Alheio 

Curioso ver que as partes desintregram
As partes da memória, da nossa memória, das fotos na sala
Colaram sua cara de menino no corpo de um homem
cultivaram barba rala
Enquanto se arrancava de dentro tudo o que tinha de humano

E ver que não foi você quem cresceu comigo
Certamente não foi com você que eu brincava
Não tem nada a ver o seu tom de voz
as suas mãos cortadas
Com seus olhos serenos, seus olhos sem danos

Os brinquedos são os mesmos mas agora com sangue
carimbando digitais, como outra carteira de identidade
Não há mais desenhos, só cartas
promessas, não honestidade
De um remetente desconhecido

Mas é você que a mim não conhece
Fosse o caso não me diria o que disse, nunca teria escrito
não se atiraria, não voltaria nunca
repito
Me conhecesse nem sequer teria ido

Augustoterapia

Meu clube dos solteiros até que me ajudou a desmembrar deles por esses tempos.

Naquela noite, eu estava individual, eu era porção só pra mim mesma. Queria mais uma sexta feira de alcoólicos e risadas e voltas pra casa sei-lá-como, e ressaca depois. E ninguém queria.
Acho que mandei cerca de 300 mensagens, insistente, persistente. Alguém tinha que me acompanhar, porque ficar em casa sozinha naquela cama enorme, mas pequena… Eu não quero!

E ninguém podia, ou queria, ou ia, anyway.

E eu tinha essa lista. Essa lista de coisas pra fazer. Essa lista de desejos, de anseios, de semi-regras, de vontades, assim, jogadas numa folha de papel. E eu tinha esse item. Esse item de gente individual, eu, sendo mestre nisso. De sair sozinha. De fazer tudo sozinha, sem o esquadrão do “eu sou auto-suficiente”.

Vamos então? Vamos.

No mínimo vai me dar um tempo pra pensar sem interrupções.
O que mais me tira as palavras são as interrupções. Não que eu seja profunda o tempo todo, eu sei ser só a primeira camada às vezes, e preciso. É aquela válvula de escape da minha própria loucura. Eu sei falar de coisas fúteis, sei ver vídeos de gente caindo e rir deles. Mas eu não escolho em qual momento cada profundeza minha vai se manifestar. Às vezes tô falando sobre banalidades, como marcas de roupa, a bunda daquela garota que passou, sotaques irritantes, essas coisas e, do além, vem uma coisa me afogar lá nos quintos do meu cérebro. E é estranho parar de falar sobre qual celebridade está passeando com o cachorro em Copacabana, pra discutir sobre o conceito de felicidade, segundo Freud. Não é socialmente aceitável.

E sozinha, apesar de presa nos confins da minha mente com as questões mais perturbadoras, consigo até criar punch lines sem esquecer delas depois. Apesar de ultimamente estar mais esquecida do que nunca de todo detalhe, palavra, conversa e sentido existentes no planeta Terra. Andei fumando maconha demais. Enfim…

Naquela sexta feira perfeita pros singulares, eu saí singular.
Olá Rua Augusta!

E fui pensando, por todo caminho, qual texto amargo e cínico eu ia escrever depois. Talvez eu fosse criticar aquele cara que veio me xavecar e não parava de olhar pros meus peitos. Ou talvez eu fosse fazer piada com a conversa do grupo de garotas do meu lado sobre o tamanho do pau dos caras que elas estavam saindo. Essas coisas que eu sempre critico, mas sempre faço igual.

Mas espera.
Porque que eu tenho que continuar sendo essa chata? Porque que eu tô assim tão amarga mesmo?
Vamos cavar um pouco mais.

Pensei um pouco sobre porque eu não tenho amigas mulheres, enquanto 98% das meninas tem. Eu lembro de ter amigas na infância. No máximo no inicio da adolescência, mas fui perdendo elas ao longo do caminho por algum motivo ou outro.

Tinha a Bruninha, minha primeira amiga. Acho que fomos melhores amigas pra sempre por uns 10 anos. Mas… Não é diferente a amizade quando somos crianças? Não é tão menos cheia de interesses e competições e dependência? É simples e puramente amizade, vontade de rir juntos, sem necessariamente ter nada em comum além de tempo pra brincar depois da escola. É mais partilha, mais cumplicidade, mais verdade. E apesar de eu ser água e ela ser vinho, o dia ia embora com tantos pega pega, escolinha, Barbies e Sandy & Junior. Às vezes a gente falava de garotos. Os da escola, os da rua. Tinha o diário, as canetinhas coloridas, as trocas de correspondência com meninas de outros lugares. Tinha essas coisas. E me parece que era bem mais simples.

E depois que eu comecei a ter mais amigas, tudo começou a complicar.
Dava-me um desconforto e eu só fui perceber bem mais tarde que eu não precisava ter beijado aquele menino na 6ª série só porque todas as meninas já tinham feito isso. Eu não precisava ter pintado tanto as unhas, e ter comprado melissinhas cor-de-rosa. Eu podia ter terminado minhas histórias que aquela professora de português me incentivava a escrever. Eu podia ter ido mais pra aula de piano, ao invés de ficar preocupada com o piercing no umbigo que eu queria colocar porque estava na moda e todas as meninas tinham.

Porque será que eu passei quase toda a adolescência tentando ser essa menina e, só depois que todo esse tempo já tinha sido perdido, percebi que não dava certo?

Aos poucos, as amigas iam se distanciando. E depois de já estar bem mais de saco cheio de todas as festas do pijama e de ficar falando dos gatinhos da malhação de 2001 só pra fazer parte do Clube da Luluzinha, era natural que isso acontecesse. É por isso que, por um grande espaço de tempo, eu também aprendi a ser sozinha. E foi aquela parte mais escura dos anos 2000. Aquela parte mais janela fechada, mais franja na cara, mais roupa preta que, se serviu pra alguma coisa, foi só pra melhorar meu conhecimento musical.

Ta bom pro início da noite, professora de português?
Vamos lá que eu tô só na Peixoto Gomide.

E que tanto eu tava nervosa com a vida, hein?
Tem a ver com essa adolescência e as amigas? Não tinha mais! Eu sei disso, foi só uma reflexão solta. Tava difícil ficar muito tempo no presente esses tempos, e também, eu queria achar um culpado pela raivinha, pelo mau humor, pelos choramingos e pelos textos reclamões. Confesso que fiquei um pouco perdida.

Como quando você começa a ser triste e, depois de uma vida de tristeza, se alguém te perguntar porque você tá triste, você nem sabe mais. Vai embolando tanta neve que no final do morro você já ta soterrado, sem saber porque caiu, em primeiro lugar.

Parti lá pros começos de ser adulta. Sabe quando você faz 18 anos e pensa que cresceu?
Poderia ter vindo de lá então? Faria mais sentido, tava mais próximo. Mas nem tanto…
Apesar de tudo, depois que comecei a pensar sobre essa fase, até que dei umas risadas.

Como não lembrar de todas as coisas bizarras e engraçadas. Será mesmo que amargura veio daí, então?

– Teve aquela vez que eu fui nadar no sítio da Helen, e beber cervejas e jogar conversa fora só porque estava sol. E tinha esse menino careca e meio gordinho que não perdia a oportunidade de me jogar umas cantadas bregas e engraçadas. Eram tão cafonas que não dava pra acreditar que ele estava falando sério, por isso, eu sempre ria e continuava a tentar nadar, ou a beber minha cerveja. Eu queria ficar sozinha vendo a céu laranja do final da tarde, deitada na minha canga fumando um cigarro e lá vinha ele importunar. Mesmo assim, pra mim era só pra jogar papo fora, só porque ele não tinha mais o que fazer. Eu não sei qual foi o momento ou o que eu disse que confundiu a cabeça desse menino. Quando finalmente anoiteceu, fui pro quarto tomar um banho, e quando saí, meio com cabelo na cara, meio escorregando, ele tinha me preparado uma surpresa, que… Pra dizer o mínimo, envolvia uma toalha e uma ereção.

– Teve também uma vez que eu estava no meu bar preferido dos 20 anos, fazendo minha coisa preferida dos 20 anos que era dar uns amassos em algum carro, e esse menino resolveu dar ré, quando eu já estava sem roupa, e acabou por bater no táxi descendo a rua atrás de nós. E depois disso, um aglomerado de gente, incluindo todos os meus conhecidos do bar, começou a se formar em volta do carro.

– Um ano depois, eu e meu carro velho resolvemos sair pra beber naquele mesmo bar favorito e na volta, eu já mais fora desse planeta do que os extra terrestres, entrei numa contra mão e bati de frente com um outro carro. E essa não é nem a parte engraçada da história, porque depois do estrago, eu e meus amigos, tão bêbados quanto eu, empurramos meu carro velho até um terreno abandonado (pra tirar ele do meio da rua) e voltamos de ônibus pra casa. E essa não é nem a parte mais engraçada ainda, porque depois que acordamos, ninguém se lembrava aonde tínhamos deixado o meu carro velho.

E etc, etc, etc…

Não podia culpar os 20 anos.
Além do mais. Depois de ter sido tão melancólica por tanto tempo na vida, com as crises existenciais da adolescência, passei boa parte dos 18 aos 22 fazendo merda, me perdendo, me achando, bêbada, na rua, na Europa, do outro lado do planeta. Em marte, nos fuscas, nos sítios regados a vinho barato e cheiro de cigarro. Na lua. Na Pedra da Lua. No mar.

Quem viveu preso, quando é solto, quer fazer de tudo.
Será que eu fui muito sedenta, então?

Não posso ter sido. Pra qualquer pessoa, eu fui e sou a jovem de 20 e poucos mais normal da história, mesmo com as maluquices e tudo mais. Concluí.

Quando eu já tava lá perto da Dona Antonia, minha mente já estava um pouco gasta de passar pelos últimos dez anos que nem um flash (demorou uns 15 minutos), como se eu tivesse prestes a morrer e então parei pra ver qual era a boa daquela rua. Qual bar eu podia entrar pra finalmente anestesiar essa cabeça pensante com um pouco de vodka. Não era minha intenção no início da Rua Augusta, mas depois de tanto caminhar e viajar no tempo, tava na hora de descansar.

E não pensava em mais nada com nada quando encostei naquele carro pra ver o movimento, pensar se voltava pra casa, ou se esperava a fila quilométrica com os outros jovens e seus amigos. Que mal poderia haver em ficar ali alguns minutos só olhando praquele monte de gente passar? Acho que nenhum. Mas já tinha perdido o fio da meada, aquela vontade de ver de onde estavam saindo meus textos dos últimos 6 meses. Pensando bem: Foda-se! Me deixa curtir essa amargura, me deixa ser chata! Que que tem?

E eu não tenho, então, esse direito? De ser mal humorada, de ser mal amada, de ser essa velha reclamona, nem que seja por esses tempos? Eu sabia muito bem de onde vinha isso, e porque que eu fiz tantos rodeios? Não era da infância, não era da adolescência, muito menos dos 20 e poucos que, sejamos sinceros, foram e são legais pra caralho. Tinha nome, rosto, personalidade e tudo. Chama-se “o último menino”. Os últimos. Os todos dos meus 20 e poucos acabaram me deixando assim meio descrente, meio sem saber se todo aquele romantismo que eu acreditava quando era mais nova era verdade. Nada disso era palpável pra mim, e amor, e cumplicidade, e pet names. Que grandessíssima bobagem!

Os textos? Eles eram o reflexo de noites e mais noites ouvindo Fiona Apple, a mais reclamona entre as cantoras.
E quer saber… No final das contas, acho que cavei e cavei e não cheguei a lugar nenhum.

Por enquanto.

Aula

Eu já estava nauseada. Não sei se era porque todos os números escritos a minha frente não faziam sentido nenhum, ou se era porque a própria lógica não tinha lógica.

– É lógico que ele não te ama mais.
Disse o lado esquerdo para o lado direito do meu cérebro.

Porque isso é lógico? O lado direito perguntou durante a aula de matemática. Acho que acabei confundindo as matérias, porque dali a exatos onze minutos começaria minha aula de gramática sobre homônimos.

Nunca pensei que minha cabeça fosse se confundir tanto. Depois de você, matemática não tem sentido. Não vai para a esquerda nem pra direita. Talvez vá para a torta. E eu nem sei fazer torta, detesto cozinhar.
Foi isso que você fez com o meu cérebro. Não era lógico que você não me amasse mais. Nada mais era lógico nessa cabeça.

– A raiz de dois é irracional.
Isso era obvio pra mim. Tudo entre nós era irracional. Se eu tivesse confiado na minha razão, não tínhamos construído uma história pra começar. Não haveria guerras, nem dias D, nem tratados de paz.

Nossa raiz chegou ao mínimo divisor comum. Não podia se dividir entre mais nada. Então não era mais nosso, era de cada um. Um denominador sem numerador.
E eu tinha te denominado meu coeficiente. Acho que era mais ineficiente tamanha era a sua incapacidade de se enraizar.

Eu não conseguia me concentrar. Dava náuseas só de pensar em regra de três. Não quero dividir você, embora você não seja mais meu expoente. Não me eleva a mais nada.

Se houvesse razão, para começar, haveria relação entre nossos valores. Acho que estou chegando à lógica com esse pensamento, enfim. Então continuei nesse raciocínio. Um mais um é dois? Se forem grandezas proporcionais, quem sabe. Se forem desproporcionais dá menos um.

Usar propriedade distributiva? Do que você está falando? Não faço nada além disso na vida: distribuir amor. Você que fracionava. Até quando era um sobre um.
E continuava a ter náuseas.
A lógica nunca chegava. Não conseguia resolver o xis. Nem com bhaskara. Mas acho que essa aula é amanhã, quando o xis for ao quadrado. A maldita geometria.

Tentando chegar ao produto, na primeira pessoa do plural, éramos singulares. Não havia nada que se pudesse comparar. Porque deveria ser lógico, então, que você me subtraísse de forma tão radical? Ainda não encontrei a lógica. Concluí.

E as náuseas continuavam, como uma dízima periódica. E perdi minha potência. Também não devo ter conseguido te elevar a nada.

Você virou uma planície quando entrei na aula de geografia. Sofreu erosão, se desgastou.
– Uma planície pode virar montanha de novo? Perguntei.
– Só se ela se dividir em dois.
Odiei essa resposta.
Então chega!

Racionalizei do meu lado direito. Para de tentar impor essa lógica sobre mim. Fiquei sofrendo a força da gravidade. Era grave demais, me da licença. Me deixa estudar!

Sem lógica, sem sentido, sem matemática, gramática, problemática.

Me empresta a borracha, então? Um corretivo? E chega de rasurar esse caderno.

Pedras nos bolsos

Precisava desembaraçar meus cabelos, desfazer aquela mala, por as roupas nos cabides. Varrer as migalhas de pão, as lagrimas pra debaixo do tapete e desempoeirar aquele coração. Precisava montar minha cama, colocar lâmpadas, fazer as unhas. Colocar as coisas no lugar. Parar de flutuar no tempo.

Emprestar um esfregão, lavar a sujeira emocional. Começar na lousa limpa. Devolver o esfregão e não mais precisar dele. Parar de flutuar no tempo.

Precisava sair. Ver um pouco de gente, ver um pouco de movimento. Precisava ser guinchada pra fazer tudo isso. Parar de flutuar no tempo.

Precisava lavar aquelas louças, guardar meus sapatos. Apagar a borracha todos os rabiscos feitos a lápis e deixar-me ser escrita a tinta. Colocar os pés no chão limpo.

Parar de flutuar no tempo.