Parte II

Tinha chegado há 3 dias e as malas ainda estavam na entrada do quarto, chamava isso de “meu novo armário”. Minha colega de quarto – a chamava assim, agora, ao invés de amiga – fazia yoga na sala todos os dias e isso me fazia querer ficar ainda mais dentro do meu quarto. Minha mãe me emprestou dinheiro, se eu só almoçar consigo viver com isso por uns 2 meses. Não que eu tenha me dado ao trabalho de fazer as contas. Confio na minha intuição.

Confio? Eu devia ter previsto. O conheço há 15 anos, talvez alguma pista tivesse escapado nos 10 anos que vivemos sob o mesmo teto. Por outro lado, como é que eu ia imaginar que meu meio irmão ia ser o protagonista da cena mais sexy da qual participei em meses? E digo sexy com certa repulsa, admito, pois quem é que quer dizer ao mundo que beijou seu próprio irmão mesmo que tenha sido por 3 segundos e tomando Coca Cola?

Minha vida está ótima agora que brigamos. Literalmente só meu pai me aguenta. Ele me ligou ontem, preocupado, querendo saber o que foi dessa vez. Antecipei minha partida em 30 dias mas não havia sinal de dano em parte alguma da minha família, a não ser o que já havia deixado em outros carnavais. É no mínimo intrigante. Não tinha sinal de emprego, de namorado, de amigo. Fiquei de ver depois o que foi que aconteceu quando desliguei o telefone sem mais nem menos na cara do meu pai. Uma desculpa ia surgir, deixei pra depois como já era de praxe. Era véspera de ano novo e a última coisa que eu queria era explicar o paradeiro das mãos e da língua do seu enteado naquela tarde. E então, a partir daí, nem meu pai me aguenta.

O bar para o qual concordei em ir com esse cara era comprido e estreito adornado com uns 300 espelhinhos 15 por 15 na parede do nosso lado. E ele era um sujeito que me permiti conhecer de dentro do meu quarto pelo telefone. Eu não creio em amor moderno. Eu acho que não creio em amor nenhum, pra falar a verdade, e tudo que eu queria era não precisar sair de casa pra conseguir alguma atividade sexual que incluísse outra pessoa sem dar margem pra um possível incesto, mas dessa vez não deu. Paciência! Quando transbordei das escadas rolantes, então, para encontrá-lo, coisa que não aconteceu de imediato mas rápido o suficiente pra não precisarmos nos telefonar, aprovei de cara sua aparência e, na verdade, àquela altura pouco deveria me importar se nos daríamos bem ou se eu o veria em outra ocasião. Nos sentamos e logo quis saber sobre a minha tatuagem mais visível. Clássico. Ótimo. Direto ao ponto, à superfície. Quem é que quer saber detalhes da vida da mais nova desempregada com temperamento levemente agressivo? Fomos pra casa dele, transamos. Transamos como dois estranhos que éramos, não me lembro como é mesmo que se faz amor. De manhã me despedi, beijei sua bochecha, saí. Agora que penso nisso não sei se seu nome é Vítor ou Flávio.

Quando eu tinha uns 9 anos minha mãe costumava costurar no quarto depois das 10. Eu aprendi alguns pontos, fazia bordado às vezes, pra passar o tempo. Às vezes era quase 10 e ela não vinha. Eu pegava as peças atrasadas e dava andamento, mesmo com o risco de “matá-las”, como ela mesma diria. Um dia ela disse o nome da minha madrasta numa discussão com o meu pai do outro lado da casa enquanto eu caprichava no ponto cruz. Não foi até muitos anos depois que eu percebi que minha madrasta já estava destinada a entrar na minha vida muito antes de a minha mãe deixar a gente em 1998. Quando vi não existia mais eu, ela e meu pai.

Não que antes eu fosse muito sensível, mas aí me dei conta de que ser fria era uma característica minha. Também não sei se a culpa é da minha mãe, do meu pai, da minha madrasta. Não sei como foi que o amor deles começou e morreu, não sei como isso se dá no geral, de qualquer maneira. Acho que nunca amei e desamei pra saber.

Um dia ela chegou e disse que não o amava mais. Na minha cabeça foi assim que ela fez, ela decidiu que não amava mais o meu pai e quando viu já estava embarcando pra Manchester sem passagem de volta. Não sei se ela foi sozinha, se a princípio pretendia voltar. Sem todos esses detalhes resta a minha imaginação e ela me diz que nunca teve amor lá pra começar. Eles dizem que se conheceram acidentalmente, meu pai a confundiu com uma prima distante no aeroporto e desde então saíram, casaram, tiveram uma filha temperamental e com comportamento um pouco psicótico.

E então ela parou com a costura. Eu vendi aquela máquina quando fiz 18 anos, não tinha porque guarda-la já que nessa época eu ainda a odiava com certo emprenho. Talvez eu me arrependa no meu leito de morte de não ter procurado o motivo do desamor dos meus pais. O resultado eu sabia: um irmão postiço, muitas brigas e alguns momentos embaraçosos e uma outra mãe pra me ignorar.

Minha madrasta provavelmente não sabe nada sobre mim apesar de termos um relacionamento razoável e nos tratarmos por “mãe e filha”. Não posso dizer que ela não tenha feito o seu papel que era ir a reunião de pais e me dar dinheiro aos finais de semana. Mas de alguma forma a figura mais materna que eu tive na infância – e tenho até hoje -foi  meu pai. Também não sei como o amor deles começou e como é que ele sobrevive através do tempo. Como é que alguns amores sobrevivem e outros não. Com a minha idade meus pais já estavam na metade do caminho para separação. Eu, tudo que tenho é uma meia dúzia de ex namorados que não duraram o suficiente pra serem vagamente lembrados, aliás todos foram, de certa forma, descartáveis. Não dava pra saber se o “te amo” que dizíamos foi real até muitos anos depois e posso garantir que os nossos não foram. Sei porque eles foram facilmente substituídos por baseados e por masturbação.

Há um jeito de perceber que alguém nos está perdendo? Há um alarme, um sinal? Dificilmente percebemos, quando muito desconfiamos e mesmo assim é tarde demais pra nos darmos ao trabalho evitar. Como é que um amor morre, como é que ele sobrevive? Meu pai disse, quando perguntei, que o amor desmorona quando os dois lados não seguram mais com a mesma força. Quando minha mãe descobriu seu caso secreto com a minha madrasta, meu pai já não estava segurando do mesmo jeito que ela há tempos e na verdade os dois já haviam deixado o amor rolar ladeira abaixo, de qualquer maneira. Segundo ele era difícil demais lembrar do porque estavam juntos e, embora eu fosse um belo motivo para que eles tentassem, uma nova oportunidade bateu na porta dele e ele deixou entrar. Eu não tive culpa, eu nem sabia ou sequer me importava na época. Essas dúvidas todas, essa curiosidade, surgiram anos mais tarde e não por eles, mas por mim que já estava na idade madura e queria entender como é que tudo isso funcionava. Não sem antes ficar extremamente confusa com o meu relacionamento com todas as pessoas ao meu redor que, como de súbito, havia mudado radicalmente.

Porque é que minha impressão do meu irmão mais velho havia se transformado nessa coisa pegajosa que não tem e pé nem cabeça e me faz querer voltar no tempo, onde o amor começa, termina, sobrevive – se der – pra ver se isso tudo faz algum sentido. Não tivesse morrido o amor entre meus pais não teríamos sido apresentados, não estaríamos bebendo Coca Cola em pijamas e ele jamais teria cheirado o meu cabelo em ocasião nenhuma.

Na manhã seguinte o cara da semana passada me ligou e eu concordei em vê-lo de novo desde que pudéssemos nos encontrar direto na casa de um dos dois porque eu estava sem dinheiro. Nós sabíamos que iria acabar dessa maneira, não tem porque romantizar um encontro que só valoriza o sexo sem compromisso. Ou seria assim o início do amor entre a gente? Eu sinceramente não sei mais o que pensar agora que revisitei a ascensão e a queda do amor dos meus progenitores tendo chegado a lugar nenhum, mais uma vez. Quantas vezes o amor nasce e morre, quantos amores existem? São todos eles apenas uma face de um amor maior? Nos encontramos na casa dele, não queria dar meu endereço ainda, não tinha certeza. Quase não trocamos palavras principalmente porque eu desconversei de toda investida que ele ousou dar. Que coragem!

Me gritou, fora de contexto: você nunca vai começar um amor com ninguém desse jeito! Tudo bem, não foi totalmente fora de contexto. Conversávamos sobre meus pais, sobre os pais dele, finalmente conversávamos, já no terceiro encontro. Tudo que eu quis dizer foi que ele não precisava inventar firulas porque eu não tinha esperanças de que nada ia de fato acontecer entre nós, em resposta à pergunta “você quer ir comigo ao teatro?”. E então fui de metrô pra casa deletando, ao mesmo tempo, o seu número do meu celular. Ninguém tem que me dizer como viver minha vida não é mesmo? Fazia tempo que eu não chorava. Chorei baixinho, sentada na privada e minha colega de quarto nem percebeu enquanto fazia yoga, nua, na sala.

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Um Texto Honesto Sobre a Utilidade do Tinder

Estou, há três meses, em uma relação de amor e ódio com os aplicativos. Pra ser mais exata, com essa beleza chamada Tinder.

Uma noite, saí com uns amigos, bebi umas 17 cervejas e, como era de se esperar, quando soaram 4 badaladas de um relógio imaginário, encontrei-me aos prantos lamentando sobre o recém final de um relacionamento. Não que não tivesse chorado sóbria, mas entorpecentes aumentam a potência do sentimento de perda e, conseqüentemente, o volume de lágrimas.

Estava sentada, já sem os sapatos, em frente ao meu carro, meus óculos no chão, assim como minha cara, minha voz 5 oitavas acima do normal. Meu amigo me consolava com o discurso de sempre:

– Você é linda, maravilhosa, popozuda, glamurosa, rainha do funk. Se estalar os dedos aparecem 50 Zés te querendo.

Por algum motivo as pessoas pensam que ouvir isso é ótimo para a auto estima de uma pessoa que teve seu coração partido, quando é o exato oposto. No mesmo momento me veio uma música do Smiths na cabeça que diz, resumidamente, que se você é tão fodona, querida, ta fazendo o que sozinha aí?

Obviamente, disse isso a ele, gritado, e chorei mais 6 litros.

Ele pegou meu telefone e, magicamente, digitou minha senha – preciso repensá-la, aliás. “Espere e lhe provarei tudo que disse!”, claramente de saco cheio de todo o drama, porque, segundo ele “amores vem e vão, são aves de verão, o inverno vai passar e apaga a cicatriz”.

Instalou um certo Tinder, sincronizou meu facebook, deu unfollow no meu ex e fez upload de uma foto sensual que tirei de brincadeira. Certamente, se me conhece, você sabe que não sei o significado de metade desses termos internéticos e que sempre os uso de maneira inadequada. Mas pra direita curte, pra esquerda descarta. Aprendi!

No dia seguinte, além da dor de amor, a dor de cabeça. Nada que eu não saiba lidar. Todos sabem que sou praticamente uma PhD em ressaca e sou grandinha, sei me virar. Mas meu celular, que sempre soube claramente suas funções (ligar, despertar e me mostrar as horas) começou a apitar freneticamente enquanto eu preparava uma vitamina. Demorei alguns minutos para relembrar tudo o que houve na noite anterior, com um pouco de vergonha, e alívio (não liguei pra ele, apesar da vontade – meu amigo me parabenizou depois por isso). Um caso raro de mixed feelings.

Que diabos é esse foguinho vermelho com 36 notificações?

Tempo passa, aprendi a mexer naquilo, claro, cometendo erros. Primeiro os mais leves como não filtrar a distância e achar o amor da minha vida lá em Osasco. Depois, colocar uma foto pseudo artística e descobrir, da pior maneira, que estava pagando peitinho. Irrelevante perto dos benefícios de se entupir o cérebro com elogios e confetes quando se quer tirar da mente uma decepção. Ou seja, achei divertidíssimo.

Além disso, sou a melhor pessoa em se tratado de primeiras impressões. Sou engraçada, sexy, interessante, criativa, inteligente. Claro que, num segundo contato,  isso se perde mas quem precisa de segundo contato com tanta gente me dando “like” (uma coisa que eu odeio dizer mas é como a juventude chama gostar da sua cara em uma foto e apertar o coraçãozinho).

No primeiro mês deletei o aplicativo 3 vezes por semana, o que deixa implícito que ele também foi reinstalado logo em seguida em todas as vezes. É difícil estar em negação de uma tristeza sem nenhum entretenimento. Não tenho televisão, nem cachorro, meu amigo nunca está em casa. Também passo muito tempo sozinha com meus pensamentos. Esquecer alguém é um terror pra mim, porque eu tenho tendência a analisar o inanalisável (talvez essa palavra não exista, mas ela se fez necessária).

Ao mesmo tempo que ficar brincando de escolher o príncipe com um simples deslizar de dedos parece patético, é completamente compreensível o porque do imenso sucesso da brincadeira. Passa o tempo, infla o ego. E vou além: mostra o quanto o mundo é grande, quanta gente tem só nos 50 quilômetros ao seu redor e, devemos admitir, falar merda com estranhos até que é divertido. Mas os dias são uma montanha russa, pelo menos pra mim, e assim não pude evitar de viver em eterno conflito.

Inevitável é achar alguém. Alguém, qualquer alguém que pareça um pouco adequado, será que é essa a palavra? Bom para o momento, ou o que tem pra hoje? Sei lá! Digo, meio encabulada que, considerando meu estado mental do momento, eu não era das mais seletivas, e acabei cometendo um erro um pouco mais grave no segundo mês.

Tive uma crush um pouco mais elaborada por um menino que, a princípio, era a maior belezinha do mundo. Sua maior qualidade, além de me despistar da depressão, era ser engraçado. Também compartilhava dos mesmos interesses que eu, isso é, cinema, música (quando viu meu nome lembrou-se de Grace do Jeff Buckley e não de Grace Kelly, como a maioria dos seres humanos, o que fez meu coração acelerar ligeiramente). E tudo mais, tudo mais.

Ficamos. Conversa, risada, apaguei o Tinder por um tempo mais longo, porque YES! Já achei!

Pra não florear mais uma história que não merece, digo que, quando dei meio passo pra trás, o que quer dizer no meu mundo, não quis ser tão rápida no que diz respeito a sexo, levei um chute na bunda de leve, causando uma sensação de ISSO ESTÁ MESMO ACONTECENDO, BRASIL?

Muito embora eu consiga perfeitamente separar sexo casual de um potencial relacionamento, acreditei, dentro da minha ingenuidade, que eu estava caminhando pra frente quando esse menino não. Não sei em que momento nos desencontramos, porque, acredito que eu deixaria claro se só quisesse sexo com ele. Havia uma sintonia, eu dava bom dia de manhã por mais idiota que eu ache que isso é porque eu estava tentando ser uma pessoa normal (pra ver se assim paro de me foder na vida). Se eu quisesse só transar com alguém eu, com toda a certeza, ligaria pra algum dos caras da minha agenda com quem eu já tinha saído pra não correr riscos. Por que cargas d’agua eu ia ter todo esse trabalho pra ter a possibilidade de ele ter o pau pequeno, ou ser broxa, sei lá (mulheres são escrotas assim, deal with that!).

Depois me ocorreu: qual é mesmo a utilidade do Tinder? É achar sexo mais fácil, ou podemos perfeitamente fazer amigos, encontrar o amor da vida naquela porcariazinha?

Fiquei com essa dúvida, porque no começo era um passa tempo, mas depois me perdi. Em algum momento do vai e vem de caras disponíveis achei que ia ser fácil, assim, superar uma desilusão com outro amor genérico. Que amadorismo! Eu devia saber que eu não sou uma mulher de tecnologias desde que não consegui baixar o Snapchat ou quando deletei o Pinterest por nunca ter aprendido a usar.

Quando deletei definitivamente essa coisa do meu telefone e ele voltou a só despertar e a mostrar as horas, percebi que já tinham se passado 90 dias e eu só tinha aprendido a camuflar esse incômodo (vulgo solidão, ou carência), e assim que o ícone foi parar na minha lixeira, todas as lágrimas voltaram e veio à tona uma enxurrada de sentimentos que eu estava escondendo de mim mesma por todo esse tempo. Caminhei, caminhei e estava no mesmo ponto, só que agora com mais uma decepção na bagagem e infinitos megas de internet desperdiçados.

Não sei até que ponto poderia ser eu a mulher do casal com tatuagem do logo do Tinder, mas só agora posso dizer com propriedade que percebi pra que isso serve: nada!

Claro que talvez eu baixe de novo essa merda semana que vem porque, todos sabem, eu sou retardada (todo mundo é). Mas por hoje, adeus foguinho vermelho, nos vemos no inferno!

Amigo Amante Amante Amigo

Ele não é nenhum estranho pra mim. Acho que só uma parte dele passou a ser, depois da primeira vez. Já estamos na quinta e tudo que mudou foi que agora transamos e talvez, que somos um segredo.

Um segredo mal guardado. Não fazemos muita questão de mantê-lo. Afinal, não parece ser uma grande coisa pra nenhum de nós. Saímos, bebemos e acabamos na minha cama. Uma combinação que vem dando certo por um tempo surpreendente, até que eu, burra, coloquei os óculos 3D. Ou o dividi em dois: amigo e amante. Por algum motivo nunca pensamos em unir os dois.

Me irrita o tipo de pensamento que separa o amigo do amante. O mesmo pensamento que, talvez, tenha inventado a friendzone e toda essa baboseira. Também me irrita que precisemos ficar sempre calados e que eu não faça ideia do que se passa dentro da cabeça dele, e vice versa.

Todas as vezes foram exatamente iguais: Festa estranha, amigos em comum, shots de tequila, se Deus ajudasse dividiríamos um cupido ou, se Deus ajudasse mais ainda, encontraríamos alguma coisa vermelha do Canadá. Não dava pra saber exatamente se as luzes agiam, se os comprimidos faziam nossa cabeça. Não dava pra saber se teríamos a mesma ideia sóbrios num cinema, vendo algum filme de super herói. Afinal, nunca tivemos ideia nenhuma antes.

Ao mesmo tempo tudo isso não faz sentido. Se já o conhecia há pelo menos uma década, como não sabia dizer nada sobre ele, de uma hora para outra? Como ele virou esse ponto de interrogação e como ele vira meu estômago de cabeça pra baixo agora, toda vez que o vejo?

Encontrei-me pensando no túnel mágico que passamos entre o BFF e o gelo na barriga, enquanto comia, casualmente, um prato de batata palha com maionese Heinz. A cada mastigada crocante, um olhar dele me vinha na cabeça. O olhar de quando nos conhecemos, o olhar de quando viramos amigos e o olhar de quando acordamos de ressaca lado a lado. Eram coisas distintas, de alguma forma, mesmo que os olhos fossem os mesmos.

Demorei pra me dar conta de que ele não era a primeira coisa que eu pensava ao acordar antes de tudo, e que ele não tinha covinhas quando sorria (coisa mais adorável!). No sexto dia seguido que me peguei pensando nisso, não pude evitar de ter uma discussão séria comigo mesma dentro da minha cabeça: Você, por um acaso, está desenvolvendo algum tipo de sentimento não carnal pelo Fulano, hein menina?

– Defina sentimento!

Foi essa a resposta, a óbvia resposta.

Vivemos numa era em que é perfeitamente aceitável sexo sem amor, sem compromisso, sem nenhum contrato implícito. Eu mesma sou a mais adepta desse modelo moderno de amor pra vida toda que dura um dia (ou uma noite). Mas será que existe tanta diferença assim entre o lindo do Tinder e o amigo de longa data? Porque é tão mais fácil desenhar o limite quando se trata de um estranho? Essa dinâmica não faz muito sentido quando analiso da seguinte forma: O estranho one night stand pode vir a ser um relacionamento não casual se a fadinha do amor flechar nossos corações. O amigo é amigo, é um decreto que, mesmo tendo oportunidades prévias, a primeira opção foi a amizade pura e sem benefícios e porque haveria de mudar por conta de uma noite de sexo, se o sexo não implica em amor instantâneo?

Pensei em dizer isso a ele. Mesmo sem ter conseguido entender, mesmo sem ter certeza de nada. Mas me contive. Não quero estragar nossa amizade. Não quero estragar nossa amizade? Como definir se o que temos é amizade? E como definir amizade se tudo parece tão misturado e desregrado agora? Talvez ele esteja pensando o mesmo que eu.

Ou não.

Ou eu divago sozinha sobre o que é só sexo e sobre o que eu penso ao acordar. Talvez eu esteja sozinha como estou na maioria das vezes nesse rio. Eu remo só. E se eu estiver remando só? Tudo que a gente já viveu vai se perder, tudo que temos agora talvez (e provavelmente) se perca. E tudo pode ser só confusão, só carência.

Só fico intrigada: Porque nada mais tem graça se não é com ele?

Minha razão diz que não. Que é melhor não arriscar. E que talvez seja melhor continuar a virar a tequila e a tomar os comprimidos e depois acordar enrolada no mesmo edredom que ele, e pensando: talvez eu te ame, mas é arriscado, então deixa estar…

Mas tudo que eu realmente queria dizer, já disseram e nada tem a ver com isso.

Será preciso ficar só pra se viver?

Vinícius ou Como Comecei a Fumar

Quando acendia o fogo só deixava mornar. Nenhuma leiteira derramou leite e nada nunca queimou, ardeu, fez-me espalhar creme dental na pele. Até que em 2011, ou ano passado conheci o Vinícius.

E ele foi fulminante.

Não me lembro direito que background figurou naquela noite. Lembro só que era noite. Porque ele não deixava espaço pra cenários, eu não conseguia focar. Lembro-me que havia fumaça e quanta fumaça. Vinícius fumava três cigarros toda noite no mesmo banco de madeira do deck 3. Nunca o encontrei em nenhum dos outros 14 decks.

Eu, com bagagem mínima da vida, 18 anos, semi desvirginada, olhava pra ele como quem assiste um pornô escondido dos pais. Todos os meus romances tinham sido só da pele pra fora. Ninguém aligeirava coração nenhum aqui dentro antes dele. Ninguém dava suadouro, tremedeira, gagueira. Ninguém me deixava tonta. E eu, possivelmente, nem sabia que podia sentir tudo isso e que seria intoxicantemente bom, antes de ficar ruim.

Uma noite subi as escadas que davam na parte de trás do banco onde ele costumava se achegar pra tragar seus 3 cigarros e, arrumando o decote, sentei-me ao seu lado e pedi um. Eu sabia exatamente a aparência de ninfeta que me adornava e tudo que isso podia me proporcionar. Não porque eu tivesse uma intenção pré existente, mas porque ele me despertava toda a sexualidade do universo.

Eu nunca havia colocado um cigarro na boca. Alias, uma educação rígida e religiosa me impedia disso.

Vinícius não tinha nada de incomum, e por conseguinte, nada de sexy por assim dizer. 27 anos, calos nas mãos. Apertava os olhos pra tragar, segurava com o indicador e o dedão uma bituca amarela. Atmosfera despreocupada e despretensiosa, como quem pouco se importa com tudo que parece importar. Enquanto ali estava, olhava o tempo passando, o mundo acontecendo e eu sabia que jamais poderia compreender o que flanava por dentro da sua cabeça. E esse conjunto era excitante como a primeira vez de qualquer coisa controversa: Sexo, drogas e Rock n Roll.

Na noite do meu primeiro cigarro, que foi também a noite de várias outras primeiras coisas, eu não era nenhuma ignorante sobre ele. Eu já o havia visto lá, fitava seus movimentos por detrás, tinha uns bons sonhos semi-eróticos (que são eróticos, mas românticos, se é que essas duas coisas podem coexistir nos dias de hoje, apesar de deverem). E nessa noite não pude mais me conter. Eu queria, no mínimo, ouvir sua voz pigarrenta – como ela era nos meus sonhos. E finalmente quebrar essa timidez que durante a vida toda me fez sombra.

Quando traguei o primeiro ele riu.

– Você nunca pôs um cigarro nessa sua boca, não é menina?

Me chamava de menina, por muito tempo, mas a única vez em que senti um beliscão foi nessa primeira vez. Um beliscão em todo canto. E então ele fez-me observá-lo para aprender. Por três tentativas, falhei. Quando finalmente consegui, tudo se perdera: virei fumante e apaixonada. Veja tudo que me fez esse homem.

Fumamos mais dois e seguimos pra sua casa.
Durante esse tempo, falamos sobre tudo e nada. Não me recordo de ter mencionado nenhum passado. Nem eu e nem ele. Não me recordo de ter perguntado seu nome. Não me lembro de nada além do banal. E quando chegamos, para minha surpresa, eu já estava madura o suficiente pra não precisar esperar nenhuma atitude.

– Posso dizer só mais uma coisa?

Antes que ele pudesse replicar, eu já apoiava as mãos unidas em sua nuca e jogava meu peso todo pra cima dele. E ficou claro que eu não queria lhe dizer coisa alguma e que palavras eram totalmente desnecessárias, como sempre são. Na minha cabeça e no carro, o Jimi Hendrix cantava “Are You Experienced” e eu respondia que sim. Agora sim. Porque qualquer droga não me daria tanto barato quanto aquilo.

Era a primeira vez em que eu estava totalmente no controle de alguma situação, nem que isso fosse uma sensação existente só dentro do meu cérebro. Mas, veja, não havia nenhum outro que pudesse dizer de boca cheia “Ela procurou por mim”. Eu era a medrosa das relações amorosas, e tudo que veio antes do Vinícius foi passivo, sem graça, e mundano.

Apesar disso, foi com ele o maior número de caquinhos em que se partiu meu coração, 15 meses depois. Tudo porque eu ainda não tinha os poderes mágicos de hoje que apitam quando eu sinto que vou ser sacaneada por alguém e era só uma adolescente com muita libido. No entanto, nunca me recordo dele sem molhar a calcinha, nunca me recordo dele como um dos babacas que me machucaram.

Ele é simplesmente Vinícius, o cara que me ensinou a fumar.
Que me ensinou a usar o fogo alto e desconstruiu a ideia do tanto-faz.

O resto é história enterrada na minha caixinha-de-guardar-ex.
O resto é só ok.

A Minha Fase Atual

Estou numa fase excepcional! Não sei dizer se é no bom sentido, ou mesmo, se há um bom sentido para esse adjetivo que eu adoro usar. Acredito que haja, pois o leio em manchetes vagamente positivas nos jornais quando vou arrancar a página das palavras cruzadas e dos quadrinhos. Também, me admira (e agrada) que preciso dividir tudo em fases. Ou que o ser humano faça tanto isso. Que divida até a lua em fases, que não permita que as coisas sejam contínuas.

Posso enumerar cerca de 35 fases pelas quais passei durante os meus (quase) 25 anos de existência.
A fase em que fui emo. A fase em que fui atriz. A fase em que tive uma banda. A fase em que ia toda semana a mesma festa em Campinas. A fase em que ficava bêbada toda semana na mesma festa em Campinas. A fase em que achei que o universo era maravilhoso ouvindo Jamiroquai. A fase em que parei de comer ouvindo Silverchair. Etc. Etc. Etc.

Minha fase atual inclui elogiar uma senhora na rua pelo excelente trabalho que fez em seu coque milimetricamente arranjado (até duvidei da não-existência de Deus, pois estava, realmente, muito perfeito), mas também inclui um alter ego extremamente presente nas minhas interações sociais, o que me deixa cada dia mais perto do diagnóstico “dupla personalidade”.

Sempre começo minhas histórias mencionando as noites de sexta feira. Pois bem, essa é mais uma delas. As sextas feiras me transformam de uma maneira ambígua. No sábado, o dia depois da noite fatídica, desejo jamais ter posto o pé para fora do meu apartamento. Mas o domingo chega logo depois e nada mais parece tão grave assim. E depois da segunda, da terça, da quarta e da quinta feira, meu inconsciente se encarrega de fazer uma pequena lavagem cerebral para que, no dia seguinte, eu esteja mentalmente pronta para a próxima aventura.

Sete da noite é cedo demais para se tomar decisões sábias. Ou pelo menos era isso que eu pensava. Ainda mais nessa minha fase atual que inclui mandar um e-mail para o meu escritor favorito, mas também inclui trocar de roupa com a janela aberta sabendo do meu vizinho pervertido do prédio da frente. Na sexta feira passada, as sete da noite, depois de organizar meus pincéis de maquiagem por ordem de tamanho pela sétima vez na semana (sim, estou com TOC), resolvi testar meu novo batom cor de ameixa. Eu havia ganhado ele dessa menina-mulher que trabalha no setor de limpeza do meu trabalho. Preciso apenas dizer que ela é muito sexual e, às vezes, tenho a impressão de que eu não deveria saber que ela gosta de ser levemente sufocada na cama. Ok. Já que passei o batom, não me custa nada esconder as olheiras com corretivo, também recém adquirido, e passar um pó. O delineador é antigo, mas vou passar porque, sem ele, meus olhos ficam murchos demais e, já que fiz essa maquiagem de gatinho, vou usar um blush coral pra disfarçar minha palidez – ando com cara de doente. Quando vi já eram quase 9 horas e eu estava maquiadíssima, e de pijama.

Pijama é modo de dizer. Eu estava usando uma camiseta GG do Pink Floyd e meias pretas com bolinhas brancas. Meu cabelo estava preso em um nó dele mesmo e eu parecia ter realmente aderido ao estilo anos 1970 em se tratando de depilação. Tudo isso porque estava tentando declarar greve às sextas feiras, remotamente pensando que isso ajudaria em alguma coisa. Assim, antes da minha fase atual que inclui tentar dormir cedo todas as noites, mas também inclui uma dose preocupante de masturbação, achei que o problema era a sexta feira e não o que eu acabava pescando, coincidentemente, nesse dia.

E meu método mais eficiente para não querer sair à noite era não estar apresentável o suficiente. Porque, vejamos se você entende meu comportamento digno de psicanálise. Minha aparência é o que me motiva a sair de casa para uma noitada ou não, pois, mesmo que, em algumas ocasiões, eu pareça ter a mais baixa das autoestimas, a realidade é que eu tenho uma inexplicável e doentia fixação pela minha própria imagem. A lógica é: estou bonita saio, estou feia fico em casa. Simples assim.

Então, eu me mal cuidava de propósito pra ser obrigada a fazer pipoca e assistir a um filme do Scorsese ou qualquer outro que não tenha nenhuma grande reflexão sobre a vida. Mas já que estava maquiada e cheirosa – ganhei um perfume de um cliente, soltei meu cabelo só pra ver como ele estava. Meu cabelo estava parecendo ter saído de um comercial de shampoo. Era oficial: eu estava bonita! Fui obrigada a procurar o que fazer.

Troquei de roupa 13 vezes. Tirei 56 fotos com o meu celular no espelho. Fiz meu laquê de microfone quando começou a tocar “Babe, I’m Gonna Leave You” porque não tem como não fazer isso. Onze horas. Taxi. Festa pseudo folk na Augusta. Entrei rapidinho pra não correr o risco de perder o foco na rua por causa da minha fase atual que inclui ser amável com todos, mas também inclui dizer que me chamo Thais. Cheguei tímida, sentada com pernas de índio na beirada do palco enquanto tocava Mallu Magalhães. Encarava o centésimo barbado daquele lugar encostado no balcão do bar do outro lado do salão. Entre nós dois havia uma nuvem de pessoas com coroas de flores e tatuagens de cadeias de carbono, dançando euforicamente ao som de Mumford & Sons.

Nessa minha fase atual, que inclui resolver três exercícios de química, física ou matemática por dia, mas também inclui um estranho vício em laxantes, estava me sentindo muito bem. Depois que eu parei de procurar pelo em ovo, tudo começou a fluir. Eu achei que estava apaixonada nos últimos cinco ou seis meses e eu devia mesmo estar. Foi tudo adorável no começo, um pouco conturbado e irritante no final, mas foi. Não posso mais tentar preencher o espaço vazio que ficou na minha mente somente com as memórias ruins de nós dois. Já filtrei, já removi as impurezas e agora estou leve. Ele foi importante pra mim por um tempo, mas já deixou de ser e isso é um alívio. Clichê, mas foi bom enquanto durou e o resto tanto faz, agora.

Apesar de estar mais maluca do que nunca nessa minha fase atual, que inclui uma conversa séria sobre minha carreira com o meu chefe, mas também inclui aversão a usar calcinha, não pude deixar de aparentar uma inédita sensatez. Bebia minha cerveja, muito calmamente, cozinhando o objetivo da noite que era sair de lá, de repente, com algum cara que pensava estar saindo com a Thais, 25 anos, revisora de textos, e com um telefone verdadeiro gravado no celular.

E, como uma profecia, foi isso que aconteceu. O barbado do bar atravessou o salão, 12 cervejas depois, quando eu já estava falando sozinha e arrancando o rótulo da garrafa com a unha. Ele tinha o tipo de barba de Jesus Cristo – sexy, se é que posso achar a imagem de Cristo sexy, de alguma forma, sem virar uma pecadora. Tinha mãos bonitas. Aliás, tudo que me lembro com exatidão são seus dedos e um anel em seu mindinho. O jeito como ele me pediu pra não tirar os óculos foi esquisito e agradável ao mesmo tempo. E o mais importante: ele disse a que veio. Não me fez nenhuma propaganda enganosa, não prometeu nada que não podia entregar. Não me deu flores, não tentou achar nada em comum entre nós. Achei isso muito genial, e sexy. Era exatamente o que eu precisava nessa minha fase atual, que inclui não me apegar a ninguém, mas também inclui muito exercício físico (do latim, hardcore sexus).

No sábado, ao invés de arrependida, estava satisfeita. No domingo, mais do que nunca, aliviada. Concluí que não preciso mais boicotar sexta feira nenhuma. Se essa minha fase atual se chama promiscuidade ou liberdade, não sabemos. Sabemos que inclui ser mentirosa e desequilibrada, mas também inclui estar em paz.

Sexo, universo e azulejo

Eu parecia uma junkie jogada de barriga pra cima naquele futon verde oliva enquanto ele me percorria. A Joss Stone cantava pra nós no rádio e a iluminação era fraca (ou inexistia). Só vinha do poste na rua. Sexy, mas…

Tinha um espelho na minha frente. Sentia-me o Christian Bale no ménage de American Psycho, mas sem a terceira pessoa, obvio. A três não funciono! Difícil focar só em uma pessoa, imagina em duas.

Tanto, mas tanto que ele estava lá embaixo (fazendo um ótimo trabalho, aliás), e, mesmo assim, eu continuava escrevendo um livro mental, pensando que precisava passar no mercado depois que acordasse no dia seguinte, lá pras 11. Pensando que eu nunca ia conseguir organizar meus livros por ordem alfabética. Pensando que eu estava com pavor que esse menino me beijasse e isso me transformava numa prostituta em potencial.

Quando ele acabou, eu virei logo uns 180 graus na horizontal e fiquei encarando o gordinho que passeava com um lindo Golden Retriever lá embaixo na rua. Não, não! Retira o que eu disse. Não posso ser o Christian Bale! Ele tinha só espelhos, eu também tenho público. Eu encostava o colchão em quatro extremos porque esse ângulo funciona melhor pro meu ego e pra máquina de escrever instalada no meu cérebro. (E eu estava obcecada com a minha própria imagem!) Sei que ele tentou borrifar romance por todo o quarto de adolescente dele com aqueles elementos – música, luz, beijinhos carinhosos dos pés a cabeça, mas não posso evitar de ser fria nessa minha fase.

Ele puxava meu cabelo, lambia minha orelha. Nunca curti saliva na orelha, sabe? Porque é que as pessoas tem essa obsessão com orelhas? Minha orelha estava ensopada e eu não estava ficando mais excitada por conta disso! Enfim, meu livro dizia: não é contraditório que minha saúde mental funciona tão melhor quando estou sozinha, mas mesmo assim eu vivo querendo achar minha tampa? Não, sexo não tem nada a ver com isso! Ele já podia deixar minha orelha em paz e ir salivar em outras bandas, né!

Eu sou péssima! Eu faço esses pequenos experimentos depois de ficar sóbria de uma embriaguez de amor. É exatamente nesse momento que eu me torno a mais filha da puta das pessoas, porque eu tento esquivar da solidão saindo com o primeiro idiota que aparece – talvez Freud explique esse fenômeno. Ele, dessa vez deitado do meu lado, se aproximava como quem ia me fazer conchinha. Ninja, escorreguei por debaixo dos seus braços. “Onde é o banheiro?”, e saí, na ponta dos pés vestindo uma camisa xadrez (dele) completamente abotoada fora de sincronia.

Sentei. Olhei o azulejo por uns dez segundos até perceber que era o mesmo da minha casa no interior antes da reforma. Até os meus sete anos o banheiro da minha casa foi revestido com um azulejo idêntico. Toda vez que eu ia tomar banho, ou quando tinha, sei lá, prisão de ventre, eu ficava olhando atentamente pro azulejo, porque, se você prestasse a atenção, você conseguia decifrar pequenos rostos no meio dos desenhos. E quando eu conseguia achar um, isso me deixava imensamente feliz.

Por causa de um azulejo, tudo veio à tona.
Quando eu tinha sete anos, eu gostava de ver rostos em figuras que não foram feitas para serem rostos e, 17 anos depois, nada de muito drástico tinha mudado. Toda vez que eu gostava que um cara me beijasse na boca, ou que não pensava em tarefas de casa enquanto transava, ou, pra resumir, quando eu estava realmente envolvida e apaixonada, eu ficava que nem louca procurando rostos no azulejo. Procurando coisas que não existiam. E isso me tirava a sanidade, resultando num desastre atrás do outro.

E aí, toda vez, no entreamores eu virava essa piranha! Era um ciclo: louca, piranha, louca, piranha.

E pra completar, se você parar pra pensar, eu bem que podia ter estado no lugar desse pobre fã de soul music em todos os meus relacionamentos falhos. Quem há de dizer que eu não estava cheia dos clichês de amor enquanto algum babaca estava mais interessado em se admirar no meu espelho? E, aliás, não está toda a humanidade presa nesse carrossel de bad timing, onde um se envolve o outro não? Não é culpa de ninguém, é só o universo unindo as pessoas erradas, na hora errada.

Viu: Sanidade! Acontece lá pela terceira semana.

Mas, caralho, quando é que esse desencontro vai acabar, hein? Preciso deixar esses meninos românticos em paz, e preciso parar de ficar enlouquecendo por aí.

Depois do banheiro, deitei de costas pra ele, ainda torcendo pra ele não me abraçar. Mas tudo fazia sentido agora. A Joss Stone continuava maravilhosa, a luz da rua romantissíssima e eu esse bloco de gelo, derretendo num futon. Pensando: 1) eu preciso parar de enlouquecer quando estou gostando de alguém e parar de procurar rostos no azulejo. 2) O universo precisa parar de zoar a nossa cara. 3) Preciso, realmente, parar de deixar a janela aberta.

Acordei, a perna dele estava, assustadoramente, em cima de mim, a luz do sol estava me tostando e todo o romantismo da noite passada tinha desaparecido (ainda bem!). Botei meus adornos de volta, devolvi a camisa xadrez.

Tchau, Thaís.

Puta que pariu, 4) Preciso parar de usar meu nome falso.

Os confins do sexo casual

Não é por coincidência que meu celular recebe tanta atenção de sexta feira. Andei sendo casual demais. Ops!

Aí penso: Como se faz pra não ser casual depois de sê-lo e tanto? Tem receita?

Recebo um plin com um vamos-sair-hoje? Recebo um plin com tem-festa-hoje. Recebo mil plins com mil festas com mil vamos? E o que faço? Desligo, volto a dormir, a fazer palavras cruzadas. Meus dias de one-night-stand me cansaram, nunca pensei que isso chegaria.

Sextas feiras à noite, apesar das reclamações, me divertiam.
Porque no sábado, não importa o tamanho da cagada, tudo ficava bem de novo. Talvez uma ressaca, de leve, mas quem não vira expert nisso aos 24 anos? No mesmo contexto, definimos aqui que eu sou sacana e que eu gosto de ser esse sabão que escorrega na mão dos outros. Sempre fui assim, sempre fui escorregadia. Quem conseguiu me segurar, não foi forte o bastante. Não estaria aqui testemunhando, fosse isso falso, caros amigos.

E, desse jeito, um milhão de sextas feiras passaram e, infelizmente, pra completar o telefone que eu passava estava sempre certo.
Sei que deveria ter distribuído um numero falso e evitado o transtorno.

Ontem me peguei numa discussão besta.
Não sei se estava com sono, ou se era o oposto: estava lucida demais. O menino, um daqueles pendurados no varal da minha lista de contatos, me chamou pela quinquagésima vez pra “dar um rolê” – Detesto gírias, detesto gírias, detesto gírias! E, cansada das desculpas mirabolantes, disse, sem rodeios, que estava “em outra”. Também disse que, se saíssemos, todos sabiam (deus sabia, deus ta vendo): não seria pra bater papo e, se dessa vez fosse, nesse (e somente nesse) caso, tudo bem.

– Mas o que aconteceu com você?

Foi uma mensagem, mas pude sentir a indignação.

Pensei por uns segundos: O que aconteceu comigo? E o que o fez indagar essa questão? Pode ter sido um reflexo de conversação, quando se fala coisas só para manter ou (às vezes) para encerrar um diálogo. Mas ao mesmo tempo, e se não foi? Demorei pra responder, fechei os olhos, rolei de um lado pro outro da cama, tirei o som do celular, sentei, deitei de novo. Fiquei, certamente, inquieta.

Quanta casualidade é muita casualidade?
Na casa dos 20 a quantidade pode ser larga, mas penso se chegarei na casa dos 30 com a mesma disposição. Meu motorzinho já tá perdendo o arranque, percebi isso nas semanas passadas, nas sextas feiras passadas. Acho que ta na hora de estacionar.

Porque… Haja combustível, haja saco pra aguentar perguntas como essa: O que aconteceu comigo? O que aconteceu comigo foi que hoje é sexta feira e amanhã é sábado. E sábado é um dia solitário e eu quero usar minha boca pra conversar de vez enquando. Além do mais, não quero mais me perder nos confins do sexo casual. Não por enquanto. Tô empenhada procurando a saída desse labirinto.

Mãe, fica orgulhosa de mim, acho que tô deixando de ser volúvel.
Já pode parar de me puxar a orelha.

Sabemos das minhas opiniões bumerangue. Sabemos da minha cabeça de vento. Sabemos que, hora ou outra, vou cair de volta no pula pula da casualidade. Sempre o faço. Mas por agora, me deixa ser firme, ser frequente. E, aliás, o que você quer dizer com o que aconteceu comigo? Respondi, afinal, furiosa.

– Nada, achei que a gente tinha isso.

Sim, ele estava certo, a gente tinha isso na meia dúzia de vezes que “demos um rolê”. E nunca quis adubar, sair do esporádico. Não com ele de qualquer forma que é uma versão minha só que com um pênis (longe de mim, sou péssima pessoa). E falamos sobre isso, como a gente cai nesse pensamento que tanto criticamos. Solteiros convictos tem dois inimigos: os namorados e os românticos. E parece pra sempre toda essa convicção. Quando é que colocamos na cabeça que o amor da vida é mais gostoso?

Diga que está discordando, pode dizer. De acordo com esse mesmíssimo blog, sou a fã mor de romance.
Sou mesmo, admito. Mas segundo a minha biografia autorizada fictícia escrita pelo meu alter ego featuring o Toby (meu, já citado, amigo imaginário), 2013-14 tem sido o ano do não-me-ligue-amanhã e segundo essa mesma biografia, eu fiz as contas e o resultado foi zero apesar do cálculo ter me somado uns bons momentos. E romance foi só romancinho, assim no diminutivo, que é delicioso mas enjoativo, igual a nutella.

Não, eu não quero casar e virar mãe de família.
Quero descansar meus coturnos, só isso. Amarrar o burro, sossegar o facho.

Fases são fases, procuro respeitar.
O contato continua lá na minha lista. Nos despedimos com um risonho “você é louco!” e ele “você também!”. Voltamos a dormir, a fazer palavras cruzadas.

E no dia que a fome de casualidade voltar, se voltar, estaremos à postos pra pôr a mesa, tenho certeza. Só fico encucada: será que volta, essa bichinha?

É de se duvidar.

O que se sabe, intimidade?

Como é que funciona essa dinâmica de dois corações, dois corpos?
Eu já não sei mais. Acho que jamais saberei.

Aprendi uma coisa, entretanto:
Que metade da metade da vida não serve pra te ensinar lição nenhuma. Que os erros, com certeza, não te deixam mais sábio, nem servem para aprendermos. São somente erros.

E o que se sabe quando só tem dois corpos? E não são separados por nada além de pele? E o que se sabe quando só tem meia luz, e Aerosmith tocando? Aparentemente nada. Nada de relevante, somente onde cada coisa deve entrar, quantas caras e bocas a gente faz sem querer. E um pouco de desligamento da mente, por uns 3 segundos.

E o que se sabe quando só tem dois corações? E não são separados por nada além de palavras? E o que se sabe quando só tem uma idéia, e qualquer coisa tocando. Aparentemente nada.
Qualquer que seja a posição, o que se sabe de qualquer momento? O que se sabe, at all?

Como funciona eu e você? Que botão apertar, que manivela?
Sabe?

E deve ser que eu sou ignorante das coisas de dois corpos. Não fisicamente, sei onde cada coisa entra, sei das caras e bocas. Mas permaneço ignorante, e cada dia mais me movo de perguntas, de questionamentos e espaços vazios na mente.

Grande momento de intimidade, não sei ser íntima nem a meia luz, nem com Aerosmith.
Sou apenas ignorante, eu acho. E metade da metade da vida não me ensinou nada, e talvez nem vá. E em quantos edredons amassados eu vou ter que dormir até aprender? Qual a cota?

Funciona, eu e você? Não é mais questão de como, é questão de se.
Quanta ignorância, menina.

Uma sexta feira típica

É sempre nesse momento, quando meu corpo está se sentindo exausto, que me ocorrem os pensamentos mais angustiantes, que nunca me deixam descansar. Minha mente faz essas coisas, às vezes.

Depois de um dia após o outro, uma sexta feira típica, como tantas outras onde eu fico tendo segundas opiniões sobre tudo, não tem mesmo como dormir. É simplesmente assim que funciona.

E me peguei pensando: Se eu acho que todos, até hoje, foram nada além de grandes babacas (e depois da lista mais triste do universo, chamada “And I Wake Up Alone List”, pra citar Amy Winehouse, em tradução livre “Lista Do Eu Acordo Sozinha”), poderia eu também ter sido uma completa idiota com alguém, ou até mesmo com os coitados pertencentes a essa lista?

Porque, de todos os caras que já estiveram sobre ou embaixo de mim, posso contar com dois quintos dos meus dedos os que realmente foram candidatos a Lista dos Lindos. Isso é apenas um quarto deles, muito obrigada, matemática, por ilustrar.

Tentei fazer mais listas e multiplicações, mas quem se importa. É só um número crescente, sem querer ser puta.
Substituindo amor por sexo, quando deveria ser o exato contrário.
E sendo easy come easy go, little high little low… Sigo.

Sexta passada acordei com dois pés a mais na minha frágil cama box de solteiro (meio barulhenta, devo dizer). E eu sabia exatamente porque isso acontecera. Chama-se carência múltipla dos órgãos, e tinha se iniciado há algumas semanas.

Essa belezura de ferramenta de confraternização das vidas aleatórias, chamada o livro das caras, me deixa cada dia mais descrente e cínica, vendo tantos mozão, mozin e mô, simplesmente, entre pessoas que, coincidentemente, aparecem em minha triste lista, e com dois dedos da santa vodka, vem o próximo idiota e se estabelece.

Vambora fazer o novo cálculo e atualizar.

E era sexta feira, por deus.
E era sexta feira treze, por deus.

Meus coturnos desgastados enfiaram-se novamente em meus pés, meu batom marrom quase que se passa sozinho, e a camisa preta já sabe até o caminho do clube mais próximo.

Dança, conversa com o Toby (meu amigo imaginário), dança, faz um charminho.
Pronto, vem o primeiro cabeludo dizer boa noite, linda donzela dos cabelos negros dançantes (fosse isso séculos antes). E outro, e outro e outro.

E nenhum é cafajeste o suficiente pra figurar minha ilustre lista. Procuremos mais.

Vejo uma escada misteriosa, pela qual eu, curiosamente, subi horas antes, e desci. Um Elvis me puxou pelos ouvidos, mexeu minhas perninhas de saracura, tão ritmadas e engraçadas, e minha vodkas que me perdoem, mas elas provavelmente me fizeram fazer papel de palhaça. Mas uma palhaça meiga, eu acho.

E esse menino de touca e, outra vez, cabelos, parecia outro menino de touca com cabelos que tinha se pintado na minha mente muito antes, e nem de longe se somava na minha lista, não por falta de oportunidade, mas pelo que eu prefiro chamar de bad timing, ou tempo ruim.

E aí meu cérebro fez todo o trabalho de casa:

1 bonitinho mas ordinário
+
11 vodkas caprichadas pelo bar tender me dando mole
+
5 anos luz de baixa auto estima (abaixo do nível do mar)
=
4 PÉS NA MINHA CAMA, MINHA FILHA.
E quinhentas perguntas no dia seguinte quando ele não me ligou (uau que surpresa!)

E voltemos a pergunta para não perder o fio da meada: Seria eu, a meiga palhaça que tem amigo imaginário, tão SACANA quanto estes meninos de cabelos?

“Sim senhora” disse aquela partezinha de trás da minha consciência que está em desacordo eterno com o meu ego. E pra falar a verdade, no final dos argumentos, eu (o eu juiz) até que concordei com ela, a parte de trás.

Quem dançou pra quem?
Quem se fez de linda pra quem?
Quem não ligou pra quem?

É, minha filha, admita!
Você é tão babaca quanto todos os babacas do universo, e só se sente pior porque é mulher e acha que mulher tem que se sentir pior. A história da humanidade ainda é pesada sobre a gente…

Ok, posso dormir agora.

Entendimento das Línguas

E aí eu falei sobre como eu achava estranho que a Rede Globo havia mudado seus correspondentes internacionais de país.

– Eu ligo a tevê, e escuto o Rodrigo Bocardi falando sobre algum ataque com bomba em uma escola e logo penso “poxa vida, os americanos são mesmo da pá virada!” e, de repente, ele anuncia que está em São Paulo. Como assim? E toda vez que eu vejo Tóquio nos telejornais eu penso logo no Roberto Kovalick falando de algum avanço tecnológico, ou tornado, terremoto, tsunami. Mas nããão, ele agora está em Londres, tomando chá das cinco com a Kate Middleton. Isso confunde minha cabeça, sabe?

– Hm.

Percebi por esse curto “hm” que ele não fazia a menor ideia do que eu estava falando.

Mas, pelo amor de deus, tinham sido mais de 2 minutos de silêncio dentro daquele carro. E eu já havia falado sobre tudo. Tudo mesmo! Já havia falado sobre a lista de atores mirins que cometeram suicídio – por algum motivo macabro eu sabia de muitos. Aí, por causa disso, falei que História Sem Fim era meu filme preferido quando eu era criança. Depois comentei que os curitibanos chamam “salsicha” de “vina” mas eu não sabia porque, então esse assunto não rendeu muito.

Era mais do que evidente que a gente se entendia mesmo era quando nossas línguas se entrelaçavam. O que era magnifico, preciso dizer. Mas, sou estimulada sexualmente mais pelo intelecto do que pelo físico, e isso me deixava um pouco frustrada.

Não que eu seja uma pessoa muito culta. Eu era mesmo ligada em cultura pop. Eu não sabia nada de filosofia, mas se você me perguntasse qual o filme vencedor do Oscar de melhor longa em 78 eu sabia te dizer: Annie Hall. Que é um filme maravilhoso, alias, apesar do péssimo nome quando trazido pro Brasil.

Mas ele sempre me cortava quando eu estava falando alguma coisa aleatória, mas extremamente relevante como a apresentação dos Paralamas do Sucesso no Rock In Rio de 85 (que foi espetacular!), e falava sobre alguma coisa com a qual eu não me importava.

– O mesmo ano em que o Tancredo Neves morreu.

Cri… Cri… Cri…

Uma hora eu percebi que estava falando muito, e muito rápido e comentei isso, porque gosto de fazer insights sobre a nossa própria conversa.

– Você pode me mandar calar a boca se você quiser.

E me recuei no banco. Usei minha visão periférica para observar enquanto ele vinha em minha direção e pensei que aquilo realmente foi uma deixa perfeita para um beijo. E eu juro que foi sem querer. Mas dei um sorriso de canto de boca, então acho que ele pensou que eu só falei aquilo pra ele me beijar logo e a gente parar com todo aquele falatório.

Aí tudo aconteceu. Liguei meu CD da Fraçoise Hardy. Tirei minha camisa que naquele momento parecia ter mais de 150 botões.

Tirei o casaco dele.
Tirei o suéter dele.
Tirei o cachecol dele.
Tirei a camiseta dele.

Meu Deus, devia estar frio aquele dia!

E então, por uns quinze minutos, nenhuma palavra foi dita. Pensei em mil coisas, mesmo assim, mas não disse nada.
Pensei no quanto a pele dele era lisinha, e que ele deveria malhar escondido, porque seus braços estavam fortes. Pensei que ele ficava lindo de cabelo bagunçado, e ai baguncei mais ainda.

Pensei que a barba dele não me atrapalhava em nada, ao contrario do que eu imaginava. E como ele estava tendo dificuldade para abrir meu cinto de rebites. E, porque, em nome de Jesus, eu estava usando cinto de rebites se já era 2009 e eu não usava cinto de rebites há pelo menos três anos, porque era ridículo.

E então ele resolveu falar.

– Você é tão bonita!

E tirou a mecha de cabelo que caiu sobre o meu rosto. E me olhou como nunca tinha me olhado antes, como se me admirasse. Como se aquele momento fosse a unica coisa que importasse no universo. Como se tudo mais fosse irrelevante.
E isso durou pelo menos uma década.

Na minha cabeça.

E eu quase pude sair do meu corpo e ver a minha reação que foi: nenhuma. Ou fiquei pasma. Imóvel, totalmente vulnerável e tola. E ele beijou minhas bochechas, e então eu sorri. Foi a coisa mais doce que já me havia acontecido em minha vasta e vazia experiencia com garotos.

Lembrei de quantas transas não significam nada pra mim.
Quantas vezes arrancaram tão facilmente o meu cinto de rebites. E em quantas vezes deixaram que mechas de cabelo cobrissem meu rosto.

E se as vezes não temos palavras. Temos, então, olhares e toques e intimidade, que compensam toda e qualquer ladainha.

No final do dia, ainda tínhamos quase tudo em comum, e mesmo sem expressar verbalmente tudo o que queríamos, falávamos a mesma língua.