Quando a luz faz curvas?

Mesmo com todas as curvas que essas luzes percorrem no meu corpo, no seu corpo, nesses lençóis, qual o ponto que liga a minha mente com a dele se não é só nossos poros?
Mesmo com todo o egocentrismo que emano e que me é intrínseco, pra reparar nas luzes que percorrem as minhas curvas, e o quão amarelas parecem quando minha mente está vazia.
Um metro e sessenta e três percorreu seu lábio inferior com pouca saliva, muito emprenho e um alguns sons da tv. E, imóvel, congelada, segui, aguardando que ele fosse me derreter.
Tão segura quanto um cofre, guardou todos os dois olhos fixos nas minhas feições. Os meus, trancados, enxergam e apreciam. Por que não perco a consciência? Por que é relevante que um dos meus pés encosta o chão, que uma das minhas mãos está dormente e que eu me sinto tão confortável embaixo do peso dele? E ao mesmo tempo esquivo mentalmente de me permitir voltar, e volto.
Mesmo com todas as cobertas e todo o vento mudo lá fora e todos os corações envolvidos, qual o ponto que fiz com essa agulha hoje? Sei que não o conheço, tampouco a mim.
Não quero pensar em lençóis, em vento, em nada.
Quero desligar a cabeça por dois segundos e não detalhar se a língua dele deve ir pra direita ou pra esquerda. Quero sentir-me exatamente assim: segura, calma.

Calma!
He’ll catch on.

Parabéns, você chegou!

Parabéns, você chegou ao fundo, bonita. Sei que não procurou, conscientemente, chegar até aqui. Mas fez por onde. Saltou amores, boicotou alegrias, ignorou sorrisos, fugiu da casa de mamãe.

E sinto lhe dizer, já vi esse filme.

Te dou uns dias, talvez uns meses (poucos) até sua malinha ficar pronta. Porque eu sei que você não tem mais fluido pra escorrer dessa sua cara de pau. E que você se sente exausta de sucatear todas as suas memórias pra tentar fazer mais suco do mesmo limão. Mas, bonita, eu sei que você vai. Que você pensa que não tem mais o que te dar esse lugar. E que lá no fundo te gela o estômago pensar que talvez você se mude e nada mude.

E que talvez nunca mude. E que se esgota seu otimismo, junto com seus ânimos. Você se sente fatigada. E pensa em quanto tempo mais vai durar toda essa merda e que você não tem mais nenhum motivo mesmo pra ficar aqui.

Sei de tudo que se passa na sua cabeça. Toda a loucura, todo o medo. E toda a preguiça de começar tudo de novo, e medo de ser tudo de novo só mais uma tentativa frustrada de não ser tão vazia. Não sei quando acaba sua busca e começam seus achados, quando você vai parar de se iludir com o que vem disfarçado, ou quando você vai parar de achar que te enganam. Quando você vai construir qualquer lasca de auto estima e, ao mesmo tempo, deixar de ser essa egoísta escrota que você sempre foi, é, e sempre será.

Você, bonita, não vai mudar nunca. Então, desculpa ser tão ríspido, mas quem te rodeia jamais vai fazer a menor diferença, bonita. Porque a laranja podre no meio das laranjas boas apodrece o resto – só pra constar a laranja podre é você.

Pode arrumar suas malas, pode lamentar que não achou o que procurava (pra começar você nem sabe o que é). Pode chorar mais, se conseguir. Pode andar com essa cabeça baixa por mais quantos quilômetros você achar que deve.

Mas já te aviso.

Nunca vai melhorar, se você não melhorar. E talvez você nunca melhore.

Dizem que é chato chegar a um objetivo num instante, mas você está exausta. Exausta!

Alface e Tapioca

– Pois eu te digo! Saí do mercado, o carro, um preto devia ser um punto preto, ou outro mas é que eu gosto do nome punto, ia saindo de uma garagem, eu te juro, ele já tinha saído todo, ele já tinha saído meio metro depois que acabava a garagem e é só por isso que eu fui passar atrás dele. Eu jamais iria passar atrás de um carro que não tivesse saído totalmente da garagem porque é simples questão de física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço e ninguém ainda inventou o poder de atravessar as coisas, portanto eu posso te dizer com toda a certeza que aquele punto, ou seja lá que porra de marca era aquele carro, se é que se diz marca, também, não sei, só sei que punto é fabricado pela Fiat e a marca é Fiat e não punto, que seja, o punto já tinha saído e eu estava cheia de sacolas com alface e tapioca que eu ia comer mais tarde, mas não alface com tapioca, eu ia comer uma salada de alface e depois ia fazer tapioca de Nutella, e eu sabia que eu devia ter comprado Nutella, mas acabou que eu não comprei, e depois que o punto saiu, assim como você saiu da minha vida aquele dia, meio metro mais ou menos, eu achei que você já tinha passado, assim como tinha passado o punto e por isso fui passar por trás com meu alface e tapioca e sem a Nutella e o que houve foi que o carro me atropelou, porque deu ré, como você fica dado ré e não olha o retrovisor e me acerta em cheio toda vez. O punto não me viu, não viu a tapioca, não viu os milhões de pedacinhos de tapioca que se espalharam pelo chão, e nem você viu todos os milhões de pedacinhos do meu coração que ficaram no mesmo chão e vocês dois saíram, cantando os pneus, e me deixando e a tapioca. Mas aí levantei e voltei a andar pra casa. Comi meu alface, que foi salvo, mas não muito, larguei a tapioca lá. Pouco importa, eu não tinha comprado Nutella mesmo.

Um Oferecimento

Quero pontuar-te, ó capítulo, antes de pincelar as novas linhas. Porque o que há de ser escrito doravante não pode e não deve vir de você e nem ser em tua função. Assim não te remonto, não te reescrevo. Não te revivo, não te repito. Não faço de ti uma muleta. Não faço de ninguém um passatempo. Não faço de mim mesma um ponto sem nó. Quero desassociar-te e prender-te num cubo de vidro, onde a física há de ser por mim, dessa vez, e enxergar-te só quando eu bem entender. Tu, capítulo, já acabou, escafedeu-se. Melhor deixar o papel em branco, a mente vazia, antes do novo numeral romano.

Voltamos após os comerciais!

Um oferecimento: Besteiras que o Tom Jobim inventa Ltda e Me Curte no Tinder, Inc.

Os Leões Voadores

– Como ta demorando pra andar essa fila!

Disse ao estranho do meu lado.

Não era totalmente estranho. Já o tinha visto passando umas duas ou três vezes. Sempre fazendo a mesma coisa: pingando colírio. Ele era até que bem apessoado, robusto mas não gordo. Lhe faltavam uns cabelos na cabeça, umas palavras no repertório. A fila estava há tanto tempo sem andar que ele até que me pareceu mais atraente, eu, louca pra largar mão de ser trouxa logo.
Era a fila do caixa numa festa insana na zona sul.

Passava das 3 da manhã. Não era tarde pros meus antigos padrões, mas pra minha idade mental do dia talvez. Depois de ouvir e ver tanto infortúnio, me senti a tia-avó. Preguiça de viver. Fui, então, parar num beco chamado “Os Leões Voadores”. Esse lugar escuro tinha uma escada tão inclinada que, lá de cima, parecia que as pessoas estavam caindo direto pro magma do inferno. Também era calor como se realmente houvesse magma por debaixo do chão de taco, mais antigo que o meu porteiro – 86 anos o danado e forte. Devia ter magma mesmo. Devia se chamar “O Magma Voador” o bendito do lugar. Mas era sobre leões.

O divertido não foi ter parado lá e sim como parei lá e ganhei de presente esse fantástico insight sobre a fila da balada, da vida. Estava totalmente sozinha na cidade numa quinta feira a tardezinha, fazia sol de 30 graus e já havia passado a hora de sol forte que a mãe da gente manda passar protetor, mas ainda tava claríssimo. Passeava por entre as árvores do Parque Buenos Aires, porque queria respirar ar puro. Lá em casa minha tia fumava como uma chaminé, e eu já estava paranoica que iria desenvolver câncer de pulmão por tabela, então saí, chutando com o joelho uma bolsa que tinha a alça comprida demais pra mim, e resmungando “Vai me matar assim, velha do inferno” pra talvez desenvolver câncer de pele (menos mau). Não nos damos muito bem, apesar de eu acha-la bem sábia.

Lá, tinha uma garota passeando com um pug. Um pug normal, vesgo, gordo, uma fofura. Tinha uma babá com um neném, vesgo, gordo, igualmente. Sentei no banco que ficava mais ou menos na parte média do parque, aquela que todos tem que passar pra circular por qualquer lugar de lá, porque queria ver as pessoas. Fazia tempo que não via pessoas normais, queria me certificar de que realmente estava num planeta repleto de pessoas normais, porque, por 4 meses estava presa numa relação de ETs. Te juro! Meu noivo, Cleber, que só era meu noivo há 4 meses ou só era meu noivo na minha cabeça, estava me deixando maluca com os papos de morar em João Pessoa.

Acontece que ele viu um comercial de cartão de crédito que dizia que se ele quisesse ele podia juntar dinheiro e ir morar em João Pessoa em menos de 4 meses. Era um comercial típico de banco com crianças brincando de roda, velhinhos beijando na boca, essas coisas tocantes da vida. E ele enlouqueceu. Por isso sentia que estava rodeada de não humanos. Minha tia fumava os pulmões pra fora do peito, meu pseudonoivo só falava dois nomes: João e Pessoa. Que me resta? Pugs e nenéns no parque?

Sentada mais pra esquerda que pra direita, contei as pedrinhas colocadas debaixo do banco. Chutei uma sem querer e percebi seu propósito na vida que, já esperava, era manter o banco quieto. Continuei sentada mesmo assim. Será que sou uma mínima parte que nem essa pedrinha, que tem função na sociedade, que apoia alguma coisa? Como não consegui responder essa questão mental nem mais nenhuma, chorei por um breve momento, escondendo as lágrimas com os óculos (melhor função para os meus dois olhos extras) e logo enxugando a face, meio com medo de borrar o rímel.

Olhei um garotinho na bicicleta, que segurava o guidão pela parte do centro, o que lhe tirava o equilíbrio. Pensei em dar esse toque para o coitado, mas senti que estaria sendo intrusa. Mesmo assim, passou, seguiu, cambaleando. Como eu mesma em quase tudo na vida. Segurando no lugar impróprio, perdendo o equilíbrio, mas insistindo em fazer desse modo. Eu sei que não daria ouvidos se alguém me falasse: Segura mais pras pontas da sua vida, assim você consegue andar sem cair muito. Eu teria simplesmente ignorado, porque quem está guiando sou eu, quem faz as regras sou eu.

Cleber era engraçado. Digo era porque era no passado mesmo. Quando nos conhecemos era o mais cômico dos seres humanos. Me arrancava uma porrada de risos, acho que nem se esforçava. Quando nos conhecemos ele era outro, com certeza. Não falava tanto em João Pessoa, não ria tanto da minha cara. No dia em que nos conhecemos, me disse “você não é os cinco patinhos mas vamos passear?” Até disso eu ri, porque realmente me arrancou esse riso.

Sentada no parque, senti vontade de rir.
Como há muito não fazia. Rir sem preparar o riso. Um riso ridículo, alto, descoordenado. Como quem não planeja nada, só ri. Era assim que eu ria antes, quando nos conhecemos. E riso era alimento. Eu vivia nutrida, com aparência saudável, bochechas rosadas. De riso.

O que mais me deixava satisfeita era não conhecer ninguém naquele parque. Nos últimos 4 meses, me senti rodeada demais de pessoas. Dos mais diversos tipos de pessoas. Nem sempre eram boas pessoas. Ás vezes eram más, como o nóia que me chutou no ônibus (juro que não fiz nada contra esse sujeito), ou o cliente que quase quebrou meu nariz com seu Iphone 6. No geral, até as pessoas que pareciam boas eram não tão boas no final do dia. Uma postava nas redes sociais que a culpa do Brasil estar uma merda era do nordeste. Outro era homofóbico. Outro era militante gay exagerado heterofóbico. Dos mais diversos tipos (ruins) de pessoas.

Por um lado, me senti livre da podridão do mundo no parque.
Digo podridão porque era como eu o via. Dinheiro, ganância, gente passando fome na minha frente, tomando chuva no barraco e abocanhando a latinha como se fosse um sanduíche de presunto com suco de tamarindo. E, mesmo assim, gente reclamando dos juros altos pra comprar roupa importada ao invés de reclamar que não pode sair na rua tarde da noite porque tem gente que te assalta mas não porque tem má índole (as vezes sim, mas não), e sim porque vive às margens, abocanha latinhas pra não sentir direito o frio.

Talvez o pug e o neném sejam mais humanos. Talvez o pug e o neném sejam mais sensatos.

O Cleber mesmo, outro dia chegou em casa com um carnê de loja de eletrônicos. Comprou um tablet e uns outros dispositivos inúteis. Alias, pra que serve um tablet, também? Enfim. Na mesma semana, o chamei pra comer um pastel no bar da Ana, que fica meio na esquina da minha casa e ele disse que estava sem dinheiro. Não entendi as prioridades dele naquele momento, mas calei-me e fui sozinha degustar um pastel de camarão.

Por tudo isso que eu estava insatisfeita com boa parte da minha vida. Fiquei lá, meio bamba no banco do parque tentando colocar na cabeça que eu já não queria mesmo nenhum riso falso do lado do Cleber. Eu queria ficar mais no parque do que com ele. E me deixava inquieta como uma ruiva que eu nem conhecia podia me deixar tão enraivecida já que ela estaria me fazendo um favor.

Cleber foi flagrado com um ruiva no ultimo carnaval e só me contaram meia hora antes de eu ir pro parque Buenos Aires naquele dia. Talvez por isso também eu tivesse ido parar lá. Estava lendo Schopenhauer pra ver como era e tomando um chá pra dor de barriga quando recebi uma mensagem por whatsapp com uma foto, uma ruiva e um riso. Que fazes com essa ruiva, hein Cleber? Pensei, serena, e tomei outro gole do meu chá. Chorei baixinho, respondi “o que é isso?” e recebi um é-seu-noivo-de-boas-sem-você.

Depois, levantei-me do banquinho chutando a pedra apoio, pra poder focar atenção não só no Cleber e na ruiva. Mas pensava que já não tinha porque sentir nada além de indiferença por aquela situação. Confiança eu já não tinha nele faz tempo. Sem confiança é tempo perdido ser noivos. E tinha a questão de João Pessoa, do carnê, do tablet. Essas coisas tão mínimas que iam, aos poucos, tirando os risos da minha feição, e desenhando, no lugar, um frown bem curvado pro norte ou pro sul dependendo da perspectiva. E também deixando ele mais feio, apesar de que ele era bem encaixado nos padrões de beleza da sociedade.

Minha tia, apesar de fumante e rabugenta, sempre me alertava que Cleber era estranho.
-Ah, minha filha, ele palita os dentes na mesa, boa pessoa não pode ser.

Ela devia estar certa, tudo a ver: palito de dente, ruivas. Tá tudo ali.

E dei uma volta no quarteirão do parque. Chutei outras pedras e pensei: A gente está mesmo chutando pedras e vendo até onde elas rolam. Olhei num poste que dizia: Voe com os leões hoje.

Precisava levantar voo um pouquinho e tirar a mente de tanta besteira. Fui correndo passar batom em casa, tossir um pouco com aquela fumaça típica de quinta feira a noite. Também não sei porque passava batom com tanta confiança. Queria pintar um riso falso na boca, acho que era isso. E, também, nenhum blush arrumou a palidez, a indiferença estampada no rosto. Mesmo assim saí o mais rápido que pude. Deixei o telefone tocar, acho que era o Cleber.

Depois de dançar até as 3 da manhã, resolvi pagar minha conta no caixa, lotado, um calor do inferno, o magma voador. E me perguntava o que tanto eu ia e voltava pra ideia daquele meu noivo desnaturado, mesmo com tanto desagrado.

– É moça, a fila realmente tá demorando pra andar.

Disse o robusto careca semi-estranho do meu lado.
Não podia estar mais certo. E pingou mais uma gota de colírio.

Não Interrompe A Garota

Cê devia ter sido interrompida, garota!
Porque passa a vida, longínqua, desfilando na mata ciliar do Rio da Insanidade, aquele que desagua no Mar da Sandice.

Se liga nessa escova de dente atravessando sua goela, avermelhando seus olhos. Ta errado! Toda vez que cê cisma com colônia de bactéria na língua é mesma merda, assim como quando sua calça não fecha.

Mas olha em volta. (!)
Da só uma olhada nesse maluco falando que mendigo não é gente.
Não é ele desatinado como você, ou ainda mais?
O firmamento é demente.
Não há fato mais verdadeiro, pleunasmo e tudo.

Loucura pouca é bobagem. (!!)
Ultimamente cê ta mandando ver nesse Lars von Trier rodando longa no teu cérebro. Mas ouvi dizer que a linha que separa o louco do gênio é tênue. É sutil. Podes crêr, podes crêr.

Não que mania de perseguição seja a maravilha.
Não que reality check contínuo seja o mar de rosas.

Mas, menina, sua loucura não é maior que a de ninguém, só enfia isso na cabeça. Para com mania de grandeza! Quando você pensava em desexistir, mais mil Marias também pensavam. Ou cê acha que todo mundo gosta de viver o tempo todo?

E digo mais: (!!!)
Pensa nos hospitais, nos cortes, na cocaína.
Sua vida já foi bem mais movimentada que isso, e nem te envolveu, nem foi seu coração que quase parou. Você não é, nem de longe, louca.

Se te dizem louca, te dizem com maus olhos, com direito a conceito defasado do que é insanidade.
Se quem te diz louca é você mesma, repense.

Jogar pega varetas com relacionamentos todo ser humano faz. Se você faz muito, defina muito, depois volte aqui e conversamos. Para de fazer batida de Prodigy com ácido e já tá meio caminho andado.

E depois vem pra sua terapia, pega as letras, aglomera elas e relaxa. Come um cheeseburger!
Björk te entende. Ela passa por tudo isso antes dele acordar pra se sentir mais feliz por estar a salvo lá com ele. Ela faz a hiper balada.

Ufa, surtei, voltei!

se eu conseguisse dormir

se eu conseguisse dormir
eu poderia estudar amanha
e ser alguem na vida
na vida de alguem.

se eu conseguisse pensar
eu poderia trabalhar amanha
e ser alguem na vida
na vida de alguem.

se eu parasse de dormir
parasse de pensar
um minuto

eu poderia:
– ser feliz
– amar
– sorrir

eu poderia ser:
– menos chata

e ser alguem na vida
na vida de alguem

e ter energia para:
– ser feliz
– amar
– sorrir

se eu conseguisse dormir.
se.

eu poderia parar de pensar se conseguisse dormir.
eu poderia dormir se eu parasse de pensar.

mas é tudo hipotese.
mas é tudo sonho.
sem dormir.

é insônia, é solidão, é carência, é dúvida, é rotina, é vazio.
é mil coisas, e nenhuma.

mas se eu conseguisse, só um pouquinho.
já conseguiria começar:
– de novo
– outro dia
– outro rumo

onde pensar e dormir não são:
– problema
– relevantes
– tópicos de textos mal escritos e mal interpretados

se eu conseguisse dormir, já nem aqui estaria
mais.

A Lâmpada

Olá lâmpada!
Nos encontramos de novo e você permanece aí calada,
no meio desse teto, centralizada, fosca.
Nem sequer me da conselhos mais.
Deixa-me regressar, olhando-te, pensando-te.
Que distância tem até seu teto virar parede?
E ambulância, e caminhão fundem-se com essa sua trilha sonora: acelerado
batimento de um coração que, não fosse a pele e todo o resto,
me encostaria.
Sei que quer ser acesa, também quero. Quem é que não quer?
Mas quem lhe apertará o botão? É por isso que está assim tão muda, então?
E passa o Sentimento do Mundo, a Bela e a Fera. Você continua aí,
incandescente.
E passa o orgasmo – tantos. E passa a impressão digital – tantas. E passa a noite mal dormida, de uma orelha à outra, e que lição aprendi de você?
Que te olhar emudece, tal qual você mesma.
Que te descrever distancia, tal qual a parede de você.
Que te personificar entristece, tal qual aquele acelerado coração.
E essa respiração linguaruda já me contou tudo. Digo a ele, em sonho: dorme, bem quietinho,
enquanto eu falo com a lâmpada, enquanto a ambulância passa, enquanto
eu fico muda, e esses seus braços me pesam.
No mais, amarela bolinha de vidro apagada, seja breve se for me palpitar. Seja dura, seja definitiva.
Prefiro estar de olhos fechados, tranquilos, conversando com gente.

Você, lâmpada, muito me preocupa!

Atelier

Comprei calças novas na semana passada.

Estava precisando. As que tinha já não me serviam mais, e, não sei porque eu achava que podia continuar usando pra sempre. Algumas estavam apertadas demais, algumas rasgadas. Outras me vestiam como um saco de batatas. Algumas eu tinha que costurar as barras, ou fazer pensas nas costas, ou até mesmo usar um cinto pra segurar. Viviam cheias de alfinetes, me espetavam. Tinha uma que não combinava com nenhum dos meus sapatos, outra que me deixava marcada nas panturrilhas.

De qualquer jeito, precisava renovar aquela gaveta barulhenta.

Mas tinha essa calça preta, rasgada nas coxas, velha, gasta. Me incomodava, e mesmo assim eu não parava de usar. Quando rasgava demais, eu costurava. É um pouco difícil me desfazer dela, por algum motivo. Se você parar pra pensar, não foram nada de inesquecíveis, ou tão marcantes assim, mas quando usava, me sentia eu mesma.

Essas calças novas me servem perfeitamente. Não me apertam. Abotoam e fecham o ziper quase que sozinhas, sem esforço nenhum. Não preciso dobra-las, não estão rasgadas, são da minha cor favorita e combinam com todos os meus sapatos. Nem cinto preciso usar! Mesmo assim, não consigo correr com elas. Aquele par de calças pretas ainda eram melhores pra correr.

Talvez falte um pouco de tempo até essas calças novas se acostumarem com as minhas pernas. E eu também podia fazer logo outro uso das calças pretas, um pano de chão, um tapete, alguma coisa, rasgar ela de uma vez.

Pensando bem…

Precisava mesmo é me desfazer dessa máquina de costura.

Máquinas em gramática

Você é
Uma peça intrometida
Em tudo que
(em próclise)
Me atrevi
montar
Que se fez
imprescindível
E nem sei até que
nível
Consegui te rosquear
Se me der ferrugem
pouco importa
(em mesóclise)
Apertar-te-ei

Você é
Uma máquina
a vapor
Um disco
voador
Mas terrestre
(em ênclise)
Dá-me
Têm-me
Vê-me
Vence-me
Faz engrenagem
(em próclise)
se encaixar
Com meu cinza
E seu cobre
pronomeando
Industrializar-te-ás
… De mim
… Pra mim
… A mim

Você é
Um foguete
só de chamas
(em mesóclise)
Combustível
Derramar-te-ei
é
A maquinização
do que (em próclise)
me inventei

Portanto ∴

Acelerar-te-ei
Até (em ênclise)
Satisfazer-me