Parabéns, você chegou!

Parabéns, você chegou ao fundo, bonita. Sei que não procurou, conscientemente, chegar até aqui. Mas fez por onde. Saltou amores, boicotou alegrias, ignorou sorrisos, fugiu da casa de mamãe.

E sinto lhe dizer, já vi esse filme.

Te dou uns dias, talvez uns meses (poucos) até sua malinha ficar pronta. Porque eu sei que você não tem mais fluido pra escorrer dessa sua cara de pau. E que você se sente exausta de sucatear todas as suas memórias pra tentar fazer mais suco do mesmo limão. Mas, bonita, eu sei que você vai. Que você pensa que não tem mais o que te dar esse lugar. E que lá no fundo te gela o estômago pensar que talvez você se mude e nada mude.

E que talvez nunca mude. E que se esgota seu otimismo, junto com seus ânimos. Você se sente fatigada. E pensa em quanto tempo mais vai durar toda essa merda e que você não tem mais nenhum motivo mesmo pra ficar aqui.

Sei de tudo que se passa na sua cabeça. Toda a loucura, todo o medo. E toda a preguiça de começar tudo de novo, e medo de ser tudo de novo só mais uma tentativa frustrada de não ser tão vazia. Não sei quando acaba sua busca e começam seus achados, quando você vai parar de se iludir com o que vem disfarçado, ou quando você vai parar de achar que te enganam. Quando você vai construir qualquer lasca de auto estima e, ao mesmo tempo, deixar de ser essa egoísta escrota que você sempre foi, é, e sempre será.

Você, bonita, não vai mudar nunca. Então, desculpa ser tão ríspido, mas quem te rodeia jamais vai fazer a menor diferença, bonita. Porque a laranja podre no meio das laranjas boas apodrece o resto – só pra constar a laranja podre é você.

Pode arrumar suas malas, pode lamentar que não achou o que procurava (pra começar você nem sabe o que é). Pode chorar mais, se conseguir. Pode andar com essa cabeça baixa por mais quantos quilômetros você achar que deve.

Mas já te aviso.

Nunca vai melhorar, se você não melhorar. E talvez você nunca melhore.

Dizem que é chato chegar a um objetivo num instante, mas você está exausta. Exausta!

Anúncios

Alface e Tapioca

– Pois eu te digo! Saí do mercado, o carro, um preto devia ser um punto preto, ou outro mas é que eu gosto do nome punto, ia saindo de uma garagem, eu te juro, ele já tinha saído todo, ele já tinha saído meio metro depois que acabava a garagem e é só por isso que eu fui passar atrás dele. Eu jamais iria passar atrás de um carro que não tivesse saído totalmente da garagem porque é simples questão de física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço e ninguém ainda inventou o poder de atravessar as coisas, portanto eu posso te dizer com toda a certeza que aquele punto, ou seja lá que porra de marca era aquele carro, se é que se diz marca, também, não sei, só sei que punto é fabricado pela Fiat e a marca é Fiat e não punto, que seja, o punto já tinha saído e eu estava cheia de sacolas com alface e tapioca que eu ia comer mais tarde, mas não alface com tapioca, eu ia comer uma salada de alface e depois ia fazer tapioca de Nutella, e eu sabia que eu devia ter comprado Nutella, mas acabou que eu não comprei, e depois que o punto saiu, assim como você saiu da minha vida aquele dia, meio metro mais ou menos, eu achei que você já tinha passado, assim como tinha passado o punto e por isso fui passar por trás com meu alface e tapioca e sem a Nutella e o que houve foi que o carro me atropelou, porque deu ré, como você fica dado ré e não olha o retrovisor e me acerta em cheio toda vez. O punto não me viu, não viu a tapioca, não viu os milhões de pedacinhos de tapioca que se espalharam pelo chão, e nem você viu todos os milhões de pedacinhos do meu coração que ficaram no mesmo chão e vocês dois saíram, cantando os pneus, e me deixando e a tapioca. Mas aí levantei e voltei a andar pra casa. Comi meu alface, que foi salvo, mas não muito, larguei a tapioca lá. Pouco importa, eu não tinha comprado Nutella mesmo.

Como Se Define Azar

Quando eu esqueço o guarda chuva, chove. Quando eu lembro do guarda chuva, chove e eu esqueço ele em algum canto da cidade. Se visto uma blusa, faz calor, se visto uma saia rodada, venta. Se acordo atrasada, meu compromisso começa mais cedo. Se chego adiantada, atrasa. Se esqueço a chave de casa, minha reserva some. Se lembro da chave, perco em algum canto da cidade. Essa tem sido minha vida. Olá!

Sempre fui do tipo pessimista, porque, sejamos diretos: sou zicada! Tudo que pode dar errado comigo, dá. E eu não digo isso por simplesmente ver sempre o copo meio vazio. Digo porque, eu até nasci otimista, mas a vida foi me ensinando que é melhor esperar o pior.

Primeiro porque assim você não se frustra tanto. Acordo de manhã e penso: Estou preparada para qualquer coisa que possa acontecer: Chuva, cair e esfolar a cara no chão, um chiclete grudar no meu cabelo, um mendigo me bater, perder o ônibus, quebrar a unha. Se chover vou me molhar, se cair e esfolar a cara tenho cartão da farmácia. Se grudar chiclete, tesoura. Se me baterem, sei correr. Se perder o ônibus, atrás vem outro e se quebrar a unha, band aid.

Mas cada um desses itens do meu kit SOS foi sendo adicionado conforme eu ia me fodendo na longa estrada da vida. Em 1998 apanhei de uma menina dois metros maior que eu porque… Bom, porque eu era “patricinha” ou “nerd”. Ou um menino chamado Marcos gostava de mim, ou algo dessa natureza. Acho que Marcos era namorado dela, ou qualquer coisa que você possa ser aos 8 anos de idade. Eu andava tranquilamente pelo corredor da escola, sozinha, quando senti um puxão de cabelo. Ela pegou minha trança com a mão direita, deu uma volta, puxou e me derrubou no chão, assim de bunda. Todo mundo riu! Depois disso parei de usar rabo de cavalo com trança e até hoje acho tenebroso prender o cabelo, inconscientemente.

Em 2001, aprendi a não usar melissinhas pra beijar os garotos. Meu primeiro beijo foi a coisa mais desastrosa do universo graças ao chão liso do pátio da escola e à sola do meu sapato de plástico. Só tenho um pouco de sorte por ter sido antes da disseminação dos dispositivos com câmera e do Youtube. Eu teria sido viralizada! Em 2004 parei de jogar handball depois de um desvio de septo e nunca mais pratiquei nenhum esporte, alô minha flacidez! Em 2007 aprendi a não comprar armações de óculos tão caras pra depois perder, bêbada, em alguma festa do pijama em casas vazias com quintais de terra. Nessa época também aprendi a não dormir de conchinha e criar expectativas com um ex ficante por quem eu fui obcecada durante todo o ensino médio pra depois descobrir que ele ficava com a minha melhor amiga também.

Quando cheguei aos 18 anos, eu já tinha adquirido todo tipo de escudo que você possa imaginar. Leite condensado com vodka? Nem pensar! Cortar a franja com tesoura cega? Você tá louco!? Dirigir bêbada, de chinelo, fumando, mandando mensagem de celular, em depressão às 3 da manhã numa véspera de natal? Os dois carros estacionados e a prostituta que anotou minha placa sabem que nunca mais! Mas nunca era suficiente. As coisas foram mudando de intensidade conforme eu ia ficando mais velha. Quando fiz 21, o nível de azar já era o de ficar perdida no aeroporto Charles de Gaulle em Paris e ainda assim conseguir perder todos os meus documentos, provavelmente, numa cabine telefônica, enquanto chorava alucinadamente para me alocarem no próximo vôo (que acabou sendo 6 horas depois). Pra chegar em Veneza e pegar o transfer de outra pessoa por engano, ir parar em outro hotel e aprender o que “vaffanculo” significa da pior maneira possível.

Em 2012 aprendi a não namorar com caras que moram no continente asiático, por motivos óbvios. Em 2013 aprendi a não mostrar os peitos pra uma foto na balada e a não ficar apaixonada por um cara que era, obviamente, gay. Quando 2014 chegou, eu já tinha aprendido quase tudo: Não usar trança ou praticar esportes, só comprar óculos na loja de R$ 1.99. Não reatar sentimentos pelo ex, não dirigir bêbada (apesar de que só aprendi de verdade dois carros estraçalhados mais tarde), tirar cópias e mais cópias dos meus documentos e não ficar deslumbrada com o francês alheio, além de gesticular e falar alto com os italianos (para impor respeito). Não namorar a distância, não beber muito – essa eu ainda não aprendi e considerar a sexualidade alheia antes de virar stalker.

2015 chegou e eu tenho essa bagagem enorme de infortúnios!

Aí olho pra minha conta no banco, que mais poderia ser o nome de um batom ou de um esmalte, assim como Escarlate ou Rubro. Olho pra minha carreira moribunda na hotelaria. Bom dia Senhor, Boa tarde Senhor, Check in Senhor, Check out Senhor? Olho pra minha frustrada tentativa de bolsa de estudos pra pessoas pobres, sendo pobre mas “nem tanto”.

Como eu vou olhar pra frente e dizer que eu posso conseguir alguma coisa quando o azar e o bad timing me rodeiam tanto e cada vez me isolam mais do mundo e das possibilidades?

Entrei num elevador e olhei para o espelho, com todos esses pensamentos martelando meus pés no chão como um prego na parede, entre o 23º e o 1º andar. Ninguém mais entrou. E pensei, por reflexo e sem querer: Como meu cabelo está bonito hoje! E essa jaqueta que eu achei num brechó por R$ 2 é simplesmente demais! Eu ganhei uma medalha de melhor aluna da escola em 1998. Eu aproveitei pra apender violão ao invés de beijar garotos em 2001. Eu aprendi a ler livros ao invés de praticar esportes e comecei a escrever minhas próprias histórias também na mesma época. Eu sempre tive armações de óculos diferentes e descoladas e meu ex ficante acabou sendo um dos amigos mais memoráveis da minha adolescência. Eu bati 3 carros entre 2009 e 2012 e não sofri nenhum arranhão (só um olho roxo que sarou em 5 dias). Eu fui à Paris e à Veneza no verão de 2010, por Deus, e muitas outras cidades maravilhosas em 2011. Eu namorei um Filipino, eu realmente amei aquele filho da puta. Eu curti cada festa insana que fui em 2013, eu quase converti um gay! Eu moro sozinha na cidade mais caótica do país e mesmo assim consigo voltar pra casa todos os dias, deitar a cabeça no travesseiro, às vezes só cansada, às vezes cansada e triste, às vezes cansada e imensamente feliz (a maioria).

Se isso tudo for azar, me desculpa, acho que precisam mudar o dicionário.

Lá no térreo, pisei com tanta confiança pra fora daquele elevador que nem parecia mais eu mesma. E pensei: Esse ano, aconteça o que acontecer, chova o quanto tiver que chover, eu vou azular minha conta, mudar de emprego, passar na faculdade e o que mais eu tiver que fazer. Esses meros detalhes que servem pra eu dar boas risadas em mesas de bar nunca me impediram de realizar meus sonhos, apesar de me darem essa impressão às vezes.

Talvez aquele elevador seja mágico, ou eu só precisava acordar pra vida e ver que azar é uma coisa que depende se você olha pra ele de baixo ou de cima.

Um Peixe Troxa

“Não há nada mais possível que isso!” Disse, enquanto devorava um imenso hot dog. Derrubava todo o molho, vermelhíssimo, no vestido jeans dos anos 80. Era 2015 recém começado e eu de jardineira jeans e keds. Não importava. Falávamos sobre os vinte e poucos e sobre quantas vezes o único papel que a gente interpreta na peça da vida é o de troxa. Eu e o Toby Imaginário.

Mas, sabe, eu derrubei todo aquele molho foi de espanto. Fiquei pasma! Quando concebi essa incrível conclusão fiquei ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre porque despencou, finalmente, a ficha e triste porque isso demorou pra acontecer. Não importa quanto aviso tive. Quantas tias queriam pregar minhas pálpebras pra trás com fita crepe como na perturbadora cena de Tom & Jerry em algum episódio que não me lembro mais. Não importavam os filmes, os livros, as histórias que ouvia ao pé do ouvido toda hora todo dia. Por algum motivo, sempre me achei diferente, ou que o ser-troxa-de-alguém não me atigia.

Primeiro porque a vida inteira tive o pensamento de princesa da Disney de que “se você quer muito alguma coisa e seu coração é puro, coisas maravilhosas acontecem!”. Ou porque sou mimada mesmo e nunca tive que lidar com muitas perdas, a não ser perda de peso quando quis ser anoréxica, ou perda de memória quando quis ser alcoólatra. Eu sempre vivi dentro dessa bolha onde todo mundo é gentil e usa as palavras mágicas. Quando percebi o tamanho da minha ignorância, o mínimo que poderia acontecer era mesmo perder aquela charmosa jardineira para o molho de tomate. O mínimo que eu poderia fazer era sentar na calçada em frente a barraca de cachorro quente e chorar.

O mundo é cruel, dizia. O homem é mau! A humanidade está perdida, a perversidade tomou conta de nós! Era tudo que proferia. Podia ter sido culpa das cervejas que eu tinha tomado, mas também podia não ser. Álcool me deixa mais dramática, mas por outro lado, nada daquilo era hipérbole. É um absurdo ter boas intenções e no final ser uma troxa. Pelo menos era o que eu pensava.

Aí fiquei puta!
Meu amigo, fiquei emputecida! Joguei o ultimo pedaço de salsicha na calçada, caiu molho no chão. Enxuguei a correnteza saindo dos olhos (desejei estar na cantareira pra fazer a diferença na sociedade). Disse “Foda-se!”. O maior foda-se daquele quarteirão – muita gente diz foda-se. E fiz promessas pra mim: não acredito mais, não ouço mais, não me dou mais, não mais. Nada mais! E pedi pros anjinhos pra eu ser mais fria daquele momento em diante. Os anjinhos que eu inventei no meu conto de fadas. Depois disse “Fodam-se os anjinhos também!”. Hardcore!

Hardcore! Nenhum coração bateu de amor depois do molho de tomate. Até eu ver que a gente faz os outros de troxa sem querer. Ou que sentir-se troxa era uma coisa pessoal e instransferível. E que não havia nada mais possível do que isso. E quem se sente troxa, nem sempre foi feito de troxa de propósito. É simplesmente muito possível e aceitável ser troxa.

E também, afinal, quem lê o troxômetro? Quem diz, quem julga? A comissão julgadora de troxas e troxisses? Qual a linha que separa o apaixonado do troxa? Mas devo ser troxa mesmo. Ou otimista, ou honesta, ou a princesinha da disney! E devo ter a memória de um peixe. Um peixe troxa.

Porque te juro!
Derrumo molho na roupa a cada 6 meses!

* Trouxa e troxa são coisas distintas.

A Lista Dos Perecíveis ou As Mil Vidas

Pra envelhecer não tem idade, tem?
Não tem segunda feira certa, ou primavera certa. Não tem nada certo. Basta estar lá, quieto e contente e pronto: envelheceu.

Porque nesse processo, que é longo, imperceptível de início, um dia você acorda. Um dia você sobe uma escada. Um dia você tenta variar o kama sutra e percebe.

No entanto, não.
Não é só físico. Não é minha flexibilidade reduzida que me mostra isso.
Posso ter 20 e poucos, mas as vezes parece que já vivi mil anos.

O tempo é curto apesar de que Einstein tem razão, é relativo. Por isso não venha me dizer que sou jovem demais pra ser velha. Não me venha com essas baboseiras! Já sentiu o peso da maturidade tão forte nos ombros que precisou joga-lo de lado por um minuto e enlouquecer, gritar, correr, comer manga com leite?

Ou a tenebrosa sensação de auto-suficiência?

Ah, ela!
A maldita! Onde já se viu não precisar de ninguém, nem pra trocar a lâmpada. Que vida! Mas finjo.

– Amor, abre esse pote pra mim?

Mas a verdade é que consigo fazer tudo sozinha e isso me deixa impotente, controversia e tudo mais.

Talvez seja minha memória sofrível que deixa o aspecto de longevidade. As vezes parece que já se passaram mil vidas dentro só de uma. Um momento parece distante. Uma palavra se perde no vendaval do tempo dentro dessa cabeça vacilante que carrego. Me sinto velha, admito. Assustador!

Mas sabe, me perco. Me jogo dentro de roupas de rebelde sem causa, dentro de cintos de rebite que só fazem sentido aos 15 anos. E tento disfarçar a pele da alma com maquiagem caríssima. Até falo gírias, sacou?

Pra dizer que não estou velha demais pra aprender a tocar piano, ou matemática.
Pra dizer que não se fica obsoleto depois de duas décadas e uns quebrados.

Tento analisar a mim mesma, até isso! Mas é também porque… Cadê dinheiro pra pagar terapeuta? La vai:
Meu tempo é ágil e passa rápido. Sou volúvel e me desprendo das mãos que me seguram os pulsos com a facilidade de a, b, c, um, dois, três ou dó, ré, mi. Essa sensação de mil vidas vem porque são mesmo mil vidas. Meu tempo é pequeno, minúsculo. Nunca deixo ele dilatar.

Queria ter o mesmo emprego por 10 anos.
Queria ter o mesmo namorado por 10 anos.
Queria ter a mesma casa por 10 anos!
Como tanta gente por aí.

Mas não me permito!
E depois reclamo a impressão de envelhecimento, de caducar antes da hora.

Se eu nasci a dez mil anos atrás mesmo, isso explica tanta dor nas costas, tanta consciência, tanta prepotência.

Me joga na lista dos perecíveis, por favor?
Estou exausta de ser sênior camuflada de junior.

E começar tudo outra vez, outra vez.

Semana Passada

Semana passada minha cachorra morreu.

Eu tinha 11 anos quando ela foi ser minha cachorra de estimação. Ela era branca e tinha orelhas marrons. E, ah, era linda.

Ela brincava, latia, corria, mordia, tudo que qualquer cachorro faz. Não posso dizer que era especial. Não por ser. O que era especial nela é que ela era um pedacinho da minha adolescência. E perder a bonequinha me fez perder isso também.

Me fez perder o tempo, perder a noção de tempo.
Me fez voltar no tempo.

E questionar cada pedacinho do caminho que me trouxe até aqui.
E parar: Como foi mesmo que eu cheguei até aqui?

Porque mesmo eu sai de casa, porque eu fugi de la? Porque eu sempre fujo?

Uma enxurrada de questões que eu não sei responder, não sei nem pensar nelas. Só sei que ela morreu. E quem se procurou, se procurou continua perdida, só que agora sem ela, sem a adolescência.

Ou eu só precisava chorar essas lágrimas acumuladas.
Ou eu só precisava crescer.

Coisas velhas

E eu continuava aumentando o volume do meu celular com o mindinho, sabendo que podia comprar um aparelho novo.

Já não tinha os botões, mas pra desapegar de alguma coisa, eu sou quase impossível. Nao sei porque tanto eu gosto de coisas velhas. De brechó e sebo. Dessas coisas.

Até meu prédio é de coisas velhas. A idade dos meus vizinhos, somadas, devem dar alguns milhares de anos. Tem essa velha que mora no apartamento da frente, que usa sempre um chapéu e um xale. E me para na saída do elevador pra falar sobre as suas teorias da conspiração. Ela me da um pouco de medo, te juro, quando fala sobre os Illuminatis, e como tudo está caminhando para a Nova Ordem Mundial. E ela deve ter seus noventa e poucos anos. Mas me diz para “abrir os olhos” e enxergar que somos todos manipulados, aproveitar que sou jovem pra fazer alguma coisa.

Toda vez que aperto o botão pro elevador chegar, já fico apreensiva para saber qual o sermão que essa velha vai me dar no longo caminho do primeiro até o décimo segundo andar. E sempre que eu a deixo em sua casa e depois caminho até a minha, me sinto um peso morto no mundo, afinal, o que eu estou fazendo para parar a Nova Ordem Mundial e evitar que todos nós nos tornemos escravos?
Pensando bem, do que é que essa mulher está falando?

E tem a velhinha do decimo andar que tem uns 38 gatos e que eu sempre tenho que importunar para pegar minhas roupas caidas em seu varal. Por algum motivo macabro, eu sempre derrubo toalhas, camisetas e lençóis no varal dessa mesma velhinha. E parece que toda vez que eu vou lá pra pegar de volta, ela me faz ficar esperando sob a firme vigilância dos seus amigos felinos, observando cada movimento meu, como se eu fosse mesmo sair do lugar, com o pavor que tenho de gatos. E um deles, que tem só um olho, me deixa ainda mais paralizada, porque esse olho solitário me da mais medo do que os 74 olhos dos outros gatos. É tão penetrante e intimidador que quase me faz desistir de pegar minhas fronhas de volta.

Mas sempre acaba bem, eu pego minhas roupas, volto pro meu andar, se der sorte não encontro a velha de chapéu e xale e consigo sobreviver.

E tudo isso se estende.

Porque querendo ou não, é uma das coisas mais humanas: Diante das turbulências do presente, pensamos em um passado mais glorioso do que realmente foi.

É por isso que eu tenho tanta dificuldade de me adaptar a novas tecnologias. Um saudosismo grande e persistente me faz de marionete, faz de mim uma piada pras pessoas da minha idade. Quantos anos eu tenho mesmo? Porque que eu tô querendo comprar uma máquina de escrever?

São perguntas que me faço sempre.

Ao mesmo tempo, tenho essa dificuldade imensa de permanecer sempre no mesmo lugar. Umas formigas nas calças, diz minha avó. Porque se fico quieta por muito tempo, me da um siricutico e minhas malas de viagem começam a se arrumar sozinhas, os passarinhos entram pela janela e começam a ajudar, junto com os ratinhos e os coelhinhos da floresta, se eu fosse a Cinderela. Enfim. Pelo menos em se tratando de lugares, tenho ansiedade de novo toda hora.

Não é uma contradição, então?

Demorar anos e mais anos pra trocar de celular, mesmo ele nem funcionando direito mais, e ter que mudar de casa, de vida, de amigos sempre?

Tudo que eu queria te dizer (sem rimar)

Toda noite quando encosto o travesseiro, ele me enfia um texto inteiro e começo a ensaiar.
Leio isso, leio aquilo, alongamento e preparação. Vejo sua reação a cada texto decorado, num arranjo orquestrado da minha imaginação.
Você tem mil faces, e por mim passou de mil maneiras. Me fez mil coisas, e algumas besteiras insanas ou sensatas, loucuras de amor.
E agora que isso é passado, sinto muito ter te enganado e, de algum modo, não ter te falado tudo que meu travesseiro mandou.

(e sem rima de umavezportodas)

Que você é indeciso, e que eu gostava mesmo de você;
Que seu olhar, em desvio, me dava vontade de chorar;
Que quando você fechava os olhos eu sorria e disfarçava,
Que eu morria de medo de pegar na sua mão.
Que você deveria ter me ligado.
Que eu queria que fosse tarde demais.

E nunca era.
Nunca.

(e com rima todas asvezesporuma)

E toda noite era hora de ensaio, de te ver me ver falar asneiras.
Dizendo frases feitas:

Não sou quem você pensa;
E quem você pensa que é.
Pra falar assim comigo;
Então faz o que você quiser.

Quando estava quase dormindo, sonhando, saindo, o roteirista me manda mais falas, mais angústias, mais desperdício de exercício labial. E brigas inventadas sobre águas passadas que nem briga virariam, fosse isso vida real.

Não queria te querer de jeito algum, nem ter que te inventar a todo instante, fosse você a mim comum, como uma noite bem dormida, um copo de bebida, uma bela adormecida, num travesseiro em jejum.

PALAVRAS, DEIXEM-ME INVENTAR E DOMINAR VOCÊS (E NÃO O CONTRÁRIO), TENHAM DÓ DESSA PESSOA CANSADA, SOFRIDA E PRESA NO IMAGINÁRIO, QUERENDO VER-SE LIVRE, FECHANDO ESSA CORTINA, EXECUTANDO O ULTIMO ATO DESSA BESTEIRA QUE CHAMOU DE RIMA.

Limites

Quanto tempo é muito tempo?
Quanto de mim é muito de mim?

Minha casa estava limpa, minhas roupas dobradas. Na minha prateleira de metal, todos os livros estavam em ordem. As portas dos armários fechadas. As louças lavadas. Meus chinelos alinhados.

E por todo lado, via cáos, e também via tédio.

Quanto caminho é muito caminho?

Meu cabelos penteados, minhas unhas feitas.
E por todo lado, via cáos e tédio em mistura assustadoramente homogênia.

Pelo caminho andei anotando cada detalhe, dos mais amargos, ensurdecedores gritos travestidos de palavras escritas. Pelo caminho andei fotografando cada pedaço de sorriso manchado no rosto. Pelo caminho andei me perdendo e me achando, alternadamente, até chegar aqui.

Até ter o chão lustrado, o espelho desembassado.
E, ainda assim, o cáos.

Quanto da minha própria imagem é muita imagem?
Quanto espelho e muito espelho?

Quanta história é muita história?
Só vira história quando alguém quer ouvir.

Quanta solidão é muita solidão?
Quantas perguntas são muitas peguntas?

Quantos recomeços são muitos recomeços?
Quanta morte é muita morte?
Só uma.

Inverno

Porque frio lembra 2?
2 pés com 2 meias de lã e
alguma multiplicação

(pra mim)

4 mãos, 20 dedos, 90 dias de
aglutinação

(pra você)

E viram 2 mãos e 10 dedos e 0
dias de solidão

(pra você)

Porque frio lembra 2?
2 palavras, 2 cafés
e muita concentração

(pra mim)

Pra empilhar cobertor com cobertor
por cima de mim

Onde claramente caberiam
mais 2 pés e
mais 2 meias de lã.

(pra nós)