e me senti, mais uma vez, patética.

Dessa vez então minha tia poderia se concentrar na minha carreira que agonizava no segundo plano do meio jornalístico, ao invés de relembrar os meus erros do passado durante o jantar. Minha avó poderia não me lembrar que eu não encontrei um homem bom para me dar filhos e meu irmão poderia não me dizer a todo momento que eu tinha um ar um pouco andrógeno demais, assim, sem peitos. Aliás, desde que nossos pais de casaram, meu irmão pega no meu pé por motivos risíveis. Ele não é meu irmão de verdade, mas convivemos e nos odiamos remotamente desde a pré adolescência realmente como dois irmãos de sangue, então nunca me dei ao trabalho de chamá-lo de filho-da-minha-madrasta, do mesmo jeito que eu não chamo minha madrasta de madrasta e sim de mãe. É simplesmente meu irmão mais velho, aquele cara babaca que coloca a culpa em mim quando faz alguma merda, que é mais bem sucedido e que dá mais orgulho para os meus pais do que eu. Claro que agora que estamos orbitando os 30 anos de idade as brigas ficaram mais amenas, mas ele continua não perdendo a chance de me mostrar como a minha vida – todas elas, profissional, amorosa, social – é um absoluto fracasso.

O filho do meu primo, de 5 anos, ficou chorando a noite inteira e meu primo me excluiu do facebook. Eu tinha prometido pra mim mesma que nesse ano não faria mais nenhuma inimizade, mas acho que foi um acidente porque ele apareceu na minha frente numa hora péssima. Eu e minha amiga discutíamos avidamente por mensagem de texto, uma de nós chamou a outra de vaca e eu juro que também foi um acidente porque ela quis conversar numa hora péssima em que o filho do meu primo estava encostando o algodão doce no meu vestido. Há três anos, minha avó quis conversar sobre o porquê de eu ter deixado o conforto do meu lar para dividir uma kitinete com “aquela minha amiga hippie”. Também não foi uma conversa muito amistosa e minha avó passou os dois finais de ano seguintes sem me dirigir a palavra. Sempre tem um pouco de drama nessas reuniões, acho que toda família deve passar por isso. Não posso dizer, no entanto, que seja coincidência o fato de que a maioria dos dramas familiares nas festas de final de ano sejam protagonizados por mim. Andei pensando e, realmente, talvez seja mesmo bem difícil se relacionar comigo. A família da minha mãe não tem culpa, eu entrei nela de gaiato. Acho que a culpa é, na verdade, do meu pai.

Meu pai talvez seja a única pessoa com a qual eu consigo conversar por mais de cinco minutos sem criar um grande alvoroço. Isso porque normalmente não conversamos sobre nada categórico, às vezes falamos despretensiosamente sobre a lastimável situação política do país, às vezes sobre sabonetes. Todo ano é ele quem alivia a minha barra inventando qualquer desculpa que justifique o meu comportamento. Pensando bem, não pode ser culpa dele também. Talvez eu devesse parar de caçar culpados e devesse assumir meus próprios erros. Meu irmão por exemplo. Ontem entrou no meu antigo quarto, onde eu ando dormindo num colchão velho e quis bater um papo sobre as minhas depês da faculdade. Achei muito insensível da parte dele comentar sobre isso justamente nesse momento em que a melhor coisa que anda acontecendo na minha vida são as minhas depês e isso nem sequer é uma coisa boa. Por outro lado, talvez aquilo tenha sido uma tentativa de se aproximar de mim. A última vez que o vi, numa visita à casa dos meus pais que durou apenas 10 horas, a cinco meses atrás, nós brigamos porque estava chovendo. Simplesmente porque chovia e o carro do meu amigo espirrou lama por toda a varanda. Então, quando ele entrou e me perguntou se eu tinha finalmente passado em Editoração em Jornalismo Impresso, tudo que eu ouvi foi “finalmente” e agora que penso nisso nem sei se ele de fato usou essa palavra.

Pra me redimir o chamei pra ver alguns vídeos de quando éramos adolescentes. Ele se mudou pra minha casa quando eu tinha 10 anos e nós demoramos um tempo até entendermos que éramos, a partir daquele momento, irmãos. Minha mãe biológica tinha ido pra Inglaterra, aliás não a vejo há dez anos. Não importa. Havia uma nova mãe e uma nova pessoa na minha família. Nossa primeira briga foi porque eu queria ver o show do Michael Jackson na tevê e ele não queria deixar. Agora, que ele sentava no chão da sala ao meu lado, animado por termos encontrado uma filmagem do seu aniversário de 16 anos, aquelas brigas todas pareciam tão mesquinhas. Ele fez um copo de refrigerante pra mim sem eu ter pedido e colocou a fita no video cassette empoeirado. Fiquei me sentindo meio estranha, mais ainda. Mas de uma forma um pouco mais agradável.

Fiz as pazes com a minha amiga, ela disse que parou de fumar. Conversamos então sobre um colega da minha aula de economia que tinha me oferecido carona num dia de chuva. Isso foi tudo que aconteceu e eu fiquei com a impressão de que tinha algo ali. Ele foi mais atencioso do que eu estou acostumada e me pareceu uma boa ideia que ele me chamasse para sair. Tenho ficado tão sozinha nos últimos meses e também eu faço questão de estragar toda mínima chance que tenho de interagir com um homem. Meus dias, antes da demissão, se resumiam a passar noventa porcento do meu expediente vendo gifs de cachorros, já fazia um tempo que eu não usava maquiagem. É difícil para uma mulher de quase trinta ficar seis meses sem qualquer perspectiva romântica enquanto a vida de todo mundo parece deslanchar para a felicidade plena.

Estamos numa piscina e meu irmão cheira o meu cabelo. Eu lhe dou um tapa no braço, fico emburrada pelo resto do vídeo. Ainda ficamos mais umas duas horas no chão da sala bebendo refrigerante e começo a ficar surpreendida com algumas das imagens. A verdade é que aquela foi a primeira vez em que não me senti um lixo durante toda a temporada de festas de final de ano. Por um instante não lembrei de toda a bagunça que eu teria que limpar uma vez de volta a São Paulo. Passa pela minha cabeça que devo ficar, dessa vez, por tempo indeterminado, mas logo me ocorre toda a burocracia pela qual passaria o meu relacionamento com a minha amiga já que ela não conseguiria pagar o aluguel de um apartamento como aquele sozinha. E nossa amizade estava abalada pelos últimos acontecimentos. Embora agora conversássemos por mensagem de texto sobre assuntos de amigas, não era mais a mesma coisa. Há quatro anos acho que fazia sentido, mas nós mudamos muito. Eu, pelo menos, mudei. Eu mudei de cidade por uma razão, mas permaneci lá por outra e agora desconheço todas elas. Esses vídeos todos não facilitam nada. Estou no foco da câmera, sentada na beira da piscina e meu irmão me olha estranho no fundo.

Recebi uma mensagem que começava com um pedido de desculpas. Minha amiga parecia realmente arrependida de ter saído com o meu amigo da aula de economia na semana seguinte da carona. Pareço não notar ou não me importar já que meu irmão agora se senta mais perto e me disse que quando uso maquiagem até que fico mais atraente. Devo procurar um novo emprego em jornalismo, cortar os cabelos, empurrá-lo enquanto ele tenta me beijar? São tantas as perguntas. Fico atordoada e quando vejo estou comprando uma nova passagem para São Paulo. Minhas malas pesam com o resto do peru, não aguentei até 25 de janeiro, como já havia imaginado. Fui embora e não me despedi das minhas tias, meu primo ainda não quer falar comigo. Não cabia mesmo o suspense porque ainda não sei dizer se algo aconteceu.

 

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Como Se Define Azar

Quando eu esqueço o guarda chuva, chove. Quando eu lembro do guarda chuva, chove e eu esqueço ele em algum canto da cidade. Se visto uma blusa, faz calor, se visto uma saia rodada, venta. Se acordo atrasada, meu compromisso começa mais cedo. Se chego adiantada, atrasa. Se esqueço a chave de casa, minha reserva some. Se lembro da chave, perco em algum canto da cidade. Essa tem sido minha vida. Olá!

Sempre fui do tipo pessimista, porque, sejamos diretos: sou zicada! Tudo que pode dar errado comigo, dá. E eu não digo isso por simplesmente ver sempre o copo meio vazio. Digo porque, eu até nasci otimista, mas a vida foi me ensinando que é melhor esperar o pior.

Primeiro porque assim você não se frustra tanto. Acordo de manhã e penso: Estou preparada para qualquer coisa que possa acontecer: Chuva, cair e esfolar a cara no chão, um chiclete grudar no meu cabelo, um mendigo me bater, perder o ônibus, quebrar a unha. Se chover vou me molhar, se cair e esfolar a cara tenho cartão da farmácia. Se grudar chiclete, tesoura. Se me baterem, sei correr. Se perder o ônibus, atrás vem outro e se quebrar a unha, band aid.

Mas cada um desses itens do meu kit SOS foi sendo adicionado conforme eu ia me fodendo na longa estrada da vida. Em 1998 apanhei de uma menina dois metros maior que eu porque… Bom, porque eu era “patricinha” ou “nerd”. Ou um menino chamado Marcos gostava de mim, ou algo dessa natureza. Acho que Marcos era namorado dela, ou qualquer coisa que você possa ser aos 8 anos de idade. Eu andava tranquilamente pelo corredor da escola, sozinha, quando senti um puxão de cabelo. Ela pegou minha trança com a mão direita, deu uma volta, puxou e me derrubou no chão, assim de bunda. Todo mundo riu! Depois disso parei de usar rabo de cavalo com trança e até hoje acho tenebroso prender o cabelo, inconscientemente.

Em 2001, aprendi a não usar melissinhas pra beijar os garotos. Meu primeiro beijo foi a coisa mais desastrosa do universo graças ao chão liso do pátio da escola e à sola do meu sapato de plástico. Só tenho um pouco de sorte por ter sido antes da disseminação dos dispositivos com câmera e do Youtube. Eu teria sido viralizada! Em 2004 parei de jogar handball depois de um desvio de septo e nunca mais pratiquei nenhum esporte, alô minha flacidez! Em 2007 aprendi a não comprar armações de óculos tão caras pra depois perder, bêbada, em alguma festa do pijama em casas vazias com quintais de terra. Nessa época também aprendi a não dormir de conchinha e criar expectativas com um ex ficante por quem eu fui obcecada durante todo o ensino médio pra depois descobrir que ele ficava com a minha melhor amiga também.

Quando cheguei aos 18 anos, eu já tinha adquirido todo tipo de escudo que você possa imaginar. Leite condensado com vodka? Nem pensar! Cortar a franja com tesoura cega? Você tá louco!? Dirigir bêbada, de chinelo, fumando, mandando mensagem de celular, em depressão às 3 da manhã numa véspera de natal? Os dois carros estacionados e a prostituta que anotou minha placa sabem que nunca mais! Mas nunca era suficiente. As coisas foram mudando de intensidade conforme eu ia ficando mais velha. Quando fiz 21, o nível de azar já era o de ficar perdida no aeroporto Charles de Gaulle em Paris e ainda assim conseguir perder todos os meus documentos, provavelmente, numa cabine telefônica, enquanto chorava alucinadamente para me alocarem no próximo vôo (que acabou sendo 6 horas depois). Pra chegar em Veneza e pegar o transfer de outra pessoa por engano, ir parar em outro hotel e aprender o que “vaffanculo” significa da pior maneira possível.

Em 2012 aprendi a não namorar com caras que moram no continente asiático, por motivos óbvios. Em 2013 aprendi a não mostrar os peitos pra uma foto na balada e a não ficar apaixonada por um cara que era, obviamente, gay. Quando 2014 chegou, eu já tinha aprendido quase tudo: Não usar trança ou praticar esportes, só comprar óculos na loja de R$ 1.99. Não reatar sentimentos pelo ex, não dirigir bêbada (apesar de que só aprendi de verdade dois carros estraçalhados mais tarde), tirar cópias e mais cópias dos meus documentos e não ficar deslumbrada com o francês alheio, além de gesticular e falar alto com os italianos (para impor respeito). Não namorar a distância, não beber muito – essa eu ainda não aprendi e considerar a sexualidade alheia antes de virar stalker.

2015 chegou e eu tenho essa bagagem enorme de infortúnios!

Aí olho pra minha conta no banco, que mais poderia ser o nome de um batom ou de um esmalte, assim como Escarlate ou Rubro. Olho pra minha carreira moribunda na hotelaria. Bom dia Senhor, Boa tarde Senhor, Check in Senhor, Check out Senhor? Olho pra minha frustrada tentativa de bolsa de estudos pra pessoas pobres, sendo pobre mas “nem tanto”.

Como eu vou olhar pra frente e dizer que eu posso conseguir alguma coisa quando o azar e o bad timing me rodeiam tanto e cada vez me isolam mais do mundo e das possibilidades?

Entrei num elevador e olhei para o espelho, com todos esses pensamentos martelando meus pés no chão como um prego na parede, entre o 23º e o 1º andar. Ninguém mais entrou. E pensei, por reflexo e sem querer: Como meu cabelo está bonito hoje! E essa jaqueta que eu achei num brechó por R$ 2 é simplesmente demais! Eu ganhei uma medalha de melhor aluna da escola em 1998. Eu aproveitei pra apender violão ao invés de beijar garotos em 2001. Eu aprendi a ler livros ao invés de praticar esportes e comecei a escrever minhas próprias histórias também na mesma época. Eu sempre tive armações de óculos diferentes e descoladas e meu ex ficante acabou sendo um dos amigos mais memoráveis da minha adolescência. Eu bati 3 carros entre 2009 e 2012 e não sofri nenhum arranhão (só um olho roxo que sarou em 5 dias). Eu fui à Paris e à Veneza no verão de 2010, por Deus, e muitas outras cidades maravilhosas em 2011. Eu namorei um Filipino, eu realmente amei aquele filho da puta. Eu curti cada festa insana que fui em 2013, eu quase converti um gay! Eu moro sozinha na cidade mais caótica do país e mesmo assim consigo voltar pra casa todos os dias, deitar a cabeça no travesseiro, às vezes só cansada, às vezes cansada e triste, às vezes cansada e imensamente feliz (a maioria).

Se isso tudo for azar, me desculpa, acho que precisam mudar o dicionário.

Lá no térreo, pisei com tanta confiança pra fora daquele elevador que nem parecia mais eu mesma. E pensei: Esse ano, aconteça o que acontecer, chova o quanto tiver que chover, eu vou azular minha conta, mudar de emprego, passar na faculdade e o que mais eu tiver que fazer. Esses meros detalhes que servem pra eu dar boas risadas em mesas de bar nunca me impediram de realizar meus sonhos, apesar de me darem essa impressão às vezes.

Talvez aquele elevador seja mágico, ou eu só precisava acordar pra vida e ver que azar é uma coisa que depende se você olha pra ele de baixo ou de cima.

E O Que Sonhos Tem A Ver Com Deus

Porque será que a gente passa mais tempo sonhando do que fazendo? Ensaiando do que dizendo?

Hoje acordei às 6 da manhã e, tomando meu café preto fortíssimo de praxe, pensei na noite anterior, que foi (bem) mal dormida porque não conseguia desligar o botão do sonho. Mas não o sonho que a gente sonha enquanto dorme, o sonho que a gente vê pintado na frente e tenta alcançar a qualquer custo (ou não). Vi-me acordada e inquieta, pensando no que faço da vida pra alcançar os meus, além de apenas sonhar, ou escrever meia dúzia de palavras nos caderninhos e blogs da vida.

Quis saber, num impulso, a definição de sonho.

Digitei no amigo Google e apareceram inúmeras imagens de um pãozinho redondo recheado com creme. Fiquei com vontade, eu acho, mas a padaria mais próxima era longe demais pra 6 da manhã. Também não queria perder o foco.

Como sempre, discorri uma imensa linha do tempo e fui pendurando um a um os sonhos que já tive. Os que realizei – a minoria, e os que varri pra debaixo do tapete do tempo. Aqueles que foram nada além de imaginação, aqueles que se vestiram de gravidade e puxaram umas lágrimas pra baixo, de felicidade, de tristeza, de incompetência, dos mais diversos sentimentos. Dava pra ver uma desproporcionalidade no acumulado de sonhos com o passar dos anos.

Como sonhava mais quando não conhecia direito a realidade!
Ou a conformidade. Ou quando não sabia o que significava ser medíocre. Medíocre é uma palavra que tem conotação horrível, quase um xingamento. Mas me dou conta, pouco a pouco, que a mediocridade atinge a todos, hora ou outra, e nem percebemos. Não dá pra perceber, porque também é confortável, como abraço de mãe depois de um dia de chuva. Sair dali pode desenhar bons arranhões na nossa pele. Quem quer cicatrizes? Ninguém! Ou todo mundo.

Sempre fui meio medíocre. Sempre fui média. Nem muito boa nem muito ruim em vertentes de vertentes da vida. Nos esportes, na escola, na igreja, nas amizades, na família. Até jogando truco: média. Mas não sei se sentia isso, se percebia que ficava cravada nos 50 por cento toda hora. Porque ali é fácil de estar. Mas se passa despercebido sempre. Eu nem percebia também que eu não queria mais ser assim.

Acho que comecei a perceber quando eu tinha uns 17 anos. Aquela idade horrenda, aquela idade mais confusa que velhinha tentando mexer no iPad. Um dia fui pra igreja com os meus pais. O típico domingo a noite na minha infância-adolescência. Pizza, missa, casa dos avós. Dentro da igreja – que sempre me dava calafrios e eu nunca soube explicar, pela primeira vez, senti um vazio que beirava o insuportável. E nenhuma hóstia consagrada me saciou. Nenhum versículo, nenhum sermão. Comecei a questionar: O que faço aqui? Quando saí de lá, abismada ou simplesmente experimentando pontos de interrogação pairando sobre a cabeça, não pude deixar de pensar, indignada: O QUE FAÇO AQUI!? Eu não pertenço, nem nunca pertenci!

Hoje sei: fazia parte de ser medíocre. Talvez se eu não tivesse ficado lucida naquela noitinha de domingo eu nunca teria percebido, eu nunca teria feito nada que fiz, nem arriscado nada na vida. Teria sido católica, e só. E posso te dizer, com toda a competência como é difícil largar da mão da falsa fé quando se sente ela. Anos e mais anos! E ainda é difícil dizer alto: Não acredito em deus! Hoje consigo, mas nem é com muita propriedade. Arrebentar essas correntes, minha filha, é a coisa mais difícil. Continuar a fingir religiosidade é cômodo num lugar rodeado de gente assim. É ser medíocre.

Digo tudo isso agora, sete anos depois, porque sinto que a primeira barreira que quebrei para realizar sonhos foi essa. E era uma barreira bem densa, considerando o lugar que eu vivia, o berço onde nasci. E demorou tanto tempo! Às vezes divago se é por isso que também demoro tanto tempo pra fazer o que quero, ou pra, pelo menos, cogitar o que quero. Ao menos depois disso, sinto-me inquieta o tempo todo, querendo passar do meio desse cabo de guerra que é a vida. Derrubar logo o outro lado. O que mudou foi só que tomei consciência, talvez.

Contudo, ainda sinto-me fraca.
Sinto que leva tempo demais até conseguir engatinhar e ser o que eu quero ser.
Mas ser não é uma coisa espontânea? Ou não? Planejamos ser? Não sei, deveríamos, mas nem tanto.

Mas sonho, todo dia, toda hora. Não sei se ajo tanto quanto sonho. Não sei se deixarei, um dia, de ser medíocre, apesar de desejar firmemente que esse dia chegue. Tem tanta gente na rua, tanto sonho nas ideias dessa gente, e eu, mais uma.
Pelo menos quero ser mais uma que sonha, ao invés de uma católica que aceita o destino que vem sem perguntar por que, disso tenho certeza.

Confesso, fica um pouco difícil engatar a primeira e sair cantando os pneus pra realizar um desejo, uma vontade quando se tem consciência da grandeza dos nossos arredores. Às vezes olho em volta e me sinto no meio de uma produtiva fábrica de desilusões. Onde tem gente boa passando por má e vice-versa. Gente que vale, pra mim, muito mais do que eu. E me passa um sussurro “você jamais vai conseguir” pelos ouvidos, bem sacana, bem tentando pregar meus pés no chão. Penso, qual meu valor? Porque eu deveria gastar energia tentando ser? Esse mecanismo automático que comprime a mola da existência para ela não se expandir, de jeito nenhum, pra cima e alcançar outros níveis, outras alturas. Esse pessimismo! Ah, às vezes eu fico pesada, comprimida.

Quanta força se pede pra vencer isso?

Sinto-me andando pra frente, mas tão devagar que é quase imperceptível. Um slow motion assustador. Não que eu queira um fast forward, porque parte do sonho é também o caminho, sei disso. Só queria me sentir mais relevante às vezes.

Pra aliviar um pouco essa nuvem negra que, às vezes, estaciona por cima da minha cabeça, eu fico saudosista. Tento pegar as coisas que conquistei, os trocados que eu ganhei fazendo malabarismo no semáforo da vida profissional e pinto com novas cores as minhas metas. Pra não ser repetitiva, porque, com o autoconhecimento que vem embutido em cada primavera que completo, já sei que sou cheia dos altos e baixos, e os baixos são profundos. Se eu bobear não consigo mais sair do fundo do poço que minha cabeça me inventa de vez em quando. Por isso eu olho fotos, ou leio textos. Pra ver o que eu consigo fazer quando o negativismo e a depressão me deixam livre-leve-solta.

E cada vez vou deixando pra trás o que me pesa na mochila. O que me pesa e não serve pra nada.
Mesmo que com passos de formiga. Mas eu quero ser isso, e hoje sei que só querer não me basta. Só não quero ficar satisfeita com o que me é dado, apesar de sempre grata.

Sonho um pouco enquanto tomo café. Mas o dia está lindo lá fora, também é preciso respirar.

Mercado de Trabalho

Seguimos trancados
em banheiros
Doando trocados
quase inteiros
Pra migalhas de sonhos
Pra artistas risonhos
Que arrancam sorrisos
Mas não nos completam.

Seguimos guardados
a sete ou mais chaves
Seguindo parados
chutando nas traves
Com esperança mas medo
Contando segredos
contando nos dedos
os que são verdade.

Mas seguimos mudados
ao menos em partes
Tentando, atrasados,
olhando os encartes
Pra não ter o trabalho
de ver quanto eu valho
ou quanto me pagam
por essas palavras.

Porque não só faço poemas.

No mais nos movemos
pra mais perto e mais longe
do desfecho e do início
respectivamente.
Não importa. Seguimos
alheios, dementes.

Desastres Naturais

Quando dei um passo, quis dar dois. Quando percebi, estava correndo e nem sabia onde ia chegar. E assim quis e assim não quis parar. E que os tsunamis venham e me afoguem de mudança, de instabilidade, de sentimento, de não-vazio. De arrepio, de sede e de fome. Que venham furacões e me soprem mais longe ainda, sem voar pedrinhas nos meus olhos, mas que baguncem meus cabelos. Que venham terremotos quando eu precisar, quando chegar o tédio, que remexa meus quadris, que remexa meu chão, até me dar vertigens. Que chova muita água pra lavar meus arrependimentos, meus tormentos, meus lamentos. Que transborde que nem um vulcão e queime minha pele e me faça cicatrizes de amor. Que o calor me deixe marcas de biquini, antes que termine o dia. Que o frio me arrepie os pelos. Quando eu der mais um passo, que seja inconstante, que seja desgastante, que seja revigorante. Quando eu correr que seja novo, que dê medo, que seja um desastre natural.