Ode Ao ser Normal

Quando a gente da de cara com aquele monte de azulejo branco a gente entende. Quando da de cara com os cortes na pele da menina com a mãe naquela sala. Eu e ele fomos parar numa roda comandada por uma moça de jaleco que pedia que a gente compartilhasse, dizendo, primeiro, nosso nome. Todos diziam oi logo em seguida.

Eu não tinha porque estar ali, nem ele.

Saia da sala pra fumar escondido (mãe, eu fumava às vezes, não fica brava), era sempre umas 9 horas. Não sei, sinceramente, se caia mais chuva ou lágrima. Não conseguia manter o cigarro aceso, por isso desistia. Pensava, de uma forma contínua, achando que isso me ajudaria a entender, “como chegamos aqui?” e ele continuava lá dentro, sozinho.

Voltava e um cara com marca de corda no pescoço falava, sem expressão muito gritante, sobre como derrubou o banquinho posto abaixo dos seus pés. Outra, com cabelo bagunçado igual sua feição contava os comprimidos pra doutora, chorosa, querendo dizer que não estavam adiantando, “me dá mais!”.

Quando saíamos, via que a sobrancelha dele ganhava alguma expressão, depois de tanto tempo.

– Quero ir embora, Grace. Aqui só tem louco.

Claro, chama-se reabilitação, ou terapia em grupo. Ou o que você quiser. Tinha peso psicológico e a gente precisou ir parar lá pra ele aprender.

Perguntava por que ele se sabotava tanto.
Essa pergunta servia pra qualquer um de nós. Desde que me entendo por gente vejo auto sabotagem. Mamãe, papai, irmão. Todos tomam pílulas. Todos veem médicos, tiram licença. Que mal é esse que abraça minha família?

Fumando na chuva, entendia.

Veja só quanta média, classe média! Dinheiro? Tem. Carro tem, empregada tem. Tem jardim, jardineiro. Tem os brinquedos da Estrela empilhados no quarto, por cima do Play Station. Tem sucrilhos no prato.

Ele me falava:
– Porque quero um pouco de drama Grace, esse vazio me sufoca.

Justificando a nota de dinheiro enrolada e os pais presentes. Só eu não tinha percebido. Depressão dá mais em quem não tem por que. Não tem por que chorar, não tem por que reclamar. Depressão te dá o porquê.

A vida é perfeita pra nós, irmão. Ela é, tem casa, cachorro, quintal. Que mais cê qué? Percebi que o que tava entalado nas nossas gargantas chamava-se tudo-no-seu-devido-lugar.

E ele tentou fazer isso várias vezes. Quando demorava demais dentro do quarto eu já sabia: ia rolar um pouco de hospital e choro do lado de maca. Uma tentativa constante de se sentir vivo era tentar morrer. Agora compreendo. É que a gente fez isso diferente.

Eu fugi. Eu fui dar uma volta pelo Atlântico, fui tirar umas fotos na popa do mundo. Ele foi ver a proa da tarja preta. De jeitos distintos a gente tava buscando fazer a mesma coisa. A gente tava buscando sair da classe média da mente.

Porque a gente cresceu na casa que tinha tudo na mão, mas rodeados de gente que passava necessidade e usava isso de muleta pra não andar direito nunca. E, irmão, menosprezam a gente por isso.

A vida inteira ouvi: Cê tem sorte, menina. Olha só quanta gente queria estar no seu lugar! E apanhava na rua “vaza, patricinha!”

Nada que fazíamos tem o mesmo valor, ou a mesma luta. Porque meu pai resolveu trabalhar duro antes d’eu nascer e me pagar mesada. Já levei uns tabefes por causa disso, também, na saída da escola pública que me matricularam, mesmo podendo pagar ensino de qualidade porque “não somos melhores que ninguém”, diziam, certíssimos. Mas esqueceram que é uma jaula de leões se você não for selvagem também. E por isso a gente queria mexer a nossa vida com colher de pau. Um cheirava e a outra sumia, e ainda some.

Meu irmão, te entendo agora, anos depois.

Me dizem, pra desmerecer o lugar onde me encontro.
– Mas você que nasceu com o cu virado pra lua. Vem tudo sempre de mão beijada.

E talvez venha mesmo, irmão.
Mas desde quando a vida boa que nossos pais conseguiram nos dar tira nossos méritos? Nós passamos a vida, a infância, pedindo desculpas pela vida que a gente levava. Tentando ter mais histórias de superação pra contar.

“Sobrevivi a rehab“, dizia contente e sorridente, como se fosse uma coisa pra se orgulhar. Eu sei que ele queria provar pra todo mundo que a gente também tinha problemas. Que apesar da família perfeita também éramos gente com lágrimas. Nossa paz não era indestrutível. E que bosta que qualquer um possa nos invejar, porque aqui se gasta horrores com divã exatamente por isso.

Irmão, você não faz mais isso, mas sei que foi importante você ter arrombado aquele cadeado naquela vez. Me fez ver que não tem nada de errado em ser normal. E você não precisa mais se trancar no quarto pra gente perceber isso. Alias, não faça mais isso! Me destruiu, um pouquinho. Mas me abriu os olhos e me fez perceber que tanta angústia cerca a nossa existência.

Irmão, sei que veremos muitos médicos ainda.
Só quero que deixem a gente em paz. Nenhuma vida é tão perfeita assim. E agora eu sei que a gente não precisa cortar os próprios pulsos pra entender isso.

Nossa vida não tem que ser documentário do Fantástico, com órfãos, fome, divórcio pra gente sentir que vale alguma coisa. Ninguém precisa chorar lendo a nossa biografia. Pode ser só normal. Quem define se nossas conquistas foram fáceis ou difíceis somos nós.