Sutilezas

Fiz um pacto comigo mesma de não escrever sobre coisas difíceis ou textos dos quais eu saia aos prantos. É assim que costuma acontecer, porque a escrita é uma forma de descarrego e por mais merdas que sejam seus frutos, esses momentos de digitação aliviam o peso dos meus ombros. Se é que tenho peso, ou ombros.

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Tenho certa antipatia por cobradores de ônibus. Aliás por qualquer pessoa cuja presença me sugue pra uma atmosfera na qual me sinto em desvantagem, como quando fico refém do transporte coletivo e só tenho no bolso uma nota de vinte, para a qual eles nunca têm troco. A implicância, na verdade, é menos um desprezo gratuito do que uma sensação de que esses estranhos têm certo poder sobre mim. Porque eles têm, de verdade, o poder de decidir se eu vou ou não atravessar a catraca e, embora eu tenha saído sem pagar em muitas ocasiões, coisa que me colocaria em vantagem, sempre desço as escadas do ônibus me sentindo a passageira mais impotente. E então fecho a cara, pareço ser muito mais desagradável do que realmente sou. Jogo a nota de dinheiro em cima daquela gavetinha cinza onde ficam as moedas com tanta força que se cédulas fossem mais pesadas talvez eu quebrasse alguma coisa. E então me olham de canto julgando meus passos pesados e raivosos como se eu não tivesse o direito de ficar emputecida com essa pessoa maldosa que não quis calcular o troco pra mim. Se tem uma coisa que desestrutura a gente é o posicionamento de indivíduos na vertical. Essas pequenas autoridades aleatórias têm exatamente o poder de ditar se seu dia vai ser tranquilo ou turbulento, se você irá sentado ou em pé pro trabalho. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

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Todo dia me impressiono com a minha capacidade de tomar decisões equivocadas. Começa quando decido parar para amarrar os sapatos na rua e, nessa fração de segundos, acabo perdendo o ônibus. Na verdade, se você for parar pra pensar, tudo começa quando eu decido pegar o elevador que tem espelho ao invés do sem espelho, que é muito mais rápido, só pra poder arrumar o cabelo antes de dar as caras na rua. Mas, por outro lado, se eu não decido sair pela porta da cozinha e sim pela porta da sala eu não esbarro no vaso de plantas que tem perto do batente da porta e não tenho que limpar toda a sujeira. Tudo parece desandar, na verdade, quando eu decido passar fio dental depois de escovar os dentes, coisa que eu só faço raramente e quando tenho tempo, e eu nunca tenho. Mas se eu não decido comer um sanduíche de queijo com orégano de manhã eu não tenho que me preocupar com aquela coisinha verde presa no meu sorriso. Na verdade eu não devo decidir comprar orégano quando tenho a oportunidade de não comprar e eu preciso decidir ir pra cama mais cedo para assim poder acordar no horário e conseguir arrumar meu cabelo no espelho da minha casa e não no do elevador.

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Jessica terá um bebê e este será o seu segundo bebê. Talvez no ano que vem eu tenha um cachorro e este será o primeiro.

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Há um moço no metro butantã, loiro de cabelos um pouco emaranhados até os ombros que sempre que passo lá está admirando seu próprio reflexo no vidro da esquerda pra quem vem da Vital Brasil. De cara, parece um mendigo que elegeu a estação como seu mais novo lar, que tem umas alucinações loucas e que é super narcisista. Se olha, se arruma, conversa consigo mesmo, às vezes como numa conversa de bar, às vezes tomado por uma raiva mística de modo que grita e bate no vidro com força. Reparei que troca de roupas sempre. Esses dias passei e estava usando uma camisa vermelha e enfiava os pés imundos num chinelo Havaianas que parecia recém comprado. No dia seguinte usava calças – limpas e passadas -, e um Crocs – não tão limpo. Nunca o vi conversando com ninguém além de si mesmo ou pedindo alguma coisa, acho também que ele não fede tanto. Apesar da roupa limpa, não parecia ter lavado o cabelo naquela semana. O cabelo fino, a pele branca e bronzeada, um e sessenta de altura, mais ou menos, e magro, mas não raquítico. Fico intrigada com esse rapaz. Ontem, entrei no ônibus indo pra USP e ele estava sentado no primeiro banco, aquele logo atras do motorista e lia um livro de bolso de páginas amareladas, talvez em alemão. Usava o mesmo Crocs sujo e parecia ainda não ter lavado o cabelo.

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A faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP é uma espécie de parque do desconforto ao qual você quer ir sempre. É onde se juntam pessoas que tem um coração bom mas não sabem usa-lo e pessoas que sabem, mas são ruins. Todo dia chego adiantada uns trinta minutos e tenho vontade de morrer durante todo o tempo em que a aula não começa. Não posso evitar de ouvir as conversas alheias e de ficar irritada com a prepotência desmotivada dos alunos recém saídos do ensino médio ou com o clube de percussão que se encontra toda quinta debaixo da janela da minha aula de fonologia e fonética do português. E é somente durante a aula que entendo por que estou lá. No dia seguinte sempre fico ansiosa pra pegar o 8022 e parar na frente da FAU ou antes, assim caminho um pouco pra perder a barriga.

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Não entendo como é possível descobrir, só depois de velha, que o meu corpo não é exatamente simétrico. Existem dobras infinitas na minha barriga agora e demoro mais pra me recuperar de hematomas. Sei que estou na chamada flor da idade e que pareço uma babaca reclamando de mudanças corporais acarretadas pelo envelhecimento, mas isso é menos uma reclamação do que uma reconhecimento. Sinto que finalmente entendo as dimensões do meu quadril e entendo que não há problema algum em pedir o número 42 e não comprar mais na Forever 21. Os sutiãs não necessariamente precisam de bojo e, na verdade, nem sei mais se é tão vital de fato usar um sutiã. O ruim é perceber isso quando seu guarda roupas já está, de alguma forma, estabelecido. Não é do dia pra noite que se aumenta um tamanho em todas as suas peças. Demanda investimento financeiro e aceitação. Não tenho tido muito a primeira e estou realmente querendo trabalhar a segunda. E é também por isso que eu comprei uma bicicleta.

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Não posso evitar de identificar a grande metamorfose ideológica pela qual passei desde que me mudei pra São Paulo, em 2014. Me lembro muito bem de parar no farol na minha velha cidade, com o meu golzinho quadrado 91, e entregar um cobertor, que nem meu era, a um mendigo que me pedia moedas através do vidro. Era inverno, meados de maio. Na verdade acho que era outono mas ventava frio, acho que eram umas cinco horas da tarde. Eu usava aquele cobertor velho pra aquecer quem quer que estivesse desacordado na volta de alguma festa em Campinas ou pra cobrir os vidros quando resolvia transar no carro. Simplesmente peguei o cobertor do banco de traz e o entreguei ao pedinte que logo deu um belo sorriso banguela enquanto se enrolava naquela manta azul. Hoje passo pelas infinitas esquinas onde essas pessoas se achegam e só consigo sentir a satisfação de me lembrar sempre de tampar o nariz. E é só isso. E em muitas das vezes não são só esquinas, mas ruas inteiras cheias de lixo, mau cheiro e tristeza e nem isso é capaz de me comover ou me indignar. Um dia, lembro que senti um desconforto ao ver, do táxi, um homem chorando enquanto empurrava um carrinho de mercado, descalço e na chuva. Mas não era emoção, era como quando se entende o sentido de dignidade e se percebe que esse homem não tem nenhuma. Mas me surpreendo quando isso acontece porque é esporádico, digo esse desconforto. Na maioria das vezes consigo plenamente saber que uma mulher está cagando na rua, nas calças, e que não irá se limpar por um mês (ou mais) e não me importar. E pior, tendo a pensar que isso não é da minha conta. Meus colegas de sala com certeza me desprezariam, mas a apatia é aquilo que me salva nessa cidade sem piedade que só quer saber de prosperar.

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Não deu.

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Falemos um pouco sobre as filas

Introdução

Sei bem de todo o esforço que se aplica a discussões de hoje em dia sobre qualquer questão remotamente polêmica que venha a surgir ou que já seja estabelecida como desmancha amizades tais como política, religião, a fome na África, e o chamado feminismo no enem. Sei bem que, de fato, as questões supraditas representam uma intensa relevância na vivência humana e demandam importantes debates embasados em vocabulário esdrúxulo feito esse parágrafo que vai ser logo interrompido devido ao seu conteúdo frívolo e extremamente desdenhoso. No entanto, percebo o imenso apreço que me toma toda vez que me permito falar bobagens e usar linguagem do cotidiano pra dar meus dois centavos sobre assuntos banais e sem importância, como as filas, por exemplo.

Filas

As filas, inevitavelmente, são parte de nossas vidas e nos levam a muitos lugares diariamente ou simplesmente servem para ficarmos sabendo de alguma notícia que nos tenha fugido, que talvez não fizesse tanta diferença saber ou não mas que de alguma forma remota nos promove de alienado pedestre à posição de cidadão informado (se você for enxerido na conversa alheia feito moi). Deixando de lado toda a reflexão acerca da necessidade de se formar filas – que na maioria das vezes inexiste, sejamos honestos ao ponto de admitirmos que há conhecimentos que podem ser adquiridos através da espera em pé e em ordem, também conhecida como fila indiana. Aprende-se sobre origami, atos ilícitos envolvendo vale alimentação, valor do prêmio atual da mega sena, resultado do jogo de ontem e quem está sendo sacaneado pelo encarregado da firma. Há de se reconhecer que as dicas de culinária adquiridas nas filas de banco, em geral, são de grande utilidade no preparo do feijão, do macarrão de gravatinha e do ensopado de frango. Na minha ultima transferência bancária, por exemplo, aprendi a fazer empadão. Infelizmente, eu não passei da fase inicial da vontade de cozinhar, porque para mim ela dura aproximadamente até o final do assunto, no máximo até a minha triunfal entrada na cozinha de casa onde costumo ceder para a comida congelada, toda vez. Fico feliz de ver que é possível preparar uma refeição não agridoce ou com toque de óleo de dendê da Amazonia. Me aquece o coração saber que nem tudo é gourmet.

Gourmet

Esnobes cozinheiros ou chefs de cozinha emergentes que usam ingredientes improváveis e de difícil acesso ou simplesmente acabaram de descobrir o alho poró e insistem em chamar mandioquinha de batata baroa. Por que as pessoas não podem ser como a tia Vânia?

Tia Vânia

Tia Vânia é um sorriso ambulante, chiquérrima (cozinha de salto 15) que adivinha sempre o que eu quero comer. Quinta feira (às vezes quarta) é dia de jantar com ela – espero todo dia essa noite chegar! Semana passada, em mais um encontro lá na Vila Madalena, Tia Vânia, que não é, tecnicamente, minha tia, fez couve flor e carbonara. Sim, com bacon fritinho em cima. Tia Vânia é a mulher dos sonhos de toda menina. Aquela que as meninas querem ser no dia em que crescerem. Tia Vânia é uma daquelas pessoas que fazem a gente voltar a gostar do ser humano. É quem sabe ser espalhafatosa e sofisticada ao mesmo tempo e que contagia qualquer ranzinza com uma risada extremamente única e saborosa. Tia Vânia é apreciadora de gente feliz comendo seu pudim de leite moça e se desculpa muito tristemente por ter deixado a calda virar caramelo. É ela que nunca olha sua forma mas tudo que preenche sua silhueta no que tange o seu ser e não o seu ter. Não se prende ao vestuário.

Vestuário

Uma tristeza imensa me invade assim que me dou conta de que aquela menina está me mostrando a foto de outra menina de saia curta e se referindo a ela como “vagabunda mesmo com essa roupa”. Senti-me péssima quando notei que eu tinha o mesmo modelo de saia e que talvez alguém em outro lugar ou dimensão estivesse fazendo o mesmo comentário em relação a mim por conta dessa saia. E me pergunto, quase que instantaneamente, que tem a saia a ver com isso? Há diversos protocolos sociais envolvendo nossas vestimentas que me deixam um tanto quanto incomodada como ser humano. Eu entendo a razão funcional das roupas mas, sinceramente, não me entra na cabeça a sua função enquanto definidora de caráter.

Caráter

Vou montar o clube das pessoas que não furam filas e, principalmente, daquelas que não acham que é o fim do mundo quando alguém fura a fila delas. Isso define caráter (nem que seja só no caixa do mercado).

Já vem com créditos

De todos os caminhos entre a Av. Ipiranga e o Largo do Arouche, o que eu mais gosto é o do meio da Praça da República. Toda vez que passo em volta daquele ex-lago limpo, e em meio aos sermões de seitas ou cultos formidáveis, desacelero o passo, dou uma olhada de canto, contemplo o barulho do emaranhado de vozes pra tentar entender o que é São Paulo.

A São Paulo que eu conheço é essa: A calçada craquelada, com meia dúzia de mendigos dividindo o resto do restaurante por quilo da 24 de maio, um peruano, flautas, uma travesti de peitos redondos, três cartazes de ciganas e jogo de búzios no poste, pombas, pombas, pombas, um dread perto da Galeria do Rock, a boa qualidade do ar cinza e denso no display abaixo da propaganda de condomínio (revitalização do centro), pichação em grafite, grafite, cocô e xixi no cantinho da esquina com a banca de jornal, uma pausa para o Edifício Italia comendo bauruzinho, coxa creme, pedaços de bacon colossais na vitrine das padarias, passa uma manifestação com fome, um spray de pimenta, mas só vê latinhas, latinhas, latinhas. E ainda assim passo pelo meio da praça e imagino que tantas vidas permeiam os outros caminhos por dentro da mesma praça e que labirinto alucinado é aquele. Quando eu saio do prédio que suporta aquele monte de ar condicionado pra fora, lá da 7 de abril, e cruzo a maior faixa de pedestres que já vi (certamente a mais larga), não me imagino virando nem direita nem esquerda. Tenho que ver qualé que é a do prédião iluminado de rosa. “Chip da Tim, já vem com créditos cinco reais” (!).

Pra falar a verdade, tudo que eu queria era um dia chegar lá e comprar aquele lustra-chão-do-calçadão que deixa o paralelepípedo da Barão de Itapetininga brilhando. Ou chegar um dia e dizer “quanto é que custa esse boubou preto e amarelo, lindíssimo?” Mas aí perde a graça. Eu sou expectadora de toda essa massa de gente psicodélica que caminha desnorteada. Não vou dizer que não morro de medo. Toda vez que ouço ambulância, algazarra de cracudo, carro de polícia me gela as entranhas, me apaga qualquer coisa que seja que eu vinha pensando, e só me passa na cabeça que talvez eu não chegue do outro lado. Mas, simultaneamente, no meio da voz da minha mãe que grita entre as minhas orelhas pra eu tomar cuidado por onde ando, meus olhinhos brilham e pedem pra ver mais daquele cara comendo a marmita prateada no sol. Talvez eu veja um corpo esfaqueado, ou talvez um mendigo sujo e mal cheiroso venha me falar sobre Jorge Amado e poemas do Vinícius de Moraes.

Gosto desse caminho porque piso em ovos, mas sempre tenho o que contar pra próxima pessoa que eu ver (ou no meu futuro livro, ou só pra gravar na memória). Entre os puteiros da Rua Aurora e o moço que toca o tema de Réquiem For A Dream em um violino desafinado, na entrada do metrô, está São Paulo. E eu passeio por lá, como quem só quer atravessar a praça de uma ponta a outra, como quem só quer transitar, chegar logo na Consolação. E que, da mesma forma, é abraçada pela imundice da cidade e não quer largar mais de jeito nenhum.

Onde estará meu guarda chuva nessa SP?

Uma meia dúzia de atores ali, outros fumando um beck na esquina de mesas no canto do salão. Óculos redondos e quadrados derretendo nas linguas de algum triângulo amoroso. Lotado, mas, cacete, me sinto tão só!

Meu amigo sai pra pegar uma cerveja dando as mãos pro cara com quem ele está ficando. São fofos, se beijam a cada 3 palavras. Vai e vem de gente, dão dois passos e já os perco de vista. Olho praquele monte de guarda chuva no teto de um lugar charmoso na Praça Roosevelt. Quanto tempo não consigo manter um bendito de um guarda chuva! Vivo ensopada! Só esse ano já foram uns 37 sem contar os que quebraram por conta de má administração.

– Será que chove hoje, por falar nisso?

Deixo escapar em voz alta esse pensamento sarcástico. Como se eu não tivesse mais nada pra pensar, fosse tudo small talk aqui dentro.
E esse cara me fala por cima dos ombros.

– Espero que não.

Penso “Oh, não! Não quero companhia essa noite!”

Contradição pura! Esse coraçãozinho, murcho, não sabia direito o que dizia, se queria estar sozinho ou rodeado. Se era problemático, se se sentia uma caixinha de música: sem dar corda ele para de tocar. Diz que venho aqui beber ao invés de ver teatro só porque não quero ficar em casa pensando nele. E em quanta coisa eu não sei sobre ele e nem vou saber.

Me perco definitivamente do casal meu amigo naquela noite, e com tanto malabarismo e tanta ciranda cirandinha, acabo por engatar uma conversa com esse cara sobre o tempo. Gosto mais de frio, ele de calor. E depois sobre drinks. Eu mojito, ele gin tônica.

Comento sobre meu batom vermelho: Está borrado? Sobre minhas pupilas: Estão enormes? Falo da banda tocando, do baixista canhoto, o Paul McCartney! Mostro minha tatuagem nova. Falo que curto o Michel Gondry. Desconverso quando o vejo revirando os olhos. Eu falo demais quando estou deprimida. E eu sempre estou deprimida, esperando chover. Ah, a vida, que amargura eterna é viver! Quer um chopp?

Como pode eu não conseguir nem fazer meu pedido pro bar tender de tanta gente nessa merda e me sentir tão sozinha? Como pode eu sair com esse monte de caras e continuar mais solitária que um paulistano, um canastrão sem pano? Suspiro. Pego, finalmente, dois copos e me mando dali, já atacava a claustrofobia. Volto pra perto daquele monte de skate voando na parte de fora e entrego um dos copos na mão dele.

Pago bebida pra estranhos, ainda por cima.

– Sabe qual o meu problema? Eu causo uma ótima primeira impressão e não consigo manter o nível. Daqui a cinco minutos você vai enjoar de mim.

Ele ri como quem espera ver aonde eu quero chegar com aquele papo mesmo que eu, claramente, não fosse chegar a lugar nenhum. Amigo, sei que não esperava que eu fosse tão falante, mas com esse meu peito (e cara) quebrados, sinto muito, você terá que varrer os caquinhos espalhados nesse chão, já que veio puxar papo. (Castigo quem me importuna com palavras chorosas, meu jeito)

E conto, roteirizando, como eu detestei minha epifania de ir andar sozinha na Augusta em meados de agosto. Mas não detestei por completo. Não detestei em nada, pra falar a verdade e esse era o problema. Ah, Mr. Charlie Kaufman, escreve esse roteiro pra mim. Pra colocar cada coisa no seu devido lugar: esquecer ele, lembrar do guarda chuva. Viajo. Quer mais um chopp… Qual seu nome?

Luis é um cara interessante. Me ouve por mais tempo do que eu pensei. Eu sendo essa chata repetitiva. Sobre indecisão, carreira, blog, escovas de dente, irmão, cinema, chefe, doce de leite. Sobre meu triunfante 2014, costumo fazer reflexões profundas nas ultimas semanas de dezembro. Já faz quase um ano que moro aqui, sabia, Luis? Já sou gente grande! Me pergunta 10 coisas que eu aprendi?! Enumero banalidades, contando nos dedos, que nem criança.

1) A não parar na esquerda;
2) A não falar no celular em frente ao Mercado das Flores às 23h;
3) A não virar a direita saindo da estação do Brás;
4) A colocar pregador nas roupas;
5) A deixar uma cópia da chave com o meu porteiro;
6) A não roubar bananas no Anhangabaú depois do expediente;
7) A fechar a janela quando chove;
8) A não passar a noite em Santo André;
9) A não abusar de jelloshot com LSD no Largo do Paissandu;
10) A não falar com estranhos perto da Dona Antonia a noite. Não mais.

E me bate a sobriedade do final da madrugada. Vejo meus amigos segurando as mãos por entre outros braços entrelaçados naquele mar de gente feliz. Não posso evitar de me sentir ainda mais só. Olho em volta e tem gente afagando cabelo de gente, tem coraçãozinho saindo em cartoon de cada cabeça ali. Gente beijando esquisito. Luis, você me desculpa mas eu preciso ir embora.

– Te levo.

Ele é um estranho e a Dona Antonia é logo ali. Não deveria nem estar falando com ele pra mostrar que aprendi com as lições que a vida ensina. Além do mais, com a minha sorte, eu e ele estaremos separados em menos de 5 meses graças a minha interessantíssima loucura, ou mais provavelmente graças a qualquer outro motivo. E eu estarei pagando bebidas pra outro estranho.

– Desculpa, vou de taxi.

Meus amigos me dizem pra “fazer a Angélica” toda vez que eu sentir que devo. Nunca mais vi o Luis, apesar de tê-lo achado divertido e interessante. No final, choveu, mas eu não me molhei. Dessa vez não, e nem encontrei o bendito do guarda chuva.

Os Leões Voadores

– Como ta demorando pra andar essa fila!

Disse ao estranho do meu lado.

Não era totalmente estranho. Já o tinha visto passando umas duas ou três vezes. Sempre fazendo a mesma coisa: pingando colírio. Ele era até que bem apessoado, robusto mas não gordo. Lhe faltavam uns cabelos na cabeça, umas palavras no repertório. A fila estava há tanto tempo sem andar que ele até que me pareceu mais atraente, eu, louca pra largar mão de ser trouxa logo.
Era a fila do caixa numa festa insana na zona sul.

Passava das 3 da manhã. Não era tarde pros meus antigos padrões, mas pra minha idade mental do dia talvez. Depois de ouvir e ver tanto infortúnio, me senti a tia-avó. Preguiça de viver. Fui, então, parar num beco chamado “Os Leões Voadores”. Esse lugar escuro tinha uma escada tão inclinada que, lá de cima, parecia que as pessoas estavam caindo direto pro magma do inferno. Também era calor como se realmente houvesse magma por debaixo do chão de taco, mais antigo que o meu porteiro – 86 anos o danado e forte. Devia ter magma mesmo. Devia se chamar “O Magma Voador” o bendito do lugar. Mas era sobre leões.

O divertido não foi ter parado lá e sim como parei lá e ganhei de presente esse fantástico insight sobre a fila da balada, da vida. Estava totalmente sozinha na cidade numa quinta feira a tardezinha, fazia sol de 30 graus e já havia passado a hora de sol forte que a mãe da gente manda passar protetor, mas ainda tava claríssimo. Passeava por entre as árvores do Parque Buenos Aires, porque queria respirar ar puro. Lá em casa minha tia fumava como uma chaminé, e eu já estava paranoica que iria desenvolver câncer de pulmão por tabela, então saí, chutando com o joelho uma bolsa que tinha a alça comprida demais pra mim, e resmungando “Vai me matar assim, velha do inferno” pra talvez desenvolver câncer de pele (menos mau). Não nos damos muito bem, apesar de eu acha-la bem sábia.

Lá, tinha uma garota passeando com um pug. Um pug normal, vesgo, gordo, uma fofura. Tinha uma babá com um neném, vesgo, gordo, igualmente. Sentei no banco que ficava mais ou menos na parte média do parque, aquela que todos tem que passar pra circular por qualquer lugar de lá, porque queria ver as pessoas. Fazia tempo que não via pessoas normais, queria me certificar de que realmente estava num planeta repleto de pessoas normais, porque, por 4 meses estava presa numa relação de ETs. Te juro! Meu noivo, Cleber, que só era meu noivo há 4 meses ou só era meu noivo na minha cabeça, estava me deixando maluca com os papos de morar em João Pessoa.

Acontece que ele viu um comercial de cartão de crédito que dizia que se ele quisesse ele podia juntar dinheiro e ir morar em João Pessoa em menos de 4 meses. Era um comercial típico de banco com crianças brincando de roda, velhinhos beijando na boca, essas coisas tocantes da vida. E ele enlouqueceu. Por isso sentia que estava rodeada de não humanos. Minha tia fumava os pulmões pra fora do peito, meu pseudonoivo só falava dois nomes: João e Pessoa. Que me resta? Pugs e nenéns no parque?

Sentada mais pra esquerda que pra direita, contei as pedrinhas colocadas debaixo do banco. Chutei uma sem querer e percebi seu propósito na vida que, já esperava, era manter o banco quieto. Continuei sentada mesmo assim. Será que sou uma mínima parte que nem essa pedrinha, que tem função na sociedade, que apoia alguma coisa? Como não consegui responder essa questão mental nem mais nenhuma, chorei por um breve momento, escondendo as lágrimas com os óculos (melhor função para os meus dois olhos extras) e logo enxugando a face, meio com medo de borrar o rímel.

Olhei um garotinho na bicicleta, que segurava o guidão pela parte do centro, o que lhe tirava o equilíbrio. Pensei em dar esse toque para o coitado, mas senti que estaria sendo intrusa. Mesmo assim, passou, seguiu, cambaleando. Como eu mesma em quase tudo na vida. Segurando no lugar impróprio, perdendo o equilíbrio, mas insistindo em fazer desse modo. Eu sei que não daria ouvidos se alguém me falasse: Segura mais pras pontas da sua vida, assim você consegue andar sem cair muito. Eu teria simplesmente ignorado, porque quem está guiando sou eu, quem faz as regras sou eu.

Cleber era engraçado. Digo era porque era no passado mesmo. Quando nos conhecemos era o mais cômico dos seres humanos. Me arrancava uma porrada de risos, acho que nem se esforçava. Quando nos conhecemos ele era outro, com certeza. Não falava tanto em João Pessoa, não ria tanto da minha cara. No dia em que nos conhecemos, me disse “você não é os cinco patinhos mas vamos passear?” Até disso eu ri, porque realmente me arrancou esse riso.

Sentada no parque, senti vontade de rir.
Como há muito não fazia. Rir sem preparar o riso. Um riso ridículo, alto, descoordenado. Como quem não planeja nada, só ri. Era assim que eu ria antes, quando nos conhecemos. E riso era alimento. Eu vivia nutrida, com aparência saudável, bochechas rosadas. De riso.

O que mais me deixava satisfeita era não conhecer ninguém naquele parque. Nos últimos 4 meses, me senti rodeada demais de pessoas. Dos mais diversos tipos de pessoas. Nem sempre eram boas pessoas. Ás vezes eram más, como o nóia que me chutou no ônibus (juro que não fiz nada contra esse sujeito), ou o cliente que quase quebrou meu nariz com seu Iphone 6. No geral, até as pessoas que pareciam boas eram não tão boas no final do dia. Uma postava nas redes sociais que a culpa do Brasil estar uma merda era do nordeste. Outro era homofóbico. Outro era militante gay exagerado heterofóbico. Dos mais diversos tipos (ruins) de pessoas.

Por um lado, me senti livre da podridão do mundo no parque.
Digo podridão porque era como eu o via. Dinheiro, ganância, gente passando fome na minha frente, tomando chuva no barraco e abocanhando a latinha como se fosse um sanduíche de presunto com suco de tamarindo. E, mesmo assim, gente reclamando dos juros altos pra comprar roupa importada ao invés de reclamar que não pode sair na rua tarde da noite porque tem gente que te assalta mas não porque tem má índole (as vezes sim, mas não), e sim porque vive às margens, abocanha latinhas pra não sentir direito o frio.

Talvez o pug e o neném sejam mais humanos. Talvez o pug e o neném sejam mais sensatos.

O Cleber mesmo, outro dia chegou em casa com um carnê de loja de eletrônicos. Comprou um tablet e uns outros dispositivos inúteis. Alias, pra que serve um tablet, também? Enfim. Na mesma semana, o chamei pra comer um pastel no bar da Ana, que fica meio na esquina da minha casa e ele disse que estava sem dinheiro. Não entendi as prioridades dele naquele momento, mas calei-me e fui sozinha degustar um pastel de camarão.

Por tudo isso que eu estava insatisfeita com boa parte da minha vida. Fiquei lá, meio bamba no banco do parque tentando colocar na cabeça que eu já não queria mesmo nenhum riso falso do lado do Cleber. Eu queria ficar mais no parque do que com ele. E me deixava inquieta como uma ruiva que eu nem conhecia podia me deixar tão enraivecida já que ela estaria me fazendo um favor.

Cleber foi flagrado com um ruiva no ultimo carnaval e só me contaram meia hora antes de eu ir pro parque Buenos Aires naquele dia. Talvez por isso também eu tivesse ido parar lá. Estava lendo Schopenhauer pra ver como era e tomando um chá pra dor de barriga quando recebi uma mensagem por whatsapp com uma foto, uma ruiva e um riso. Que fazes com essa ruiva, hein Cleber? Pensei, serena, e tomei outro gole do meu chá. Chorei baixinho, respondi “o que é isso?” e recebi um é-seu-noivo-de-boas-sem-você.

Depois, levantei-me do banquinho chutando a pedra apoio, pra poder focar atenção não só no Cleber e na ruiva. Mas pensava que já não tinha porque sentir nada além de indiferença por aquela situação. Confiança eu já não tinha nele faz tempo. Sem confiança é tempo perdido ser noivos. E tinha a questão de João Pessoa, do carnê, do tablet. Essas coisas tão mínimas que iam, aos poucos, tirando os risos da minha feição, e desenhando, no lugar, um frown bem curvado pro norte ou pro sul dependendo da perspectiva. E também deixando ele mais feio, apesar de que ele era bem encaixado nos padrões de beleza da sociedade.

Minha tia, apesar de fumante e rabugenta, sempre me alertava que Cleber era estranho.
-Ah, minha filha, ele palita os dentes na mesa, boa pessoa não pode ser.

Ela devia estar certa, tudo a ver: palito de dente, ruivas. Tá tudo ali.

E dei uma volta no quarteirão do parque. Chutei outras pedras e pensei: A gente está mesmo chutando pedras e vendo até onde elas rolam. Olhei num poste que dizia: Voe com os leões hoje.

Precisava levantar voo um pouquinho e tirar a mente de tanta besteira. Fui correndo passar batom em casa, tossir um pouco com aquela fumaça típica de quinta feira a noite. Também não sei porque passava batom com tanta confiança. Queria pintar um riso falso na boca, acho que era isso. E, também, nenhum blush arrumou a palidez, a indiferença estampada no rosto. Mesmo assim saí o mais rápido que pude. Deixei o telefone tocar, acho que era o Cleber.

Depois de dançar até as 3 da manhã, resolvi pagar minha conta no caixa, lotado, um calor do inferno, o magma voador. E me perguntava o que tanto eu ia e voltava pra ideia daquele meu noivo desnaturado, mesmo com tanto desagrado.

– É moça, a fila realmente tá demorando pra andar.

Disse o robusto careca semi-estranho do meu lado.
Não podia estar mais certo. E pingou mais uma gota de colírio.

Mas você, ésse pê!

Eu acho mesmo é que tô apaixonada. Não sei se é amor maduro, mas é certamente amor.

Não sei como não me apaixonei assim por Barcelona.
Troco La Rambla por Av. Paulista, fácil.

O chão dessa estação é totalmente psicodélico, ou eu tô chapada. Essa cidade é assim. É estar chapada o tempo todo. É túnel de neon a noite, é mendigo mijando na rua, é cartaz vegano no poste, é toda beleza suja.

Há 9 meses trouxe meu colchão e meus livros praquele apê, iniciante, despretensiosa. Tava na ponta do banco pra sair de lá, mas não tinha idéia se era aqui que eu queria estar. Não foi minha primeira opção, alô Campinas! Mas fui certeira, fui sortuda.

Eu já vi os extremos.
O mundão – diz minha vó nos encanados interiorismos.
Mas não há nada como aqui.

Savona, Sicília. Lisboa e Funchal. Adeus.
Manila, me esquece. Até você, linda Marselha, au revoir!
Dubrovnik. Meus olhos brilham, mas não…

Essa cidade me excita! Só de acordar de manhã e ver poluição com pássaros. Ver paradoxo diluído em monóxido de carbono. Respiro fundo, nem tanto. Mas quero mesmo ter que correr pra pegar busão lotado. O motorista sempre me sorri, belezinha.

Lá nos cafundós era diferente, te digo! Acordar era certeza de ar puro, de tédio fazendo cosplay de cidade limpa. Me poupe! Pichação de manhã é delírio, é delicia, é sentir-se vivo e rodeado de expressão em forma escrita. O que que eu vou fazer no marasmo de lá? Ficar de pulmão limpinho, conhecer meus vizinhos? Ir dormir as 10, ir pra igreja do meu batismo? Ou morro ou sou morta pela displicência. Não tenho paciência!

Mas cê quer delivery de sushi sashimi as 3 da manhã. Te dou. Cê quer exposição de Computador do Milhão no Matarazzo? Te dou, querida! Até se você quiser ser satanista, vem que tem. Tem gente costurando a vagina por aí… Vem side dish com érre moderado. Quem precisa de porta porteira portão?

Mas, ô mãe! Relaxa. Aqui não é a cabeça do Datena. Apesar de que… Prefiro que seja ao invés dessas ruas sem trânsito daí. Desculpa, mas cáos me atrai mais.

Me questiono se vou sobreviver em outro lugar. Nem mais tenho aquela cara de mochileira de quando tava com 20. Mas eu tava é perdida. Eu tava era certa de que  aonde brotei não enfincava raízes. Rompê-las foi simples e adaptação foi que nem solidão por essas bandas: fácil de curar.

Porque no final, apesar de tudo dito aqui, foi em sp que ficou ainda mais evidente: o ser humano é ao mesmo tempo (e alternadamente) maravilhoso e desprezível. E isso é fantástico.