Sa Pilipinas: Parte 4

Boracay

Qual é a palavra para o lugar mais bonito em que já estive? Eu poderia emprega-la com propriedade. Boracay é simplesmente deslumbrante. No dia 13 de fevereiro saímos de Manila, pegamos um avião e fomos para Boracay, um pedacinho maravilhoso das Filipinas. Não tínhamos reserva em hotel, esperamos chegar la para resolver.

Chegamos, descemos do avião, pegamos um barco e estávamos dentro do paraíso. E la vamos nós procurar um lugar pra ficar. De cara já encontramos um moço que nos ajudou – carregou minha mala e tudo, e nos arrumou um hotel bem baratinho que era, meio longe da praia, no 4º andar (de escadas assustadoramente ingrimes), mas estava de bom tamanho, afinal não pretendia passar muito tempo no quarto. Até esta altura, estávamos dentro da cidade, que é, como sempre, aquela loucura de triciclos passando por todos os lados, eu mesma peguei um pra chegar mais perto da praia. Assim que deixamos nossas malas no quarto, falei “vamos logo, não quero perder um momento deste lugar”. Eu já tinha visto fotos de la de um amigo filipino, a bordo, e fiquei maravilhada só de olhar assim, uma imagem dentro de um computador.

Fomos pra beira da praia. E foi quando eu senti aquela vontade de ficar ali, só olhando, por horas. A areia é tão clarinha, combina perfeitamente com aquela água verde, bem verde e absolutamente limpa, tão clara que era possível ver tudo abaixo. Na realidade, Boracay se resume a um enorme corredor de tendas, hotéis e barzinhos a beira da linda, linda praia (é preciso mais de um linda pra adjetivar aquela belezura!). No mar, caravelas e barcos, que pareciam que só estavam ali pra completar o visual.

O que mais me chamou a atenção la foram as cores. Quem não sabia melhor poderia ter achado que eu estava numa viagem de LSD. Não há comparação com ver em uma foto. Quando meu amigo me mostrou as fotos, achei lindo, mas ver pessoalmente é formidável. Sim, tudo isso foi o que senti nos meus primeiros minutos lá.

E então, estendemos a nossa canga, e eu fui logo dizendo que não ia entrar na água. Afinal, todos sabem que eu nunca entro na água. Gosto de praia, pra ficar meditando na areia, lendo, olhando o vai e vem de gente. Mas não da pra resistir! E que água maravilhosa. Fiquei horas por la. Depois disso, bons castelos de areia, sereias, tartarugas e muito mais. Foi uma tarde linda com tudo que amo: ele, beleza, tranquilidade, algo novo.

A noite resolvemos conhecer um barzinho dali. Fomos ao Juice bar. É fofo, puffs no chão, meia luz, caipirinha, o que mais posso pedir? Adoro esse tipo de bar estilo informal (chinelo, cara limpa e gente feliz!). Chega de maquiagem e salto, gosto mesmo é de pé na areia.

No outro dia, nosso casal de amigos chegava. Esqueci de mencionar, no dia 14 de fevereiro é comemorado o dia dos namorados, nas Filipinas, assim como nos EUA, o Valentine’s Day, por isso marcamos essa viagem de dois casais. Então eles chegaram, já haviam visitado Boracay diversas vezes, por isso, nos tiraram daquele muquifo onde nós estávamos hospedados e, incrivelmente, nos levaram pra uma pousada linda, de frente para a praia. Ficamos em uma cabana muito da fofinha pagando o mesmo valor – mágica, no mínimo.

Fomos almoçar juntos, conhecemos o hotel muito luxuoso da cidade e ganhamos um almoço for free! A tarde fomos pro Zorbing! Eu também não sabia o que era, mas descobri. Zorb é uma bola enorme feita de uma espécie de plástico. A gente entra nela, te prendem com cintos de segurança e te jogam, e você sai rolando até aparar numa piscina. Sim, parece e é muito divertido!

Depois, fomos andar de quadriciclo, pena que não podíamos apostar corrida (eu ganharia com certeza!). No outro dia, fomos fazer um passeio de barco, snorkeling e o que tenho direito! Sim, eu vi o Nemo! Sim, eu não sei nadar por isso fiquei a maior parte do tempo paralisada debaixo d’agua. E também vi a Dori. Eu vi tanta coisa! Nunca tinha feito isso. E aquela água muito verde, a gente estava no meio do oceano e se viam as pedras no fundo. Incrível! Ficamos a manhã toda assim. Depois, fomos passear pelas lojinhas e os meninos foram pro quarto beber uma cervejinha enquanto as meninas foram deitar na areia e pegar um bronze. Fiquei horas sentada na areia, olhando pra tudo, mais uma vez parecendo uma louca de ácido e percebi que quase não haviam turistas filipinos, a maioria dos turistas eram europeus. Fiquei fazendo uma coisa que eu adoro: tentando adivinhar de onde as pessoas são. Gosto de olhar fisionomias, maneiras e tentar dizer de onde as pessoas vêm. Muitos, mas muitos norte europeus. Dava pra perceber porque estavam todos vermelhos, queimados de sol. Muito loirinhos e branquelos, que já estavam há tempo debaixo do sol. Também se via muitos coreanos. Aprendi a diferenciar asiáticos com meu namorado, coreanos tem os olhos mais “abertos”. Enfim, foi uma tarde imensamente agradável. E, uma massagem depois, fomos comer num restaurante típico Filipino, com arroz sem tempero de colher e garfo, como tudo deve ser.

Depois resolvemos fazer o que chamam de “Bar Hopping” e que ideia!

Bar Hopping é a “arte” de pular de bar em bar numa mesma noite. Um drink aqui, outro la, e assim até ficarmos exaustos. Mas poxa vida, precisávamos conhecer de tudo e só tínhamos mais aquela noite. No primeiro bar, música ao vivo, que bandinha mais simpática. Alguns gringos subindo no palco pra dar uma canja e tal. Eu, que não largava minha preciosa e brasileira caipirinha, só nesse bar tomei 3.

Próxima parada: Um bar no estilo balada louca. De frente com a praia, muita musica eletrônica pop bem alta, gente dançando na pista, se pegando e etc etc. Senhoras e Senhores, a brasileira em mim gritou! Puxei minha amiga filipina e comecei a ensinar nosso gingado. Continuei nas caipirinhas, queria ser patriota. Mas aí, vimos no cardápio um troço chamado “Adios Mother Fucker”. E porque, em nome de Jesus, eu pedi 2 desses? Era um copo aaltíssimo e azul com Vodka, Rum, Gin, Tequila, Curaçao Blue e Soda. Pense numa mistura diabólica!

Eu, que já tinha bebido 6 caipirinhas, já estava bebendo cerveja Red Horse (uma cerveja filipina, muito forte) no bico da garrafa, surtei e tomei 2 Adios Mother Fucker. No final fomos a 4 bares naquela noite (mas eu só me lembro de dois). Não faço a menor ideia de como e onde eram os dois outros bares que fomos.

A última cena que vem a minha cabeça é a de mim mesma cruzando com meu namorado no banheiro enquanto eu vomitava na pia – talvez, mas só talvez eu tenha usado o banheiro masculino a noite toda. No outro dia, acordei toda molhada na cama, com o joelho absolutamente muito esfolado e grudado no lençol. Meu namorado e nosso casal de amigos disseram que me perdi depois do segundo copo daquele drink do capiroto, enquanto dançava muito sensualmente com todos os caras da festa e levantava meu vestido (mostrando que estava, de fato, com uma calcinha fio dental.

Depois disso, fiz o mesmo nos outro dois bares e na volta, resolvemos andar pela areia até chegar a cabana. Inventei de correr e adivinhem quem quase quebrou a perna? Sim, fui eu! Meu namorado me pegou e me colocou no ombro. A essa altura, meu “tomara que caia” já tinha caído, de fato. “Me poe no chão, me poe no chão, eu to bem!” eu gritava. Meu pedido foi atendido, voltei a correr e a cair e isso se repetiu por 5 vezes. Sim, foi a PIOR ressaca da minha vida! O pior é que tínhamos de pegar nosso voo na manhã seguinte. Como um zumbi, tomei meu banho de 3 horas, vomitei por 30 minutos e fui embora. Achei que ia morrer, por 2 dias. A ressaca desse troço azul e de cerveja filipina, minha gente, não é brincadeira.

Mas, posso dizer que sobrevivi a Boracay e que foi lindo, muito e muito lindo ter estado la!

Continua…

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Sa Pilipinas: Parte3

Comidas e comidinhas

Eu comecei a ser chata com comida em meados de 2009. Nesta época tive um surto anoréxico, virei vegetariana ao ponto de me embrulhar o estômago ao sentir cheiro de carne. E emagreci, fiquei fresca assim por mais de um ano. Aí embarquei pra trabalhar em um navio de cruzeiro e nada nunca mais foi da mesma forma. Vegetariana de verdade nunca mais voltei a ser. Quando estou aqui em casa, não como carne porque acostumei com isso, mas quando não tenho opção, como. E foi assim nas Filipinas: Que povo pra gostar de uma carninha!

E não, não é comum ter carne de cachorro e essas coisas exóticas. Eles gostam, em geral da carne de porco, aquele frango frito a la KFC e muito peixe. Não se vê muita carne bovina, mas também tem. Mas falar de comida nas Filipinas é um assunto muito delicado. Os Filipinos são um povo que apreciam muito a arte de comer. E comem o tempo todo. Preciso citar que eles comem arroz em todas as refeições, incluindo o café da manha? Geralmente de manha eles temperam o arroz da noite passada com alho, e fritam um ovinho, e eis um belo café da manha filipino: arroz frito com alho, ovo frito e alguma carne frita. É, assim.

Além disso, Qualquer programa de comida que preste na TV já passou pelas Filipinas. E o que eles SEMPRE provam? E o que é mais famoso? O Balot. É o ovo de pato, com o patinho antes de ele virar pato por completo, entendeu? Aí cozinham isso e fica parecendo um ovo cozido com umas gosmas pretas em volta. Gostoso, pra quem curte um ovo cozido e não liga pra aparência. Porque sim, parece muito nojento, mas o gosto não é ruim. Se você comer no escuro, beleza.

E é vendido em qualquer esquina. Sabe quando você está voltando do trabalho, bate aquela fome, e você para na tia da esquina pra comprar um salgado? Então, lá você para na tia da esquina pra comprar um balot. Também, em qualquer esquina, existem barracas de churrasquinho (com focinho de porco, tripa de frango, chouriço entre outras coisas), bolinho de peixe, ovo cozido, pintinhos coloridos (ta, isso não é pra comer, mas achei bizarro ver uma barraquinha de pintinhos coloridos a venda pras crianças na saída da igreja). E como eu fui pra la de braços abertos, resolvi deixar minha chatisse de lado e comer de tudo mesmo. Meus preferidos foram: Lumpiang Toge, que é uma massinha crocante enrolada em volta de um vegetal, que se chama toge; Pastillas, que parece um beijinho, só que sem o côco; Chicharon, que nada mais é que o couro do porco beeeem crocante, que TODOS comem freneticamente por la.

Socializando

Quando eu estava no navio, o que mais se via eram casais de brasileiros e filipinos. Geralmente a menina era brasileira e o cara filipino. Porque será que esses dois povos combinam tanto? Meu palpite é, em partes, porque, Brasil e Filipinas, apesar de estarem cada um de um lado do mapa, são países muito semelhantes. Em geral, se no Brasil somos um povo caloroso que recebe visitas muito bem, nas Filipinas não é diferente. Eu até me arrisco a dizer que o povo Filipino tem uma receptividade melhor que o povo brasileiro.

São, em geral, simpáticos e educados. Infelizmente, só posso relatar esse aspecto do ponto de vista de uma estrangeira: sempre fui muito bem recebida por onde passei. Não sei se é porque eu era “carne nova” no pedaço ou porque eles são assim mesmo. No bairro onde fica o apartamento onde morei, todos me conheciam. Eu, tímida que sou, tinha até um pouco de vergonha de ir comprar algo na venda da esquina, ou ir fazer as unhas no salão, pois sempre queriam puxar papo, sempre estavam sorrindo. Me sentia uma celebridade.

Sendo assim, fazer amizades nas Filipinas é fácil. Depois disso, os hábitos clássicos filipinos de socialização são parecidos com os brasileiros. Eles vão a barzinhos, baladas normalmente, se reúnem em casa pra uma cerveja, etc. Convivi com dois extremos sociais la: jovens e não tão jovens, ricos e pobres. Fomos para baladas caríssimas em Manila e também brincamos de videoke numa casa estranha. As baladas que fui, não tem comparação com as que frequento aqui no Brasil. A Republiq, por exemplo, é uma top balada em Manila. Fica dentro de um shopping de marcas como Calvin Klein e Chanel, onde também fica um cassino.

Dentro do lugar é uma riqueza, desde lustres lindos e sofás que podem ser alugados para um grupo de pessoas. É difícil conseguir um sofá e é caro, por isso fiquei na pista. Quando alguém pedia um champagne, os garçons faziam a maior festa, com luzes piscando e tudo. Geralmente, os shows grandes de música eletrônica que passam pelas Filipinas vão direto pra Republiq. Carrões na porta, gente arrumadíssima, velhos que gastam a vida no cassino, você vê tudo isso lá. Enquanto isso, em Bulacan, sábado à noite era ótimo para reunir o pessoal pra uma sessão videoke e muita cerveja em cima.

Achei interessante como eles bebem cerveja la: Colocam tudo dentro uma jarra com gelo, e em apenas um copo, servem shots de cerveja que vão rodando a mesa. É, todos bebem no mesmo copo. Sempre há uma vasilha com agua pra lavar a borda do copo ao passar de uma pessoa pra outra. E geralmente só ficam os homens. Quando há uma mulher na roda, ela tem seu próprio copo. E assim, ficam, conversando, bebendo “shots” de cerveja até desmaiarem de tanto beber.

E como bebem! Os filipinos não dispensam uma boa bebidinha, todo dia. Meu namorado mesmo é a manguaça em pessoa, eu as vezes não conseguia acompanhar. Pra resumir, os filipinos são um povo quase que idêntico ao brasileiro.

Continua…

Sa Pilipinas: Parte 2

Chegada

Enfrentar 25 horas de viagem definitivamente não é fácil.

Ainda mais quando se viaja na classe econômica, tão apertado, impossível dormir e vem acompanhada de uma dor nas costas que só quem já fez uma viagem longa assim sabe. Voar é o primeiro estágio de uma viagem, por isso começo por ele. Saindo de São Paulo, voei por 8 horas até chegar a Johannesburg. Em menos de 2 horas já estava em outro avião com destino a Hong Kong – 13 horas de voo. Ao chegar no aeroporto de Hong Kong (que é absurdamente gigante – tem um trem pra circular la dentro!), também em menos de 2 horas tinha de estar em outro avião, finalmente, indo para Manila.

Mais 2 horinhas e estava pousando em um dos aeroportos de Manila.

Quando estávamos pousando, eu gostaria de ter prestado atenção em como é a vista aérea da cidade, mas algo parecido com uma pressão nos meus ouvidos não me deixou. Enfim. Pousei. Toda a burocracia para poder finalmente encontrar com meu namorado. Ta bom, não foi tão lindo e poético assim. Fiquei uma hora e meia mais ou menos tentando me achar ali. Meu celular ficou sem bateria e eu havia esquecido o carregador no Brasil: Perfeito! Achei um balcão de informações onde, por obra divina, trabalhava um moço que também tem um Blackberry e estava com seu carregador a mão. Pedi pra ele carregar meu celular um pouco, abri o computador e fui tentar um jeito de me comunicar, pois queria sair dali.

Achei uma amiga filipina online no Facebook, ela ligou para meu namorado e me orientou. Pronto: Descobri o segredo: Nesse aeroporto não é permitido entrar para buscar pessoas que chegam. Aí pronto, saí, o encontrei, beijinhos beijinhos, abraços abraços, VAMOS PRA CASA! Chegamos ao apartamento, sem moveis. “AI MEU DEUS, EU PRECISO DEITAR EM UMA CAMA!”, minhas costas gritavam! Emprestamos um colchão dos vizinhos, banho e cama, digo, colchão no chão. E como faz calor nesse lugar, minha nossa! Quem já pisou em Salvador conhece muito bem lugar quente, mas venha pras Filipinas e seu conceito sobre calor irá mudar, com certeza. É calor, é quente, é totalmente muito quente e abafado! Tanto que praticamente não existem chuveiros elétricos aqui. Minha mãe comentou sobre isso certa vez “Nossa, que país sustentável”. Não, mãe, é apenas desnecessário banho quente, as pessoas aqui morreriam. Dormir à noite é um pouco complicado porque detesto ventilador, mas se o desligo, fico suando litros até morrer de desidratação. Pra resumir, faz calor pra caralho nesse país!

Diferenças entre Manila e Bulacan

Manila é a capital das Filipinas, é uma cidade muito grande, é uma cidade com prédios, poluição, trânsito, coisas lindas e coisas horríveis contrastadas como em qualquer cidade grande, exemplo São Paulo. Bulacan é cidade onde meu namorado mora, fica a 2 horas de Manila e provavelmente ele me xingaria se entendesse português e lesse esse texto. “Não é cidade Grace, é uma província”. Ta, qual a diferença? Como eu não sou tão boa em termos, pedi pro meu namorado me explicar, então, o que que tem chamar de cidade. Bulacan é uma província das Filipinas, como um estado, mas não é um estado. Dentro dele há vários vilarejos, por exemplo, meu namorado mora em San Idelfonso. Ta, é complicado, chega! Bulacan parece um bairro rural da minha cidade no Brasil. Tem galo cantando o dia todo, poucos carros, tudo meio informal, por exemplo, nunca se vê motoqueiros de capacete por aqui.

Por aqui o ar é menos poluído, você não corre o risco de ser atropelado, se dorme com a casa aberta, a noite, normal. Mas também não tem muito o que fazer. Quando estamos aqui, geralmente aproveito pra atualizar meu facebook, falar com amigos e familiares, descansar, economizar dinheiro, essas coisas. Já em Manila, é possível fazer de tudo, assim como em São Paulo, se encontra de tudo. Basicamente, Manila é onde saímos pra nos divertir sem entrar em méritos culturais, já Bulacan é totalmente o oposto.

Transito e meios de transporte

Quem critica o transito no Brasil não sabe como tudo poderia ser pior. Não chega a ser algo como na India, mas é um caos. Raramente se vê semáforos, faixa de pedestre é um sonho, quase fui atropelada diversas vezes. Seta é luxo, não existe radar de velocidade, nem guardas que multam por dirigir sem cinto. Nos não temos carro, sempre utilizamos transportes públicos: Ônibus, metro e, o mais interessante e arriscado: O Jeepney. Jeepney, o mais comum por aqui, é um Jeep daqueles grandes. Na verdade não sei explicar direito, só vendo (abaixo). Os motoristas são sempre duvidosos, aqueles com unhas do mindinho enormes, que dirigem de chinelo, fumando, enquanto cobram o passageiro e gritam seu destino para atrair mais gente. Na primeira vez é assustador, você acha que vai morrer ali.

Eles correm, furam filas no transito, e parecem nunca estarem prestando atenção. Mas os Jeepneys são fofos. Sempre são coloridos, com desenhos, meio bregas, mas icônicos. E é muito barato! Geralmente pagamos 20 pesos (equivalente a aproximadamente 1 real) pra percorrer uma distancia considerável. No final das contas, Jeepney é um símbolo das Filipinas, se vê muito nas ruas, são divertidos, rápidos e baratos. É impossível vir parar dessa lado do mundo e não andar de Jeepney!

Jeepney

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Sa Pilipinas: Parte 1

Esse é o relato de quem foi parar no oriente, procurando o coração. Eu nunca fui convencional. Eu nunca quis que as coisas caminhassem em uma linha reta. Quando falei pra mim mesma “Quero ser turismóloga”, assumi a forma de um pássaro. Não quero morrer sem antes ter visto tudo, não tudo tudo, mas meu tudo. Me permiti embarcar numa viagem onde, durante 8 meses, vivi algo inimaginável pra mim. Que fugia de meu cotidiano chato lá em casa. Resolvi que ia sair pra não ter mais que ver o mundo da janela, e então lá fui eu. Mesmo assim nunca deixei meus valores e meus sentimentos pelo meu lar, e nem nunca vou deixar. Uma coisa não anula a outra. Mas assim, eu fui. O que houve lá, de maravilhoso e de assustador, já contei aqui. O que houve de desafiador libertador é o que estou prestes a contar. Nunca fui inteiramente feliz a ponto de poder dizer isso com autonomia. Nunca fui cem porcento livre a ponto de fazer o que bem entendo. No final, consegui encontrar na liberdade a minha felicidade. E no diferente o meu desafio. É por isso que estou aqui, do outro lado do mundo, sozinha, com mil coisas pra descobrir. Estou aqui porque amo alguém, mas também amo desbravar e este motivo é quase tão grande quanto o primeiro. Amo desbravar tudo que é incerto. Tudo que eu nunca vi, manipulei, ouvi ou senti. Quero ver paisagens. Não as paisagens clichés de hollywood, mas as landscapes menos prestigiadas. Quero ouvir um som novo, e sentir um gosto diferente a cada dia. Percebi que eu sou fã das incertezas e aventuras, que amo. E é por tudo isso que vou começar a escrever aqui o meu diário sobre as Filipinas!
Continua…

Vida a bordo: Parte 4

Dores e mudanças no corpo

Quem sempre foi sedentário vai ler esse post balançando a cabeça positivamente. Eu admito que nunca fui e não sou muito fã de atividade física. O máximo que eu fazia antes de embarcar era dar uma voltinha no quarteirão com minhas cachorras de vez em quando. E sem saber eu estava cometendo um erro enorme. Sair do dia a dia de não fazer nada para trabalhar 12 horas direto limpando dá um choque no seu corpo de uma forma que as dores chegam a ser insuportáveis. Me lembro da minha primeira semana. Todos os dias chegava na minha cabine, deitava e começava a chorar de dores musculares, sabendo que depois de algum tempo eu estaria de pé pra fazer tudo de novo. Minhas pernas não eram mais as mesmas, levantar peso era um sacrifício, não sei nem explicar qual a sensação de doer cada pedacinho do seu corpo. O problema é que você não pode parar um dia e descansar pra valer. Seu corpo nunca está 100% pro próximo dia de trabalho. Primeiro que você encontra uma força que vem do fundo do seu ser pra sair do navio depois do trabalho. Não tem como evitar. Você pensa “Puta merda, eu trabalhei que nem uma condenada pra chegar agora e eu não poder ver lá fora? Nem pensar!” E ai, você se empolga, fica fora mais do que deveria, dorme 3 horas apenas e no outro dia vai bem mais podre trabalhar. Aconteceu isso comigo no meu primeiro Barcelona. Eu era bem novata e ainda me incomodavam muito todas aquelas dores no corpo, mas poxa vida, era Barcelona. Comecei a trabalhar meia noite e terminei meio dia. Quando eram 12h30 eu já estava lá fora. Voltei as 9 da noite e sim, eu tinha que voltar a trabalhar meia noite de novo pra só acabar meio dia. Foi algum espírito do bem que guiou minhas mãos e pés e limpou minha estação. E isso é só o começo. Depois do 3º mês começam os calos. E são tantos. Quando meus pais foram me visitar em Santos pela primeira vez, eu já estava há alguns meses a bordo. Minha mãe se assustou com as minhas mãos. Parecia que eu estava há anos trabalhando naquilo. Depois do 5º e 6º mês também começam a surgir alguns músculos. Me olhava no espelho e meus braços tavam fortes. A batata da minha perna parecia de aço! A questão é que parece que isso tudo é uma “doença” que você só tem a bordo. No dia seguinte do meu desembarque, olhei pras minhas mãos, meus braços e panturrilhas… ONDE ESTÃO MINHAS PROVAS DE QUE ESTAVA ME FUDENDO A BORDO POR 8 MESES???

Pessoas e desembarques indesejados

Por mais que as pessoas a bordo sejam diferentes, existe algo em comum entre todos os tripulantes. Nossos corações têm sede de conhecimento, de dizer sim à vida. Não importa o que digam, quem embarca pra trabalhar em um navio se permite, encara a vida de braços abertos. É por isso que fazemos amizades tao fácilmente a bordo. Parece que nossa vida inteira estivemos procurando pessoas assim, como nós, que são loucos o suficiente para deixar suas casas e ir se matar de trabalhar no estrangeiro. Eu mesmo conheci muitas pessoas incríveis a bordo. Pessoas que poderiam ficar ao meu lado por uma vida toda, não fosse a distancia que nos separa. É muito difícil você chegar em um lugar, não conhecer ninguém e conseguir se divertir assim. Não me imagino em outro lugar curtindo festas e passeios com estranhos e tendo dias tao especiais. Mas uma coisa me deixava sempre triste: O fato das pessoas que eu gostava desembarcarem. É muito difícil você ficar o mesmo tempo que uma pessoa que você se identificou muito a bordo. Eu perdi as contas de quantos amigos eu vi sair pela gangway com o coração na mão. Seja por qualquer motivo, sign off, final de contrato, transferidos… Deixa a gente sem chão. Querendo ou não, é impossível se isolar dentro de um navio. Você precisa de pessoas que te apoiam, que te abraçam quando você ta com saudades da sua família. E como disse, criar laços é inevitável. Mas pra mim o que mais me deixou triste foi o meu próprio desembarque, pois deixei pessoas que mudaram a minha vida lá e a saudade consome a gente!

Cabine e Cabin mates

“Como, em nome de Jesus, você consegue morar aqui, filha?” disse meu pai quando foi me visitar dentro do navio. Minha amiga teve um surto de claustrofobia, alguma semanas depois. Todo mundo quando chega toma um susto com o tamanho da cabine, e pensa que será impossível morar la. Pra completar você divide essa cabine com uma pessoa, e o seu banheiro com mais 3, o que também é complicado. Haja paciência e senso de divisão entre os tripulantes. As pessoas têm hábitos diferentes, ainda mais pessoas de nacionalidades diferentes. Eu morei com 4 pessoas enquanto estive a bordo: 1 Indonésia, 2 Filipinas e 1 Brasileira. Quando cheguei a Indonésia estava lá, e ela foi bem boazinha comigo, mas como eu era novata, achei um monte de coisas estranhas e nojentas, tipo o fato dela cortar a franja em cima da pia e não limpar. Uma brasileira me chamou pra ir morar com ela, que também morava com uma indonésia, assim cada um ia ficar com sua nacionalidade. AH MAS SE ARREPENDIMENTO MATASSE! Sabe quando você vai tomar banho e joga sua calcinha suja na tampa da privada? Sabe quando você penteia seu aplique e deixa as mechas todas no chão? Sabe quando você fica semanas sem jogar o lixo fora? Sabe quando você chega no seu quarto e EXPLODE (única explicação para ter roupas por todos os cantos)? Eu também não sei porque eu não faço nada disso, mas MINHA CABIN MATE FAZIA! E isso não era nada. Eu tinha a sorte de não dividir meu banheiro com a cabine do lado, ou seja, só nós duas usávamos o banheiro. Mas preferia dividir meu banheiro com o corredor inteiro! Eu estava cansada de um dia inteiro e ao chegar na minha cabine… Dava vontade de chorar, sair correndo e gritando. E eu não conseguia dormir. Era barulho de secador o dia todo, era televisão alta, gente ligando a todo momento. Não havia quem conseguisse viver em paz naquela cabine. Pra completar, a menina falava sozinha o tempo todo. Eu, como trabalhava de madrugada, dormia durante o dia. Estava no mais profundo do meu sono quando a cidadã entrava e batia a porta e começava seu dialogo consigo mesma. Era de morrer. Fora as vezes que presenciei ela transando com pessoas na cama de baixo, como se eu não tivesse dormindo lá. E depois de 2 longos meses me mudei pra cabine de uma filipina que era a coisa mais fofa do mundo. Minha melhor cabin mate. E aí sim tive paz. Depois disso, ainda morei umas duas semanas sozinha quando ela foi embora e depois uma outra filipina se mudou pra lá, mas 2 semanas depois eu desembarquei. Isso tudo significa que além de ser difícil se trabalhar em um navio, também é muito difícil MORAR.

Acontecimentos estranhos

Certa vez me vi envolvida numa trama de novela mexicana. Tinha enredo, personagens e capítulos. Eu havia acabado de embarcar, e obviamente procurava ser simpática com todos, afinal queria me enturmar. Um suposto casal gay se sentiu intimidado (ou whatever) com a minha presença, pra resumir. O vilão da história, a princípio me chamou de canto e disse que “eles já estavam envolvidos romanticamente há algum tempo e que ultimamente estavam tendo muitas brigas, e na maioria das vezes o motivo era eu”. Dizia também que, por ser o primeiro relacionamento homossexual do mocinho da trama, ele estava confuso. No momento em que ouvi estes argumentos, fiz uma cara de “what?” e perguntei “você esta querendo que eu corte relações com ele, é isso?” numa boa, tipo achando tudo muito BIZARRO, porque até onde eu sabia, o mocinho da história não era gay e pelo menos era isso que ele clamava. Ele me disse “seria bom, se você pudesse, obrigada!”. Bom, tudo bem, não quero me envolver em algo assim. Nesse ponto, eu já era a mocinha ingênua da história, que só queria o bem de todos os personagens, ainda que coadjuvantes. O mocinho, no dia seguinte, veio que contar que sofria sérias perseguições (inclusive, em algumas ocasiões, sexuais) do vilão e que estava ficando com medo, porque, afinal, ele não era gay (de fato) e também não queria se envolver com alguém assim, digo, com sérios distúrbios de personalidade e que de forma alguma estava envolvido com ele. Pensei pra mim “MAS QUE PORRA?” e resolvi ficar na minha. Um terceiro também estava comigo na confissão do mocinho e de alguma forma, nosso querido vilão ficou sabendo de toda essa conversa nossa. No outro dia, passei por um dos lounges do navio e fui abordada estranhamente pelo vilão que, quase que sussurrando me deu o seguinte conselho “se eu fosse você, sairia do caminho de alguém como eu. Voce não me conhece e as coisas podem ficar bem feias se você não se cuidar”. Achei que no momento ele ia me chamar de “racha” só pra completar o pití homossexual. Enfim, fiz a egípcia e fui sentar no meu banquinho pro meeting da manhã. Ele se sentou na minha frente e aparentemente não queria me deixar escapar, ele queria se fazer entender, já que eu sempre mantinha minha cara de “não sei do que você esta falando” (porque eu realmente não sabia). Até que em certo ponto do “tome cuidado comigo” ouvi ele ameaçando meu então namorado na época dizendo que poderia, muito facilmente, destruir meu relacionamento. Pronto, fiquei puta. “Meu amor, é o seguinte, eu não tenho medo de você caso você não tenha percebido, você é uma aberração do mundo que acha que namora um cara, ai dentro do seu mundinho na sua cabeça. Eu não vou deixar de falar com ele porque vocês pseudo namoram. Ponto, você entendeu?” Ta, começamos a discutir. Eu nunca havia mandado alguém se fuder com todo meu coração daquele jeito. As pessoas em volta abismadas com aquela situação, já estava vendo a hora que a bicha ia me furar com o salto. No final das contas, nos passamos mais 5 meses trabalhando juntos, sem trocar sequer uma palavra. Passou algum tempo e eu fiquei com o mocinho mesmo, no maior carão. O que quero dizer é que… O QUÃO BIZARRO É ISSO? Só pra citar outras peculiaridades, enquanto estive a bordo, uma pessoa foi desembarcada por roubar equipamentos do spa, duas por overdose, uma gravida e outro porque espancou a namorada. Ta, é tipo um hospício flutuante.

Vida a Bordo: Parte 3

Warning

Warning é a advertência de bordo. A cada merda que fazemos, da-lhe um warning. Antes do Warning existe o Notice, juntando 3 vira um Warning, juntando 4 ou 5 (dependendo das circunstâncias) é desembarcado, demitido, mandado pro olho da rua. Quem esteve a bordo de um navio, sabe: Quantas pessoas são desembarcadas por exceder o numero de Warnings. Eu levei 3 Warnings em 8 meses. Todos pelo mesmo motivo: Boat Drill. É o tipo de Warning mais imbecil, perder um boat drill (!). Muita gente “economizava” Warnings pro final do contrato, pra sair estando em Port Manning (Port Manning é o plantão de bordo. A todo momento é necessário ter uma porcentagem de tripulantes a bordo e, por isso, um dia por semana não se pode sair do navio), ou fazer uma festinha na cabine. Também tomei 1 Notice, e esse por um motivo mais real: Não limpar direito minha estação e chegar 2 horas atrasada. Na verdade o motivo de eu não limpar direito as coisas veio de gaiato. Numa noite eu me rebelei e mesmo tendo que trabalhar depois resolvi ir em uma das crew parties. Bebi um poquinho e fui trabalhar meio estranha. Meu chefe viu que eu tinha caído da escada do locker principal e já desconfiou. No dia seguinte, meu manager me chama e me da um sermão. Nem pude reclamar porque eu tinha chegado atrasada e bêbada pra trabalhar. Fora isso, existiam varias situações que levavam ao Warning, como andar sem crachá, xingar um superior, ser pego de mamagaio, manter coisas do crew mess na cabine, sujeira na cabine, fumar em local que não era permitido, usar drogas, roubar, matar, etc.

Crew Party e o dia seguinte

Era de praxe! Tomar café da manha as 6h30 em dia pós-crew party era risada na certa! Pra quem trabalhava de madrugada, como eu nos primeiros 5 meses do meu contrato, era nosso prazer ver aqueles olhos murchos e cabelos bagunçados de manhã, já que não podíamos ir às festas, pois estávamos trabalhando. Era gente que esquecia name tag, parecia que tinham tirado o uniforme de dentro de uma garrafa. Os zumbis andando pelo navio, quase como se não tivessem alma. Fora as pessoas que nem iam trabalhar, tomavam warning ou se fossem amigas do médico rolava até um day off. Depois quando mudei de horário, eu gozava da vida boa de só entrar pra trabalhar meio dia. Mas mesmo assim, umas duas vezes me peguei vomitando de banheiro em banheiro o expediente todo. Tenho tanta sorte: entrava para trabalhar meio dia e trabalhava em banheiros. Engulam essa, seus babaloos!

A brata da mala de volta

Reclamei durante o meu contrato inteiro de ter que trabalhar pra caralho todo dia. E vocês que leram posts passados sabem que a bordo se está em brata o tempo todo. Mas nada se compara a brata que é fazer as malas para desembarcar. Eu, ao chegar, carregava uma mala grande e uma mochila nas costas. Em oito meses se adquire tanta porcaria que só quem já trabalhou em navio de cruzeiros sabe. Quando faltava um mês pro meu desembarque eu dei uma olhada na minha cabine e cheguei à conclusão que teria que comprar mais uma mala pra levar as coisas. No final das contas acabei comprando 2 malas. E todas foram lotadíssimas. Mesmo eu deixando meu travesseiro, toalha, mochila e mil produtos de beleza e perfumaria pro meu namorado, não havia um ser nessa Terra que conseguisse fechar minhas malas. Primeiro que uma das malas era só pra presentes pro povo daqui do Brasil. Ao longo do meu contrato fui comprando coisas pra família e pros amigos. Quando fui ver, era tanta “lembrancinha” que ocupou uma mala inteira. Também, você se da conta que perdeu muitas coisas que levou ou comprou por la. Me pegava pensando “onde será que ta aquela minha blusinha azul que eu trouxe?” Sei que demorei mais ou menos uma semana pra fazer as malas. Mas veja como experiência faz a diferença. Quando acabei, depois de ter sentando na mala pra fechar o zíper, chamei meu namorado, com aquela cara de “você vai ter orgulho de mim” e mostrei meu trabalho, ele mandou eu abrir a mala, deu uma olhadinha de 30 segundos e disse “da suas malas aqui” e arrumou do jeito dele, e eu só olhando. Sobrou um pouco de espaço! Ele, depois de 3 contratos, já sabia muito bem dessa brata.

Crew Show

O Crew show é uma das coisas que mais sinto saudade! Uma vez na semana, alguns tripulantes fazem um show no teatro para os passageiros. Alguns cantavam outros dançavam e tinha até um chinês que lutava Karatê. E era tão divertido fazer parte desse grupo de pessoas. Era um dos momentos mais divertidos da minha semana. E pra completar nossa alegria, 30 euros por show. Não é o máximo? Era o jeito mais divertido de se ganhar dinheiro extra a bordo. Eu ia lá, me arrumava, fazia uma dancinha, me divertia pra caramba e ganhava por isso. Demais! E o pessoal que  participava do show era bem bacana. Era o mesmo show, sempre, se chamava “I Have A Dream”. As vezes mudavam as pessoas, conforme o pessoal ia desembarcando, mas no geral era o mesmo. Eram duas danças: Uma indiana e uma russa. Todas bem simples, mas muito divertidas. No geral, o Crew Show tinha mais Filipinos e Brasileiros no seu cast, e as vezes surgiam umas outras nacionalidades. Não tinha ensaio, portanto nas minhas primeiras vezes eu errava muito. No meu primeiro Crew Show eu errei tanto a coreografia que uma Alemã louca que dançava com a gente deu um pití enorme dizendo que “eu fiz todos passarem vergonha” (Ela até chorou, pasmem!). Também fiquei envergonhada, mas no final eu ri mais do que chorei e esses alemães é que são uptights demais e não sabem se divertir. Resumindo: Crew Show, que saudades!

Vida a Bordo: Parte 2

O dia de Salário e a depressão

Como você leu no texto “um dia de trabalho a bordo”, por mais que todos os tripulantes sejam adeptos do famoso e importante Mamagaio, muito e pesado se trabalha dentro de um navio. O mais gratificante é trabalhar 30 dias, receber seu salario certinho e bonitinho e pensar: “Poxa vida, valeu a pena todo meu esforço!” Okay, isso é tudo mentira! Sim, o salario sai no dia certo, mas você sempre (eu quis dizer SEMPRE) acaba, de alguma forma, recebendo bem menos do que estava esperando. Seja desconto do seu Crew Pass (que se explica com noites e mais noites no bar, bebendo), alguém que comeu sua comissão, seu Helper que não veio certo. Nos meus 8 meses a bordo, juro, nas 8 vezes que fui ate a fila do salario, nunca vi alguém sair satisfeito. Eu mesmo vivia reclamando dos helpers errados! E sempre, sempre dava confusão.

As diferenças culturais

Ta bom, vamos almoçar. Sentamos a mesa, com nossas bandejas e começamos o que eu achava ser uma das melhores partes do meu dia: uma refeição entre os amigos. Dois minutos depois, MEU DEUS DO CÉU, que cheiro é esse?! Vem vindo do micro-ondas, que porra é essa que estão fazendo la? Cheira a merda com carniça. Não passa dois segundos alguém aparece reclamando. Outro levanta da mesa, puto, gritando que “não há condições de se comer naquele fedor”. Pronto, nossa alegria acabou, nós comemos o mais rápido possível pra sair daquele lugar impregnado com o cheiro daquela comida que aquela pessoa esta fazendo. Certamente essa pessoa acha essa comida deliciosa. Só isso explicaria fazer aquilo todos os dias e espantar centenas de pessoas do crew mess. Bom, isso se chama DIFERENÇA CULTURAL. Enquanto na Indonésia esse tempero é cheirosíssimo, no Brasil, nós temos vontade morrer com isso entrando narina acima. Na verdade a diferença cultural mora, em grande parte do tempo, no refeitório. Comer de colher é garfo é uma coisa que aprendi com meu namorado filipino. Minha cabin mate, também filipina NUNCA usava a lavadora de roupas, por isso minha cabine parecia o quintal da minha casa, cheia de varais e roupa intima pendurada. No meu banheiro, ao invés de papel higiênico, uma toalhinha. Faço cocô, me lavo e me enxugo. Meu namorado filipino acha nojentíssimo usar papel pra se limpar, e ainda por cima manter o papel sujo dentro de uma lata de lixo ao invés de jogar no vaso e dar descarga. Sim, o banheiro também abriga diferenças culturais imensuráveis.

As cidades maravilhosas e seus pontos

Contando sobre os cruzeiros temáticos mencionei as cidades que passei. Pra mim, além de conhecer pessoas incríveis, o grande barato de se trabalhar a bordo é conhecer cidades e pontos legais no mundo. Nunca pensei que estaria em um lugar tão longe, que veria pontos tão interessantes em cidades interessantes. Em Salvador, andar naquele elevador lotado que te leva a Cidade Alta era divertidíssimo. Conhecer o Pelourinho e ver aonde o Michael Jackson gravou “They Don’t Care About Us”. No Rio de Janeiro, nada como andar descalça no calçadão de Copacabana. Em Ilhabela, um píer, bem desconhecido era nossa alegria. Competições de mergulho rolavam soltas, mas eu só ia mesmo pra tomar uma cerveja e ficar observando de longe. Delícia andar pelas ruas de Ilheus, fazer compras e tomar o melhor sorvete que já degustei. Ir pra praia de Boa Viagem em Recife e ver a farofada não tem preço. Conheci um monte de partes do Brasil que eu amei, demais! Mas o mais diferente foi conhecer o fora do meu pais, as línguas diferentes, e os lugares tão distintos do que temos aqui. Dubrovinik é um dos lugares mais lindos que já fui! Fiquei encantada com essa cidade, e surpresa, pois não sabemos muito sobre a Croácia e de repente, um lugar fantástico se revela! Barcelona, a incrível Barcelona e a diversidade. É possível encontrar gente de todo tipo lá, é possível encontrar de tudo lá. Palma de Mallorca, linda, onde pretendo fazer meu intercambio para aprender espanhol. Marselha e os barcos a vela, tão fofo. A Catedral de Notre Dame de la Garde, com aquela vista lá de cima, impressionante! Mesmo que eu sempre diga que tenho raivinha da Italia, eu não posso menosprezar seus pontos. Savona é uma cidade simpática. Catania tem prédios históricos incríveis. Veneza, muito alternativa, se você não for pra onde tem água e Genova tem uma praia de pedras bem charmosa. Na vinda e na ida, passar por Portugal, a aconchegante Lisboa e o bacalhau. Funchal e o bondinho, as casinhas quadradas. Quando olho pra trás e vejo os lugares que passei, o sol nascer e se por diante de mim todos os dias, os visuais, tudo isso me faz agradecer a chance que tive de estar a bordo de um navio.



Os points do navio

O Costa Serena é como se fosse uma cidade. Ele é grande, muito grande. No meu primeiro mês eu me perdia toda hora. Se me pedissem pra achar alguma cabine eu entrava em pânico. Me perdia nas crew áreas, nas áreas de passageiro, todo lugar. Não sabia sair, não sabia entrar. Sim, é grande. Mas com o tempo você vai conhecendo tudo. Vai se familiarizando e assim vai conhecendo os points do navio. Quando trabalhava a noite, o point favorito do pessoal era a Padaria. Tinha um amigo que trabalhava la, sempre que dava eu passava pegar um pãozinho de chocolate que ele fazia especialmente pra mim. Já quando trabalhava de dia, sempre fazíamos reuniões no banheiro de deficientes do deck 4. Ainda a noite, o Club Bacco (restaurante pago do navio que abre só a noite) era o point de mamagaio mais visitado. Também sempre íamos bater um papinho na lavanderia a noite, quando já estava fechada. Mas o lugar mais legal pra se ficar de madrugada era o Samsara. Samsara é o spa da Costa. Ele fica nos decks mais altos do navio, no Costa Serena ele fica nos decks 11 e 12. Ele fecha as 10h30 da noite e ai, apagam tudo e ninguém passa por la, a não ser algum segurança de vez em quando. Eu amava ficar la, fosse sozinha ou com amigos, ou ate com meu namorado. No deck 12 tinha um jardim, tão lindo, que ficava tocando musiquinhas de Yoga, que dava uma tranquilidade. Nada a ver com o caos que a gente passava trabalhando. Além do Samsara, meu lugar favorito era o Mondo Virtuale. É a sala de jogos do navio, e eu amava ficar la jogando com os amigos. Claro, era proibido jogar, mas quando não tinha ninguém vendo, a gente ia. E claro, fichas do cassino não faltavam. A gente sempre achava limpandos as maquinas, o chão, etc. Tirando os pontos de mamagaio, existem os pontos que podemos ficar sem termos que ficar nos escondendo de seguranças e chefes. Um deles, e o mais famoso, a Crew Beach. Crew Beach é a nossa área para pegar um sol, entrar na jacuzzi, conversar, fumar, paquerar, jogar uno, olhar o mar, sentir o vento, ver o lado de fora do navio sem sair dele. Lá era realmente um point. Dia no mar, onde estamos? Na crew beach tomando uma cervejinha, bem de boa, fazendo uma marca de biquini. Também, o outro famosão, o Crew Bar. O nosso bar, gostoso tomar um cappuccino lá, tomar uma cerveja, cantar no karaokê e jogar ps3. Mas nada, nada supera as Cabin parties. Muita gente levou Warning ou ate foi desembarcado pelas famosas Cabin parties. É proibido fazer festa na cabine, mas ninguém respeita isso. Hardcore.


A Sindrome de sign off

A bordo todo mundo se fode! Seja um cleaner como eu, ou um recepcionista, um dançarino, um garçom, até mesmo o capitão. De ponta a ponta do navio, se você é da tripulação, esta la pra se foder! E apesar disso, nós conseguimos ter um fundinho de otimismo em nossos corações, evitando reclamações e choramingos, já que literalmente estamos no mesmo barco. Isso é, subliminarmente, uma regra a bordo: Não reclamais para seus companheiros tripulantes. Quando alguém começa a fazer uma reclamaçãozinha aqui, outra ali, mesmo que seja somente sobre o lixo de comida que somos obrigados a comer, ou a nossa cabine que é pequena e quase “imorável” e o mais clássico: sobre salario, podemos dizer que essa pessoa esta sofrendo da temível Sindrome de Sign Off. Quando se tem esse tipo de diagnostico, todo mundo começa a se afastar dessa pessoa, com medo de ser contagioso. E também, é claro porque isso é muito chato. Já é difícil sobreviver a vida a bordo sendo otimista, imagine com reclamações ao pé do ouvido o tempo todo. E é fato que ao começar com reclamações, não damos um mês até a pessoa pedir o sign off. A bordo, se você quiser sobreviver, tem que tratar a vida com muito bom humor, quase como uma piada. Você tem que desfrutar e tentar sugar o máximo de “lados positivos” que conseguir, senão… A síndrome te pega!

Vida a bordo: Parte 1

Primeiro você faz um currículo em inglês. Não, não. Primeiro você decide ao som do Clash se fica ou vai. Não, não, primeiro você nasce free spirited.

Depois você contacta uma agência de recrutamento, decide largar sua vida bunda mole e faz um troço chamado STCW. STCW é um curso de sobrevivência no mar, obrigatório para quem é louco o suficiente pra embarcar em tudo que estou prestes a contar.

Essa é uma história de bordo. Sem ser Lucas Silva e Silva.
Essa é a história de como se sobrevive a oito meses como cleaner (ou limpadeira em tradução livre) dentro de um navio de cruzeiros da Costa. É um guia, ou um diário. Com informações bobas, mas relevantes de tudo que se passa naquele barco.

Mas antes, dá uma olhada nesse dicionário. Você vai precisar.

Termos:
On duty: Trabalhando / em horário de trabalho
Locker: Armário
Sign Off: Pedir demissão
Warning: Advertência
Crew Party: Festa para os tripulantes
Crew Area: Área reservada só para tripulantes / onde ficam nossos elevadores
Crew Mess: Refeitório da tripulação
Crew Pass: Cartão onde pagamos as coisas, saímos do navio, etc.
Linen: Roupa de cama
Mop: Esfregão
Meeting: Reunião antes do trabalho
Cleaner: Fraxineiro
Estação: Local do seu trabalho, a área pela qual você é responsável
Guest: Passageiro
Helper: Serviço que os cleaners fazem limpando banheiros das cabines. Ganha-se extra pra fazer isso.
Cabin mate: pessoa que mora com você.

O idioma de bordo
Mamagaio
Definição.: Fazer qualquer coisa no seu horário de trabalho que não seja trabalhar.
Exemplo: “Fulano está de mamagaio no banheiro. Qual o telefone do chefe dele?”
Saboneta
Def.: Fazer seu trabalho de qualquer jeito só pra terminar mais rápido ou por preguiça.
Ex: “Hoje tô sem tempo, vou fazer uma saboneta básica e sair mais cedo”
Properly
Def.: O contrário da saboneta.
Ex: “Faça isso properly!”

Properly!

Taca taca
Def.: Conversinha
Ex.: “Se meu chefe me pega de taca taca aqui com você ele vai falar um monte”
Casino
Def.: Bagunça
Ex: “Quem fez esse casino aqui?”
Basura
Def.: Uma pessoa péssima e sem profissionalismo, ruim de se trabalhar com ela. Literalmente “lixo” em espanhol. Ou algo que esta em péssimas condições.
Ex: “Esse seu chefe é muito basura hein!”
Brata
Def.: Quando tem muito trabalho.
Ex: “Estava em Brata por isso não te liguei!”
Bomboclá
Def.: Pessoa idiota/estupida
Ex: “Sai daqui, seu bomboclá!”
Babaloo
Def.: A mesma acima
Ex: “Porque você fez isso, Babaloo?”
No Interess!
Def.: É o “Foda-se” de bordo
Ex: “- Se algum oficial te pega aqui você toma um warning!
– No Interess!”
(OBS: Esta expressão vem acompanhada de um gesto que é constituído de mão direita saindo do pescoço pro queixo)
No Respect!
Def.: Quando alguém não te respeita
Ex: (Você entra no elevador lotado e alguém passa a mão na sua bunda) “No Respect!”
Put Inside
Def.: Sexo
Ex: “Vamos fazer um put inside?”
Possíble?
Def.: Pedir licença, pedir para alguém fazer algo, pedir algo.
Ex: (Você comendo aquela gororoba do Crew Mess e alguém chega com uma pizza linda e suculenta) “Possible?”
Paisano
Def.: Pessoa da mesma nacionalidade
Ex: “Esse seu paisano é um filho da puta!”
Comarôz
Def.: Muito / Em grande quantidade
Ex: (Alguem do Room Service passando com uma bandeja de salgadinhos, vc pede um) “Pode pegar, tem comarôz!”
Sapo
Def.: Dedurar, entregar
Ex: “Esse cara vive fazendo sapo. Não pode ver ninguém parado!”
Caput
Def.: Estar acabado, cansado, ou quando algo “ja era”
Ex: “- Cade seu chefe?
– Ontem teve festa, acho que caput!”

Agora sim, enjoy!

Um dia de cleaner a bordo

Você começa seu trabalho a meia noite, certo? E quando você começa a trabalhar você sabe que só vai acabar ao meio dia. Nesse período você vai passar aspirador de pó no chão, paredes, enfeites, sofás, teto, etc. Você vai passar mop num chão que tem a combinação cerveja + vinho + chocolate + confete. Você vai tirar pó até de dentro das luminárias que ficam atrás do sofá (escondidas). Você vai carregar 150 cadeiras de sol e enrolar 150 toalhas em meia hora. Pra fazer tudo isso você vai ter que andar quilômetros por dia de uma ponta a outra do navio inúmeras vezes procurando material de limpeza. Pra tudo ficar perfeito, seu chefe (SEMPRE!) vai ser um filho da puta que, ao invés que facilitar seu trabalho, como sua função, acaba por transformar o seu dia num inferno com mil tarefas inúteis sempre te tratando como um idiota que não sabe o que está fazendo. Em algum ponto dessas 12 horas, você vai ter que atender à um treinamento de sobrevivência para o caso de alguma merda acontecer e você tiver que apagar um incêndio, socorrer alguém enfermo, ou até mesmo, se foder tudo e todo mundo tiver que abandonar o navio. A pessoa que vai te passar esse treinamento vai ser um italiano. Você não vai entender o inglês dele, e quando ele fizer alguma pergunta muito obvia pra alguém, você vai ver esse alguém não saber responder e então você vai perder mais meia hora ouvindo toda a explicação de novo. O nome disso é boat drill e todos eles são inúteis com exceção do primeiro (onde, basicamente, você já aprende tudo e só esquece se for muito burro). Apesar de tudo isso, você vai achar algum tempo para o famoso mamagaio. Você vai dormir na sua cabine, ficar subindo e descendo no elevador, se trancar em algum banheiro jogando cobrinha no celular. Se estiver sozinho vai dormir, se estiver com alguém vai bater um papo, jogar dominó… Você também vai, com certeza, encontrar tempo para se relacionar com algum mafioso. Um vinho aqui, uma pizza lá (Não importa o que digam, as melhores máfias são as máfias com os caras da cozinha). Se você tiver um namorado, com certeza vai achar um locker de linen ou um banheiro de deficiente pra vocês ficarem se pegando lá dentro. Você também vai poder lavar suas roupas em horário de trabalho, ler um livro, escrever um livro (Inclusive esse texto foi todo escrito on duty). Você também poderá fazer a unha, chapinha, sobrancelha, depilação. Se sobrar um tempinho, você vai ver o espetáculo no teatro, sentar naquele lugar escondido la atrás e de repente até botar os pés na cadeira da frente. Se você tiver um pager ou um telefone, você vai ficar ligando pros seus amigos e batendo papo quando ninguém estiver vendo. Se não deu tempo de tomar um banho antes de ir trabalhar (porque você acordou literalmente 2 minutos antes do seu horário), você vai fingir que vai pegar um trapo na lavanderia e vai pra sua cabine tomar aquele banho de meia hora (Os chuveiros são ótimos, pelo menos). Depois disso vai pegar seu balde, ajoelhar e limpar os pés das cadeiras. Seu chefe vai passar e falar “ótimo, você sim é um funcionário exemplar!” Aprendi a bordo que “não importa o que você faz, e sim o que o seu chefe te vê fazendo!”.

A gente, trabalhando horrores
Nós, trabalhando bagarai.

Os Padres
Um padre, na teoria, deveria ser a imagem de deus. Da onde eu venho, os padres não podem se relacionar romanticamente com ninguém, não bebem e nem fumam. Ao chegar no navio, toda essa baboseira vai pro lixo. O papel do padre a bordo é garantir o entretenimento dos crew members. É ele que organiza as festas, comemorações, competições de pebolim, jammings, excursões, etc. Você pensou “Um padre organizando festas, ta! Deve ser um lixo!” A questão é que se fossem padres comuns, como aqueles da sua paróquia que estão la desde o seu batizado quando criança, poderíamos pensar assim. Os padres a bordo são sempre da pá virada! Enquanto estive a bordo tivemos 2 padres. O primeiro era um bem gordo, que vivia com a camisa desabotoada e sempre, sempre estava no bar, bêbado. O segundo era um cara meio esnobe, com cara de psicopata. Se você fosse mulher jamais conseguiria nada. Homens, sintam-se privilegiados por ter um padre gay que pegou no mínimo 10 amigos meus enquanto estive a bordo! Sim, eles são padres de verdade, celebram a missa todos os dias e o coroinha é um dos animadores. Muito bonito!

Os Chefes
A coisa mais difícil na vida (a bordo) é você ter um chefe legal. Quando eu embarquei meu chefe era um filho da puta. Ponto. Ele fazia brincadeirinhas idiotas o tempo todo e era um grosso. Vivia chamando os seus funcionários de inúteis e estúpidos. Nos meetings, as vezes, ele fazia uma piada muito sem graça e, as vezes, dava um pití enorme. Eu odiava ele. Muito. Pra mim, todos aqueles desastres, tsunamis e furacões que aconteciam na Indonésia eram culpa dele. No começo eu até respeitava ele, mas quando vi que ele era um sacana comecei a relaxar. Eu ia, sim, dormir mais de uma hora na minha cabine, ia comer depois que começava o expediente e ficava de taca taca nos lockers da vida na maior cara de pau. Se ele aparecia eu não tava nem aí. A gente brigava praticamente todo dia. Até que, depois de 4 meses aguentando aquele pau no cu, nós tivemos uma briga mais feia e ele me mudou de horário. Acontece que eu estava num ponto que, ouvir a voz dele me deixava furiosa. Uma hora ele fez uma daquelas piadinhas que só tem graça no país dele e eu falei “Tem como você não falar comigo se não for relacionado ao trabalho? Obrigada!” Ele ficou putasso, me xingou de mil coisas e me disse um “Eu não quero mais você no meu turno, amanhã nem venha trabalhar!” Também, ele já estava cansado de ouvir “seu estúpido, eu te odeio, morra!” de mim todos os dias. Eu olhei pra ele e disse “Com muito prazer, espero nunca mais ver essa sua cara feia!” Bati a porta e saí, diva!

Os Cruzeiros Temáticos
Um cruzeiro normal tem 7 dias e é repetido durante toda a temporada. Quando cheguei, estávamos com um itinerário interessante que incluía Veneza, Bari, Katakolon, Ismir, Istambul e Dubrovinik. Esse itinerário durou uns 8 meses e depois fizemos a travessia pro Brasil. Na Europa nunca fazem cruzeiros temáticos, já no Brasil… Nosso itinerário durante a temporada brasileira era assim: Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Ilheus, Ilhabela. No meio disso, dois dias de navegação. E aí, os cruzeiros temáticos. Ah, os cruzeiros temáticos. Cruzeiro temático é aquele que sai dessa rotina, ou muda o itinerário ou muda o público. Alguma coisa muda! E quando digo que muda, quero dizer que a gente se fode. Na temporada brasileira, eu me fudi (muito) no cruzeiro de Natal, de Reveillon, Cruzeiros de fitness e dança e até um cruzeiro do Roberto Carlos, com velhinhos adoráveis. Mas nada (NADA!) se compara ao Cruzeiro de Carnaval. Esse é o cruzeiro mais famoso (para os passageiros) e mais temido (pelos tripulantes) da Costa. É nesse cruzeiro que embarcam os passageiros mais loucos do Brasil. Só pra citar uma peculiaridade, na primeira noite chegamos ao meeting para começar a trabalhar e o telefone do meu chefe tocou. Ele colocou no viva voz. A recepcionista “Eka (Sim, o nome dele era Eka!), por favor, precisamos de um cleaner no deck 3 proa. Aparentemente tem um passageiro pelado, correndo, todo ensanguentado e sujando todo o carpete, precisamos limpar urgente. Aliás, as enfermeiras já estão lá, juntamente com os seguranças tentando levar o passageiro para a enfermaria.” Era a primeira noite, porra! Enfim, quando saí do meeting a caminho da minha estação, dois seguranças me abordaram “Você não pode andar sozinha pelo navio a noite neste cruzeiro, orientações do capitão!” Não saia da minha cabeça o pensamento de que eu ia ser estuprada naquela semana. Enfim, vi 3 casais fazendo sexo nos lounges pra quem quisesse ver, tive que limpar um banheiro feminino pós festa (Meninas, como somos nojentas, por deus!). Cerveja com confete são coisas que não combinam, também aprendi isso. Uns caras jogaram uma cadeira de sol no mar. Outros jogaram sabão em pó na jacuzzi (Sacanagem demais isso, hein seus putos!). Confiscaram 3 trolleys de garrafas de bebidas. Todos os dias tinham mil tripulantes bêbados, trabalhando. Inclusive eu um dia também, fiquei de saco cheio e fui chapada trabalhar. Faz parte.

O Boungiorno Smile
Existe algo considerado importantíssimo a bordo que todos nós aprendemos antes mesmo de embarcar. Boungiorno Smile é a coisa mais fake que eu já vi. Isso significa que apesar de você estar cansado, com fome, dor nas costas, puto com seu chefe, com sono, com saudades de casa, de ressaca, em depressão, doente, menstruada, etc., você deve sorrir. Sorrir pro passageiro filho da puta que não é capaz de te responder um simples bom dia, nem de sorrir de volta. Sua vontade é de mandar esse desgraçado (que passou do seu lado, esbarrou em você e não falou nem um oi) ir à merda. Mas você não pode, só pode sorrir!

O Boat Drill
A definição é: treinamento sobre sobrevivência em caso de emergências. Pode ser um incêndio, vazamento, guest ou tripulante passando mal, pessoas deficientes que precisam de ajuda, e até pro caso de ser necessário abandonar o navio. Claro, é muito importante! Quando a gente chega, temos uma porrada de treinamentos a semana toda, acho primordial isso. O problema começa quando você não aguenta mais escutar a mesma informação sempre. Se você perde um desses treinamentos, leva um Warning, se leva 4 warnings por isso, é demitido (eu levei 3 por causa dessa merda, só pra constar). Aí você ta louco pra sair em Barcelona e bem no seu horário de folga tem o que?? BOAT DRILL, QUERIDA! Nem preciso dizer que todo mundo odeia isso a bordo!

O At Sea e seus desastres
At sea é como chamamos o dia que não paramos em nenhum porto, ou seja, ficamos em navegação o dia todo. Nesse dia, obvio, nenhum passageiro sai do navio, ou seja: CÁOS! Porque? Porque quem cuida da limpeza sabe que a principal missão dos passageiros é fazer da nossa vida um inferno. Geralmente quando estamos no dia de navegação o navio balança mais, porque tem mais chances de pegar um tempo ruim enquanto em movimento. Isso resulta num enorme e desastroso festival de vomito! Em todo lugar, em todo canto, nos banheiros principalmente. Agora, adivinha o que eu limpava no navio: Os banheiros. Ah os banheiros! Teve um dia em que vi 3 pessoas vomitando na minha frente e tive que esperar elas acabarem pra eu poder limpar. Meu estomago já se transformou em ferro, nada mais nesse mundo me da nojo!