Arame Farpado

Deixa ficar assim.
Enquanto eu te admiro.
Enquanto você é ideal.

Não precisa chegar mais perto,
por mais que eu queira,
por mais que faça sentido.

Não precisa torcer minhas memórias e
deixar escorrer sua imagem.

Deixa ficar assim.
Enquanto eu te respeito.

Não precisa me falar com cautela,
por mais que faça sentido.

Deixa ficar assim.
Enquanto você é lá
e eu cá.

E seu martelo não me prega na parede.
E meu prego não machuca a sua mão.

Não precisa dar mais nenhum passo,
por mais que você queira,
por mais que eu não queira que não.

Deixa ficar assim
Enquanto você é o que eu penso.
Enquanto você pensa o que eu sou.

E então nada se quebra, e nada se escorre.
Não precisa de toque. Não mais.
Nunca mais.

Não precisa passar dessa barreira.
Deixa como está.

Lembrar de Esquecer

Como pode eu não lembrar se tranquei a porta da frente ao sair de casa hoje de manhã. Não lembrar quantas colheres de açúcar eu costumo colocar pro meu café ficar bom. Não lembrar o horário do ônibus que pego todos os dias.

Como pode eu não lembrar onde deixei as chaves. Não lembrar de que cor foi pintado o muro em frente a minha casa. Não lembrar o que comi no almoço. Não lembrar se o metrô abre as 4 ou as 5 horas.

E me lembrar tanto de você. Lembrar qual seu lado favorito da cama e que sua letra é inclinada pra esquerda.
De você e dos seus livros. De você e das suas manias. De você e do seu cabelo, do formato das suas mãos.

A memória não tem sentido nenhum. Guarda todas as coisas erradas. Confunde, te idealiza, te distorce.
Seria mais útil lembrar a minha senha do banco. Lembrar de você não me é de benefício algum.

Talvez você nem seja assim mais ou nunca tenha sido. Talvez você se lembre de todas as coisas banais das quais eu não me lembro e não tenha memória de mim.

Talvez você não se lembre da minha música favorita, ou do horário que eu gosto de acordar. Não se lembre se sou destra ou canhota. Não se lembre se eu rezo ou não pra dormir.

A memória é mesmo inútil.

Ele Nunca Pode

E pela quinquagésima vez ele não podia.

Ele não podia, não era permitido. Estava na cara que ele queria, mas não podia. Desculpe.
Nariz com nariz e ele não podia. Mão no cabelo, puxando e mesmo assim não podia. Conseguia sentir seus batimentos cardíacos, e ainda assim… Não podia.

Um dia fiquei jogando cartas de ponta cabeça com ele até tarde, até o sol quase se pôr por inteiro, e mesmo com aquele laranja no céu, ele não podia. Depois ficamos presos num elevador sem câmeras por trinta e sete minutos, eu usava um vestido decotado e mesmo assim, nada. Não podia.

E ele não foi o primeiro.
Nem será o último – posso sentir essas coisas.

Nunca podem.
Fiquei sabendo que aquela menina chegou primeiro e aí fez ele não poder. Viu primeiro, essas coisas. E pegou pra ela, sorte dela.
E aí eu cheguei e quis sentar na janela do trêm, é o que eu penso que elas pensam sobre mim. Sempre pensam que eu quero sentar na janela. Eu sei disso – posso sentir essas coisas.

Um dia fiquei consolando o bebê no meu colo, e alisando seus cabelos, e pegando em seus braços enquanto ele chorava. E ele também não podia. Mas me despia com os olhos pelo espelho retrovisor. Depois andamos pela grama quando começou a chover, e eu usava branco e mesmo assim, nada. Não podia.

E a menina que sabia datilografia dizia que ele não podia. Acho que não dizia em voz alta, mas ele captava a mensagem do não poder. Ele não é idiota.
E a menina que pintava as unhas fazia uma macumba das bravas. Acho que não fazia, ele é que procurava a mensagem do não poder. Ele deve ser idiota.
E a menina que sabia cavalgar dizia que ele não podia. Não sei como faz ele não poder.

E pena quinquagésima vez, eu não podia fazer nada além de ser a segunda a chegar. A segunda a datilografar, a pintar unhas, a cavalgar.

Ignorante

Estamos em um triangulo, e por algum motivo ela está na base dele.
Sem conhecimentos aprofundados sobre nada, não pode discursar com propriedade, nem decidir-se por um futuro.
O que importa para grande parcela das pessoas, ou pelo menos as pessoas importantes não está presente em seu dia a dia. Não porque ela não tem acesso, mas porque não quer acessar.

Ela não se importa com política, com física, com filosofia.
Não quer saber sobre as próximas eleições, nem sobre fómulas, nem sobre Sócrates.
Não sabe nada sobre Nietzsche, nem sobre Isaac Newton, nem Darwin.
Não sabe nada sobre biologia. Nem sobre genética. Nem sobre botânica.
Não sabe nada sobre química. Nem sobre alquimia. Nem sobre células.

E mesmo assim existe.

Respira. Sente. Enxerga. Ouve.
Fica arrepiada quando uma brisa passa. Estala os dedos. Pisca.
Dança. Envolve-se. Deixa-se levar se vê algo belo.
Entrega-se. Importa-se. Comove-se.
Estente a mão. Inclina-se e beija. Estente os braços.
Quando entristece, chora. Quando sente-se feliz, sorri.

E mesmo assim não existe.

Não para os espertinhos. Não para os sabe-tudo. Não para os narizes empinados.

E ela nem sabe disso.
Não sabe nada sobre o que pensam. Nem sobre o que falam. Nem sobre o que querem mostrar.
Ela deve ser o que chamam de ignorante.

Flexões verbais

Nos separaram por uma tela.
Nos separaram por um milimetro uma vez.

E foi assim que eu quis que fosse.

Nos separaram por um continente.
Nos separaram por um milimetro outra vez.

E foi assim que foi.

Se eu voltasse, se eu não fosse.
Se eu ficasse, se eu não voltasse.
Se eu parasse, se eu não falasse.
Se eu andasse pra tras.

Se você fosse, se você não voltasse.
Se você pensasse, se você não hesitasse.
Se você amasse, se você não duvidasse.
Se você andasse pra frente.

E nenhum sentido faz. O que nunca deveria ter feito.
E nenhum sentimento traz. O que nunca deveria ter trazido.

Me arrependo, mas nem tanto. Me comovo, mas nem tanto.
Mesmo o mais sentido pranto um dia deixa de cair.

E ferir, e fingir, e ressurgir, e reprimir.
Quando penso no que pensava, mal consigo engolir.

Que eu sorria e você sorria.
Que eu amava e você amava.
Que eu fugia e você deixava.
Que eu corria e você ficava.

Conjugo a mim mesma

Quando lembro de mim mesma, preciso estar olhando em um espelho. Não sinto que mudei tanto assim, alias, não mudei nada. Esses tempos estão sendo uma pedra atras da outra dentro dos meu sapatos. Não consigo me lembrar qual foi a ultima vez que me senti inteiramente bem por um dia completo. Fico pensando que nunca tudo foi simples pra mim. E ao mesmo tempo, nunca procurei complicar. Quando lembro dele, fico com água nos olhos e procuro colocar minha mente em outra direção, em questão de segundos. Não vou dizer que não me sinto aliviada, mas sinto que minha história foi triste. De qualquer forma, me sinto com 16 anos de idade tendo a mesma crise de solidão e vazio. Juro que é exatamente igual. Quando penso que quase tive tudo, e agora voltei ao nada, e foi inevitável. Não estou despedaçada, estou normal. Estou exatamente como nunca quis ser: normal. Quando lembro do que sonhei ser, não consigo encaixar passado e presente nem ver futuro. Vejo que quis muito e pouco fiz para conseguir. Não me sinto velha, mas me sinto desperdiçada, de alguma forma. E não acho que seja surpresa para mim me sentir assim. Me lembro de diversas vezes onde me encontrei conversando comigo mesma e pensando que estava obsoleta. Que estava nova ou velha demais. O tempo nunca parece perfeito. Então quando lembrar de mim mesma, dele e do que sonhei em ser, preciso lembrar de como eu era, como eu gosto de mim e como alcançar. Se já me senti assim antes, se já me vi nessa situação antes, o que estou fazendo novamente? Jamais quero sentir desperdício de mim mesma. Jamais quero desejar ter feito o que queria. Jamais quero saber que algo que dependeu de mim não me fez feliz. Quanto a todo o resto, quero sorte. Me sinto vazia e fútil e não foi dessa maneira que me imaginei quando pensei em mim no futuro.

Sou outra, e até gosto de mim assim. Só que queria que não fosse mudança e sim acréscimo.