Depois dos 25 é downhill

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma menina encontrou-se em sua cama, metamorfoseando num adulto monstruoso. Havia contas de luz pagas por todos os lados, um anti inflamatório que eu precisava tomar, um post-it “pegar roupas na lavanderia quarta feira”. Uma dor nas pernas, porque fiz alguns exercícios há dois dias. Meu namorado encontrou um cabelo branco na minha cabeça. Da noite pro dia celulite, 3 graus em óculos de armação discreta, dificuldade pra pintar as unhas do pé. Chegou minha hora.

Me disse outro dia que depois dos 25 é downhill. Ladeira abaixo!

Semana passada, uma crise imensa envolvendo alucinações e fobias durante todo o meu expediente. Por algum motivo eu dei de pensar que tenho todas as doenças que ouço falar. Sempre penso que estou prestes a sofrer um derrame. Preciso marcar otorrino, neuro, ginecologista, gastro, psiquiatra, ortopedista… Esqueço minhas senhas, meus pertences, vivo cheia de lembretes no celular. Talvez eu tenha mesmo alguma doença. Ou talvez meu corpo esteja me avisando que eu já sou grande.

Nunca pensei que fosse ter esse conflito interno de personalidade, de amizades, de carreira, de sanidade mental. Quando eu era adolescente, no meu quarto, eu não sabia que a vida acontecia fora daquele quadrado. Não pensava em nada, pra falar a verdade, nem queria crescer, nem era tão rebelde assim. De repente é difícil de uma forma totalmente nova. Não é mais a solidão. Não é a incerteza, nem os desamores. É a própria existência, que ultimamente tem pesado uma tonelada em cima dos meus ombrinhos magros. E não digo que estou infeliz. Alias, nunca estive melhor ou mais realizada.

É só a dificuldade de permanecer estável por um grande período de tempo quando estou sozinha com meus próprios pensamentos. No final, às vezes eu entendo porque estamos aqui. Olho pra cara de anjinho que ele tem dormindo – narizinho – não consigo não abrir um sorriso largo. Lembro da minha aula de literatura e de como eu gosto de ouvir aquele senhor falar. Lembro dos cachorros que quero ter. Penso: Como quero envelhecer? Sei que não quero. Por outro lado talvez, quando eu for mais velha, eu não seja mais essa alma ansiosa que precisa de uma explicação pra tudo, que se sente um monte de matéria orgânica ocupando espaço e tem dúvidas sobre a veracidade do seu próprio ser. É com a idade que vem a sabedoria, eu suponho. E talvez eu entenda e possa, assim, parar de gastar tempo me preocupando com esse tipo de coisa.

Quero dizer que a gente se transforma, uma hora ou outra, pro bem ou pro mal.

Um dia você acorda de sonhos intranquilos e vê que virou essa coisa. Essa coisa que é outra coisa, mas não é você. É um adulto, um ser qualquer que pega ônibus e reclama do trânsito de manhã, que não sabe como chegou ali e que não deveria, mas não faz a menor ideia de como seguir, do que fazer, do que ser e do que pensar. É só uma bagunça, e com medidas maiores, uma bunda imensa e audição duvidosa.

Talvez eu esteja sendo sortuda. Há um outro adulto ao meu lado aguentando todas as crises supraditas, todas elas! Às vezes penso que me encolho e esqueço tudo que sou pra poder ser dele em paz. Pra poder deixar a sua mão magnânima pegar na minha e me guiar pra luz. Depois tenho saudades de mim: Coloco minhas músicas, vejo meus filmes, gravo uns vídeos cantando que nunca sobem pra internet. Mas, agora, na maioria do tempo eu sou essa pessoa. Metamorfoseei de uns tempos pra cá de um forma brusca demais, acabo de perceber, mas acho que é do jeito que deve ser. Bom, quanto às contas, à casa, ao trabalho, às dores do corpo, isso acho que não faço questão. Mas todo o resto, a dificuldade de ser (de ser, só isso, ser), isso acho que me agrada e me empurra pra quando eu olhar por cima do ombro querendo achar que não valho nada. Vou saber que valho sim, valho muita coisa.

Mas quer saber, nem é tão difícil assim! Papai deposita 3 dígitos quanto eu preciso, as vezes 4. Limpo a casa a cada 10 dias, jogo o lixo fora. Quando acaba a comida, vou ao mercado. Cumpro minhas tarefas, ganho um salário razoável todo dia 30. Espero a dor passar: na maioria das vezes sei que é minha cabeça pregando peças, então eu espero. O que da trabalho é o próprio viver, o quanto tempo perdemos pensando “será que estou bem?”.

Dizer essas coisas em voz alta é assustador. Me sinto uma louca varrida, uma lunática. Da mesma forma, sei que não sou a única. É normal questionar aos 25, ou ter problemas pra subir escadas. Suponho que todo mundo tenha medo de remédios ou de chuva. Suponho que todos larguem o que conhecem até então pra ser outro, pra virar essa metamorfose. E talvez alguém de 30 anos venha me dizer que eu ainda não vi nada e pra eu parar de fogo no cu. Que seja.

Tenho essas crises – e sei que todos têm. Esperneio, penso “Deus, ou Deuses, porque estou aqui?!” Mas no final do dia sei que gosto de morder a orelha daquele menino, de maquiar minha mãe, ver meu pai caindo de sono no sofá da sala e meu melhor amigo fumando no escuro sempre que chego em casa. E, por enquanto, é isso que me mantém firme essa amante da vida.  Certamente melhor do que virar um inseto.

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Eu, ele e meu pai

Eu e um amigo atravessamos correndo a avenida movimentadíssima fora da faixa, quatro faróis verdes enfileirados na direção dos carros a 100 por hora e grito enquanto corro assustada “estou sem seguro saúde!”. Ele ri enquanto eu, quase molhada de susto, me recomponho do outro lado da Avenida das Américas em plena Barra da Tijuca, numa viagem de merecidas férias. Desde quando isso começou a fazer diferença pra mim? Digo, o seguro de saúde?

Há uns três meses fui golpeada covardemente pela flecha do cupido – esse danadinho que só fazia merda parece que acertou! De uma forma bem aparente (e deliciosa) isso tem me mudado em uma meia dúzia de camadas abaixo da superfície. Esse menino, quero dizer, esse homem de orelhas lindas e redondas me dá flores quando tenho ataques de pânico e faz jantar à luz de velas enquanto me recita poemas em francês (com a voz do Vincent Price). Um dia ele me abraçou, eu sufoquei um pouco em seu suéter enquanto soluçava e chorava porque “a vida não fazia sentido”. Sentou-se ao meu lado, colocou seus braços sobre meus ombros e me pediu pra chorar tudo que eu tinha pra chorar, enquanto me olhava com aqueles olhinhos apertados e serenos.

Depois que tudo passou, no dia seguinte, fui pra casa me sentindo uma bebê chorona. Olhei o meu talão de cheques amassado sobre uma pilha de livros de cursinho e um bichinho de pelúcia do pato Donald. Minhas roupas de brechó estavam por toda parte e talvez alguns ratos vivessem debaixo da minha cama de solteiro imunda. Tinha um lápis de olho, uma camiseta de banda e três presilhas coloridas por cima do meu computador empoeirado e quando eu fui tomar banho, não tinha toalha seca. A vida adulta me mandou um abraço!

Ele é dois anos e sete meses mais velho do que eu. Quando eu nasci, provavelmente, já falava três línguas e já vestia Ricardo Almeida. Renato Russo diria que ele faz medicina e fala alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês. Nossa idade cronológica é até que compatível mas, de alguma forma, a máquina de café expresso na sala dele e o whisky que ele bebe me fazem sentir como uma criança e, ao mesmo tempo, querer ser mais adulta.
Como não pensar que ta na hora de largar o safety blanket que é minha finada autossuficiência e começar a admitir que eu preciso de médicos quando fico doente, que devo dar satisfação a alguém e que ter um lugar pra onde voltar é reconfortante e acalma qualquer dor? Preciso aceitar que eu não sou tão autônoma ou livre como antes e nem mais aquela adolescente destemida.

Eu costumava não ter medo de nada e, de repente, estou no ônibus pensando que tenho medo de ficar louca ou sozinha, de me acidentar, de amputar um membro caso seja necessário. A adolescência é tão mistificada e se diz tão dolorida, mas crescer é muito mais assustador. Aos 25, tenho mais medos, mais angústias, mais dúvidas e, ainda, o mesmo senso de humor, só que agora ser assim não é mais tão bem aceito (nem mesmo por mim). E assusta saber que quem pode livrar minha cara de encrencas está a 70 quilômetros de distância. Agora ninguém vem me buscar onde quer que seja porque está tarde e por que está chovendo. E faz tanta falta essa carona, esse cafuné, esse vai-ficar-tudo-bem implícito no olhar de canto de olho que ele lança do banco do motorista.

Meu pai é um sujeito engraçado. Ele adora piadas de trocadilho e é um abraçador convicto (eu nunca gostei de tanto contato físico, mas aprendi a amar isso nele). Tem um e 68 de muito amor, atenção e chamego. Gosta de cozinhar e nunca se importou com as minhas multas de trânsito porque, quando tinha a minha idade, “também fazia merda”. Ele gosta de coleção de miniatura, é verdão até morrer e canta música brega como ninguém.

Quando eu era pequena, ele conta que eu sempre senti muita segurança em mim mesma. Ele me diz que eu era independente, que dormia num berço sozinha no quarto dos fundos, e não chorava de madrugada. Ele diz também que eu era a líder do grupo de menininhas da rua e que era eu quem decidia do que a gente ia brincar. Agora penso que talvez essa admiração da minha independência mirim também o torna, de certa forma, carente de paternidade. Talvez seja por isso que ele sempre me abraça tanto.

Pai é herói, defende a filhinha do dragão, faz ela dormir. E eu nunca precisei disso.
Não até agora.

Me pego precisando de aprovação toda vez que arrumo o cabelo. Tenho um pouco de medo de estranhos. Quando cai a noite eu preciso que alguém me cubra pra eu dormir e me de um beijo de boa noite. Sim, eu preciso do seguro saúde! Talvez eu tenha invertido o sentido das coisas. Eu fui muito autoconfiante e segura quando eu não precisava ser, e medrosa bem agora que não tem mais papai e mamãe pra acudir a menininha chorona.

E aí ele apareceu.
Me beija na testa, diz que fico linda até chorando. Não quero sair dos braços dele nunca e eu sei que o amo porque acho fácil perdoar seu gosto por manteiga de amendoim.

E meu pai, meu baixinho fã do Reginaldo Rossi, que tem a filha mais desnaturada do planeta, hoje pode ver que ela não é tão independente, e não deve achar que ela não precisa mais de proteção. Ela só parece ter achado um protetor alternativo. Um adorável menino que tem uma biblioteca, faz panqueca de brócolis com queijos, me enche de beijos, me diz todo dia que vai ficar tudo bem.