Alheio 

Curioso ver que as partes desintregram
As partes da memória, da nossa memória, das fotos na sala
Colaram sua cara de menino no corpo de um homem
cultivaram barba rala
Enquanto se arrancava de dentro tudo o que tinha de humano

E ver que não foi você quem cresceu comigo
Certamente não foi com você que eu brincava
Não tem nada a ver o seu tom de voz
as suas mãos cortadas
Com seus olhos serenos, seus olhos sem danos

Os brinquedos são os mesmos mas agora com sangue
carimbando digitais, como outra carteira de identidade
Não há mais desenhos, só cartas
promessas, não honestidade
De um remetente desconhecido

Mas é você que a mim não conhece
Fosse o caso não me diria o que disse, nunca teria escrito
não se atiraria, não voltaria nunca
repito
Me conhecesse nem sequer teria ido

Parte II

Tinha chegado há 3 dias e as malas ainda estavam na entrada do quarto, chamava isso de “meu novo armário”. Minha colega de quarto – a chamava assim, agora, ao invés de amiga – fazia yoga na sala todos os dias e isso me fazia querer ficar ainda mais dentro do meu quarto. Minha mãe me emprestou dinheiro, se eu só almoçar consigo viver com isso por uns 2 meses. Não que eu tenha me dado ao trabalho de fazer as contas. Confio na minha intuição.

Confio? Eu devia ter previsto. O conheço há 15 anos, talvez alguma pista tivesse escapado nos 10 anos que vivemos sob o mesmo teto. Por outro lado, como é que eu ia imaginar que meu meio irmão ia ser o protagonista da cena mais sexy da qual participei em meses? E digo sexy com certa repulsa, admito, pois quem é que quer dizer ao mundo que beijou seu próprio irmão mesmo que tenha sido por 3 segundos e tomando Coca Cola?

Minha vida está ótima agora que brigamos. Literalmente só meu pai me aguenta. Ele me ligou ontem, preocupado, querendo saber o que foi dessa vez. Antecipei minha partida em 30 dias mas não havia sinal de dano em parte alguma da minha família, a não ser o que já havia deixado em outros carnavais. É no mínimo intrigante. Não tinha sinal de emprego, de namorado, de amigo. Fiquei de ver depois o que foi que aconteceu quando desliguei o telefone sem mais nem menos na cara do meu pai. Uma desculpa ia surgir, deixei pra depois como já era de praxe. Era véspera de ano novo e a última coisa que eu queria era explicar o paradeiro das mãos e da língua do seu enteado naquela tarde. E então, a partir daí, nem meu pai me aguenta.

O bar para o qual concordei em ir com esse cara era comprido e estreito adornado com uns 300 espelhinhos 15 por 15 na parede do nosso lado. E ele era um sujeito que me permiti conhecer de dentro do meu quarto pelo telefone. Eu não creio em amor moderno. Eu acho que não creio em amor nenhum, pra falar a verdade, e tudo que eu queria era não precisar sair de casa pra conseguir alguma atividade sexual que incluísse outra pessoa sem dar margem pra um possível incesto, mas dessa vez não deu. Paciência! Quando transbordei das escadas rolantes, então, para encontrá-lo, coisa que não aconteceu de imediato mas rápido o suficiente pra não precisarmos nos telefonar, aprovei de cara sua aparência e, na verdade, àquela altura pouco deveria me importar se nos daríamos bem ou se eu o veria em outra ocasião. Nos sentamos e logo quis saber sobre a minha tatuagem mais visível. Clássico. Ótimo. Direto ao ponto, à superfície. Quem é que quer saber detalhes da vida da mais nova desempregada com temperamento levemente agressivo? Fomos pra casa dele, transamos. Transamos como dois estranhos que éramos, não me lembro como é mesmo que se faz amor. De manhã me despedi, beijei sua bochecha, saí. Agora que penso nisso não sei se seu nome é Vítor ou Flávio.

Quando eu tinha uns 9 anos minha mãe costumava costurar no quarto depois das 10. Eu aprendi alguns pontos, fazia bordado às vezes, pra passar o tempo. Às vezes era quase 10 e ela não vinha. Eu pegava as peças atrasadas e dava andamento, mesmo com o risco de “matá-las”, como ela mesma diria. Um dia ela disse o nome da minha madrasta numa discussão com o meu pai do outro lado da casa enquanto eu caprichava no ponto cruz. Não foi até muitos anos depois que eu percebi que minha madrasta já estava destinada a entrar na minha vida muito antes de a minha mãe deixar a gente em 1998. Quando vi não existia mais eu, ela e meu pai.

Não que antes eu fosse muito sensível, mas aí me dei conta de que ser fria era uma característica minha. Também não sei se a culpa é da minha mãe, do meu pai, da minha madrasta. Não sei como foi que o amor deles começou e morreu, não sei como isso se dá no geral, de qualquer maneira. Acho que nunca amei e desamei pra saber.

Um dia ela chegou e disse que não o amava mais. Na minha cabeça foi assim que ela fez, ela decidiu que não amava mais o meu pai e quando viu já estava embarcando pra Manchester sem passagem de volta. Não sei se ela foi sozinha, se a princípio pretendia voltar. Sem todos esses detalhes resta a minha imaginação e ela me diz que nunca teve amor lá pra começar. Eles dizem que se conheceram acidentalmente, meu pai a confundiu com uma prima distante no aeroporto e desde então saíram, casaram, tiveram uma filha temperamental e com comportamento um pouco psicótico.

E então ela parou com a costura. Eu vendi aquela máquina quando fiz 18 anos, não tinha porque guarda-la já que nessa época eu ainda a odiava com certo emprenho. Talvez eu me arrependa no meu leito de morte de não ter procurado o motivo do desamor dos meus pais. O resultado eu sabia: um irmão postiço, muitas brigas e alguns momentos embaraçosos e uma outra mãe pra me ignorar.

Minha madrasta provavelmente não sabe nada sobre mim apesar de termos um relacionamento razoável e nos tratarmos por “mãe e filha”. Não posso dizer que ela não tenha feito o seu papel que era ir a reunião de pais e me dar dinheiro aos finais de semana. Mas de alguma forma a figura mais materna que eu tive na infância – e tenho até hoje -foi  meu pai. Também não sei como o amor deles começou e como é que ele sobrevive através do tempo. Como é que alguns amores sobrevivem e outros não. Com a minha idade meus pais já estavam na metade do caminho para separação. Eu, tudo que tenho é uma meia dúzia de ex namorados que não duraram o suficiente pra serem vagamente lembrados, aliás todos foram, de certa forma, descartáveis. Não dava pra saber se o “te amo” que dizíamos foi real até muitos anos depois e posso garantir que os nossos não foram. Sei porque eles foram facilmente substituídos por baseados e por masturbação.

Há um jeito de perceber que alguém nos está perdendo? Há um alarme, um sinal? Dificilmente percebemos, quando muito desconfiamos e mesmo assim é tarde demais pra nos darmos ao trabalho evitar. Como é que um amor morre, como é que ele sobrevive? Meu pai disse, quando perguntei, que o amor desmorona quando os dois lados não seguram mais com a mesma força. Quando minha mãe descobriu seu caso secreto com a minha madrasta, meu pai já não estava segurando do mesmo jeito que ela há tempos e na verdade os dois já haviam deixado o amor rolar ladeira abaixo, de qualquer maneira. Segundo ele era difícil demais lembrar do porque estavam juntos e, embora eu fosse um belo motivo para que eles tentassem, uma nova oportunidade bateu na porta dele e ele deixou entrar. Eu não tive culpa, eu nem sabia ou sequer me importava na época. Essas dúvidas todas, essa curiosidade, surgiram anos mais tarde e não por eles, mas por mim que já estava na idade madura e queria entender como é que tudo isso funcionava. Não sem antes ficar extremamente confusa com o meu relacionamento com todas as pessoas ao meu redor que, como de súbito, havia mudado radicalmente.

Porque é que minha impressão do meu irmão mais velho havia se transformado nessa coisa pegajosa que não tem e pé nem cabeça e me faz querer voltar no tempo, onde o amor começa, termina, sobrevive – se der – pra ver se isso tudo faz algum sentido. Não tivesse morrido o amor entre meus pais não teríamos sido apresentados, não estaríamos bebendo Coca Cola em pijamas e ele jamais teria cheirado o meu cabelo em ocasião nenhuma.

Na manhã seguinte o cara da semana passada me ligou e eu concordei em vê-lo de novo desde que pudéssemos nos encontrar direto na casa de um dos dois porque eu estava sem dinheiro. Nós sabíamos que iria acabar dessa maneira, não tem porque romantizar um encontro que só valoriza o sexo sem compromisso. Ou seria assim o início do amor entre a gente? Eu sinceramente não sei mais o que pensar agora que revisitei a ascensão e a queda do amor dos meus progenitores tendo chegado a lugar nenhum, mais uma vez. Quantas vezes o amor nasce e morre, quantos amores existem? São todos eles apenas uma face de um amor maior? Nos encontramos na casa dele, não queria dar meu endereço ainda, não tinha certeza. Quase não trocamos palavras principalmente porque eu desconversei de toda investida que ele ousou dar. Que coragem!

Me gritou, fora de contexto: você nunca vai começar um amor com ninguém desse jeito! Tudo bem, não foi totalmente fora de contexto. Conversávamos sobre meus pais, sobre os pais dele, finalmente conversávamos, já no terceiro encontro. Tudo que eu quis dizer foi que ele não precisava inventar firulas porque eu não tinha esperanças de que nada ia de fato acontecer entre nós, em resposta à pergunta “você quer ir comigo ao teatro?”. E então fui de metrô pra casa deletando, ao mesmo tempo, o seu número do meu celular. Ninguém tem que me dizer como viver minha vida não é mesmo? Fazia tempo que eu não chorava. Chorei baixinho, sentada na privada e minha colega de quarto nem percebeu enquanto fazia yoga, nua, na sala.

Depois dos 25 é downhill

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma menina encontrou-se em sua cama, metamorfoseando num adulto monstruoso. Havia contas de luz pagas por todos os lados, um anti inflamatório que eu precisava tomar, um post-it “pegar roupas na lavanderia quarta feira”. Uma dor nas pernas, porque fiz alguns exercícios há dois dias. Meu namorado encontrou um cabelo branco na minha cabeça. Da noite pro dia celulite, 3 graus em óculos de armação discreta, dificuldade pra pintar as unhas do pé. Chegou minha hora.

Me disse outro dia que depois dos 25 é downhill. Ladeira abaixo!

Semana passada, uma crise imensa envolvendo alucinações e fobias durante todo o meu expediente. Por algum motivo eu dei de pensar que tenho todas as doenças que ouço falar. Sempre penso que estou prestes a sofrer um derrame. Preciso marcar otorrino, neuro, ginecologista, gastro, psiquiatra, ortopedista… Esqueço minhas senhas, meus pertences, vivo cheia de lembretes no celular. Talvez eu tenha mesmo alguma doença. Ou talvez meu corpo esteja me avisando que eu já sou grande.

Nunca pensei que fosse ter esse conflito interno de personalidade, de amizades, de carreira, de sanidade mental. Quando eu era adolescente, no meu quarto, eu não sabia que a vida acontecia fora daquele quadrado. Não pensava em nada, pra falar a verdade, nem queria crescer, nem era tão rebelde assim. De repente é difícil de uma forma totalmente nova. Não é mais a solidão. Não é a incerteza, nem os desamores. É a própria existência, que ultimamente tem pesado uma tonelada em cima dos meus ombrinhos magros. E não digo que estou infeliz. Alias, nunca estive melhor ou mais realizada.

É só a dificuldade de permanecer estável por um grande período de tempo quando estou sozinha com meus próprios pensamentos. No final, às vezes eu entendo porque estamos aqui. Olho pra cara de anjinho que ele tem dormindo – narizinho – não consigo não abrir um sorriso largo. Lembro da minha aula de literatura e de como eu gosto de ouvir aquele senhor falar. Lembro dos cachorros que quero ter. Penso: Como quero envelhecer? Sei que não quero. Por outro lado talvez, quando eu for mais velha, eu não seja mais essa alma ansiosa que precisa de uma explicação pra tudo, que se sente um monte de matéria orgânica ocupando espaço e tem dúvidas sobre a veracidade do seu próprio ser. É com a idade que vem a sabedoria, eu suponho. E talvez eu entenda e possa, assim, parar de gastar tempo me preocupando com esse tipo de coisa.

Quero dizer que a gente se transforma, uma hora ou outra, pro bem ou pro mal.

Um dia você acorda de sonhos intranquilos e vê que virou essa coisa. Essa coisa que é outra coisa, mas não é você. É um adulto, um ser qualquer que pega ônibus e reclama do trânsito de manhã, que não sabe como chegou ali e que não deveria, mas não faz a menor ideia de como seguir, do que fazer, do que ser e do que pensar. É só uma bagunça, e com medidas maiores, uma bunda imensa e audição duvidosa.

Talvez eu esteja sendo sortuda. Há um outro adulto ao meu lado aguentando todas as crises supraditas, todas elas! Às vezes penso que me encolho e esqueço tudo que sou pra poder ser dele em paz. Pra poder deixar a sua mão magnânima pegar na minha e me guiar pra luz. Depois tenho saudades de mim: Coloco minhas músicas, vejo meus filmes, gravo uns vídeos cantando que nunca sobem pra internet. Mas, agora, na maioria do tempo eu sou essa pessoa. Metamorfoseei de uns tempos pra cá de um forma brusca demais, acabo de perceber, mas acho que é do jeito que deve ser. Bom, quanto às contas, à casa, ao trabalho, às dores do corpo, isso acho que não faço questão. Mas todo o resto, a dificuldade de ser (de ser, só isso, ser), isso acho que me agrada e me empurra pra quando eu olhar por cima do ombro querendo achar que não valho nada. Vou saber que valho sim, valho muita coisa.

Mas quer saber, nem é tão difícil assim! Papai deposita 3 dígitos quanto eu preciso, as vezes 4. Limpo a casa a cada 10 dias, jogo o lixo fora. Quando acaba a comida, vou ao mercado. Cumpro minhas tarefas, ganho um salário razoável todo dia 30. Espero a dor passar: na maioria das vezes sei que é minha cabeça pregando peças, então eu espero. O que da trabalho é o próprio viver, o quanto tempo perdemos pensando “será que estou bem?”.

Dizer essas coisas em voz alta é assustador. Me sinto uma louca varrida, uma lunática. Da mesma forma, sei que não sou a única. É normal questionar aos 25, ou ter problemas pra subir escadas. Suponho que todo mundo tenha medo de remédios ou de chuva. Suponho que todos larguem o que conhecem até então pra ser outro, pra virar essa metamorfose. E talvez alguém de 30 anos venha me dizer que eu ainda não vi nada e pra eu parar de fogo no cu. Que seja.

Tenho essas crises – e sei que todos têm. Esperneio, penso “Deus, ou Deuses, porque estou aqui?!” Mas no final do dia sei que gosto de morder a orelha daquele menino, de maquiar minha mãe, ver meu pai caindo de sono no sofá da sala e meu melhor amigo fumando no escuro sempre que chego em casa. E, por enquanto, é isso que me mantém firme essa amante da vida.  Certamente melhor do que virar um inseto.

Parte I

Nesse natal, acho que nada vai acontecer de interessante, então não vou fazer suspense. Estou no interior, na casa dos meus pais, faz calor como em Recife e mesmo já estando aqui, não sei se estou preparada mentalmente para conviver de novo com a minha família. Passei em frente ao espelho que fica na sala de jantar e percebi que com aquela camiseta larga, sem maquiagem, e com o cabelo oleoso até a cintura, eu pareço mesmo com um roqueiro decadente, como ressaltou o meu irmão mais velho. Depois voltei a sentar no sofá velho na sala de estar. Todos aqueles móveis, os quadros da minha mãe, os enfeites de elefante já fizeram parte de um passado não tão distante assim, emoldurado na minha cabeça como se nunca tivesse existido de verdade. Voltar pra casa depois de quatro anos é ser um peixe e mergulhar pra fora d’água. Porque nada parece diferente e, ainda assim, tudo parece estranho.

Eu não sabia onde estavam as colheres, porque mudaram tudo de lugar. Mesmo assim, quanta coisa não mudou. Minha avó continua na casa dela. Meus primos estão casados, agora têm filhos de alguns meses. Mas o papo continua o mesmo: Como está a vida longe de casa? Já se adaptou? Fico pensando no que isso significa, e por que a obsessão com adaptação.  Sim, claro, já devo ser praticamente paulistana, tia! Mas na verdade eu não sei o que se adaptar significa. Se eu estou confortável lá? Se já sei onde fica o caixa eletrônico mais próximo? Quatro anos é bastante tempo, tia, mas não tem gente que passa a vida toda sem se adaptar a nada? E além do mais, quatro anos não é muito tempo coisa nenhuma! O que se pode aprender em quatro anos, de verdade? Se você for parar pra pensar, nada demais. Eu continuo empacando na esquerda, mandando mensagem de texto em frente ao Rinconcito. Depois de todo papo de adaptação, fiquei pensando no que realmente aconteceu nesses anos enquanto assistia desenho animado na mesma sala em que eu fazia isso aos 5 anos de idade. Não dava pra saber direito o que eu tinha feito de significativo pra minha própria vida. Concluí que não havia me adaptado, então, e entrei numa crise curta. De qualquer forma, era véspera de natal então suponho que seja assim mesmo. Tenho certeza de que vão me perguntar sobre minhas viagens de anos atrás, minha tatuagem nova, se eu resolver usar um modelito que mostre meus ombros. Acho melhor eu decorar meu texto, botar minha cara de blasé pra trabalhar.

E foi lá mesmo, no espelho da cozinha, que comecei a montagem. Aquele cabelo imenso tinha a serventia de cobrir minha cara de pouco interesse. A questão é: saí de casa, aluguei um apartamento há quatro anos, e agora? Toda vez que eu visitar meus pais vai ser assim? Ou até me acontecer algo mais interessante: um filho ou, sei lá, um câncer, quem é que vai saber? Não dá pra deixar de me sentir estranha perto da minha própria família com tanto interrogatório: mas esse alargador serve pra quê? Acho que desde adolescente me incomoda a curiosidade alheia sobre mim e ao mesmo tempo me agrada inconscientemente. Talvez eu alargue as orelhas pra ser questionada e depois finjo que acho isso um saco. A mesma coisa com o sapato amarelo de plástico que a minha prima tirou sarro em 1999. Eu dava um jeito de ser sempre a esquisitona da família com algum adereço inusitado pra depois protestar sobre minha liberdade de parecer tão estúpida quanto eu quisesse.

Então nesse ano eu, parecendo um homem, me olhava no espelho da minha antiga casa e me sentia como nunca uma desconhecida. Depois passei maquiagem, falei com a minha mãe, bem apática. Minha tia me lembrou de quando eu fui pra Nicarágua – faz 4 anos. Não tia, nós terminamos, já namorei 3 caras depois disso. Não. Eu estou solteira no momento. Aliás, estar solteira em família, em pleno natal, é algo que já está enraizado no terreno da minha existência. Aos 15 anos era completamente normal e até preferível, mas agora que tenho 28 as coisas mudaram. Minha avó faz cara de quem quer um bisneto antes de morrer. Minha prima, que teve trigêmeos semana retrasada, quer me dar uns conselhos.

Tudo bem, espero que todos tenham notado que a crise dos 28 anos estava pairando sobre a minha cabeça e era evidente que dessa vez as coisas estavam piores do que nunca. Todos os anos eu tinha uma crise correspondente ao número de anos que eu estava completando. A pior crise até então tinha sido a dos 24 em que eu fiz permanente nos cabelos depois que terminei com o Juan, o nicaraguense. Na época chorei por três quartos do ano, larguei a faculdade, virei bissexual por um tempo e fui morar em São Paulo, porque eu não aguentava mais gastronomia e achava a Maria Vânia bonita. Só isso. Depois passou, fiquei em paz comigo mesma, fui fazer jornalismo, namorei o Daniel, o Frederico e o João. Vou me formar ano que vem porque tomei bomba de um terço do curso e já terminei com o Daniel (bafo horrível), o Frederico (me traiu) e o João (foi traído por mim). Eis então que é natal, eu estou mal humorada até a extremidade dos meus pelos.

A crise desse ano começa com a enorme concentração de gordura nos meus culotes. Lembro vividamente de ter 18 anos e olhar para a barriga da minha mãe, absolutamente enrugada, e pensar que ela já tinha nascido assim. Não passou pela minha cabeça que ela era tão magra quanto eu com a minha idade na época e que eu não teria a barriga plana assim a vida toda. Hoje sento e são tantas dobras! Não sei a história de nenhuma delas, elas simplesmente estão aqui agora, como se sempre estivessem bem ali, assim como na minha mãe. Pela primeira vez na vida minhas roupas não me servem e eu temo a balança como o diabo teme a cruz. Além do mais, a Fiona Apple não faz mais tanto sentido assim. Não tenho mais nenhum ídolo que não seja um youtuber que faz cover do Abba com uma gaita. Às vezes eu quero focar no meu curso, ler mais, ser mais intelectual, e às vezes quero reproduzir tutoriais de maquiagem de blogueiras de 18 anos na minha própria cara e, como se espera, fico sempre muito frustrada.

Voltar é especialmente estranho porque não é mais a minha casa. Na verdade nenhuma casa tem sido completamente minha nos últimos anos, principalmente porque eu não deixo. Compro coisas descartáveis e depois reclamo que não finco logo as raízes, não entendo. Talvez eu devesse ver menos vídeos de decoração e efetivamente decorar o meu apartamento. Até parece que nem desfiz as malas em quatro anos. Nunca dá certo de organizar tudo que eu levei de casa e tudo que compro acaba sendo inútil e quebra logo. Pra completar, parece que tudo sempre volta num looping de acontecimentos. Já comprei cortina pra sala três vezes e também a minha tia sempre me pergunta as mesmas coisas, “e o francês, parou mesmo?”. Parei tia, parei o crossfit também depois de três aulas, parei de usar alpargatas porque é ridículo, parei de sair com aquele cara que tinha tesão pela minha panturrilha. Parei, simplesmente parei! Não tem gente que para de comer, de viver? Às vezes a gente só para, tia.

Eu pareço mal humorada e desgostosa quase sempre agora também, é meu novo preto. A vida inteira eu tentei ser no mínimo agradável e então agora que eu fiz 28 anos eu decidi que não precisava mais ser assim já que isso nunca me favoreceu em nada. Façamos as contas: estou em um nível temível de autodepreciação. Tanto que costumo acordar e rir de mim mesma até abrir os olhos, às vezes choro, de leve. Também estou descrente do amor, como noventa porcento das pessoas desse planeta e pra completar meus amigos estão absolutamente ausentes. Outro dia cheguei em casa e minha amiga, que não fuma, estava fumando. O som apático do seu oi pigarrento não sai da minha cabeça. Primeiro porque ainda não esqueci que ela quebrou meu pó de arroz de cento e sessenta reais enquanto estava chapada. Segundo porque eu nem lembro mais por que é que resolvemos morar juntas. Quatro anos parece tempo suficiente para se arrepender de algumas decisões e foi depois de perceber isso que olhar pra cara dela tem sido particularmente maçante nos últimos meses. Tentamos conversar às vezes e é como se nunca tivéssemos sido apresentadas. E não é só ela. Todo o meu grupo de amigos, os quais eram carregados com muito apreço do lado esquerdo do meu peito e com quem eu costumava dividir muitas vodkas, está insuportavelmente impossível de se conviver. Decidiram que gostam de frequentar o meu lugar menos favorito na face da terra e, se eu quiser desfrutar de suas amabilíssimas companhias, tenho que me sujeitar a  respirar o mesmo ar que provavelmente o Alexandre Frota. Por isso estou ficando em casa desde outubro e, agora que o natal chegou,  resolvi passar uns tempos grudada na minha família.

Acho que depois ficou claro pra mim o arrependimento. Não da pra saber se todo mundo me irrita porque todo mundo é, de fato, muito irritante, ou se eu estou numa fase em que é muito, muito fácil me irritar. Eu realmente sinto muito de ter enfiado o algodão doce do filho do meu primo de 5 anos no lixo quando ele veio me oferecer um pouco na ceia, ontem a noite. Não pude evitar. Minha amiga tinha me mandado uma mensagem perguntando se podia usar meu vestido jeans e na última vez em que isso aconteceu, ela estragou a minha camisa de seda com o ferro de passar. Mas agora não tem volta. Já falei pra minha mãe que vou ficar até o aniversário de São Paulo, já que fui demitida, não tenho saco pra ficar no meu apartamento e pretendo pedir ajuda para pagar o  aluguel desse mês.

Eu trabalhava numa empresa que faz assessoria de imprensa pra algumas subcelebridades. Foi um estágio que consegui no terceiro ano e eu tinha sido efetivada há quatro meses. Não tinha nada de muito interessante. Eu dava suporte para o assessor do Theo Becker e às vezes ele aparecia por lá e me cumprimentava com um beijo na bochecha. Teve uma época em que eu me gabava disso para os meus amigos, mas depois que ele saiu d’A Fazenda tudo despencou e cada dia parecia mais patético que a ida dele até o meu trabalho fosse o ponto alto da minha semana. Uma vez ele caiu de uma cadeira enquanto estávamos numa reunião sobre a ida dele para Moçambique. Ele fraturou o tornozelo, e quem chamou os bombeiros do prédio fui eu. Contei para os meus amigos no happy hour daquele dia e aquela foi a última vez em que eu mencionei o Theo Becker porque foi aí que eu percebi que o meu trabalho era mesmo tacanho. Vieram à tona todas as brincadeiras sobre como uma aspirante a jornalista poderia se sujeitar a encomendar almoços para o assessor de um participante de reality shows enquanto que a Folha de São Paulo estava abrindo vagas para treinees. Eu desconversava. Não dava pra trocar um salário certo e até que bom por uma nova jornada de 20 horas semanais por quase nenhum dinheiro. Um ano depois, o programa “Dança dos Famosos” da TV Moçambique foi cancelado e minha empresa resolveu que faria cortes. Não estavam relacionadas as duas coisas, mas tudo aconteceu na mesma semana, então tive a impressão de que o subsucesso de um ator/modelo/cantor controlava as rédeas da minha vida profissional e me senti, mais uma vez, patética.

Dessa vez então minha tia poderia se concentrar na minha carreira que agonizava no segundo plano do meio jornalístico, ao invés de relembrar os meus erros do passado durante o jantar. Minha avó poderia não me lembrar que eu não encontrei um homem bom para me dar filhos e meu irmão poderia não me dizer a todo momento que eu tinha um ar um pouco andrógeno demais, assim, sem peitos. Aliás, desde que nossos pais de casaram, meu irmão pega no meu pé por motivos risíveis. Ele não é meu irmão de verdade, mas convivemos e nos odiamos remotamente desde a pré adolescência realmente como dois irmãos de sangue, então nunca me dei ao trabalho de chamá-lo de filho-da-minha-madrasta, do mesmo jeito que eu não chamo minha madrasta de madrasta e sim de mãe. É simplesmente meu irmão mais velho, aquele cara babaca que coloca a culpa em mim quando faz alguma merda, que é mais bem sucedido e que dá mais orgulho para os meus pais do que eu. Claro que agora que estamos orbitando os 30 anos de idade as brigas ficaram mais amenas, mas ele continua não perdendo a chance de me mostrar como a minha vida – todas elas, profissional, amorosa, social – é um absoluto fracasso.

O filho do meu primo, de 5 anos, ficou chorando a noite inteira e meu primo me excluiu do facebook. Eu tinha prometido pra mim mesma que nesse ano não faria mais nenhuma inimizade, mas acho que foi um acidente porque ele apareceu na minha frente numa hora péssima. Eu e minha amiga discutíamos avidamente por mensagem de texto, uma de nós chamou a outra de vaca e eu juro que também foi um acidente porque ela quis conversar numa hora péssima em que o filho do meu primo estava encostando o algodão doce no meu vestido. Há três anos, minha avó quis conversar sobre o porquê de eu ter deixado o conforto do meu lar para dividir uma kitinete com “aquela minha amiga hippie”. Também não foi uma conversa muito amistosa e minha avó passou os dois finais de ano seguintes sem me dirigir a palavra. Sempre tem um pouco de drama nessas reuniões, acho que toda família deve passar por isso. Não posso dizer, no entanto, que seja coincidência o fato de que a maioria dos dramas familiares nas festas de final de ano sejam protagonizados por mim. Andei pensando e, realmente, talvez seja mesmo bem difícil se relacionar comigo. A família da minha mãe não tem culpa, eu entrei nela de gaiato. Acho que a culpa é, na verdade, do meu pai.

Meu pai talvez seja a única pessoa com a qual eu consigo conversar por mais de cinco minutos sem criar um grande alvoroço. Isso porque normalmente não conversamos sobre nada categórico, às vezes falamos despretensiosamente sobre a lastimável situação política do país, às vezes sobre sabonetes. Todo ano é ele quem alivia a minha barra inventando qualquer desculpa que justifique o meu comportamento. Pensando bem, não pode ser culpa dele também. Talvez eu devesse parar de caçar culpados e devesse assumir meus próprios erros. Meu irmão por exemplo. Ontem entrou no meu antigo quarto, onde eu ando dormindo num colchão velho e quis bater um papo sobre as minhas depês da faculdade. Achei muito insensível da parte dele comentar sobre isso justamente nesse momento em que a melhor coisa que anda acontecendo na minha vida são as minhas depês e isso nem sequer é uma coisa boa. Por outro lado, talvez aquilo tenha sido uma tentativa de se aproximar de mim. A última vez que o vi, numa visita à casa dos meus pais que durou apenas 10 horas, a cinco meses atrás, nós brigamos porque estava chovendo. Simplesmente porque chovia e o carro do meu amigo espirrou lama por toda a varanda. Então, quando ele entrou e me perguntou se eu tinha finalmente passado em Editoração em Jornalismo Impresso, tudo que eu ouvi foi “finalmente” e agora que penso nisso nem sei se ele de fato usou essa palavra.

Pra me redimir o chamei pra ver alguns vídeos de quando éramos adolescentes. Ele se mudou pra minha casa quando eu tinha 10 anos e nós demoramos um tempo até entendermos que éramos, a partir daquele momento, irmãos. Minha mãe biológica tinha ido pra Inglaterra, aliás não a vejo há dez anos. Não importa. Havia uma nova mãe e uma nova pessoa na minha família. Nossa primeira briga foi porque eu queria ver o show do Michael Jackson na tevê e ele não queria deixar. Agora, que ele sentava no chão da sala ao meu lado, animado por termos encontrado uma filmagem do seu aniversário de 16 anos, aquelas brigas todas pareciam tão mesquinhas. Ele fez um copo de refrigerante pra mim sem eu ter pedido e colocou a fita no video cassette empoeirado. Fiquei me sentindo meio estranha, mais ainda. Mas de uma forma um pouco mais agradável.

Fiz as pazes com a minha amiga, ela disse que parou de fumar. Conversamos então sobre um colega da minha aula de economia que tinha me oferecido carona num dia de chuva. Isso foi tudo que aconteceu e eu fiquei com a impressão de que tinha algo ali. Ele foi mais atencioso do que eu estou acostumada e me pareceu uma boa ideia que ele me chamasse para sair. Tenho ficado tão sozinha nos últimos meses e também eu faço questão de estragar toda mínima chance que tenho de interagir com um homem. Meus dias, antes da demissão, se resumiam a passar noventa porcento do meu expediente vendo gifs de cachorros, já fazia um tempo que eu não usava maquiagem. É difícil para uma mulher de quase trinta ficar seis meses sem qualquer perspectiva romântica enquanto a vida de todo mundo parece deslanchar para a felicidade plena.

Estamos numa piscina e meu irmão cheira o meu cabelo. Eu lhe dou um tapa no braço, fico emburrada pelo resto do vídeo. Ainda ficamos mais umas duas horas no chão da sala bebendo refrigerante e começo a ficar surpreendida com algumas das imagens. A verdade é que aquela foi a primeira vez em que não me senti um lixo durante toda a temporada de festas de final de ano. Por um instante não lembrei de toda a bagunça que eu teria que limpar uma vez de volta a São Paulo. Passa pela minha cabeça que devo ficar, dessa vez, por tempo indeterminado, mas logo me ocorre toda a burocracia pela qual passaria o meu relacionamento com a minha amiga já que ela não conseguiria pagar o aluguel de um apartamento como aquele sozinha. E nossa amizade estava abalada pelos últimos acontecimentos. Embora agora conversássemos por mensagem de texto sobre assuntos de amigas, não era mais a mesma coisa. Há quatro anos acho que fazia sentido, mas nós mudamos muito. Eu, pelo menos, mudei. Eu mudei de cidade por uma razão, mas permaneci lá por outra e agora desconheço todas elas. Esses vídeos todos não facilitam nada. Estou no foco da câmera, sentada na beira da piscina e meu irmão me olha estranho no fundo.

Recebi uma mensagem que começava com um pedido de desculpas. Minha amiga parecia realmente arrependida de ter saído com o meu amigo da aula de economia na semana seguinte da carona. Pareço não notar ou não me importar já que meu irmão agora se senta mais perto e me disse que quando uso maquiagem até que fico mais atraente. Devo procurar um novo emprego em jornalismo, cortar os cabelos, empurrá-lo enquanto ele tenta me beijar? São tantas as perguntas. Fico atordoada e quando vejo estou comprando uma nova passagem para São Paulo. Minhas malas pesam com o resto do peru, não aguentei até 25 de janeiro, como já havia imaginado. Fui embora e não me despedi das minhas tias, meu primo ainda não quer falar comigo. Não cabia mesmo o suspense porque ainda não sei dizer se algo aconteceu.

 

Falemos um pouco sobre as filas

Introdução

Sei bem de todo o esforço que se aplica a discussões de hoje em dia sobre qualquer questão remotamente polêmica que venha a surgir ou que já seja estabelecida como desmancha amizades tais como política, religião, a fome na África, e o chamado feminismo no enem. Sei bem que, de fato, as questões supraditas representam uma intensa relevância na vivência humana e demandam importantes debates embasados em vocabulário esdrúxulo feito esse parágrafo que vai ser logo interrompido devido ao seu conteúdo frívolo e extremamente desdenhoso. No entanto, percebo o imenso apreço que me toma toda vez que me permito falar bobagens e usar linguagem do cotidiano pra dar meus dois centavos sobre assuntos banais e sem importância, como as filas, por exemplo.

Filas

As filas, inevitavelmente, são parte de nossas vidas e nos levam a muitos lugares diariamente ou simplesmente servem para ficarmos sabendo de alguma notícia que nos tenha fugido, que talvez não fizesse tanta diferença saber ou não mas que de alguma forma remota nos promove de alienado pedestre à posição de cidadão informado (se você for enxerido na conversa alheia feito moi). Deixando de lado toda a reflexão acerca da necessidade de se formar filas – que na maioria das vezes inexiste, sejamos honestos ao ponto de admitirmos que há conhecimentos que podem ser adquiridos através da espera em pé e em ordem, também conhecida como fila indiana. Aprende-se sobre origami, atos ilícitos envolvendo vale alimentação, valor do prêmio atual da mega sena, resultado do jogo de ontem e quem está sendo sacaneado pelo encarregado da firma. Há de se reconhecer que as dicas de culinária adquiridas nas filas de banco, em geral, são de grande utilidade no preparo do feijão, do macarrão de gravatinha e do ensopado de frango. Na minha ultima transferência bancária, por exemplo, aprendi a fazer empadão. Infelizmente, eu não passei da fase inicial da vontade de cozinhar, porque para mim ela dura aproximadamente até o final do assunto, no máximo até a minha triunfal entrada na cozinha de casa onde costumo ceder para a comida congelada, toda vez. Fico feliz de ver que é possível preparar uma refeição não agridoce ou com toque de óleo de dendê da Amazonia. Me aquece o coração saber que nem tudo é gourmet.

Gourmet

Esnobes cozinheiros ou chefs de cozinha emergentes que usam ingredientes improváveis e de difícil acesso ou simplesmente acabaram de descobrir o alho poró e insistem em chamar mandioquinha de batata baroa. Por que as pessoas não podem ser como a tia Vânia?

Tia Vânia

Tia Vânia é um sorriso ambulante, chiquérrima (cozinha de salto 15) que adivinha sempre o que eu quero comer. Quinta feira (às vezes quarta) é dia de jantar com ela – espero todo dia essa noite chegar! Semana passada, em mais um encontro lá na Vila Madalena, Tia Vânia, que não é, tecnicamente, minha tia, fez couve flor e carbonara. Sim, com bacon fritinho em cima. Tia Vânia é a mulher dos sonhos de toda menina. Aquela que as meninas querem ser no dia em que crescerem. Tia Vânia é uma daquelas pessoas que fazem a gente voltar a gostar do ser humano. É quem sabe ser espalhafatosa e sofisticada ao mesmo tempo e que contagia qualquer ranzinza com uma risada extremamente única e saborosa. Tia Vânia é apreciadora de gente feliz comendo seu pudim de leite moça e se desculpa muito tristemente por ter deixado a calda virar caramelo. É ela que nunca olha sua forma mas tudo que preenche sua silhueta no que tange o seu ser e não o seu ter. Não se prende ao vestuário.

Vestuário

Uma tristeza imensa me invade assim que me dou conta de que aquela menina está me mostrando a foto de outra menina de saia curta e se referindo a ela como “vagabunda mesmo com essa roupa”. Senti-me péssima quando notei que eu tinha o mesmo modelo de saia e que talvez alguém em outro lugar ou dimensão estivesse fazendo o mesmo comentário em relação a mim por conta dessa saia. E me pergunto, quase que instantaneamente, que tem a saia a ver com isso? Há diversos protocolos sociais envolvendo nossas vestimentas que me deixam um tanto quanto incomodada como ser humano. Eu entendo a razão funcional das roupas mas, sinceramente, não me entra na cabeça a sua função enquanto definidora de caráter.

Caráter

Vou montar o clube das pessoas que não furam filas e, principalmente, daquelas que não acham que é o fim do mundo quando alguém fura a fila delas. Isso define caráter (nem que seja só no caixa do mercado).

Ode Ao ser Normal

Quando a gente da de cara com aquele monte de azulejo branco a gente entende. Quando da de cara com os cortes na pele da menina com a mãe naquela sala. Eu e ele fomos parar numa roda comandada por uma moça de jaleco que pedia que a gente compartilhasse, dizendo, primeiro, nosso nome. Todos diziam oi logo em seguida.

Eu não tinha porque estar ali, nem ele.

Saia da sala pra fumar escondido (mãe, eu fumava às vezes, não fica brava), era sempre umas 9 horas. Não sei, sinceramente, se caia mais chuva ou lágrima. Não conseguia manter o cigarro aceso, por isso desistia. Pensava, de uma forma contínua, achando que isso me ajudaria a entender, “como chegamos aqui?” e ele continuava lá dentro, sozinho.

Voltava e um cara com marca de corda no pescoço falava, sem expressão muito gritante, sobre como derrubou o banquinho posto abaixo dos seus pés. Outra, com cabelo bagunçado igual sua feição contava os comprimidos pra doutora, chorosa, querendo dizer que não estavam adiantando, “me dá mais!”.

Quando saíamos, via que a sobrancelha dele ganhava alguma expressão, depois de tanto tempo.

– Quero ir embora, Grace. Aqui só tem louco.

Claro, chama-se reabilitação, ou terapia em grupo. Ou o que você quiser. Tinha peso psicológico e a gente precisou ir parar lá pra ele aprender.

Perguntava por que ele se sabotava tanto.
Essa pergunta servia pra qualquer um de nós. Desde que me entendo por gente vejo auto sabotagem. Mamãe, papai, irmão. Todos tomam pílulas. Todos veem médicos, tiram licença. Que mal é esse que abraça minha família?

Fumando na chuva, entendia.

Veja só quanta média, classe média! Dinheiro? Tem. Carro tem, empregada tem. Tem jardim, jardineiro. Tem os brinquedos da Estrela empilhados no quarto, por cima do Play Station. Tem sucrilhos no prato.

Ele me falava:
– Porque quero um pouco de drama Grace, esse vazio me sufoca.

Justificando a nota de dinheiro enrolada e os pais presentes. Só eu não tinha percebido. Depressão dá mais em quem não tem por que. Não tem por que chorar, não tem por que reclamar. Depressão te dá o porquê.

A vida é perfeita pra nós, irmão. Ela é, tem casa, cachorro, quintal. Que mais cê qué? Percebi que o que tava entalado nas nossas gargantas chamava-se tudo-no-seu-devido-lugar.

E ele tentou fazer isso várias vezes. Quando demorava demais dentro do quarto eu já sabia: ia rolar um pouco de hospital e choro do lado de maca. Uma tentativa constante de se sentir vivo era tentar morrer. Agora compreendo. É que a gente fez isso diferente.

Eu fugi. Eu fui dar uma volta pelo Atlântico, fui tirar umas fotos na popa do mundo. Ele foi ver a proa da tarja preta. De jeitos distintos a gente tava buscando fazer a mesma coisa. A gente tava buscando sair da classe média da mente.

Porque a gente cresceu na casa que tinha tudo na mão, mas rodeados de gente que passava necessidade e usava isso de muleta pra não andar direito nunca. E, irmão, menosprezam a gente por isso.

A vida inteira ouvi: Cê tem sorte, menina. Olha só quanta gente queria estar no seu lugar! E apanhava na rua “vaza, patricinha!”

Nada que fazíamos tem o mesmo valor, ou a mesma luta. Porque meu pai resolveu trabalhar duro antes d’eu nascer e me pagar mesada. Já levei uns tabefes por causa disso, também, na saída da escola pública que me matricularam, mesmo podendo pagar ensino de qualidade porque “não somos melhores que ninguém”, diziam, certíssimos. Mas esqueceram que é uma jaula de leões se você não for selvagem também. E por isso a gente queria mexer a nossa vida com colher de pau. Um cheirava e a outra sumia, e ainda some.

Meu irmão, te entendo agora, anos depois.

Me dizem, pra desmerecer o lugar onde me encontro.
– Mas você que nasceu com o cu virado pra lua. Vem tudo sempre de mão beijada.

E talvez venha mesmo, irmão.
Mas desde quando a vida boa que nossos pais conseguiram nos dar tira nossos méritos? Nós passamos a vida, a infância, pedindo desculpas pela vida que a gente levava. Tentando ter mais histórias de superação pra contar.

“Sobrevivi a rehab“, dizia contente e sorridente, como se fosse uma coisa pra se orgulhar. Eu sei que ele queria provar pra todo mundo que a gente também tinha problemas. Que apesar da família perfeita também éramos gente com lágrimas. Nossa paz não era indestrutível. E que bosta que qualquer um possa nos invejar, porque aqui se gasta horrores com divã exatamente por isso.

Irmão, você não faz mais isso, mas sei que foi importante você ter arrombado aquele cadeado naquela vez. Me fez ver que não tem nada de errado em ser normal. E você não precisa mais se trancar no quarto pra gente perceber isso. Alias, não faça mais isso! Me destruiu, um pouquinho. Mas me abriu os olhos e me fez perceber que tanta angústia cerca a nossa existência.

Irmão, sei que veremos muitos médicos ainda.
Só quero que deixem a gente em paz. Nenhuma vida é tão perfeita assim. E agora eu sei que a gente não precisa cortar os próprios pulsos pra entender isso.

Nossa vida não tem que ser documentário do Fantástico, com órfãos, fome, divórcio pra gente sentir que vale alguma coisa. Ninguém precisa chorar lendo a nossa biografia. Pode ser só normal. Quem define se nossas conquistas foram fáceis ou difíceis somos nós.