Limites

Quanto tempo é muito tempo?
Quanto de mim é muito de mim?

Minha casa estava limpa, minhas roupas dobradas. Na minha prateleira de metal, todos os livros estavam em ordem. As portas dos armários fechadas. As louças lavadas. Meus chinelos alinhados.

E por todo lado, via cáos, e também via tédio.

Quanto caminho é muito caminho?

Meu cabelos penteados, minhas unhas feitas.
E por todo lado, via cáos e tédio em mistura assustadoramente homogênia.

Pelo caminho andei anotando cada detalhe, dos mais amargos, ensurdecedores gritos travestidos de palavras escritas. Pelo caminho andei fotografando cada pedaço de sorriso manchado no rosto. Pelo caminho andei me perdendo e me achando, alternadamente, até chegar aqui.

Até ter o chão lustrado, o espelho desembassado.
E, ainda assim, o cáos.

Quanto da minha própria imagem é muita imagem?
Quanto espelho e muito espelho?

Quanta história é muita história?
Só vira história quando alguém quer ouvir.

Quanta solidão é muita solidão?
Quantas perguntas são muitas peguntas?

Quantos recomeços são muitos recomeços?
Quanta morte é muita morte?
Só uma.

Bilateral

Não importa se você entra ou
deixa entrar.
Eu te quero mesmo assim, com essa
ambiguidade, com os seus dois
lados.
Se você urra ou sussurra
Se escorrega ou fica firme
Se olha pra cima ou pra baixo
Se faz chover ou relampejar
Não tem a mínima diferença.
Eu te quero mesmo assim
Com seus balões ou seu cordão
Com seus cabelos grandes ou pequenos
Pode ser como eu, ou meu oposto, não importa.
Se usa chapéu ou guarda chuva
Se votou antes ou depois
Se senta ou fica em pé.
Eu te quero mesmo assim
Com essa bilateralidade, com
os dois lados da minha rua.
Pode usar minha faixa de pedestres.
Só não fecha esse farol
até eu terminar de passar.

Arame Farpado

Deixa ficar assim.
Enquanto eu te admiro.
Enquanto você é ideal.

Não precisa chegar mais perto,
por mais que eu queira,
por mais que faça sentido.

Não precisa torcer minhas memórias e
deixar escorrer sua imagem.

Deixa ficar assim.
Enquanto eu te respeito.

Não precisa me falar com cautela,
por mais que faça sentido.

Deixa ficar assim.
Enquanto você é lá
e eu cá.

E seu martelo não me prega na parede.
E meu prego não machuca a sua mão.

Não precisa dar mais nenhum passo,
por mais que você queira,
por mais que eu não queira que não.

Deixa ficar assim
Enquanto você é o que eu penso.
Enquanto você pensa o que eu sou.

E então nada se quebra, e nada se escorre.
Não precisa de toque. Não mais.
Nunca mais.

Não precisa passar dessa barreira.
Deixa como está.

Meio do caminho

Quase riscado da agenda, quase esquecido. Quase.
Quase namorado, quase amigo, quase inimigo. Quase.
Quase paixonite, quase esquisitisse. Quase.

Senti que estava no meio do muro. Não cai pra um lado nem pro outro. Não me machuquei. Não precisei de muito curativo.
Senti que estava abraçando uma bolha protetora. Grossa, porque não conseguia sentir o que estava dentro. Não precisei de band aid pra tapar porque não fez nenhum buraco.
Senti que estava do lado de fora do aquário. Não me afoguei nem um pouco. Não precisei de salva-vidas.
Mas que pena.
Queria ter caido do muro, ter furado a bolha, ter me afogado.

Se posso detestar alguma coisa é a falta de tempero, o desespero de ficar olhando e não tentar.
Não quero cinquenta porcento. Quero aumento de tudo que for pra sentir, e não cansar.

Quero: Intensidade, vontade, verdade. Mediocridade, não me interessa.
Quero: Paixão, arrastão, devastação. Estagnação, não me interessa.

Baleias e Borboletas

Queria ser engolida por uma baleia. Igual ao pai do pinóquio.

Porque se eu fosse engolida por uma baleia, não teria que sentir tanto medo. Não teria que sentir-me tão vulnerável. Não teria que sentir tantas borboletas que parecem ter sido engolidas por mim.

E parece que sentir borboletas é bom, é o que dizem. Que sentir borboletas é gostoso.
Mas quando começo, sei que se andar mais dois passos, problema. Então prefiro ficar dentro da baleia.
E aí não sentir que possuo nada, não sentir que tenho direito a nada, não sentir que mereço satisfações.

Aí conhecer o que não queria conhecer. Aí vira chatisse de novo.

Melhor parar nas borboletas e depois ser engolida por uma baleia e pronto.
Evitar transtornos.

Mas a baleia podia engolir nós dois.